01 Setembro 2026
Todas as luzes estão no vermelho, todos os indicadores – emergência climática, perda de biodiversidade, intoxicação por mais de 350 mil substâncias químico-industriais disponíveis no mercado,[1] proliferação de guerras – mostram aceleração do processo atual de colapso socioambiental. A agravar esses indicadores, age agora o poder desmesurado – econômico, político, militar e ideológico – das big techs, dos data centers, da Inteligência artificial (IA) e, sobretudo, da IA generativa (IAg). Mais que agravar as crises ambientais, esse poder traz ameaças à humanidade e à biosfera em geral mais imediatas e extremas do que quaisquer outros processos antropogênicos conhecidos.
O artigo é de Luiz Marques, professor aposentado e colaborador do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Atualmente é professor sênior da Ilum Escola de Ciência do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Pela Editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568) e Capitalismo e Colapso Ambiental. É membro dos coletivos 660, Ecovirada e Rupturas.
Eis o artigo.
A muitos essa afirmação parecerá descabida e será talvez desqualificada como tecnofobia, alarmismo e, sobretudo, como uma resistência irracional ao “inevitável”. A IA, contudo, não é inevitável. É inaceitável resignar-se a um subproduto do engenho humano como se este fosse um Chicxulub 2.0, uma versão contemporânea do meteoro que caiu na península de Yucatán no final do Cretáceo.
Mas para que a catástrofe emergente da IA não se torne inevitável, é preciso deixar de considerá-la como inevitável. E isso é o mais difícil em face da reinante ideologia desenvolvimentista, produtivista e alérgica à ideia de limite. Consideremos, para começar, os malefícios e ameaças socioambientais trazidas por essas tecnologias:
(1) Voracidade do consumo de energia, sobretudo fóssil, pelos data centers em um mundo já acossado por aquecimentos superiores à capacidade biológica de regulação térmica dos organismos. Segundo o Shift Project: “Até 2030, sem maiores mudanças nas tendências atuais, o uso global de energia elétrica pelos data centers pode atingir 1.500 TWh por ano”.[2]
Se o consumo de eletricidade pelos data centers fosse o consumo de um país, esse “país” seria já em 2025 o 11º maior consumidor de energia elétrica do mundo, saltando até 2030 para a posição de sexto maior consumidor global.[3] Segundo a Agência Internacional de Energia, 56% da energia que hoje move os data centers provém da queima de combustíveis fósseis, e essa porcentagem diminuirá muito pouco no próximo decênio, pois mais de 40% do aumento do consumo energético dos data centers até 2035 será suprido por combustíveis fósseis.[4]
Os datacenters anulam, portanto, qualquer veleidade de transição energética para fora desses combustíveis e garantem, assim, um catastrófico aquecimento global superior a 2°C no segundo quarto do século.
(2) Pegada hídrica dos data centers. Em 2025, ela atingiu 4,5 trilhões de litros de água, e se projeta que ela será em 2030 de 9,3 trilhões de litros, o suficiente para suprir as necessidades dos 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano.[5] Isso em um mundo em que “quase três quartos da população mundial vivem em países com insegurança hídrica ou insegurança hídrica crítica”.[6]
(3) Aumento imenso da mineração. Uma unidade de processamento gráfico (GPU) utiliza 32 elementos da Tabela Periódica, e o hardware de uma IA compõe-se de cerca de 90% de metais pesados. Segundo Sophia Falk e colegas, “a exposição a esses elementos por meio de inalação, contato dérmico ou ingestão de água contaminada pode levar a câncer de pulmão, comprometimento neurológico, distúrbios gastrointestinais e outros impactos à saúde a longo prazo”.[7]
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
(4) Zonas de sacrifício nas áreas próximas de data centers. Estes “geram calor e precisam de enormes ventiladores industriais para evitar que derretam. (…) O zumbido dos sistemas de resfriamento, o ronco dos geradores e o ruído dos ventiladores podem ser ouvidos (…) até mesmo a uma distância de 1,6 quilômetro”.[8] Além da poluição sonora e da consequente perda auditiva, uma avaliação do impacto sanitário do Data Center Alley sobre a população em Virgínia, nos EUA, mostrou problemas cardiovasculares e metabólicos, estresse, piora do sono, prejuízos cognitivos, poluição atmosférica e, a longo prazo, problemas de infertilidade e mortalidade precoce.[9]
Não por acaso, uma onda de revolta contra os data centers varre agora o mundo, inclusive nos Estados Unidos.[10] Em 2027, a população de Campinas terá de se haver com os impactos de um data center com capacidade projetada de 400 megawatts ou 40% da atual capacidade instalada de data centers no Brasil, que concentra já 197 data centers, como mostra a Figura 1.[11]
Figura 1 – Número de data centers por país em 2025. Fonte: Sha Sajadieh et al., “Artificial Intelligence 2026 Index Annual Report”, p. 32
Além desses impactos ambientais e sanitários, a IA ameaça criar desemprego em larga escala e/ou uma “subclasse permanente”,[12] além de uma crescente desumanização do acesso social a produtos e serviços. A IA significa também aumento da vigilância e maior capacidade de manipulação política e emocional das sociedades pelos chatbots, fomentados por grupos de extrema-direita, com progressiva impossibilidade de distinguir o verídico do falso. Essa ameaça foi detectada em 215 casos nas eleições de 2024 mundo afora [13] e tem óbvias implicações nas eleições brasileiras deste ano.[14]
A IA tende a substituir as dinâmicas biológicas lentas, reflexivas e heurísticas nos processos de aprendizado e de criação, por resumos e velocidades eletrônicas, com atrofia da capacidade de crítica e de desenvolvimento das faculdades cognitivas e criativas humanas, sobretudo nas novas gerações.[15] O ChatGPT e congêneres tornam seus usuários dependentes deles e reforçam o egocentrismo e o narcisismo, dado o comportamento bajulador dos algoritmos.[16]
Isso para não falar na crescente autonomia dos algoritmos nas guerras,[17] bem como a potenciação da bioengenharia em laboratórios de biossegurança-4, aumentando os riscos de criação (voluntária ou involuntária) de novos patógenos.[18] A maior ameaça da IA é, enfim, a perda de controle humano sobre ela e a crescente probabilidade de atitudes agressivas contra a humanidade pela chamada “IA superinteligente”.[19]
Esses e outros alertas provêm, sobretudo, da comunidade científica. A “Declaração de Roma. Adotada pelos participantes da Assembleia Global de Laureados com o Prêmio Nobel” afirma: “Em meio a uma corrida armamentista nuclear que se intensifica, estamos embarcando em uma corrida de IA igualmente perigosa”.[20] Geoffrey Hinton, um dos “pais” da IA, pronunciou as seguintes palavras em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Física de 2024:[21]
“Não temos ideia se conseguiremos manter o controle [sobre a IA]. No entanto, já existem evidências de que, se esses seres forem criados por empresas motivadas por lucros de curto prazo, nossa segurança não será a prioridade máxima. Precisamos urgentemente de pesquisas sobre como impedir que esses novos seres queiram assumir o controle. Eles já não são mais ficção científica.”
Os que estimam, sobretudo na Universidade, que a IA e a IAg (“se bem usadas”, dizem) podem gerar benefícios esquecem que, nas mãos das big techs, seus malefícios são intrínsecos e incomparavelmente maiores. Um editorial da revista Science, que tem por título “IA na publicação científica: mais lenta, pior e mais cara”, é claro a esse respeito:[22]
“Se a comunidade científica não avaliar devidamente a influência da IA, o fluxo de pesquisas autênticas e descobertas validadas para o corpo de conhecimento estabelecido se reduzirá a um gotejamento custoso, ao passo que crescerão as oportunidades de que se aceitem como realidade informações deficientes ou fabricadas — tudo isso enquanto os controladores da IA embolsam os lucros.”
Também um artigo da Nature alerta para o fato de que IA aumenta as possibilidades de má-conduta na ciência.[23] O entusiasmo acrítico pela IA e pela IAg faz lembrar a fábula do flautista de Hamelin, recolhida pelos irmãos Grimm. A única diferença é que o flautista de hoje atende pelos nomes de Palantir, OpenAI, Meta, Anthropic etc.
Notas
[1] Cf. Janet Pelley, “Number of Chemicals in commerce has been vastly underestimated”. Chemical & Engineering News (c&en), 2020.
[2] Cf. Shift Project, “AI, data, and computing: shaping infrastructures for a decarbonised world”, out. 2025.
[3] Cf. Miriam Aczel et al.,“Environmental Cost of AI’s Energy Use Carbon, Water and Land Footprints”. UNU-INWEH, Richmond Hill, Canadá, 2026.
[4] Cf. AIE, “Energy supply for AI”, 2025.
[5] Cf. Aczel et al.,UNU-INWEH, cit. (2026).
[6] Cf. Kaveh Madani (coord.), “Global Water Bankruptcy. Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”. UNU-INWEH, 2026.
[7] Cf. Sophia Falk et al., “From computation to environmental cost: the resource burden of artificial intelligence”. Communications Earth & Environment, 7, 397, 7 maio 2026.
[8] Cf. Adeel Hassan, “The Cloud Has Sound: The Unrelenting and Unseen Cost of A.I. Data Centers”. The New York Times, 17 junho 2026.
[9] Cf. Neha Gour, Luis Ortiz & Edward Maibach, “Health implications of the rapid rise of data centers in Virginia: an exploratory assessment”. Frontiers, 8, 2026.
[10] Cf. Lucille Giovannelli & Séverin Lahaye, “Dans le monde entier, un vent de révolte contre les datacenters“. Observatoire des multinationales, 9 julho 2026. Tradução portuguesa Instituto Humanitas Unisinos.
[11] Cf. Gabriel Pito, Isadora de Paiva, “Data center previsto para 2027 em Campinas promete ter 40% da atual capacidade do Brasil”. G1, 20 agosto 2026.
[12] Cf. Adam Shaw, “Could AI create a ‘permanent underclass’? Financial Times, 9 agosto 2026.
[13] Cf. “The Role of Generative AI Use in 2024 Elections Worldwide”. International Panel on the Information Environment – IPIE, maio 2025.
[14] Cf. “Artificial Hallucinations. How AI chatbots are threatening Brazil’s democracy”. Eko, 2026.
[15] Cf. Dergaa, Ismail et al., “From tools to threats: a reflection on the impact of artificial-intelligence chatbots on cognitive health.” Frontiers in Psychology 15, 2024, 1259845.
[16] Cf. Nir Eisikovits & Cody Turner, “AI chatbots can prioritize flattery over facts – and that carries serious risks”. The Conversation, 1º maio 2026.
[17] Cf. Nic Fleming, “Why we should limit the autonomy of AI-enabled weapons”. Nature, 29 out. 2025; Sérgio Amadeu da Silveira, As Big Techs e a guerra total. O complexo militar-industrial datificado, Hedra, 2025.
[18] Cf. Thomas V. Inglesby & Moritz S. Hanke, “AI-designed viral genomes”. Science, 6 agosto 2026.
[19] Cf. Nick Bostrom, Superintelligence. Paths, Dangers, Strategies. Oxford Univ. Press, 2014.
[20] Cf. Rome Declaration. Humanity at the Threshold: A Declaration on Artificial Intelligence and Nuclear Weapons, Adopted by the Participants of the Global Nobel Laureates Assembly. Borgo Laudato Si’, Vatican. Julho 2026.
[21] Cf. Geoffrey Hinton, Banquet speech, 2024.
[22] Cf. H. Holden Thorp, “AI in scientific publishing: Slower, worse, and more expensive”. Editorial. Science, 393, 6808, 16 julho 2026.
[23] Cf. Nils Köbis et al., “Delegation to artificial intelligence can increase dishonest behaviour”. Nature, 646, 2025, pp. 126-134.
Leia mais
- A mão invisível das Big Techs
- A dominação é o compromisso final das Big Techs?
- “Aliança perigosa entre Washington e Big Tech”. Entrevista com Geoffrey Hinton
- A engenharia social das Big Techs. Artigo de Fábio C. Zuccolotto
- Protestos entre empregadas das big tech diante da cumplicidade do Google com o genocídio israelense na Palestina
- EUA: O braço armado das Big Techs. Artigo de Roberto J. González
- Como o Big Money moldou as Big Techs. Artigo de Nils Peters
- Os conglomerados das Big Techs
- As big techs e o fascismo. Artigo de Eugênio Bucci
- O lado sombrio do boom dos data centers. Artigo de Melissa Garriga
- IA: surgimento, aplicações, impactos, dilemas. Nova edição da Revista IHU On-Line
- IA Generativa e conhecimento: a outra volta do parafuso na cultura da aprendizagem. Entrevista especial com Ana Maria Di Grado Hessel
- Emergência climática exigirá que Brasil repense sua estratégia econômica, incluindo o agronegócio, alerta Paulo Artaxo
- Principais causas da perda de biodiversidade
- A atual trajetória de colapso socioambiental é incontestável. Análise de Luiz Marques
- Transição energética. Disputas territoriais, tensões entre a guerra e a paz. Artigo de Alfonso Insuasty Rodríguez
- O “admirável mundo novo” da extrema-direita: a falsa rebeldia e transgressão discursiva nas redes sociais. Entrevista especial com Thomás Zicman de Barros
- “O algoritmo se tornou uma arma de guerra”. Entrevista com Júlia Nueno