07 Janeiro 2026
Se, após violar o direito internacional, Trump e Rubio conseguirem evitar uma explosão violenta enquanto se apropriam de todos os ativos do país, será ruim para a Venezuela, pois perderá seus recursos e a oportunidade de uma transição verdadeiramente democrática. E, se der errado e o país mergulhar em uma guerra fratricida, também será irremediavelmente ruim para os venezuelanos.
A informação é publicada por El Diario, 06-01-2025.
Uma vez decidido a violar abertamente o direito internacional, restava saber qual era a opção preferida de Donald Trump para controlar a Venezuela.
Consciente de que, por maior que fosse o descontentamento da população local com uma ditadura tão corrupta quanto ineficaz e repressiva, a captura de Nicolás Maduro não provocaria o aplauso unânime dos venezuelanos nem sua submissão entusiasta às ordens de Washington, a dupla Donald Trump–Marco Rubio via-se obrigada a fazer algo mais para alcançar seu objetivo.
A ocupação militar
A primeira opção a ser considerada era, seguindo o modelo aplicado no Iraque, a ocupação militar do país. Um país com mais de 900 mil km², com uma orografia complexa e pouco mais de 5 mil km de fronteiras terrestres e outros 4 mil km de costa, muito porosas e fortemente afetadas por comércios ilícitos e pela movimentação de grupos armados de todo tipo.
Isso só poderia ser feito com o deslocamento de um contingente militar significativamente superior ao que atualmente existe na região (cerca de 15 mil efetivos e uma dúzia de navios), com alto risco de ficar atolado por tempo indefinido em um cenário de violência crescente, no qual tanto os remanescentes das forças armadas quanto os grupos paramilitares de filiação chavista previsivelmente optariam por uma guerra irregular.
Seguir esse caminho não apenas imporia a Trump um custo apreciável entre seus simpatizantes, ilusoriamente convencidos de que se trata de um pacifista e não intervencionista, como também o obrigaria a retirar recursos militares de outros cenários, especialmente daquele relacionado à contenção da China como principal rival estratégico na região Indo-Pacífica.
Os aliados locais
A segunda possibilidade era recorrer a atores locais que servissem fielmente a seus planos. Em outros casos, Washington pôde contar com atores locais, tanto políticos quanto militares, que lhe serviram como instrumentos de controle direto para evitar o colapso, encarregados de manter a nova ordem e de gerir a vida nacional em todos os âmbitos — tudo isso sem precisar se envolver diretamente.
Nessa linha, parecia evidente, num primeiro momento, que María Corina Machado e Edmundo González seriam os escolhidos para a tarefa, na medida em que, para os críticos de Maduro, pareciam representar a alternativa mais sólida, e ambos haviam sido alçados e apoiados tanto por Washington quanto por outras capitais ocidentais. Uma crença que o próprio Trump se encarregou de demolir em sua primeira aparição pública após tornar conhecido que já tinha o ditador venezuelano sob seu controle.
Tanto Delcy Rodríguez quanto Vladimir Padrino e Diosdado Cabello eram classificados até bem pouco tempo como narcotraficantes que deveriam ser entregues à justiça.
Para além das simpatias ou antipatias que possa haver em Washington em relação a uma figura tão controversa — alinhada a um genocida como Benjamin Netanyahu e defensora das execuções extrajudiciais que Trump vem ordenando no Caribe desde setembro passado —, sua defenestração responde a um cálculo muito mais pragmático do que ideológico. Afinal, nem Machado nem González estão fisicamente no país, nunca conseguiram aglutinar toda a oposição a Maduro e, sobretudo, não controlam nenhum dos mecanismos de poder real — nem econômico, nem político, nem, muito menos, militar — no terreno.
São esses fatores que, em última instância, levaram a dupla Trump–Rubio a optar por Delcy Rodríguez como principal representante do regime chavista. É verdade que isso supõe uma aparente contradição, na medida em que tanto ela quanto os outros dois figurantes mais destacados desse regime — Vladimir Padrino, ministro da Defesa, e Diosdado Cabello, ministro do Interior — eram classificados até pouco tempo atrás como narcotraficantes que deveriam ser colocados à disposição da justiça.
A “transição apropriada”
Mas é preciso lembrar de imediato que o que, segundo o próprio Trump, se busca na Venezuela não é uma “transição democrática”, mas uma “transição apropriada”. E, assim como está claro que o golpe norte-americano não responde ao combate ao narcotráfico, também está claro que tampouco é guiado pela defesa do bem-estar e da segurança dos venezuelanos, mas sim pelo interesse dos Estados Unidos em obter o controle absoluto de todo o continente, com seus recursos naturais e minerais críticos incluídos, impedindo por todos os meios que potências extracontinentais (isto é, China e Rússia) possam aproveitar qualquer brecha para questionar o status quo implícito na atualizada doutrina Monroe.
O que Trump busca no restante do continente não são aliados (muito menos democracias), mas vassalos. Daí que, por mais chocante que seja recorrer a atores como Rodríguez e companhia, sua colaboração se torne a via mais conveniente para assegurar o controle de um país ao qual em breve podem seguir-se Cuba, Colômbia, Nicarágua e além.
É ela e aqueles que a rodeiam — todos membros do núcleo duro da ditadura encabeçada por Maduro — que têm mais interesse — por simples sobrevivência pessoal — e mais capacidade real para evitar que a Venezuela colapse e para, em chave lampedusiana, fazer parecer que tudo muda quando nada vai mudar.
Ou, ao menos, é nisso que Trump e Rubio confiam. Se der certo e conseguirem evitar uma explosão violenta generalizada enquanto se apropriam de todos os ativos do país, será ruim para a Venezuela, porque perderá a oportunidade de realizar uma transição verdadeiramente democrática, prolongando a etapa de governantes corruptos e repressores, agora controlados a partir de Washington. E, se der errado e a Venezuela mergulhar em uma guerra fratricida, também será irremediavelmente ruim para os venezuelanos.
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