05 Janeiro 2026
Os Estados Unidos não podem permitir que o comércio global de petróleo bruto deixe de ser realizado em petrodólares, ou sua hegemonia ficaria comprometida; portanto, precisam acabar com a influência chinesa em países com reservas de petróleo bruto.
O artigo é de Yago Álvarez Barba, coordenador da seção de economia publicado por El Salto, 05-01-2026.
Eis o artigo.
Petróleo, petróleo, petróleo... Donald Trump mencionou o ouro negro 26 vezes na coletiva de imprensa após a intervenção na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro. A Casa Branca não poupou palavras, nem ofereceu desculpas ou eufemismos, ao reconhecer que a violação do direito internacional cometida com o golpe em Caracas teve como objetivo permitir que grandes empresas de energia americanas se apoderassem do petróleo venezuelano.
Mas focar-se apenas nas reservas de petróleo pode levar a uma análise superficial, já que esse mesmo petróleo bruto sustenta mais do que apenas as margens de lucro das companhias petrolíferas ou dos países produtores; ele também é um pilar necessário para uma das principais e mais poderosas armas da hegemonia global dos EUA: a dolarização da economia global e, mais especificamente, a dolarização do comércio de petróleo bruto. Muitos analistas apontam que o petróleo é o que vemos, mas que Trump tomou essa medida decisiva para impedir que as exportações de petróleo venezuelano sejam negociadas em outras moedas.
O sistema global de comércio de petróleo foi um legado do acordo assinado entre os Estados Unidos, liderados por Henry Kissinger, e a Arábia Saudita, principal membro da OPEP, em 1974. Os EUA garantiram proteção militar e venda de armas ao regime saudita em troca da venda exclusiva de seu petróleo em dólares e do investimento de qualquer excedente de produção em títulos do Tesouro americano. Posteriormente, os demais países da OPEP seguiram o exemplo da Arábia Saudita, e assim nasceu o sistema global dominante do petrodólar. A partir desse momento, o mercado de compra e venda de petróleo bruto passou a ser negociado em dólares, gerando uma demanda constante pela moeda. Essa necessidade de dólares para quem precisa importar petróleo mantém artificialmente uma alta demanda pela moeda, permitindo que os Estados Unidos se financiem a custos mais baixos (reduzindo as taxas de juros) e possibilitando que operem com déficits fiscais e comerciais sem impactar negativamente sua economia, diferentemente do que acontece com outros países. Dessa forma, a economia dos EUA pode continuar gastando, aumentando seu déficit (superior a 6% do PIB) e sua relação dívida/PIB (superior a 122%) sem temer a desvalorização de sua moeda e sem que os mercados aumentem significativamente o custo de seu financiamento.
Embora seja verdade que existam razões além das relações econômicas, o domínio do dólar como moeda global confere aos Estados Unidos um enorme poder geopolítico e a capacidade de sancionar países visados pela Casa Branca. Trump pode congelar ativos em dólares em países ou excluí-los do sistema internacional de pagamentos, o que pode congelar seu comércio ou impedi-los de importar matérias-primas cotadas em dólares, como petróleo bruto. Este é um dos fundamentos do poder hegemônico dos EUA. Se o petróleo começar a ser negociado em outra moeda, os EUA podem perder essa hegemonia. É aqui que a Venezuela e a China de Xi Jinping, concorrentes da hegemonia global dos EUA, entram em cena.
“O golpe apoiado pelos EUA na Venezuela também visa fortalecer o sistema do petrodólar”, afirma Richard Wegner, economista alemão com doutorado pela Universidade de Oxford, nas redes sociais. “A Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, desafiou o dólar ao vender petróleo em yuan, euro e rublo, contornando o dólar e criando canais de pagamento alternativos com a China”, aponta o economista como a principal razão pela qual Caracas provocou a ira de Washington.
Esta não seria a primeira vez. Wegner aponta dois precedentes históricos: a queda de Saddam Hussein no Iraque por tentar adotar o euro como moeda comercial, e a queda do líder líbio Muammar Gaddafi, que passou de ser considerado um aliado do Ocidente (não nos esqueçamos que Alberto Ruiz-Gallardón lhe concedeu as chaves de ouro de Madrid em 2007) a inimigo público número um "por propor um dinar lastreado em ouro" para negociar seu petróleo. Sempre que essa hegemonia do petrodólar é ameaçada, os Estados Unidos usam toda a sua força militar para manter o status quo.
Se um país como a Venezuela, sujeito a inúmeras sanções econômicas, não pode usar o dólar, precisa encontrar maneiras e aliados para vender sua enorme produção de petróleo. É aí que a China entra em cena. Diante das sanções, o governo Maduro passou um ano vendendo 80% de sua produção de petróleo bruto para o gigante asiático, usando o renminbi (yuan), a moeda chinesa. Esse canal comercial é suficiente para desafiar o domínio global do dólar? Não, mas oferece uma imagem que a Casa Branca não quer permitir: é possível negociar e sobreviver fora do dólar, longe do poder dos EUA, negociando com países cansados do imperialismo financeiro e militar promovido pelas diversas administrações que passaram por Washington nos últimos 50 anos. "Esse fluxo contraria a desdolarização global acelerada liderada pela Rússia, China, Irã e BRICS, à medida que as nações passam a usar meios de pagamento diferentes do dólar e alternativas ao Swift", destaca Wegner sobre essa nova tendência multipolar para a qual o mundo está caminhando.
Em linhas muito semelhantes às de Wegner, estão os argumentos de Aníbal Garzón, sociólogo especializado em Estudos Internacionais e autor do livro BRICS: A Transição para uma Ordem Mundial Alternativa (Akal, 2024). “Embora a Venezuela não seja membro do BRICS, devido ao veto do Brasil em uma das últimas reuniões, a Rússia e a China sempre demonstraram interesse em sua inclusão”, afirma o analista, que destaca que, enquanto o envolvimento da Rússia pode ser mais político, as intenções da China estão mais focadas no petróleo. “A China investiu nesse setor na Venezuela e aumentou as importações do país, o que permitiu à Venezuela contornar as sanções e fortaleceu as relações entre as duas nações”, explica Garzón.
Embora o autor do livro sobre os BRICS também mencione outro grupo de países, a OPEP, grupo produtor de petróleo: “A Arábia Saudita também está fazendo esse movimento; embora sempre tenha sido parceira dos Estados Unidos, agora também negocia parte de seu petróleo em yuan com a China, e o Irã está fazendo o mesmo”. É nesses processos de desdolarização que os grupos BRICS e OPEP convergem, “razão pela qual a Venezuela, mesmo sem ser membro dos BRICS, é um parceiro fundamental tanto para a Rússia quanto para a China”, afirma Garzón.
Um quebra-cabeça muito maior
O foco da análise ainda pode ser consideravelmente ampliado, adicionando outra camada a essa intrincada luta hegemônica. “É claro que as reservas de petróleo da Venezuela importam, e é importante que as empresas americanas as explorem, e é claro que a desdolarização importa, mas tudo isso são peças de um quebra-cabeça muito maior”, explica Juan Vázquez Rojo, doutor em Economia, professor e pesquisador da Universidade Camilo José Cela e especialista na hegemonia do dólar e na internacionalização do yuan ou no modelo econômico chinês, ao jornal El Salto. O economista aponta para a nova estratégia da Casa Branca para manter esse poder hegemônico, que foi delineada de forma direta no documento de segurança nacional publicado em novembro: “Basicamente, diz que eles precisam manter sua influência sobre o que consideram sua região, o continente americano, e ter o monopólio do poder. Isso é algo que eles decidiram porque outras potências ganharam terreno na região, especialmente a China”, observa o economista, referindo-se aos investimentos em infraestrutura que o gigante asiático está fazendo em toda a América Latina, bem como aos laços comerciais que envolvem a exportação de produtos manufaturados e a importação, sobretudo, de matérias-primas. Ele também menciona a realocação da produção para esses países para que as empresas chinesas possam exportar para países da região, incluindo os Estados Unidos.
Ainda assim, Vázquez Rojo destaca que o poder e a influência dos Estados Unidos continuam muito superiores se considerarmos os números de investimento, tecnologia e o poder de suas empresas nos países latino-americanos, “mas Trump tem a sensação de que está perdendo esse peso e que a China se infiltrou na região”. A estratégia, segundo sua análise, é clara: “Tentar fortalecer os governos com os quais me dou bem, como vimos com o acordo de swap cambial com o qual praticamente salvei o governo Milei, e pelo qual não sabemos o que Trump pediu em troca. E no caso de governos que não estão alinhados a ele, como o da Venezuela, o documento de segurança nacional é claro e diz que 'se necessário, usaremos todos os meios para retomar o controle da região'. E isso logicamente implica que, se um governo precisa ser derrubado, então será derrubado… e foi isso que ele fez na Venezuela”, observa o economista.
Nas próximas semanas, se ninguém impedir Trump, teremos que ver quais condições serão impostas ao governo venezuelano, mas Vázquez Rojo volta a se referir à estratégia de segurança nacional da Casa Branca: “Ela será apresentada como uma estratégia ganha-ganha , envolvendo investimentos de empresas americanas e transferência de tecnologia que beneficiarão a Venezuela, mas, como afirma o documento, esses países terão que renunciar a acordos com outras potências”. Em resumo, “os Estados Unidos vão querer eliminar a influência da China na Venezuela”.
Resta saber se a China e a Rússia tomarão medidas específicas em resposta a essa violação do direito internacional — o golpe na Venezuela e o sequestro de Maduro —, mas esse ato não parece capaz de contrariar um sentimento crescente: o de países fartos da intimidação econômica e militar dos Estados Unidos. Na verdade, o golpe na Venezuela pode ter o efeito oposto: “É um sinal de desespero, que pode acelerar o declínio do petrodólar, já que o Sul Global se ressente de sua dependência dos Estados Unidos e do uso da força militar para manter a hegemonia de sua moeda”, observa Richard Werner.
Prova disso é que os BRICS têm uma lista de espera de países que desejam ingressar no grupo, uma lista que continua crescendo; os produtores de petróleo estão cada vez mais voltando suas exportações para a China; governos não alinhados com a Casa Branca encontraram nesse mundo alternativo uma maneira de evitar sanções; e o dólar, embora ainda inegavelmente dominante, está gradualmente perdendo terreno para a moeda chinesa. Teremos que ver o que acontece nos próximos dias e semanas, mas o que está claro é que, como resume Aníbal Garzón, o que aconteceu no último fim de semana “não foi apenas um golpe contra a Venezuela e Nicolás Maduro, mas também um golpe contra o mundo bipolar, contra os BRICS, contra a China, contra a Rússia e contra a desdolarização”.
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