25 Agosto 2026
A ofensiva econômica americana contra o Irã irá empobrecer ainda mais os iranianos, mas é improvável que altere a estratégia e a posição do governo. Poderia, sim, mas apenas com pressão constante, o que também seria custoso para os Estados Unidos. Adnan Mazarei, ex-diretor adjunto para o Oriente Médio e Ásia Central do Fundo Monetário Internacional, possui conhecimento detalhado da economia iraniana, dos canais que a conectam a outros países e das redes oficiais e informais que permitiram sua sobrevivência a 40 anos de embargo.
A entrevista é de Gabriella Colarusso, publicada por La Repubblica, 25-08-2026.
Eis a entrevista.
Qual é a situação atual no país?
"As sanções e a guerra causaram danos consideráveis à infraestrutura e às exportações de petróleo. A inflação está disparando, aproximando-se de 90%. Os preços dos alimentos subiram bem mais de 100%. O Fundo Monetário Internacional prevê uma contração econômica de cerca de 6% este ano. A pobreza, que antes girava em torno de 30% da população, deverá aumentar drasticamente."
Qual o objetivo das novas sanções americanas?
"Pressionar os países para que não importem petróleo, gás e outros produtos do Irã, e para que não vendam ao Irã matérias-primas potencialmente importantes para sua indústria, ou mesmo produtos alimentícios. E, acima de tudo, forçar bancos e instituições financeiras do mundo todo a reduzirem ainda mais, ou mesmo romperem, suas relações com o Irã."
Isso poderia levar os iranianos a um maior comprometimento?
"Poderia prejudicar significativamente a economia, haveria um declínio ainda maior no padrão de vida da população e um aumento da pobreza, mas acho improvável que o governo mude sua política externa ou estratégia militar. O Irã buscará responder militarmente e aumentar os custos para a economia global. Também é muito importante entender que o sistema iraniano está se preparando para reprimir qualquer reação pública. Já está planejando reforçar os controles internos e agir com mais severidade do que no passado, se necessário."
Será que os parceiros comerciais do Irã abandonarão seu aliado?
"Os Estados Unidos gozam atualmente de pouca credibilidade. Também enfrentam problemas com seus aliados, Europa, Canadá e Coreia do Sul, que não compreendem os objetivos e a estratégia americanos. Mas o sucesso desta operação depende em grande parte da China, Rússia, Iraque e Turquia, que se mostrarão relutantes em cooperar com os Estados Unidos."
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Que outros fatores são importantes?
Um dos fatores é a situação do mercado global de petróleo. Os preços do petróleo bruto não subiram tanto quanto alguns esperavam devido à menor demanda e ao fato de que parte do petróleo ainda conseguiu escapar do Golfo Pérsico. Mas o que não está chegando são os produtos refinados. Os preços do diesel podem subir ainda mais, o que afetará os preços ao consumidor de forma mais severa, inclusive nos Estados Unidos. Portanto, os Estados Unidos e outros países podem sofrer pressão inflacionária.
Existe um ponto de ruptura a partir do qual o governo iraniano não consegue mais governar o país?
"Depende da persistência dos Estados Unidos, se eles mantiverem o embargo às exportações por vários meses e se conseguirem envolver outros países. Se isso acontecer, prevejo um conflito político interno no Irã."
Novos protestos?
"Nesse ponto, tudo dependerá do nível de coerção que o governo iraniano estiver disposto a exercer."
O Irã está sob sanções há 40 anos e aprendeu a burlá-las. Como?
"Eles usam empresas de fachada e indivíduos para exportar petróleo, produtos petroquímicos e outras mercadorias. Parte dos lucros é usada por empresas, algumas ligadas à Guarda Revolucionária, outras a outros setores do Estado, para realizar suas próprias transações. Essas empresas usam intermediários, empresas de fachada e uma cadeia de transações que camuflam as operações de financiamento e a movimentação de capital. Naturalmente, burlar as sanções incentiva a corrupção."
Os Emirados Árabes Unidos já bloquearam todas as transações financeiras com o Irã. Que efeito isso terá?
"É um golpe sério, porque os Emirados têm sido um importante canal tanto para o comércio quanto para as finanças iranianas, mas isso não significa que não haverá outras opções. Por exemplo, no Iraque. Não me surpreenderia se os iranianos agora fizessem mais disso através da Turquia."
O sistema está dividido sobre como reagir a esta guerra econômica?
"Há algumas pessoas no governo, como o presidente Pezeshkian, que percebem o que está acontecendo e têm um tom mais conciliatório em relação aos Estados Unidos. Mas, no geral, até agora, o regime não cedeu."
Qual a saída para este conflito?
"Um retorno de fato ao memorando de entendimento. Esta pressão econômica causará muitos danos, mas não creio que induza o regime a mudar as suas políticas. Poderá acontecer, mas apenas após uma prolongada guerra de desgaste econômico."
Mas isso também acarreta custos enormes para os americanos.
"Sem dúvida. Há agora uma preocupação nos Estados Unidos de que o Federal Reserve aumente as taxas de juros para conter a inflação. Ao mesmo tempo, o Tesouro dos EUA está tentando implementar algumas operações de gestão da dívida para reduzir as taxas de juros de longo prazo, o que pode ou não funcionar."
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