Na Venezuela, a última chance do dólar? Artigo de Michael Hudson

Foto: Alexander Grey/ Unsplash

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01 Setembro 2026

Ao sequestrar petróleo do país, Trump executa plano vital para manter o hegemon de Washington e sua moeda. Qual é ele? Como os EUA zombam do direito internacional, em favor do projeto. Por que a resistência do Irã frustra seus planos.

Em 3 de janeiro, os EUA invadiram militarmente a Venezuela e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro. Este ato bárbaro de violação do direito internacional foi complementado, na última sexta-feira (26/8), pelo anúncio de um acordo de rapina. O presidente Donald Trump anunciou que Washington controlará a maior parte da riqueza petrolífera da Venezuela, constituída pelas reservas da Bacia do Orinoco e do Lago Maracaibo. Ao seu estilo, afirmou tratar-se do “maior acordo petroleiro da história”. Suas palavras foram confirmadas pela presidente do país sulamericano, a dócil Delcy Rodriguez, que expressou “a mais profunda gratidão” ao ocupante da Casa Branca.

O acordo ainda não foi firmado, mas o que veio a público é de natureza claramente colonial. A exploração do petróleo das duas regiões será feito por uma entidade com dois controladores. O Departamento de Estado dos EUA terá 55% das ações. As demais serão entregues a uma empresa privada com nome inglês (Nabep, North American Blue Energy Partners) e sede no paraíso fiscal de Barbados. Os dois sócios poderão contratar terceiras companhias para realizar os trabalhos de exploração e extração. O governo norte-americano garantirá seus investimentos. O acordo terá duração extensíssima: 50 anos, prorrogáveis por mais 50. À Venezuela, que não terá autonomia alguma sobre o processo, caberá, segundo Delcy Rodriguez, 29% dos recursos arrecadados com a venda.

No texto a seguir, o economista Michael Hudson, um grande estudioso do capitalismo tardio, expõem o processo que pode estar por trás do acordo. Os EUA precisam desesperadamente sequestrar petróleo alheio, diz ele, para tentar manter a hegemonia internacional do dólar – fonte importante de sua riqueza. Esta dominância consolidou-se, em grande medida, a partir dos acordos feitos nos anos 1970. Washington aceitou a alta expressiva dos preços do petróleo, alcançada pela OPEP. Em contrapartida, assegurou que as vendas do combustível seriam sempre feitas em dólares, o que dava sustentação internacional permanente a sua moeda.

Estes acordos, prossegue Hudson, sofreram forte erosão nos últimos anos. Ao tentarem impor a força do dólar como arma de guerra – impondo sanções ao Irã e congelando depósitos de centenas de bilhões de dólares de Moscou e TeerãWashingon levou estes países a buscarem alternativas. A China, por exemplo, passou a comprar petróleo iraniano pago em yuanes. Como o poder e prestígio político e a força econômica dos EUA já são decadente há décadas, este enfraquecimento da moeda do país poderia acelerar de forma imprevisível o movimento.

A captura do petróleo venezuelano é uma das tentativas de conter este processo, aponta o economista. Ela esbarrou, porém, na resistência do Irã. O ataque a Caracas foi seguido pela guerra dos EUA e Israel contra o país. Em determinado momento, o secretário do Tesouro dos EUA, Scotte Bessant, chegou a “anunciar” um futuro arranjo com o petróleo iraniano semelhante ao imposto agora a Caracas. Os planos foram frustrados pela surpreendente capacidade demonstrada por Teerã, até o momento, de conter o agressor e impor-lhe uma derrota humilhante e possivelmente catastrófica.

Quais poderão ser as consequências? Se o fracasso dos EUA se ampliar, prevê Hudson, será possível pensar em mudanças de enorme importância na ordem política e econômica internacional. A dominância internacional do dólar poderá ser substituída por arranjos e instrumentos financeiros internacionais do tipo proposto por Keynes na Conferência de Bretton Woods – baseados no multilateralismo. Ao mesmo tempo, imagina Hudson, será preciso contestar a “insistência dos Estados Unidos em ter permissão para agir como ‘nação excepcional’, não sujeita às regras do direito internacional”…

Muito otimismo? Talvez, mas até há poucos meses uma derrota militar de Washington frente ao Irã parecia inconcebível. A análise do economista sobre os mecanismos de dominação que agora estão em xeque é essencial. Fique com ela, a seguir. Para facilitar a leitura e compreensão, trechos não essenciais foram suprimidos da tradução para o português. A versão original, na íntegra, pode ser acessada aqui. (A.M.)

O artigo é de Michael Hudson, publicado por Outras Palavras, 31-08-2026. A tradução é de Antonio Martins.

Michael Hudson é presidente do Instituto para Estudo das Tendências Econômicas de Longo Prazo (ISLET). Professor de Economia na Universidade do Missouri. Autor de "J is for Junk Economics" (2017), "Killing the Host" (2015), "The Bubble and Beyond" (2012), "Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003)", entre outros. Conselheiro econômico de governos e agências econômicas na Islândia, Letônia e China.

Eis o artigo.

As autoridades americanas são notavelmente francas ao descrever sua estratégia para manter o poder imperial dos EUA. “O domínio do dólar é essencial”, afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em uma entrevista na televisão em 24 de junho de 2026. O motivo pelo qual os Estados Unidos impuseram sanções comerciais e financeiras à Venezuela, explicou ele, foi porque o país estava “vendendo petróleo com desconto para a China e não recebendo dólares”. Um país que não precificava o petróleo em dólares e não investia os lucros em contas em dólares representava uma ameaça à capacidade dos EUA de manter o papel central do dólar no sistema financeiro mundial, a principal fonte da riqueza americana.

As guerras dos EUA contra a Venezuela, a Rússia e o Irã visam forçá-los a precificar suas exportações de petróleo em dólares e, igualmente importante, investir os lucros nos mercados financeiros dos EUA ou usá-los para comprar produtos americanos. Desde a invasão e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos EUA em 3 de janeiro, Bessent destacou: “A nova Venezuela está faturando em dólares, que estão retornando ao sistema do dólar. … E agora, o dólar será a peça central de seu comércio.” Trump se vangloriou em uma postagem no Truth Social em 7 de janeiro de que “a Venezuela comprará SOMENTE produtos fabricados nos EUA com o dinheiro que receber de nosso novo acordo petrolífero. Essas compras incluirão, entre outras coisas, produtos agrícolas americanos e medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos fabricados nos EUA para melhorar a rede elétrica e as instalações de energia da Venezuela. Em outras palavras, a Venezuela está se comprometendo a fazer negócios com os Estados Unidos da América como seu principal parceiro.”

No mesmo dia, o presidente Trump afirmou ter debitado, da conta do Tesouro onde a receita das exportações de petróleo da Venezuela era depositada, o valor correspondente às reparações para reembolsar os Estados Unidos pelos custos militares envolvidos no sequestro de Maduro e na supervisão da mudança de regime. Na verdade, ele se vangloriou de ter recuperado esses custos “28 vezes”, “ganhando muito dinheiro” nos “48 minutos para vencer aquela guerra”. Uma reportagem do Financial Times calculou que, com base em padrões históricos de preços, o valor do petróleo que a Venezuela “exportou desde janeiro… ultrapassa US$ 13 bilhões”, mas o site do governo venezuelano “para rastrear a receita das vendas de petróleo administradas pelos EUA… registra apenas uma entrada – uma transferência de US$ 300 milhões em março”. Isso representa apenas 2,5% das exportações venezuelanas retidas pelos ocupantes norte-americanos desde a mudança de regime.

Os termos impostos à Venezuela servem de modelo para os planos dos EUA em relação ao Irã, anunciou Bessant em sua entrevista. “Estamos vendo nas negociações com o Irã que os iranianos emitirão faturas em dólares.” Uma semana antes, em 17 de junho, o presidente Trump havia assinado um Memorando de Entendimento com o Irã, prometendo que os Estados Unidos começariam a devolver parte dos mais de US$ 100 bilhões em economias que os Estados Unidos e seus aliados haviam confiscado. (Um pagamento de US$ 12 bilhões foi amplamente citado.) Mas, valendo-se da tática de “isca e troca” dos EUA, Bessant explicou que qualquer devolução de fundos estaria sujeita à supervisão dos EUA. Seu Departamento do Tesouro teria “pessoas em Doha supervisionando como o dinheiro é alocado, e uma porcentagem muito grande dele será destinada à compra de alimentos e medicamentos americanos. Então, estaremos reciclando o dinheiro em produtos americanos, mas isso será supervisionado pelo Tesouro.” Essa condicionalidade se sobrepõe à liberdade de escolha do Irã.

Bessant chegou a prever que “quando o conflito Rússia-Ucrânia terminar, a Rússia desejará retornar ao sistema do dólar”, apesar de ter sofrido o confisco, pela União Europeia, de US$ 300 bilhões em depósitos no sistema de compensação do Eurobanco. Os fatores decisivos seriam o poderio militar e as sanções comerciais dos EUA, forçando o Irã e a Rússia a capitular a termos de rendição semelhantes aos da Venezuela. “Acho que não devemos hesitar em usar nossas vantagens onde temos poder e compartilhá-las com nossos aliados, resistindo àqueles que não estão alinhados conosco.”

A Venezuela não teve escolha. Foi invadida e seu presidente foi preso em confinamento solitário nos Estados Unidos. Sua produção de petróleo foi confiscada e suas receitas, apreendidas. Uma ficha informativa do Departamento de Energia dos EUA detalhou os planos americanos para gastar os tributos que podem ser extraídos da Venezuela, presumivelmente um modelo que se espera impor ao Irã e à Rússia.

O governo dos Estados Unidos iniciou a comercialização de petróleo bruto venezuelano no mercado global em benefício dos Estados Unidos, da Venezuela e de seus aliados. …

  • “Toda a receita proveniente da venda de petróleo bruto e derivados venezuelanos será depositada primeiramente em contas controladas pelos EUA em bancos reconhecidos internacionalmente…

  • “Esses fundos serão distribuídos em benefício do povo americano e do povo venezuelano, a critério do governo dos EUA.

  • “O único petróleo transportado para dentro e para fora da Venezuela será por meio de canais legítimos e autorizados, em conformidade com a legislação e a segurança nacional dos EUA”.

Essas diretrizes políticas predatórias servem de alerta para o resto do mundo sobre a necessidade de agir em conjunto para proteção mútua contra a coerção dos EUA.

Bessant, como de costume, fez um discurso vazio ao afirmar que a amplitude e a liquidez dos mercados de capitais dos EUA levariam outros países a querer permanecer no sistema financeiro baseado no dólar. Mas não é por isso que a Venezuela está usando o dólar agora, e é improvável que o Irã ou a Rússia estejam dispostos a correr o risco de usá-lo novamente.

Guerra para derrotar o Irã e confiscar suas receitas petrolíferas

Consolidar o controle sobre os países da OPEP e integrá-los à sua própria economia é um objetivo antigo dos EUA. Quando a guerra de 1973 entre Egito e Israel levou a Arábia Saudita e outros países da OPEP a impor um embargo de petróleo contra os Estados Unidos e outros apoiadores de Israel, o presidente Richard Nixon “considerou seriamente o uso da força militar para tomar campos de petróleo no Oriente Médio durante o embargo de petróleo árabe… caso as tensões entre Israel e seus vizinhos árabes continuassem a aumentar após a guerra do Oriente Médio de outubro de 1973 ou o embargo de petróleo não diminuísse”.

(…)

Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram uma segunda onda de ataques que se transformou em uma campanha de 40 dias, cujo primeiro objetivo era forçar uma mudança de regime no Irã. Ataques aéreos israelenses assassinaram o Líder Supremo Ali Khamenei e outros altos funcionários iranianos. Um ataque repetido dos EUA matou 120 crianças e outros 36 civis na escola de Minab, e o bombardeio do ginásio esportivo de Lamerd, no sul do Irã, matou membros de um time feminino de vôlei. Ignorando ou desconhecendo a experiência de populações que se uniram para apoiar seus líderes diante de bombardeios contra civis, como os realizados pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos contra Hamburgo e Dresden durante a Segunda Guerra Mundial e os bombardeios alemães contra Londres, os EUA evidentemente esperavam levar a população iraniana ao desespero a ponto de fazê-la interromper os bombardeios contra seus civis, instalando um governo pró-EUA.

(…)

O Irã devastou então bases militares americanas em toda a região e atacou Haifa e outros locais israelenses. Instalações de produção de petróleo, refinarias, depósitos de combustível, portos e investimentos privados americanos foram atingidos, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, que foram os principais apoiadores dos ataques americanos. Em 1º de março, o Irã bombardeou os centros de dados em nuvem da Amazon Web Services no Bahrein e em Abu Dhabi (o maior emirado dos Emirados Árabes Unidos), e um centro da Oracle em Dubai. Em 2 de março e novamente em 18 e 19 de março, destruiu as instalações de produção de GNL do Catar, que representavam um terço do comércio mundial de hélio.

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A situação se agravou ainda mais em 27 de março, quando o Irã lançou mísseis e drones contra Israel e também atingiu a grande Base Aérea Príncipe Sultan, dos EUA, na Arábia Saudita, ferindo pelo menos 17 militares americanos. Os militares dos EUA e de Israel bombardearam diversos alvos no Irã, com foco em suas instalações nucleares. Isso levou o Irã a anunciar, em 31 de março, que iria “atacar empresas americanas, incluindo Microsoft, Google, Apple, Meta, Oracle, Intel, HP, IBM, Cisco, Dell, Palantir e Nvidia”. E quando a Guerra do Petróleo se intensificou, o Irã destruiu os data centers restantes da Amazon no Bahrein, em 21 e 24 de julho.

As retaliações quase diárias do Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz paralisaram as exportações de petróleo da região, ameaçando criar uma crise mundial ao interromper cerca de 20% do comércio global de petróleo.

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Em maio, a Arábia Saudita suspendeu por cinco dias a autorização militar dos EUA para operar a partir da Base Aérea Príncipe Sultan, impediu o voo de todos os 43 aviões de guerra americanos ali estacionados e fechou o espaço aéreo nacional saudita à Operação Projeto Liberdade poucas horas depois de o presidente Trump anunciar a operação nas redes sociais em 3 de maio de 2026. (…) O ataque iraniano de 27 de março à Base Aérea Príncipe Sultan demonstrou que sediar operações de combate americanas transformava o território saudita em um alvo, cujas defesas americanas eram ineficazes contra os mísseis iranianos.

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A guerra chegou ao auge em 11 de junho. O Irã retaliou contra os ataques aéreos dos EUA e o bloqueio às suas exportações de petróleo, reforçando o fechamento do Estreito de Ormuz e lançando ataques com drones contra o Bahrein e outros emirados do Golfo, para demonstrar que, ao contrário da promessa dos EUA de que suas bases militares protegeriam os países árabes anfitriões de ataques, essas bases os haviam transformado em alvos. Os Emirados Árabes Unidos, que adotaram a posição anti-Irã mais ferrenha e atrelaram sua economia mais estreitamente à dos EUA, sofreram os maiores danos.

(…)

Um corte no fornecimento de petróleo ao Irã poderia ser compensado por alguns meses com a liberação de petróleo da Reserva Nacional de Petróleo, mas se o comércio com o Golfo Pérsico não fosse retomado em breve, haveria uma crise de abastecimento. Apesar de os Estados Unidos serem um exportador líquido de petróleo, precisam importar quantidades substanciais de petróleo bruto do exterior, especialmente o petróleo pesado ou “ácido” (com teor de enxofre entre 0,5% e 2%), obtido principalmente da Arábia Saudita. Os campos de petróleo americanos produzem principalmente petróleo “doce” com baixo teor de enxofre, mas as refinarias americanas necessitam desse petróleo estrangeiro mais pesado para produzir diesel para caminhões e navios, e querosene para aeronaves. Companhias aéreas do mundo todo estavam reduzindo seus voos e aumentando os preços das passagens para refletir o aumento dos custos de combustível. E o transporte rodoviário doméstico, que depende de diesel, corria o risco de ser interrompido, causando paralisações na produção e interrupções no trabalho.

(…)

O plano de Trump era que os militares dos EUA derrotassem o Irã e forçassem a reabertura do Estreito em troca da promessa das monarquias árabes de investir ou gastar centenas de bilhões de dólares de suas receitas de exportação nos Estados Unidos. Suas manobras de negociação confirmaram que ele nunca teve a intenção de permitir que o Irã implementasse procedimentos para administrar o comércio através do Estreito de Ormuz que serviriam de base para o Irã cobrar pedágios ou quaisquer outras taxas que Trump almejava – e que ele nunca teve a intenção de ajudar a negociar com os países árabes da OPEP a devolução dos US$ 100 bilhões em economias iranianas que haviam sido confiscadas. Os combates recomeçaram em 18 de julho e, à medida que se intensificavam em 24 de julho, Trump anunciou em uma postagem no Truth Social às 5h da manhã que “até segunda ordem, a partir deste momento, todos e quaisquer danos causados a navios, cargas ou qualquer coisa relacionada a eles serão pagos com dinheiro iraniano que os Estados Unidos possuem e controlam”. E, claro, não haveria nenhum investimento de 300 bilhões de dólares na reconstrução da economia de um Irã que não estivesse sob controle dos EUA.

O sonho de Trump era repetir no Irã a vitória que alegava ter alcançado na Venezuela. Ele instalaria um regime fantoche que pagaria aos Estados Unidos uma compensação pelos custos de seu armamento militar e esforços relacionados ao ataque americano. O Irã concluiu que o memorando de entendimento não passava de uma farsa, permitindo que Trump ganhasse tempo para reorganizar seus planos militares e fortalecer suas alianças com os governantes sunitas. Em 19 de julho, o país suspendeu formalmente o memorando de entendimento em decorrência das violações de seus termos pelos Estados Unidos.

A escolha dos países da OPEP: aliar-se aos Estados Unidos ou ao Irã

A alternativa do Irã à hegemonia dos EUA vai muito além de expulsar as bases militares americanas da região. Essas bases já foram destruídas e sua função foi transferida para o Oceano Índico e a Itália. O relacionamento que o Irã considera necessário encerrar é a dependência dos produtores de petróleo árabes dos mercados financeiros e parcerias comerciais dos EUA. Essa simbiose econômica os mantém atrelados aos Estados Unidos e às suas diretrizes políticas, que remontam aos acordos do “petrodólar” de 1974, que previam o reinvestimento das receitas de exportação de petróleo nos mercados de ações e títulos dos EUA e a compra de armamentos americanos.

Essa reciclagem já desacelerou nos últimos anos, à medida que os países da OPEP embarcaram em enormes investimentos de capital para criar imóveis de luxo e projetos relacionados em seus territórios. Os Emirados Árabes Unidos criaram uma companhia aérea global e se tornaram um importante centro de aviação internacional, além de um centro esportivo para eventos internacionais. E a demanda por eletricidade para alimentar seus data centers, impulsionada pela revolução da IA, levou o Bahrein e outros países do Golfo Pérsico a sediar centros de IA para empresas como Amazon, Google, Meta, Microsoft e outras empresas de tecnologia da informação americanas que transferiram suas operações para locais onde a energia é mais facilmente disponível do que nos Estados Unidos.

Trump buscou intensificar esses laços de investimento mútuo, condicionando o apoio das monarquias do Golfo Pérsico à sua guerra contra o Irã, oferecendo tecnologia americana de ponta em chips de computador para os Emirados Árabes Unidos e reatores nucleares e refino de urânio para a Arábia Saudita. Em troca da promessa dos Emirados de investir US$ 1,4 trilhão nos Estados Unidos, ele removeu “limites para grandes empresas americanas, incluindo Microsoft e OpenAI, que planejavam instalar data centers no país. … O maior acesso a chips poderia valer bilhões de dólares” para “cobiçados chips de inteligência artificial, após auxiliar os Estados Unidos nos últimos meses realizando dezenas de ataques aéreos contra o Irã”. Ciente de que os corações e os laços políticos dos países tendem a seguir onde está o dinheiro, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã anunciou: “Vamos arrasar os ativos mais valiosos de empresas americanas em todos os países que abrigam bases americanas”.

As negociações de Trump para garantir uma aliança mais estreita com a Arábia Saudita se intensificaram em 22 de julho, quando o Departamento de Energia dos EUA aprovou um investimento conjunto dos EUA com o país para construir seu próprio reator nuclear e refinar seu próprio urânio – exatamente o que Trump insistia que o Irã não poderia fazer, alegando que qualquer enriquecimento é inerentemente militar. No dia seguinte, ele tentou apaziguar os protestos israelenses, insistindo que a Arábia Saudita teria que aderir aos Acordos de Abraão, que reconhecem Israel. Mas a política oficial saudita insiste que nenhum acordo desse tipo pode ser assinado sem a criação de um Estado palestino. Isso, é claro, não é mais viável, dado o genocídio e a destruição de propriedades que ocorreram na Palestina ocupada.

Autoridades sauditas protestaram, alegando que tal condição não constava do contrato assinado entre os Ministérios da Energia de ambos os países. A propensão de Trump para renegociar contratos lembrou ao mundo o que tornou os Estados Unidos a “nação excepcional” do mundo: sua imunidade às normas internacionais de conduta relativas a acordos oficiais.

A resposta do Irã à tentativa de Trump de forçar seus vizinhos sunitas a formar uma aliança para apoio militar mútuo é romper seus laços com a economia dos EUA e sua política externa associada. O argumento iraniano de longo prazo é que a prosperidade desses países pode crescer de forma mais rápida e segura apoiando o princípio iraniano de livre comércio de petróleo e o direito soberano de investir os lucros onde quiserem.

Na Guerra do Petróleo, questão de vida ou morte para os Estados Unidos e o Irã

A Guerra do Petróleo de Trump é tão crucial para a hegemonia dos EUA quanto para a sobrevivência do Irã diante das ameaças de Trump de destruí-lo e impor um regime fantoche nos moldes do que ele alega ter alcançado em sua vitória sobre a Venezuela. Para os Estados Unidos, a Guerra do Petróleo contra o Irã – e contra a Rússia e a Venezuela – não foi uma guerra de escolha. Foi uma manobra desesperada para manter seu monopólio mundial do petróleo como um ponto de estrangulamento, na esperança de que isso lhe permitisse permanecer uma economia rentista global, obtendo do exterior a riqueza que não produz mais internamente.

Para atingir esse objetivo, os Estados Unidos tratam os países como inimigos se estes reivindicarem sua soberania e se recusarem a aderir às suas sanções contra países cujas políticas conflitem com a hegemonia americana, a instrumentalização do comércio mundial de petróleo e a dolarização de suas relações monetárias. A soberania de outros países é vista como uma ameaça à própria segurança econômica nacional dos Estados Unidos, à sua riqueza alavancada em ações e títulos e ao tributo financeiro que lhes permite impor poder militar e político coercitivo.

As ações agressivas dos EUA contra a Rússia, a China e o Irã por reivindicarem sua soberania uniram esses países e aceleraram seus esforços conjuntos para criar uma base alternativa para suas relações comerciais e monetárias. Esses esforços estão catalisando uma ruptura global que vem se formando há muito tempo, mas que somente agora atingiu a massa crítica necessária para que os países conquistem a independência do controle dos EUA.

A proteção econômica que a China, a Rússia e o Irã oferecem ao resto do mundo baseia-se em um sistema de pagamentos alternativo para evitar a dependência do dólar americano, que se tornou um gargalo, representando um risco de confisco de ativos, como o que a Rússia e o Irã sofreram. Os sistemas monetários e de poupança internacionais necessitam de uma filosofia financeira e operacional diferente daquela dos programas de austeridade do FMI e das políticas de privatização do Banco Mundial, criadas pela diplomacia estadunidense em 1945 sob seu próprio controle e a serviço de seu poder dominante como credor e exportador na época. O potencial para a criação de uma Nova Ordem Econômica Internacional (para usar a expressão popular na década de 1970), com seu apelo por um corpo multipolar de leis e organizações internacionais não sujeitas ao veto, obstrução e controle dos EUA, é o que torna a atual Guerra do Petróleo dos EUA contra o Irã, a Rússia e a Venezuela de alcance civilizacional.

A criação de um sistema alternativo que permita ganhos mútuos nas relações comerciais e financeiras, substituindo o atual sistema tributário extrativista dos EUA, onde só um ganha e o outro perde, representaria um desafio existencial à prosperidade americana. É por isso que a diplomacia dos EUA luta contra qualquer sistema alternativo desse tipo e por que, para o resto do mundo, a política imposta pelos EUA à Venezuela no início de 2026 ameaça ser imposta ao Irã, à Rússia e a outros países, caso não se unam para defender o princípio da soberania econômica nacional e organizem medidas de proteção política e militar para impedir a instrumentalização das relações internacionais pelos EUA.

O mundo já enfrenta a mais profunda depressão desde a década de 1930, como resultado da Guerra do Petróleo americana, que interrompeu o comércio global de petróleo, fertilizantes e produtos relacionados. Esse dano colateral é o preço a ser pago por não se ter agido antes contra o regime de sanções comerciais e financeiras patrocinadas pelos EUA, cujo objetivo é prejudicar os países que não aderem às suas relações exteriores cada vez mais predatórias.

As atuais regras internacionais e a administração global foram sequestradas pela intromissão estreita e nacionalista dos Estados Unidos e pela violação da soberania de outras nações. Visto que não existem mecanismos internacionais com poder para impor reparações aos Estados Unidos e seus aliados, a imposição de tarifas sobre o comércio de petróleo no Golfo Pérsico é a única maneira previsível de o Irã recuperar os danos – não diretamente dos Estados Unidos ou de seus aliados agressores, mas dos consumidores mundiais de petróleo.

Um dos grandes desafios é criar um poder de fiscalização contra aqueles que violam as normas da ONU. Somente tais meios de fiscalização podem garantir a verdadeira soberania nacional e regras para o livre comércio e investimento internacionais. A proteção da soberania nacional foi considerada um princípio orientador da civilização e do direito internacional desde a Paz de Vestfália de 1648 até a Carta das Nações Unidas. Esse princípio está sendo bloqueado pela insistência dos Estados Unidos em agir como “a nação excepcional”, não vinculada às normas do direito internacional. Sua exigência de poder de veto e suas manobras burocráticas secretas em qualquer organização internacional da qual participe têm impedido o funcionamento eficaz das Nações Unidas e de outras instituições globais. Uma reestruturação sistêmica dessas instituições, incluindo uma Corte Internacional de Justiça reconstituída, é, portanto, necessária para pôr fim à submissão ao que se tornou uma ameaça aos princípios da civilização.

Os principais requisitos de uma ordem internacional reformada incluiriam regras para proteger o comércio marítimo das tentativas dos EUA de criar gargalos, e regras intergovernamentais para alcançar o que Keynes buscava assegurar em suas propostas de 1944 como alternativa ao FMI, apoiado pelos planejadores estadunidenses. O que se faz necessário são regras e mecanismos para evitar a dependência da dívida e o empobrecimento por meio da imposição de privatizações e austeridade monetária antigovernamentais e antissindicais, como as atualmente impostas pelo FMI e pela política externa estadunidense correlata. O estágio inicial de tais mecanismos, sem dúvida, se baseará em uma combinação de swaps de ouro e moeda estrangeira, com um novo tipo de banco internacional criando seu próprio balanço eletrônico de créditos e obrigações entre países credores e devedores.

Um próximo texto analisará como as consequências da atual Guerra do Petróleo dos EUA e da depressão mundial que ela tornou inevitável provavelmente serão tão abrangentes quanto o fim das monarquias europeias após a Primeira Guerra Mundial e do colonialismo britânico e de outros países europeus após a Segunda Guerra Mundial, sem que as economias fossem libertadas da dívida financeira e da dependência comercial incentivadas pela ordem mundial apoiada pelos EUA naquela época.

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