31 Agosto 2026
O presidente dos EUA afirma que usará barris venezuelanos para reabastecer as reservas estratégicas de seu país.
A informação é de Macarena Vidal e María Martín, publicado por El País, 31-08-2026
O presidente dos EUA, Donald Trump, defendeu no domingo o acordo que dará ao seu país o controle majoritário de um quinto das reservas de petróleo da Venezuela. "É um presente da Venezuela para o povo americano", declarou ele nas redes sociais, reiterando sua afirmação de que o acordo com o governo interino em Caracas não custará um único dólar aos EUA e só trará benefícios. Ele também prometeu que "uma das coisas" que planeja fazer com os 65 bilhões de barris incluídos no acordo é reabastecer as reservas estratégicas do país, atualmente em seu nível mais baixo em quatro décadas.
Aos poucos, mais detalhes estão surgindo sobre um plano que gerou intensas críticas em todo o espectro político venezuelano, desde os chavistas mais radicais até a oposição. O pacto, negociado e aprovado em segredo, tornará o governo dos Estados Unidos o parceiro majoritário em uma nova joint venture que terá os direitos de operar 17 campos de petróleo no Lago Maracaibo e na Faixa do Orinoco por um período renovável de 25 anos, conforme anunciado no sábado pela presidente interina Delcy Rodríguez.
Um setor da Venezuela desejava q os norte-americanos desembarcassem no país para trazer “liberdade” e “democracia”. Eles desembarcaram. Levaram o presidente, o petróleo e a assinatura de Delcy Rodriguez. Leia a análise da The Economist: https://t.co/mRQbeYQCNp
— Mônica Bergamo (@monicabergamo) August 30, 2026
No entanto, muitas dúvidas permanecem sobre quem participará dessa parceria público-privada e quais serão os detalhes finais dos contratos. Acima de tudo, resta saber se ela será implementada; como isso será feito, com que nível de transparência e cronograma; e qual será o impacto na transição na Venezuela.
Uma coisa parece clara: se implementado conforme planejado pelos dois governos, o acordo colossal atrelará a economia da Venezuela aos Estados Unidos e Trump a Delcy Rodríguez. O republicano precisa de alguém em Caracas que implemente o plano diligentemente para manter o acesso preferencial ao petróleo barato. A líder chavista, extremamente impopular em seu país, precisa de apoio e de uma melhora na economia para se manter no poder.
Interesses em comum
O economista venezuelano Luis Vicente León concorda que o pacto atende a interesses muito específicos de Washington e Caracas, que atualmente coincidem. “Para os Estados Unidos, há uma vantagem em termos de segurança, considerando as reservas, num momento em que as suas próprias estão em níveis historicamente baixos e os preços da gasolina estão muito altos. O conflito com o Irã não foi resolvido e pode se estender consideravelmente mais do que o previsto”, explica. “Para o governo venezuelano, a necessidade de recursos é urgente, e sua margem de manobra em relação aos Estados Unidos é limitada, porque a ameaça continua sendo crível.”
Ao anunciarem o acordo na sexta-feira, cada um em seu próprio discurso, os dois presidentes trocaram elogios. Para Trump, sua homóloga — ex-número dois de Nicolás Maduro e nomeada para o cargo pelos Estados Unidos após a operação militar que sequestrou o presidente venezuelano em 3 de janeiro e o levou para Nova York — é “enormemente respeitada”. Rodríguez, ex-inimiga de Washington e agora colaboradora do governo Trump, expressou sua “gratidão” ao governo americano por sua “disposição” em chegar a um acordo.
Segundo ambas as partes, o setor petrolífero venezuelano receberá um investimento de 100 mil milhões de dólares. Caracas estima que, a um preço de mercado de 65 dólares (56 euros) por barril, receberá cerca de 19 dólares por cada barril vendido, gerando royalties de aproximadamente 209 mil milhões de dólares ao longo de 25 anos.
O entusiasmo de Trump em promover o acordo, que ele descreveu na sexta-feira como um dos maiores da história, dá razão àqueles que denunciaram o fato de que a operação para derrubar Maduro nunca teve como objetivo real facilitar o retorno à democracia. O argumento usado por Washington durante meses para pressionar Maduro — a luta contra o narcotráfico, que o líder chavista era acusado de liderar — agora está esquecido. O que importava era o petróleo.
“O acordo prejudica ainda mais a imagem dos Estados Unidos na América Latina. A intervenção militar em janeiro poderia ter sido vista como um ato em defesa da democracia contra um regime brutal que tinha poucos aliados na região. Agora, é difícil argumentar que Trump não foi motivado principalmente pelo petróleo, fortalecendo as críticas dos EUA que sustentam que a política americana em relação à região nunca foi guiada por valores, mas por interesses econômicos”, afirma Benjamin Gedan, diretor para a América Latina no Stimson Center e ex-chefe da área da América do Sul no Conselho de Segurança Nacional de Barack Obama.
Trump já havia deixado claro seu interesse no petróleo bruto venezuelano mesmo antes da prisão de Maduro. Ele já havia sugerido que considerava ilegal a nacionalização do setor, ordenada por Hugo Chávez em 2007, e uma possível justificativa legal para uma ação militar dos EUA no país sul-americano. Um de seus primeiros atos na Casa Branca, após essa intervenção, foi se reunir com os presidentes das principais companhias petrolíferas para incentivá-los a investir.
Mas as principais empresas do setor resistiram até agora, dados os riscos que percebem na Venezuela. Isso precipitou a decisão de Trump de tornar o governo dos EUA o investidor neste acordo sem precedentes, no qual um escritório do Pentágono, o Escritório de Capital Estratégico, será a entidade gestora.
Uma das questões é justamente se as companhias petrolíferas aderirão ao acordo, dados os reveses que sofreram na Venezuela. E o pacto não só não resolve, como agrava, as dúvidas em torno do processo de transição e das eleições, que já haviam sido relegadas ao último passo da terceira fase de prioridades. “Minha interpretação é que esses contratos permanecerão protegidos com ou sem Trump. Podem ser modificados, mas dificilmente para pior, para os investidores ou para Washington”, afirma León. “O acordo anunciado é uma má notícia para a direção política do país”, acredita Gedan.
“Não tenho dúvidas de que Marco Rubio, o Secretário de Estado que liderou as negociações sobre o plano petrolífero pelo lado americano, está comprometido com uma transição democrática. Aliás, apesar da vergonhosa exclusão da líder da oposição, María Corina Machado, do processo, ele conseguiu iniciar negociações e dar um primeiro passo legislativo para restaurar a independência do Supremo Tribunal”, explica o especialista. “O desafio é que Trump não está interessado na democracia e, enquanto vir benefícios em sua amizade com Delcy, não se sentirá encorajado a promover um processo que, sem dúvida, terminaria com a saída dela do poder.”
Primeiro ponto de referência
Nos Estados Unidos, o primeiro grande teste do novo acordo está chegando. As eleições de meio de mandato acontecem em novembro, e Trump espera oferecer gasolina barata para combater os altos preços, a maior preocupação do eleitorado. As pesquisas sugerem um cenário em que os republicanos podem perder o controle da Câmara dos Representantes e talvez até do Senado, o que limitaria severamente a margem de manobra do presidente. Embora o acordo não reduza os preços dos combustíveis até lá — levará muito mais tempo para que isso aconteça, se acontecer —, o presidente quer usar o pacto para prometer que tempos melhores estão por vir.
Com as eleições de meio de mandato no horizonte imediato, o jornalista e escritor venezuelano Moisés Naím pede cautela e paciência. Os resultados de novembro serão decisivos para determinar o futuro de Trump e seus planos. “As promessas de Trump são todas sensacionalistas, ambiciosas, provocativas e controversas, e depois enfrentam contestações nos tribunais, no Congresso e na oposição. Portanto, se o acordo seguir o padrão de suas outras grandes propostas… não sairá do papel”, afirma Naím. Para o escritor, as dúvidas sobre a própria realização das eleições e sua credibilidade, dada a influência dos Estados Unidos em todas as decisões na Venezuela, são razoáveis, mas ele insiste em esperar. “Os resultados de novembro são muito mais importantes do que o debate sobre o petróleo. Eles determinarão tudo.”
“A questão eleitoral não é o objetivo imediato na Venezuela”, observa Luis Vicente León. Se a atual situação política persistir, León acredita ser previsível que os Estados Unidos também não queiram que ocorra qualquer mudança radical. “Mas a política é muito volátil e não é possível fazer uma projeção linear”, adverte. “Muitas variáveis devem ser levadas em conta. Entre elas, o desejo de mudança da população venezuelana, a força popular da liderança da oposição e as pressões internas nos Estados Unidos.” O analista Benigno Alarcón está confiante de que os Estados Unidos permitirão que a eleição prossiga e “que a pessoa que todos sabem que venceria neste momento vencerá”, afirma, referindo-se a María Corina Machado.
Enquanto isso, o regime chavista no poder se vangloria do acordo. Uma economia melhorada é a melhor — senão a única — vantagem eleitoral que Delcy Rodríguez tem para ser uma candidata competitiva em futuras eleições venezuelanas. Todo o seu círculo íntimo divulgou o acordo — até mesmo o filho de Nicolás Maduro o republicou em suas redes sociais —, mas ninguém ofereceu mais detalhes além da breve declaração oficial. Indira Urbaneja, uma das principais porta-vozes chavistas e associada próxima de Diosdado Cabello, ofereceu algumas pistas neste sábado, alertando: “Calma e serenidade!!!! Tudo está melhorando… São novos tempos políticos. São novos tempos econômicos. Só precisamos que essa riqueza seja vista nos bolsos das pessoas… Então teremos chavismo por 1.000 anos.” E, para que não restem dúvidas, em outro tweet, ela anunciou: “O chavismo vencerá a próxima eleição presidencial daqui a dois anos!!!”
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