29 Agosto 2026
A trajetória do diaconado confirma igualmente que não existe uma configuração única e permanente dos ministérios. Nos primeiros séculos, o diaconado conheceu significativa expansão, alcançando particular relevância entre os séculos IV e VI, escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em resenha do livro Ministério ordenado: ontem, hoje, amanhã, de Francisco Taborda, jesuíta, teólogo, professor emérito da FAJE, Belo Horizonte, MG.
Eis o artigo.
O livro Ministério ordenado: ontem, hoje, amanhã, de autoria do professor emérito Francisco Taborda, pode, à primeira vista, parecer pretensioso pelo alcance sugerido em seu título. Contudo, a formulação encontra respaldo no próprio percurso desenvolvido pela obra. O “ontem” remete à reconstrução histórico-teológica apresentada na primeira parte; o “hoje” ganha consistência na análise dos desafios do nosso tempo ao ministério ordenado; e o “amanhã” emerge das propostas que procuram responder às transformações da realidade e indicar possíveis caminhos para uma configuração renovada dos ministérios. Mais do que uma simples retrospectiva histórica, a obra estabelece uma relação crítica entre memória, realidade presente e futuro eclesial.
Originado a partir da boa acolhida de dois artigos publicados anteriormente na Revista Eclesiástica Brasileira (REB), o livro está estruturado em dois momentos. Na primeira parte, intitulada “O ministério ordenado: aspectos histórico-teológicos”, Taborda procura reconstruir a trajetória dos três ministérios ordenados, mostrando que suas configurações atuais não constituem uma realidade imutável nem podem ser simplesmente projetadas sobre os primeiros séculos do cristianismo. Essa perspectiva histórica é uma das contribuições mais relevantes da obra, pois desmonta a ideia de que bispo, presbítero e diácono tenham exercido, desde as origens, as mesmas funções, com o mesmo significado e dentro da mesma estrutura eclesial.
No caso do episcopado, o autor evidencia a passagem de uma forma mais coletiva de exercício da responsabilidade episcopal para o modelo do episcopado exercido por um único bispo. Posteriormente, na Idade Média, o episcopado foi progressivamente compreendido em termos de dignidade eclesiástica, perspectiva que seria criticamente revista pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), ao recuperar a dimensão sacramental e colegial do episcopado.
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A transformação do presbitério acompanha esse processo: com a consolidação do modelo monárquico do episcopado, o presbitério deixa de aparecer primordialmente como instância coletiva de responsabilidade e passa a funcionar como conselho do bispo. À medida que a Igreja cresce, os presbíteros assumem a presidência da Eucaristia por delegação episcopal, favorecendo uma crescente individualização do ministério.
Essa transformação histórica produz uma consequência teológica e pastoral significativa: o presbítero passa progressivamente a ocupar o centro da atuação eclesial, enquanto outras formas de participação e responsabilidade dos fiéis tendem a ficar em segundo plano. O presbiterado chega, assim, a ser compreendido como o ponto culminante do sacramento da Ordem, perspectiva reforçada pelo Concílio de Trento.
Ministério Ordenado de Francisco Taborda, livro de Francisco Taborda. Foto: Divulgação
O Vaticano II, entretanto, introduz uma correção decisiva ao recuperar a dimensão colegial do presbitério e sua relação constitutiva com o bispo e com a comunidade eclesial. A leitura de Taborda, nesse aspecto, possui importante alcance crítico: aquilo que muitas vezes é apresentado como “tradição” corresponde, em numerosos casos, a construções históricas específicas, que podem e devem ser revistas quando já não expressam adequadamente a natureza e a missão da Igreja.
A trajetória do diaconado confirma igualmente que não existe uma configuração única e permanente dos ministérios. Nos primeiros séculos, o diaconado conheceu significativa expansão, alcançando particular relevância entre os séculos IV e VI.
Posteriormente, porém, entrou em acentuado declínio na Igreja latina, até reduzir-se praticamente a uma etapa de acesso ao presbiterado. O Concílio Vaticano II recuperou o diaconado como ministério permanente, reabrindo a possibilidade de compreendê-lo para além de uma função meramente transitória. Essa recuperação constitui um dos exemplos mais claros de que a história dos ministérios é marcada por continuidades, rupturas, perdas e redescobertas.
É justamente essa constatação histórica que permite uma leitura mais crítica da segunda parte da obra, intitulada “Desafios atuais ao ministério ordenado na realidade do Brasil”. Aqui, Taborda desloca a reflexão do passado para as questões concretas que interpelam a Igreja católica brasileira. O autor elenca cinco desafios fundamentais, que, embora distintos, se articulam em torno de uma questão central: como repensar o ministério ordenado a partir da comunidade, da missão e da condição humana do ministro, superando modelos excessivamente centrados no poder, na distinção e na sacralização da função.
O primeiro desafio consiste em superar a ideia de que o ministro é o centro da Igreja. A comunidade de fé deve preceder a figura daqueles que a presidem. Essa afirmação possui implicações profundas, pois questiona uma estrutura eclesial na qual o ministro pode acabar sendo percebido como proprietário da comunidade, concentrando decisões, responsabilidades e reconhecimento. Sob esse enfoque, a dignidade fundamental não decorre da ordenação, mas do batismo. Recuperar essa verdade significa relativizar toda forma de privilégio eclesiástico e recolocar o ministério em sua condição própria: um serviço à comunidade e à missão, e não um mecanismo de distinção dentro dela.
Outro desafio está relacionado à linguagem sacerdotal aplicada aos ministros cristãos. Taborda chama a atenção para o fato de que o Novo Testamento não emprega originalmente a terminologia sacerdotal para designar os ministros da Igreja. A assimilação posterior de categorias sacerdotais exigiria uma análise histórica e teológica cuidadosa. Não se trata simplesmente de rejeitar a linguagem tradicional, mas de perguntar criticamente o que ela produziu na compreensão do ministério. Quando o presbítero é interpretado prioritariamente como “homem do sagrado”, corre-se o risco de reforçar uma separação entre clero e povo, entre sagrado e profano, que não corresponde plenamente à novidade cristã.
É precisamente nesse aspecto que a crítica à oposição entre sagrado e profano se torna particularmente significativa. Pela encarnação, a realidade humana não pode ser simplesmente dividida em espaços sagrados e espaços profanos. O ministério cristão não encontra sua razão de ser em retirar o ministro do mundo, mas em inseri-lo mais profundamente na realidade humana. O ministro não é alguém separado da condição comum dos demais cristãos, mas alguém chamado a servi-los e, com eles, a testemunhar o Evangelho no interior da história.
A reflexão de Taborda alcança uma questão decisiva: o ministério deve ser pensado a partir da missão da Igreja. Se a missão consiste em anunciar o Evangelho do Reino a todos, especialmente às periferias geográficas e existenciais, não é possível conceber o ministro apenas a partir de suas funções internas ou cultuais. A ordenação precisa ser compreendida em chave missionária. O ministro existe para a comunidade e para a missão, e não a comunidade e a missão para a manutenção de uma determinada estrutura ministerial. Essa inversão de perspectiva constitui uma das provocações mais fecundas da obra.
Por fim, merece destaque a proposta de humanizar a figura do ministro. Antes de ser identificado por sua função, o ministro é uma pessoa, um ser humano marcado por limites, fragilidades, desejos, relações e necessidades. Essa constatação, aparentemente simples, possui grande força crítica diante de modelos clericais que tendem a idealizar o ministro e, simultaneamente, a exigir dele uma espécie de perfeição funcional. Humanizar não significa diminuir a exigência do ministério, mas reconhecer que somente uma compreensão realista da condição humana pode favorecer relações pastorais amadurecidas, menos autoritárias e menos dependentes da imagem de um ministro idealizado.
Desta forma, o “amanhã” anunciado pelo título não deve ser entendido como mera previsão, mas como tarefa eclesial. O futuro do ministério ordenado dependerá da capacidade de reconhecer que sua configuração histórica não é definitiva. Se a Igreja já modificou profundamente a compreensão e o exercício do episcopado, do presbiterado e do diaconado ao longo dos séculos, não há fundamento histórico ou teológico suficiente para afirmar que as formas atuais constituam a única possibilidade legítima de organização ministerial.
A contribuição crítica de Taborda nesta obra está em vincular história e teologia. Conhecer a história dos ministérios impede sua absolutização; repensá-los teologicamente impede que qualquer mudança seja feita apenas por razões pragmáticas. O desafio consiste em discernir quais elementos pertencem à natureza do ministério e quais são configurações culturais e históricas que podem ser transformadas. É precisamente nesse espaço de discernimento que se abre a possibilidade de uma Igreja menos clerical, mais comunitária, mais sinodal e mais missionária.
A obra em questão não deve ser lida apenas como uma apresentação histórica dos ministérios ou como um diagnóstico dos problemas enfrentados pelo clero. Sua provocação mais profunda está em questionar a própria maneira como a Igreja compreende o poder, o serviço, a autoridade e a participação. Ao recuperar a historicidade das formas ministeriais, Taborda abre espaço para imaginar novas configurações sem romper com a tradição, mas justamente levando a sério sua dinâmica histórica.
O “amanhã” do ministério ordenado não consiste simplesmente em conservar o que existe nem em abandonar indiscriminadamente o passado, mas em discernir, à luz do Evangelho e da missão, quais formas ministeriais são capazes de responder com maior fidelidade aos desafios do presente.
A obra conserva atualidade particular: seu questionamento não se dirige apenas aos ministros ordenados, mas à própria estrutura eclesial que os forma, legitima e coloca em determinado lugar. O verdadeiro desafio não é apenas formar melhores ministros para uma estrutura já estabelecida, mas perguntar se a própria estrutura ministerial precisa ser transformada para que os ministérios recuperem sua finalidade fundamental: servir à comunidade, promover a missão e testemunhar, no interior da história, o Evangelho do Reino.
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