Populismos, autoritarismos e resistências emergentes

14 Janeiro 2022

 

O Ciclo de Estudos “Populismos, autoritarismos e resistências emergentes” analisou criticamente os processos de emergência das ideologias e movimentos de diferentes cunhos - populistas, autoritários ou de resistência democrática - no século XXI, em resposta ou como consequência das crises das democracias liberais do Ocidente. O evento construiu um panorama de como esses diferentes movimentos emergiram no século XXI, que fatores os constituem e como podem incidir sobre a crise da democracia liberal. O evento foi viabilizado pelo apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul - FAPERGS.

 

O Prof. Dr. Henrique Carlos de Oliveira Castro da UFRGS, o Prof. Dr. Benjamin Teitelbaum da University of Colorado Boulder (EUA) e o Prof. Dr. Acácio Augusto da UNIFESP analisaram a crise da democracia ocidental no século XXI à luz das diferentes abordagens institucionais e culturais sobre a política, inferindo sobre as distintas compreensões acerca do termo populismo e suas formas de manifestação diante das crises das democracias.

 

A Profa. Tatiana Vargas-Maia da UniLasalle, o Prof. Dr. Pablo Semán da Universidade Nacional de San Martín (Argentina), o Prof. Dr. Massimo Faggioli da Villanova University (EUA) e a Ms. Maria Florencia Guarche Ribeiro da UFRGS refletiram sobre a ascensão de ideologias e regimes autoritários no século XXI, bem como o possível uso das identidades nacionais e religiosas para sua legitimação. Já o Prof. Dr. David Barkin da Universidad Autónoma Metropolitana (México) e a Profa. Dra. Alana Moraes de Souza da UFRJ e da UNIFESP prospectaram alternativas de resistência democrática construídas desde populações e territórios periféricos.

 

 

Prof. Dr. Benjamin Teitelbaum

 

Benjamin Teitelbaum é etnógrafo e comentarista político americano. Professor assistente de etnomusicologia da Universidade do Colorado e ex-chefe de estudos nórdicos da mesma instituição. Conhecido por sua pesquisa etnográfica em grupos de extrema direita da Escandinávia e comentários sobre imigração. 

Autor de Leões do Norte: sons do novo nacionalismo radical nórdico (Oxford University Press, 2017), um estudo etnográfico de nacionalistas radicais na Escandinávia e do livro Guerra pela Eternidade (Unicamp, 2020), um ensaio sobre a influência da escola perenialista sobre figuras contemporâneas associadas à extrema-direita.

 

Em sua conferência “A crise liberal e a ascensão do reacionarismo no século XXI”, Teitelbaum tenta responder por que teóricos do tradicionalismo, como Olavo de Carvalho (Brasil), Alexander Dugin (Rússia) e Steve Bannon (EUA) conseguem proeminência no cenário político no mesmo momento histórico. Segundo ele, o tradicionalismo é um “movimento espiritual-religioso que fez o caminho para a política durante a Segunda Guerra Mundial, rejeitando a noção de igualdade, de liberdade individual e que o progressismo está criando uma melhor sociedade”.

Para Teiltebaum, a conjunção desse movimento ideológico com governos e partidos políticos está ligado justamente com a crise da democracia liberal. A insatisfação popular com o establishment, o sentimento de não pertencimento ao sistema político liberal, cria um terreno comum para o populismo, uma revolta popular contra o status quo, dando espaço a movimentos de contracultura, excêntricos e de resgate do autoritarismo.

 

 

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Prof. Dr. Henrique Carlos de Oliveira Castro

 

Henrique Carlos de Oliveira Castro é Doutor e Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil, e professor convidado da UTPL (Universidad Técnica Privada de Loja), Equador e pesquisador e professor convidado do Instituto Kellogg de Estudos Internacionais da Universidade de Notre Dame (Cátedra Distinta da Fulbright Brasileira em Democracia e Desenvolvimento Humano), EUA. Pesquisador Principal da Pesquisa Mundial de Valores e Diretor Nacional no Brasil. Membro do Grupo de Trabalho Valores 20 (V20), uma comunidade global de especialistas e profissionais acadêmicos que visa propor políticas públicas nacionais e globais para os líderes do G20 com base em valores e centradas nas pessoas. Membro do Grupo de Apoio Especial (SGA) do Conselho de Relações Internacionais da Capes e consultor do programa Capes-Humboldt e da Comissão Fulbright.

A palestra de Castro abordou como a atual crise da democracia liberal é inerente à gênese do sistema. Para o cientista político, “o liberalismo social e econômico foi proeminente”, e exemplificou “na democracia dos EUA, ainda nas Treze Colônias, questionava-se quantos negros valiam um voto, já que o direito ao voto era condicionado ao poder econômico”. Do mesmo modo, estadunidenses e europeus exportaram esse modelo de democracia sob violência para as populações do Sul global.

O pesquisador ainda aponta que no Brasil houve uma importação acrítica desse modelo, sob conceitos e termos, sendo da democracia uma exceção na história do país. Castro expôs que a o regime democrático no Brasil está sob o jugo dos interesses das elites, em “um país que a desigualdade é enorme em todos os níveis”. Isso reflete de alguma forma no entendimento de democracia no país. Castro apresentando os dados da Pesquisa Mundial de Valores de 2018, conclui que a população em geral tem apreço à democracia, mas se confunde no que entende por democracia.“88% acham a democracia o melhor sistema [...] mas o que mais me assusta é que 31% da população gostaria de um governo sob leis religiosas e sem partido político”.

O professor conclui que a democracia no Brasil esbarra em cultura política muito autoritária, em que o uso da força é muito cultural, uma elite liberal-autoritária – contraditória em termos.

 

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Prof. Dr. Acácio Augusto

 

Acácio Augusto é doutor em Ciências Sociais (Política) pela PUC-SP. Professor no Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios - UNIFESP - campus Osasco e coordenador do LASInTec (Laboratório de Análise em Segurança Internacional de Tecnologias de Monitoramento). Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional da UFES. Pesquisador no Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) - PUC-SP. Integrante da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade - LAVITS. É autor de Anarquia y lucha antipolítica - ayer y hoy (Barcelona: NoLibros, 2019) e Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens (Rio de Janeiro: Lamparina, 2013). 

O professor Acácio Augusto situa sua fala a partir do fim da ditadura militar no Brasil. Para ele, a anistia dos burocratas militares levou a uma expansão maior da polícia dentro dos limites constitucionais. Essa condição do novo regime democrático garantia o acesso ao voto, mas na periferia e contra os sujeitos periféricos a violência permaneceu. Na sua definição, construiu-se uma democracia securitária, a inclusão social das periferias por meio do consumo e do seu controle pelas forças policiais.

Já as experiências educativas seguiram também esse processo de ser capturada pelo mercado, inclusive na ideia da inclusão. Desta forma, não é o ambiente educacional ordinários e seus participantes que construíram a resistência à democracia securitária. No entanto são os alvos do sistema, os encarcerados e suas famílias, por exemplo, que na lógica de autodefesa respondem à violência – e de forma violenta.

Assim, Acácio Augusto compreende que o processo democrático no Brasil não deu errado, mas os acordos construídos para a transição da ditadura militar estabeleceram o que se tem hoje com sucesso. E a resistência se aprende a partir da violência, pelos sujeitos alvos da guerra do Estado.

 

 

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Profa. Tatiana Vargas-Maia

 

Tatiana Vargas-Maia é doutora em Ciência Política pela Southern Illinois University - Carbondale (2015), mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006), bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006), e bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2004). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais, Política Comparada, Teoria Política, e na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea.

Nacionalismo religioso seria uma contradição em termos”, mas não é, explicou a professora Vargas-Maia. O nacionalismo sendo uma ideologia como forma de estabelecer uma ordem estatal superior à religiosa, se movimenta mais fortemente no século XXI capturado por elementos culturais, religiosos e étnicos.

O crescimento de nacionalismo religiosos, e étnico-religiosos, tem impactado diretamente na formulação de políticas públicas – embora, ressalta a professora, nem todo governo que retoricamente adere a uma religião, consegue colocá-la acima das tensões políticas. Da mesma forma esses governos identificados com religiões criam um novo arranjo da política internacional a partir da identificação para com os seus interesses religiosos, é o caso emblemático a partir do 11 de setembro de 2001.

Vargas-Maia encerra a palestra apontando que alguns autores definem que nacionalismo religioso consegue coadunar “lealdade e dever”, o que conseguiria mobilizar compactamente e mais fortemente indivíduos e grupos, podendo gerar dinâmicas de violência.

 

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Prof. Dr. Pablo Semán

 

Pablo Semán é doutor em Antropologia Social e licenciado em Sociologia, especialista em cultura de massa e popular. Trabalha em experiências religiosas, musicais e literárias. É pesquisador do CONICET na UNSAM, onde também atua como professor de graduação e pós-graduação. Autor e coautor de oito livros, mais de quarenta artigos publicados em revistas nacionais e internacionais e capítulos de livros relacionados à sua especialidade, dentre os títulos destacamos Vivir la fe: Entre el catolicismo y el pentecostalismo, la religiosidad de los sectores populares en la Argentina (Buenos Aires: Siglo XXI, 2021) e Religiones y espacios públicos en América Latina (Buenos Aires: Clacso, 2021).

 

 

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Prof. Dr. Massimo Faggioli

 

Massimo Faggioli é doutor em História da Religião e professor de teologia e estudos religiosos da Universidade de Villanova, na FiladélfiaEstados Unidos. Também é editor colaborador da revista Commonweal.

Destacamos os seguintes livros, de sua autoria: Cattolicesimo, nazionalismo, cosmopolitismo. Chiesa, società e politica dal Vaticano II a papa Francesco, (Armando Editore, 2018), The Liminal Papacy of Pope Francis: Moving Toward Global Catholicity, (Ed. Orbis, 2020) e Joe Biden and Catholicism in the United States (Ed. Bayard, 2021).

Na palestra intitulada “Francisco, Biden e os radicais de direita. Relações entre a polarização na Igreja e na Política”, ele apresenta paralelos entre a crise da democracia e a da Igreja católica, e explica como a política e a Igreja, mas também as religiões em geral, estão sendo cooptadas por grupos autoritários que defendem o nacionalismo.

“Se olharmos para o mapa global, vemos alguns desses movimentos de direita, por exemplo, nos EUA, nos últimos dez, 15 anos, e também em outros países, com outros nomes e outros líderes. Na Europa, podemos mencionar a Hungria, a Polônia e, na Itália, vamos ver o que vai acontecer daqui a dois anos, mas claramente esse movimento também está lá, assim como na Ásia, nas Filipinas, se quisermos falar de países católicos. Mas o nacionalismo também está moldando outras entidades religiosas, como na Índia, com Narendra Modi [primeiro-ministro indiano]. Logicamente também podemos olhar para os países latino-americanos, onde a religião se tornou parte de uma certa narrativa contra a globalização ou o liberalismo, de diferentes formas. Então, esse não é apenas um problema ocidental ou europeu, mas, sim, global”, constata.

Para Faggioli, o atual período da história da humanidade também expressa um sinal da crise da cultura de um projeto de direitos humanos cosmopolitano. “O que aconteceu nos últimos anos? Podemos ver o início, em 2014, 2015 e 2016, de uma nova onda de autoritários sendo eleitos em alguns países importantes nas Américas, na Rússia, na Ásia. Além disso, houve o Brexit e também a eleição do presidente Trump em 2016, a ocupação e retirada catastrófica dos EUA do Afeganistão, que foi muito mais do que um evento militar. Isso tudo diz algo sobre a crise dos liberais nas duas versões: a neoliberal e o projeto progressista neoliberal. É um sinal de que há algo que tem que ser reconcebido e repensado a respeito de que tipo de mundo queremos no Ocidente ou o que o Ocidente realmente quer”. E acrescenta: “Esse é um problema que realmente afeta o catolicismo”. 

 

 

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Ms. Maria Florencia Guarche Ribeiro

 

Maria Florencia Guarche Ribeiro é doutoranda e mestra (2019) em Ciência Política pelo programa de pós-graduação da UFRGS, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) (2015). Sua dissertação de mestrado intitula-se A Trajetória do Movimento de Mulheres no Noroeste do Curdistão: A institucionalização da Jineologî (1978-2018).

 

 

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Profa. Dra. Alana Moraes de Souza

 

Alana Moraes de Souza é doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional - UFRJ. Mestre pelo programa de Sociologia e Antropologia da UFRJ. (2012). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2010). Experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Política; Estudos de gênero, Movimentos sociais e práticas de conhecimento. Especialista em política contemporânea da América Latina pelo Institut des Hautes Etudes de l"Amerique Latine (IHEAL), Nouvelle Sourbonne Paris III com bolsa Master Île-de-France. É pesquisadora do Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento (Pimentalab) da Unifesp, onde desenvolve ações de pesquisa e de extensão.

 

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Prof. Dr. David Barkin

 

David Barkin é professor destacado da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM-X) da Cidade do México e pesquisador do Departamento de Produção Econômica da unidade de Xochimilco. Seus trabalhos são voltados para Economia Ecológica (EE), Economia Solidária e Ecologia Política. Realizou o doutorado em economia pela Universidade de Yale e ganhou o Prêmio Nacional de Economia Política (1979) por sua análise da inflação no México.

Sua pesquisa tem como foco a construção de um paradigma alternativo à racionalidade econômica capitalista e às instituições do projeto civilizatório ocidental, que responda à geração de bem-estar nas comunidades, e contribua para a promoção da diversidade social e econômica, bem como da proteção da biodiversidade.

 

 

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Apoio

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul

 

 

 

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