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17 Setembro 2019

"Retomando uma imagem que lhe é cara, o Papa Francisco no avião disse: 'A globalização não é uma esfera: todos iguais, cada ponto equidistante do centro, mas um poliedro, onde cada povo e nação conserva a sua identidade e se une a toda a humanidade'. Estamos, assim, diante da policromia e da polifonia da humanidade que as jovens populações e gerações sabem expressar e que em nós, habitantes da velha 'avó Europa' deveriam despertar admiração e alegria de viver, que é a alegria do Evangelho", escreve Pino Lorizio, em artigo publicado por Famiglia Cristiana, 13-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há pelo menos três razões encantadoramente teológicas que podemos encontrar nas palavras endereçadas pelo Papa Francisco aos jornalistas em resposta às suas perguntas, na viagem de volta da visita a Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício.

A primeira, a mais repercutida por todas as mídias, diz respeito ao tema de um possível "cisma", temido por causa das duras críticas que são dirigidas a seu pontificado por setores reacionários do catolicismo estadunidense. "Não tenho medo de cismas, rezo para que não aconteçam", afirmou o papa. Uma leitura superficial poderia sugerir uma atitude de autossuficiência, tendendo a minimizar a ameaça daquela que podemos considerar uma das maiores tragédias que a comunidade de crentes pode viver, ou seja, a divisão interna daquele povo de Deus, por cuja unidade o próprio Senhor orou. Em vez disso, trata-se uma visão inspirada no Novo Testamento e, em particular aos ensinamentos paulinos, uma vez que o apóstolo em uma de suas cartas mais importantes, a I Carta aos Coríntios, escrevia que "é necessário que ocorram divisões entre nós" (1 Cor 11, 19) [o texto em grego diz: δεῖ γὰρ καὶ αἱρέσεις ἐν ὑμῖν εἶναι, literalmente "é necessário que ocorram heresias em nós"].

A história da teologia nos ensina que temos uma heresia não quando somos confrontados com uma falsidade da doutrina, mas quando um aspecto das verdades da fé é radicalizado em detrimento do todo. Por exemplo, se eu afirmar que Jesus é apenas Deus, de fato afirmo uma heresia, assim como se eu afirmar que Jesus é apenas um homem. A verdade sobre a identidade de Cristo, afirmada no dogma de Calcedônia (451 d.C.), é que Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Assim, quando se afirmar que a ética cristã é uma afirmação pura e simples de valores absolutos e objetivos e não inclusive atenção à situação das pessoas e das comunidades, de fato está sendo lacerada a complexidade da fé e da moral. E se em torno dessa posição unilateral fosse estabelecida uma comunidade (melhor seria dizer "seita"), alternativa à Igreja, teríamos o cisma.

A heresia é, portanto, um corte, uma laceração da verdade católica, o cisma, a divisão do corpo eclesial. Paulo, diante das fortes divisões presentes na comunidade de Corinto, afirma que elas são necessárias "para que se manifestem aqueles que são os verdadeiros crentes", ou seja, aqueles que trabalham pela unidade da comunidade e se opõem às lacerações. É interessante, por fim, observar a esse respeito como no restante desse capítulo da carta paulina está encastoado o mais antigo atestado do Novo Testamento sobre a ceia do Senhor, ou seja, a Eucaristia, onde se expressa sacramentalmente a unidade da comunidade de crentes.

A segunda razão diz respeito ao tema do proselitismo e do testemunho em relação à evangelização. A esse respeito, o Papa Francisco, em várias ocasiões, adverte os envolvidos na missão evangelizadora da Igreja para não adotar comportamentos e linguagens próprias de quem, pelo contrário, tende ao proselitismo. Isso porque, afirma o papa, o testemunho da vida deve preceder a palavra e suscitar perguntas às quais a Palavra de Deus responde.

Adotando essa perspectiva, o Papa Francisco insere seu magistério naquele do Concílio Vaticano II e na doutrina de revelação que aquele concílio promulgou na constituição dogmática Dei Verbum, onde no no. 2 lemos que "a revelação divina é feita através de gestos (fatos) e palavras (gestis verbisque), intrinsecamente conectados", nem podemos considerar casual o fato de que no texto se faça preceder o gesto, o fato, o evento à palavra, pois o cristianismo é antes de mais nada o acolhimento de um evento, através do qual o Eterno irrompe no tempo, o Infinito no finito, o Transcendente na imanência. Coerentemente com tal dinâmica da revelação, a missão será estruturada de acordo com a sequência: fatos (gestos), palavras, fé. E será precisamente essa sequência que nos impedirá de ceder a atitudes proselitistas, que reduzem o evangelho e a fé a mera ideologia.

Finalmente, o tema da diversidade como riqueza e a necessidade de diálogo inter-religioso. Já no encontro com os jovens em Maputo, havia afirmado: "Obrigado pela presença das diferentes confissões religiosas. Obrigado porque vocês se encorajam a viver o desafio da paz e celebrá-la hoje juntos como família, incluindo aqueles que, embora não pertençam a nenhuma tradição religiosa, vieram participar ... Assim se experimenta que todos somos necessários: com nossas diferenças, mas necessários. As nossas diferenças são necessárias". E, na conferência de imprensa, retomou a mensagem, sobre a qual frequentemente insiste, sobre a necessária contraposição a uma globalização que se resolva na homologação das diferenças e das identidades de povos, culturas e religiões.

Retomando uma imagem que lhe é cara, o Papa Francisco no avião disse: "A globalização não é uma esfera: todos iguais, cada ponto equidistante do centro, mas um poliedro, onde cada povo e nação conserva a sua identidade e se une a toda a humanidade". Estamos, assim, diante da policromia e da polifonia da humanidade que as jovens populações e gerações sabem expressar e que em nós, habitantes da velha "avó Europa" deveriam despertar admiração e alegria de viver, que é a alegria do Evangelho.

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