Europa, uma guerra oculta. Artigo de Domenico Gallo

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18 Novembro 2021

 

É curioso que a Europa, um continente em crise demográfica, no qual cresce o envelhecimento da população, rejeite as crianças refugiadas e acampadas no frio da floresta polonesa, privando-se dos seus sonhos, da sua alegria de viver, da sua energia de vida, e se cerque de arame farpado nas fronteiras.

A opinião é de Domenico Gallo, juiz italiano e conselheiro da Suprema Corte de Cassação da Itália, em artigo publicado em Chiesa di tutti, Chiesa dei poveri, 17-11-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

 

Eis o texto.

 

“Batei e vos será aberto”, o bem conhecido versículo do Evangelho de Lucas é interpretado em sentido contrário na catolicíssima Polônia: “Batei o quanto quiserdes, nunca vos será aberto”. Ou, melhor, não só não vos será aberto, como também vamos erguer um muro, assim como ocorreu em Berlim em agosto de 1961, para impedir que qualquer pessoa atravesse a fronteira.

Esse foi o anúncio feito no dia 15 de novembro pelo primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, que especificou que a construção começará já no mês de dezembro. No mesmo dia, em uma entrevista concedida à Agência Pap, o premier polonês ventilou a intervenção da Otan: “Estamos discutindo com a Letônia, mas principalmente com a Lituânia, se não devemos pôr em funcionamento o artigo 4º da Otan. Parece-nos que precisamos cada vez mais disso (...). Já sabemos que as palavras não bastam para deter o regime bielorrusso”. O artigo 4º do Tratado da Otan diz respeito à defesa externa.

Já é evidente que nos encontramos diante da eclosão de uma nova guerra fria, uma guerra oculta, do nascimento de uma nova cortina de ferro, deslocada um pouco mais para leste do que a anterior, mas igualmente marcada por muros, extensões de cavalos frísios, exércitos que se confrontam, armas que se acumulam.

Então, é preciso nos perguntar onde está o casus belli, qual é o objeto da controvérsia que nos lançou em uma crise tão profunda e grave? Onde estão as tropas que ameaçam a fronteira polonesa e com que armas?

É paradoxal, mas a armada que ameaça a Polônia e as fronteiras orientais da União Europeia é um esparso núcleo de homens, mulheres e crianças, acampados em uma floresta fria e gelada, armados apenas com a esperança de uma vida melhor, furtada pelos insultos da violência e da fome das quais fugiram.

Certamente, essas pessoas foram levadas à fronteira no âmbito de uma política cínica que explora o seu desespero como moeda de troca política ou como revanche contra as sanções que a União Europeia adotou contra a Bielorrússia, mas isso não muda a substância do problema: a recusa de toda a forma de solidariedade e acolhida humanas aos refugiados que se espalha por toda a União Europeia e assume as características de uma verdadeira paranoia na Polônia e na Hungria.

Falando do drama dos migrantes na inauguração do ano letivo em Siena, o presidente da República, Sergio Mattarella, afirmou: “É desconcertante aquilo que está ocorrendo nas fronteiras da União Europeia. Há uma lacuna com os princípios proclamados (...). É surpreendente a lacuna entre os grandes princípios proclamados e o fato de não levar em conta a fome e o frio a que seres humanos estão expostos nas fronteiras da União”.

Mesmo sem tirar as conclusões políticas, Mattarella quebrou o tabu da indiferença, ao qualificar os refugiados amontoados na fronteira não como invasores, nem como estrangeiros, mas como “seres humanos”. É precisamente essa a questão. As políticas de rejeição dos fluxos migratórios adotadas pela União Europeia só se sustentam ao preço de desumanizar a multidão de refugiados, de considerá-los como uma mercadoria indesejada a ser bloqueada nas fronteiras ou, melhor ainda, antes que chegue às fronteiras da União Europeia.

Existe uma lacuna desconcertante entre os grandes princípios proclamados solenemente na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e aquilo que está ocorrendo debaixo dos nossos olhos. Que sentido tem em declarar que a dignidade humana é inviolável (Artigo 1º), que toda pessoa tem direito à vida (Artigo 2º), que toda pessoa tem direito à sua própria integridade física e mental (Artigo 3º), se depois deixamos as pessoas acampadas na fronteira morrerem de fome e de frio, que sentido tem em reconhecer o direito ao asilo (Artigo 18º) de acordo com a Convenção de Genebra de 1951, se depois impedimos os refugiados de se apresentarem na fronteira para pedir asilo?

Até Putin pôde se dar ao luxo de cutucar a União Europeia, ao observar que ela não respeita os seus próprios princípios humanitários. É verdadeiramente absurdo que se monte um exército preparado para a guerra para proteger a fronteira do ataque de 4.000 pessoas desarmadas que pedem apenas para poderem viver. Cerca de 400 milhões de pessoas vivem na União Europeia. Os refugiados acampados na fronteira polonesa, percebidos como uma ameaça pelos líderes soberanistas, não representam sequer 0,01% da população europeia.

Nos últimos 10 anos, 876.000 pessoas desembarcaram na Itália vindas pelo mar; uma pequena parte foi repatriada, todas as outras foram absorvidas sem dramas pela Itália e pelos outros países europeus. É curioso que o Conselho dos Ministros do Exterior tenha aprovado novas sanções contra a Bielorrússia, sem mover um dedo para permitir que as pessoas acampadas na floresta pudessem ser acolhidas por algum país europeu.

É curioso que um continente em crise demográfica, no qual cresce o envelhecimento da população, rejeite as crianças acampadas no frio da floresta, privando-se dos seus sonhos, da sua alegria de viver, da sua energia de vida, e se cerque de arame farpado nas fronteiras.

São urgentes uma revolta moral e uma ação política coerente: devemos exigir que os refugiados na fronteira sejam salvos, para salvar a honra e a alma da Europa

 

 

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