As chagas da Igreja e a tentação do feudalismo ontem e hoje. Artigo de Nunzio Galantino

Monumento a Antonio Rosmini | Foto: Settimana News

27 Agosto 2021

 

“A mentalidade feudal deve ser abandonada na Igreja porque ela é contrária ao humanismo e à própria fé cristã, que coloca todos diante de Deus no mesmo nível”, disse Dom Nunzio Galantino, presidente da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (Apsa) desde 2018, em conferência proferida no dia 24 de agosto durante o Simpósio Rosminiano 2021, intitulado “Entre César e Deus. A cultura do Risorgimento a 150 anos da Porta Pia”. O texto foi publicado por Settimana News, 25-08-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

 

Eis o artigo.

 

A fanfarra dos bersaglieri cedeu lugar ao pensamento meditante, em uma ocasião certamente importante para a Igreja e para a Itália, a ponto de estimular uma reflexão que os eventos recentes também tornaram atual e convincente.

 

O dia 20 de setembro de 1870 foi um momento “crucial” para a vida dos italianos e dos fiéis católicos, um momento que impôs, infelizmente de fora, a necessidade de uma reavaliação da comunidade eclesial e do seu ser-no-mundo.

 

Tal processo de “conversão” já havia iniciado de algum modo em julho do mesmo ano, com a celebração daquele que J. H. Newman chama de “Concílio [Vaticano I] inacabado”, não apenas porque foi interrompido. Para além de uma certa historiografia laicista, que considera a promulgação do dogma da infalibilidade e do primado do Romano Pontífice como uma espécie de revanche à perda, já iminente, do poder temporal, com um sensus Ecclesiae mais profundamente teológico, o caso pode ser lido e interpretado como o início de um caminho de “purificação” e de “espiritualização” da figura do bispo de Roma e da autoridade na Igreja.

 

Poderíamos viver o resultado desse percurso acidentado e nem sempre linear no Concílio Vaticano II, do qual mestres como Newman e Rosmini são justamente considerados precursores e profetas.

 

Para além da dimensão política relevante, embora relevante, devemos tentar captar o valor cultural e teológico daquele momento histórico. A brecha é uma metáfora do avanço da modernidade na Igreja, com todos os traumas (pensemos nas vicissitudes do modernismo) e o fascínio que esse encontro/confronto produziu e gera ainda hoje.

 

Antonio Rosmini já havia profeticamente entrevisto e descrito de algum modo o trauma e a necessidade de uma autêntica conversão eclesial, desde os anos 1930, período da redação das “Cinco chagas”, obra que ele publicaria imprudentemente em 1848 e que seria posta no Índex no ano seguinte, e com o qual lidei principalmente em nível de reconstrução e de edição crítica na última versão desejada pelo seu autor.

 

A atualidade das “Cinco chagas”

 

A atualidade das chagas e do pensamento rosminiano foi recentemente destacada em dois artigos de Pino Lorizio, publicados na revista Famiglia Cristiana por ocasião da pandemia e do aniversário que estamos recordando [disponíveis em italiano aqui e aqui].

 

A reflexão que pretendo propor aqui, levando em conta esses impulsos de atualidade, pretende, no entanto, desdobra-se a partir de duas expressões que encontramos nas “Cinco chagas”, relativas à tentação do feudalismo:

 

“O feudalismo foi a única ou certamente a principalíssima fonte de todos os males [da Igreja] (§ 130) e, nesse sentido, oferece a possibilidade de uma leitura transversal das chagas.”

 

“O feudalismo em grande parte caiu e vai desaparecendo cada vez mais na presença da incivilização das nações, assim como as sombras fogem aos raios de luz: a Igreja não tem mais feudos. Mas do feudalismo sobrevivem os seus princípios legais, os seus hábitos, o seu espírito: a política dos governos se inspira nele, os códigos modernos herdaram da Idade Média uma tão infausta herança” (§132).

 

Para facilitar a leitura transversal das chagas à luz do feudalismo, reproduzimos o esquema delas:

 

Embora o tratamento específico do “feudalismo” se encontre precipuamente na exposição da quarta e, sobretudo, da quinta chaga, o próprio Rosmini aplica tal categoria histórica a todo o percurso.

 

Com o subsídio de Jacques Le Goff (“A civilização do Ocidente medieval”, Edusc, 2005) também podemos destacar, previamente, as três passagens historiográficas que caracterizaram o uso do termo a partir:

1) do contexto jurídico inglês, que segue

2) a acepção propriamente política, para chegar

3) à forma mentis, ou seja, à mentalidade feudal, da qual Rosmini nos advertia.

 

O feudalismo como mentalidade

 

Tal mentalidade se encontra na primeira chaga da Santa Igreja, ou seja, a separação do clero do povo, particularmente no culto. Rosmini se expressa assim: “Como senhorio, ele [o feudalismo] dividiu o clero do povo (Chaga I), e partiu o próprio clero em duas partes, que foram chamados injuriosamente de alto e baixo clero, substituindo a relação de pai e filho, que o vinculava, pela de senhor e súdito que o desvincula: daí a negligenciada educação do clero (Chaga II)” (§ 130).

 

A presença de tal mentalidade no hoje da Igreja, que, além disso, é inimiga do Vaticano II, é amplamente demonstrada pelo recente pronunciamento do Papa Francisco sobre a missa segundo o rito tridentino.

 

A forma mentis feudal subjaz e sobrevive na segunda chaga: a insuficiente educação do clero. Deveríamos nos perguntar quem se beneficia da ignorância dos padres e do clero em geral: certamente o laicismo que, apostando nela, pode facilmente demonstrar que a fé cristã pertence ao obscurantismo cultural, mas também, ai de nós!, os diversos membros do episcopado, que preferem, precisamente com atitude feudal, ter um clero não pensante, mas obediente, razão pela qual, muitas vezes, o padre que quer estudar o faz por sua conta e risco.

 

No entanto, não seria difícil mostrar o papel cultural de tantos párocos, por exemplo nas periferias das grandes cidades ou em localidades remotas, onde a única estrutura cultural, justamente, foi e muitas vezes ainda é a paróquia. Afinal, se a Igreja é hospital de campanha, então ela precisa investir na pesquisa, porque a clínica precisa do laboratório [cf. Pino Lorizio, disponível em italiano aqui].

 

 

Na chaga do costado (a divisão entre os bispos) a mentalidade feudal se insinua como atitude de quem pensa a própria diocese justamente como um feudo e o episcopado como um privilégio e um prêmio.

 

Rosmini escreve: “A divisão entrou no alto clero, isto é, nos bispos entre si, esquecidos da fraternidade, mêmores do ciúme senhoril tanto por conta própria quanto por conta do príncipe, a cuja vassalagem pertenciam, permanecendo assim cada bispo separado do povo e sequestrado do episcopado inteiro (Chaga III)” (§ 130).

 

Não é difícil entrever tal mentalidade na enorme dificuldade que está sendo vivida na Igreja italiana de fazer com que se aceite uma mentalidade sinodal, fortemente desejada pelo Papa Francisco no Congresso de Florença em 2015, mas até agora desatendida e retomada apenas pelas insistências do bispo de Roma e de alguns de seus iluminados colaboradores.

 

E se a Igreja italiana – como disse o papa em Florença [disponível em português aqui] – deve ser uma “Igreja inquieta”, só assim abandonará a mentalidade feudal, que, ao invés disso, é estática e tranquilizadora, além de autorreferencial.

 

A chaga da subserviência ao poder político dominante manifesta ainda mais o mal do feudalismo: “Como servidão, além disso, o feudalismo, assujeitados os bispos pessoalmente ao Senhor temporal como fiéis e homens seus, acorrentou ignominiosamente a Igreja com todas as suas coisas ao carro do poder laical, que a arrastou por todos aqueles penhascos e precipícios, nos quais ela, em seu curso irregular e falacioso, frequentemente vai se quebrando e afundando, e, depois de mil degradações e mil calamidades, despojada impunemente dos domínios recebidos, se encontra tão esgotada de forças a ponto de não saber como conservar e defender para si mesma a nomeação dos seus próprios pastores (Chaga IV)” (§ 130).

 

 

Poder-se-ia pensar em uma grande distância cronológica em relação a essa chaga, mas, se olharmos a fundo, notaremos que não é assim: quando os homens da Igreja buscam o consenso do poder político, a Igreja vê a própria liberdade sendo minada e sofre chantagens e obstruções que a impedem de anunciar a “ipsa puritas Evangelii” (Concílio de Trento).

 

Tais chantagens muitas vezes dizem respeito aos bens temporais (Chaga V): “O que corrompe e degrada o clero não são as riquezas livres, mas as servas: foi a servidão dos bens eclesiásticos a razão deplorável pela qual a Igreja não pôde conservar as suas antigas máximas em torno dos bens eclesiásticos, nem regular livremente e com o seu próprio espírito a sua aquisição, administração e dispensação como convinha. E essa falta de oportunos procedimentos para a administração e o uso dos bens da Igreja em conformidade com as antigas máximas e o espírito eclesiástico é precisamente a quinta chaga que, no entanto, aflige e martiriza o seu corpo místico” (§ 131).

 

Rosmini certamente não é um pauperista, mas percebe profundamente quantos desastres provoca no clero e no povo de Deus o apego ao dinheiro e às propriedades não voltado à evangelização e à caridade [cf. Famiglia Cristiana, disponível em italiano aqui].

 

“... no poliedro, o melhor de cada um” (Evangelii gaudium, 236-237)

 

Em última análise, podemos assim sintetizar a necessidade de um processo de superação do sistema feudal, mediante um autêntico caminho de conversão.

 

- O sistema feudal pode ser representado por meio da figura da pirâmide:

Pirâmide de Quéfren (Foto: Menphis Tour)

 

O contexto do antigo Egito, ao qual a imagem remete, fala muito sobre o modo de entender o poder faraônico, que não deixou de se insinuar na Igreja.

 

- Muitas vezes se pensa que o contrário da pirâmide é a esfera:

 


(Foto: Pixabay)

 

Muitas vezes, repetimos que, com o Vaticano II, um modelo piramidal seria substituído por um modelo circular na visão da Igreja, das suas estruturas e da pastoral, mas o Papa Francisco nos ensinou que “o modelo não é a esfera, pois não é superior às partes e, nela, cada ponto é equidistante do centro, não havendo diferenças entre um ponto e o outro” (Evangelii gaudium, n. 236).

 

Portanto, trata-se do poliedro:


 (Foto: Pixabay)

 

“O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade. Tanto a ação pastoral quanto a ação política procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projetos e as suas próprias potencialidades. Até mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros têm algo a oferecer que não se deve perder.

 

“É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos.

 

“A nós, cristãos, esse princípio fala-nos também da totalidade ou integridade do Evangelho que a Igreja nos transmite e envia a pregar. A sua riqueza plena incorpora acadêmicos e operários, empresários e artistas, incorpora todos.

 

“A ‘mística popular’ acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa. A Boa Nova é a alegria de um Pai que não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos. Assim nasce a alegria no Bom Pastor que encontra a ovelha perdida e a reintegra no seu rebanho.

 

“O Evangelho é fermento que leveda toda a massa e cidade que brilha no cume do monte, iluminando todos os povos. O Evangelho possui um critério de totalidade que lhe é intrínseco: não cessa de ser Boa Nova enquanto não for anunciado a todos, enquanto não fecundar e curar todas as dimensões do ser humano, enquanto não unir todos os seres humanos à volta da mesa do Reino. O todo é superior à parte” (Evangelii gaudium, nn. 236-237).

 

Conclusão

 

Para concluir: a mentalidade feudal deve ser abandonada por pelo menos dois motivos fundamentais, que também podem ser encontrados na história do Ocidente:

 

- Ela é contrária ao humanismo, no qual o Congresso de Florença pretendia se inspirar, na sua contraposição à visão medieval da Igreja e da sociedade.

 

- Ela se opõe à fé cristã, que coloca todos diante de Deus no mesmo nível, como ensina o Evangelho e nos lembra a Fratelli tutti.

 

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU:

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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