Trump, dono da Venezuela. Editorial do El País

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31 Agosto 2026

"O acordo incomum para os EUA explorarem o petróleo do país une os interesses do presidente aos de Delcy Rodríguez", afirma o El País, em editorial, 31-08-2026.

Eis o editorial.

O anúncio de Donald Trump de que controlará a produção de quase um quarto do petróleo da Venezuela desencadeou uma onda de críticas, inclusive dentro do movimento chavista, e deixou muitas perguntas sem resposta. O acordo, anunciado nas redes sociais e confirmado pela presidente interina, Delcy Rodríguez, é fruto de negociações obscuras, conduzidas às escondidas do povo venezuelano, que ainda desconhece seus termos. O que não surpreende é que a riqueza natural da Venezuela acabe nas mãos dos Estados Unidos. Trump deixou claro, desde o dia em que ordenou o ataque a Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, preso em Nova York, que seu verdadeiro objetivo era o petróleo venezuelano. Oito meses depois, ele anuncia um acordo sem precedentes com uma líder não eleita por seu povo, que colabora com Washington porque foram os EUA que a colocaram no poder.

Foto: The White House/Wikimedia Commons

Poucos detalhes do acordo são conhecidos. Os Estados Unidos se tornarão investidores com 55% de participação em uma empresa privada que lucrará com as maiores reservas de petróleo do mundo. Segundo Rodríguez, a empresa assumirá o controle de 17 campos de petróleo na Faixa do Orinoco e no Lago Maracaibo, com reservas comprovadas de 65 bilhões de barris. A concessão terá duração de 25 anos, renovável. O acordo prevê um lucro para a Venezuela de US$ 19 por barril, considerando um preço de US$ 65.

Os venezuelanos descobriram repentinamente que 22% de suas reservas de petróleo serão controladas e exploradas pelos Estados Unidos. Rodríguez afirma que esse modelo de exploração representa um investimento de US$ 100 bilhões na indústria petrolífera venezuelana e uma potencial arrecadação de impostos de US$ 209 bilhões, dos quais o frágil Estado venezuelano necessita desesperadamente. Pouco mais se sabe. Ninguém sabe quem financiará esses investimentos e em que termos, qual o cronograma para o início das operações, quais empresas executarão o investimento e, sobretudo, quem supervisionará as operações e sob qual jurisdição.

O formato do acordo é incomum. Diante da relutância das grandes petrolíferas em investir em um país sem regulamentações claras, Trump decidiu apoiar seu próprio governo, por meio do Departamento de Defesa. Em outras palavras, o investidor é a Casa Branca. Para aumentar as suspeitas, o consórcio será liderado pelo venezuelano Alejandro Betancourt, que está sendo investigado na Suíça e na Espanha por seu suposto envolvimento em um esquema de lavagem de bilhões de dólares desviados da estatal petrolífera PDVSA.

O presidente dos EUA, cujo partido deverá sofrer uma grande derrota nas eleições de novembro, segundo as pesquisas, principalmente devido à frustração popular com a inflação, prometeu que o acesso ao petróleo venezuelano reduzirá os preços da gasolina. Isso não vai acontecer. A reconstrução da debilitada indústria petrolífera da Venezuela levará anos. A Venezuela verá mais empregos e uma revitalização de um setor que está estagnado há anos, mas não está claro se isso ocorrerá em curto prazo.

A preocupação gerada por este anúncio também é política. O que a Venezuela precisa urgentemente é de democracia e eleições. Este acordo não pode ditar os termos da transição necessária. Rodríguez e Trump já compartilham muitos incentivos para não acelerar as eleições que poderiam remover do poder uma estrutura chavista que se mostrou muito útil aos interesses dos EUA.

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