É assim que Trump controla os lucros do petróleo venezuelano. Artigo de Eric Toussaint

Donald Trump. (Foto: Gage Skidmore/Flickr)

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31 Agosto 2026

Após o sequestro de Maduro, as exportações aumentaram e agora ultrapassam os 13 bilhões de dólares, mas Washington decide quem pode comprá-las e para onde vai o dinheiro.

O artigo é de Eric Toussaint, em artigo publicado por Sin Permiso, e reproduzido por Ctxt, 28-08-2026. 

Eric Toussaint é um historiador belga e porta-voz do Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima, anteriormente conhecido como Comitê para o Cancelamento da Dívida do Terceiro Mundo, que ele ajudou a fundar. Historiador de formação, possui doutorado em ciência política pela Universidade de Liège e pela Universidade Paris VIII.

Eis o artigo.

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos lançaram uma operação militar contra a Venezuela que culminou na captura e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e sua transferência forçada para os Estados Unidos. Durante essa agressão, que envolveu 150 aeronaves, aproximadamente 100 pessoas perderam a vida, incluindo 32 cubanos que tentavam proteger o palácio presidencial; as demais vítimas eram venezuelanas. Poucas horas depois, Donald Trump anunciou que Washington pretendia controlar temporariamente a Venezuela e explorar seus recursos petrolíferos.

Essa intervenção, portanto, marcou um ponto de virada crucial na história recente da Venezuela. O vice-presidente e outras autoridades aceitaram efetivamente a situação e se submeteram à vontade de Trump e de seu governo. A agressão armada perpetrada pelos militares dos EUA e a submissão das autoridades de Caracas permitiram que Washington assumisse o controle das exportações de petróleo do país e, sobretudo, controlasse as contas onde a receita dessas exportações é depositada.

Essa questão assume ainda maior importância considerando que a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Por décadas, o petróleo tem sido a principal fonte de renda externa do país. Obter o controle dessa receita é, portanto, um passo crucial para garantir o poder econômico e político.

Receitas petrolíferas relativamente modestas antes da intervenção dos EUA

Primeiramente, é preciso relembrar as receitas petrolíferas registradas antes da intervenção de 3 de janeiro de 2026. Segundo dados divulgados em março de 2026 pelo Banco Central da Venezuela, as exportações de petróleo geraram US$ 18,4 bilhões em 2024 e US$ 18,2 bilhões em 2025. Esses valores representam as receitas das exportações de petróleo, e não o lucro líquido da estatal petrolífera PDVSA nem a arrecadação de impostos do governo.

Esses números são relativamente baixos considerando o potencial e as reservas de petróleo do país. Eles refletem, em particular, o nível de produção, que permanece muito abaixo do das décadas anteriores devido às dificuldades enfrentadas pela indústria petrolífera, às sanções dos EUA e às condições em que a Venezuela teve que comercializar seu petróleo.

O contraste com o período posterior a 3 de janeiro de 2026 é, portanto, particularmente impressionante.

Washington assume o controle das exportações

Após o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, o governo Trump flexibilizou algumas sanções, permitindo que a Venezuela vendesse seu petróleo mais livremente nos mercados internacionais. No entanto, a receita dessas vendas não pode ser controlada livremente pelo governo venezuelano: ela foi transferida para contas administradas por autoridades americanas. O decreto presidencial americano de 9 de janeiro de 2026 é particularmente revelador. Ele estabelece um mecanismo destinado a proteger as receitas petrolíferas venezuelanas depositadas em contas do Tesouro dos EUA. Washington apresenta legalmente esses fundos como pertencentes ao governo venezuelano, mas os coloca sob a custódia e o controle das autoridades americanas.

Portanto, do ponto de vista jurídico e de acordo com o mecanismo dos EUA, não se trata de uma simples apropriação de receita pelo Tesouro americano. Mas o resultado político e econômico é fundamental: a Venezuela não controla mais livremente a receita proveniente de sua principal exportação. Washington controla sua arrecadação, sua preservação e sua distribuição. Essa situação confere ao acordo uma dimensão nitidamente neocolonial.

O congressista democrata Joaquín Castro declarou ao Financial Times: “A invasão da Venezuela por Trump foi motivada, desde o início, por petróleo, poder e corrupção, já que o governo Trump controla bilhões de dólares em receitas petrolíferas venezuelanas sem qualquer transparência ou salvaguardas”. Ele acrescentou que o Congresso estava sendo mantido “no escuro”. O jornal observou que “logo após a incursão em janeiro, o presidente Trump declarou que essas receitas ‘seriam controladas por ele’”. O diário londrino também citou o presidente americano: “Em junho, Trump afirmou que os Estados Unidos recuperaram ‘28 vezes’ o custo da operação militar na Venezuela graças ao petróleo, e que ‘tanto a Venezuela quanto os Estados Unidos estavam ganhando muito dinheiro ’”.

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Um aumento acentuado nas exportações

A tomada de controle pelos EUA foi acompanhada por um rápido aumento nas exportações de petróleo. De acordo com o Conselho de Relações Exteriores, o valor estimado das exportações controladas pelos EUA subiu de cerca de US$ 600 milhões em janeiro para cerca de US$ 3,7 bilhões em abril de 2026. Os Estados Unidos absorveram cerca de 43% das exportações, a Índia 26% e a Espanha 8%.

No primeiro trimestre de 2026, o Banco Central da Venezuela registrou US$ 5,491 bilhões em receitas com exportações de petróleo, representando um aumento de 21,5% em comparação com o primeiro trimestre de 2025.

Mas devemos distinguir entre duas coisas: a renda registrada pelas estatísticas venezuelanas e as quantias efetivamente disponíveis para o governo venezuelano. É precisamente neste segundo ponto que a opacidade começa.

Mais de 13 bilhões de dólares em receita desde janeiro

No final de julho de 2026, o mesmo artigo do Financial Times mencionado anteriormente estimou que as vendas de petróleo venezuelano haviam gerado mais de US$ 13 bilhões desde o início do ano e que essas receitas haviam passado por contas controladas pelo governo dos EUA. Essa estimativa se baseia nos volumes exportados e nos preços pelos quais o petróleo venezuelano foi vendido.

O valor é considerável. Em apenas alguns meses, representa aproximadamente 70% da receita petrolífera que a Venezuela obteve ao longo de todo o ano de 2025.

No entanto, esses US$ 13 bilhões não devem ser interpretados como um lucro líquido para os Estados Unidos. Trata-se de uma estimativa da receita gerada com a venda de petróleo, sujeita ao controle do sistema americano. Parte dessa receita deve cobrir os custos associados à comercialização, transporte, intermediários e operação da indústria petrolífera.

A questão crucial, portanto, é: que parcela dessas receitas foi efetivamente reinvestida na Venezuela?

É aqui que a falta de transparência se torna significativa. Em janeiro, um mecanismo inicial foi estabelecido por meio de uma conta no Catar. O Secretário de Estado Marco Rubio indicou que US$ 300 milhões haviam sido transferidos para a Venezuela, enquanto aproximadamente US$ 200 milhões permaneciam na conta. Posteriormente, o Secretário de Energia Chris Wright afirmou que os US$ 500 milhões integrais haviam sido finalmente transferidos para a Venezuela.

Posteriormente, o Departamento de Estado dos EUA informou ao Congresso que aproximadamente US$ 3 bilhões haviam sido autorizados para transferência à Venezuela. Washington declarou que esses fundos se destinavam, entre outras coisas, a financiar as despesas operacionais do governo venezuelano e da indústria petrolífera. No entanto, essa declaração não permite uma compreensão precisa do montante efetivamente transferido e gasto.

O governo venezuelano, por sua vez, publicou um registro de transferências em março de 2026. No entanto, esse registro mostrou apenas uma única transferência de US$ 300 milhões. De acordo com o portal criado pelo governo Delcy Rodríguez, "Transparência Soberana", destinado a tornar públicas as receitas e despesas, em 15 de agosto de 2026, constava apenas essa transação de US$ 300 milhões, correspondente a uma "venda extraordinária de óleo combustível", destinada integralmente, segundo informações do site, ao Fundo de Proteção Social para o aumento do salário mínimo dos trabalhadores na forma de bônus.

Portanto, não há como conciliar os números apresentados pelos respectivos governos.

Para que Washington diz que usará o dinheiro?

Segundo informações fornecidas ao Congresso, os fundos foram utilizados, entre outras coisas, para pagar os salários de funcionários do governo venezuelano e para financiar equipamentos e suprimentos necessários para a indústria petrolífera. No entanto, Washington não divulgou nenhum detalhamento mostrando quanto foi destinado a salários, quanto a equipamentos para a indústria petrolífera e quanto a outras despesas.

Essa falta de transparência é ainda mais surpreendente, visto que o Departamento de Estado havia anunciado a implementação de um mecanismo de auditoria pela KPMG, com relatórios trimestrais. O Conselho de Relações Exteriores observou recentemente que nenhum relatório público detalhado foi publicado.

Por outro lado, o Departamento de Estado assinou um contrato com a KPMG que poderá chegar a 84,4 milhões de dólares para um mecanismo de transparência sobre as receitas provenientes dos recursos naturais da Venezuela.

A situação é, portanto, paradoxal: os Estados Unidos controlam bilhões de dólares das receitas petrolíferas venezuelanas e estabeleceram um mecanismo de auditoria, mas o público ainda não dispõe de um relatório detalhado que permita rastrear todos os fluxos financeiros.

Um meio poderoso de pressão

O controle das receitas do petróleo confere aos Estados Unidos uma considerável influência sobre o governo de Delcy Rodríguez. A Venezuela pode continuar exportando petróleo, exceto para Cuba — que, no entanto, necessita desesperadamente dele —, mas não tem livre acesso às receitas geradas por essas exportações. Washington decide as condições sob as quais os fundos são liberados e, dessa forma, pode influenciar diretamente os gastos do governo. Portanto, o mecanismo vai muito além das sanções econômicas que precederam a intervenção. As sanções visavam impedir ou limitar certas transações com a Venezuela, mas o novo sistema permite que Washington controle o fluxo financeiro da grande maioria das exportações venezuelanas.

O retorno das empresas petrolíferas estrangeiras

O controle das receitas é acompanhado por uma transformação do setor petrolífero. O novo governo venezuelano aprovou uma reforma da legislação de hidrocarbonetos que abre ainda mais o setor ao investimento estrangeiro e reduz alguns dos privilégios anteriormente desfrutados pela PDVSA. Diversas empresas estrangeiras retomaram ou expandiram suas operações na Venezuela. Entre elas, Chevron, Shell, Eni, Repsol e, agora, BP.

Essa evolução não significa que todas essas empresas trabalhem para o governo dos EUA. Mas faz parte de uma reorganização do setor petrolífero impulsionada por Washington: aumento da produção, retorno de empresas ocidentais, maior abertura ao capital estrangeiro e controle americano do circuito financeiro de exportação.

Seria de se esperar que o aumento da receita se traduzisse rapidamente em uma melhora substancial na situação econômica e social do país. No entanto, os efeitos permanecem limitados. O Financial Times observou, em julho, que a economia venezuelana não parecia estar melhorando na mesma proporção que a magnitude das receitas petrolíferas geradas. O jornal concluiu denunciando o mecanismo implementado pelos EUA como uma relação "quase neocolonial", na qual Washington exerce sua influência sobre o governo venezuelano controlando suas receitas petrolíferas.

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