Washington anuncia que já está vendendo petróleo venezuelano, e Caracas fala em um acordo comercial

Foto: Matthew Cassidy/Unsplash

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08 Janeiro 2026

Os Estados Unidos afirmam estar exercendo "pressão máxima" sobre o governo venezuelano e controlando a venda de petróleo bruto, enquanto a Venezuela alega que as vendas fazem parte de um acordo comercial e rejeita qualquer forma de supervisão estrangeira.

A informação é publicada por Página|12, 07-01-2026.

Os Estados Unidos confirmaram na quarta-feira que começaram a vender petróleo bruto venezuelano apreendido e afirmaram manter “pressão máxima” sobre o governo interino liderado por Delcy Rodríguez. Enquanto isso, a estatal petrolífera de Caracas, Petróleos de Venezuela (PDVSA), afirmou que a venda é uma transação comercial envolvendo a “venda de volumes” de petróleo sob acordos semelhantes aos vigentes com empresas internacionais. O controle do fornecimento de petróleo tornou-se, portanto, o foco central da nova relação bilateral após a prisão de Nicolás Maduro.

“O governo Trump mantém estreita comunicação com as autoridades interinas na Venezuela. Atualmente, temos influência máxima”, declarou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em sua primeira menção pública ao país desde a operação militar dos EUA que deixou aproximadamente 100 mortos na tentativa de capturar o presidente venezuelano. Ela explicou que o petróleo bruto que começou a ser vendido é petróleo sancionado que estava armazenado em navios e terminais, e que o governo interino venezuelano concordou em liberar após ouvir as exigências dos EUA.

Leavitt especificou que os Estados Unidos já começaram a vender petróleo bruto e derivados venezuelanos no mercado global, com a participação de grandes empresas comerciais internacionais e bancos importantes para garantir o financiamento das operações. Ele enfatizou que toda a receita será inicialmente depositada em contas controladas pelos Estados Unidos em instituições bancárias internacionalmente reconhecidas, e sua distribuição final ficará “a critério do governo dos Estados Unidos”, em benefício “tanto do povo americano quanto do venezuelano”.

De Caracas, a estatal petrolífera Petróleos de Venezuela (PDVSA) confirmou que está em negociações com Washington para a venda de volumes de petróleo bruto. Em comunicado, a empresa indicou que o processo está sendo conduzido “sob acordos semelhantes aos atualmente vigentes com empresas internacionais”, horas depois de a Casa Branca anunciar que manterá o controle sobre a comercialização do petróleo venezuelano por tempo indeterminado.

Em suas primeiras declarações públicas, Rodríguez procurou se distanciar da supervisão dos EUA. Ele afirmou que “nenhuma potência estrangeira governa a Venezuela”, declarou luto nacional pelas vítimas da operação militar e reiterou que seu mandato visa “defender a soberania e garantir a paz interna”. No entanto, Washington deixou claro que a autonomia do governo interino seria limitada.

O controle do petróleo bruto parece, portanto, ser o principal instrumento de pressão que os Estados Unidos estão utilizando contra o novo governo venezuelano. Washington busca garantir seu fornecimento, impedir desvios para países rivais como a China e influenciar as decisões políticas do governo interino. "As decisões tomadas pelas autoridades interinas continuarão sendo ditadas pelos Estados Unidos da América", afirmou Leavitt.

“Pressão máxima”

Paralelamente a esses anúncios, a nomeação dos primeiros membros do gabinete de Delcy Rodríguez como presidente interina confirmou que a transição se baseia em figuras-chave do chavismo e está se desenrolando sob pressão direta de Washington. Rodríguez nomeou Calixto Ortega, ex-presidente do Banco Central, como vice-presidente para assuntos econômicos, e o general Gustavo González López para chefiar a Guarda de Honra Presidencial e a Direção-Geral de Contraespionagem Militar, duas agências-chave dentro do aparato de segurança do Estado.

Fontes diplomáticas citadas pela Reuters indicaram que o governo Trump interpreta essas nomeações como um sinal de continuidade interna que poderia evitar um colapso institucional após a captura de Maduro, ao mesmo tempo que mantém suas ameaças contra figuras-chave do partido governista. Entre elas está o Ministro do Interior, Diosdado Cabello, identificado por agências de notícias internacionais como um potencial próximo alvo caso não coopere com a agenda de transição promovida por Washington.

Cabello lidera atualmente a lista das maiores recompensas oferecidas pelos Estados Unidos, com US$ 25 milhões por informações que levem à sua prisão ou condenação. Segundo a agência de notícias EFE, a recompensa por Cabello foi atualizada em janeiro de 2025 e o coloca no mesmo patamar de figuras históricas do terrorismo internacional. A notificação emitida pelo Departamento de Estado o acusa de conspiração para "narcoterrorismo", conspiração para importar cocaína e conspiração para usar e portar metralhadoras e dispositivos destrutivos em apoio a crimes de tráfico de drogas.

A pressão dos EUA não se limita a Cabello. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, também tem uma recompensa de 15 milhões de dólares oferecida por informações que levem à sua captura, acusado de conspirar para distribuir cocaína a bordo de aeronaves registradas nos EUA. Esse valor o coloca no mesmo patamar de chefões internacionais do narcotráfico como Nemesio Rubén Oseguera, “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nova Geração.

Com o controle do petróleo venezuelano e a pressão legal sobre seus líderes, apesar dos esforços de cooperação, os Estados Unidos passaram de uma política de sanções para a intervenção direta na estrutura de poder da Venezuela. A margem de manobra do governo interino poderá, daqui para frente, ser definida por essa tutela e pela capacidade do chavismo de resistir a ela sem perturbar o equilíbrio interno.

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