"Nós matamos para dominar. Apenas sofisticamos Caim com mais tecnologia, não há mais necessidade de um bastão ou de uma espada. Nem mesmo estabelecemos campos de batalha limitados, como em guerras medievais. Desde que entramos na era nuclear, na II Guerra Mundial, aprendemos a matar de forma massiva, cidades e regiões inteiras, e tudo assepticamente à distância", escreve Luiz Carlos Susin, doutor em Teologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Luiz Carlos Susin (Foto: Arquivo PUCRS).
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Entramos em uma nova marca histórica: o incremento de armas. Nem precisamos listar aqui o aumento de conflitos ao redor do mundo. Uma das consequências deles, porém, além do rastro de mortes, destruição, empobrecimento, novas formas de colonização e exploração, é a nova corrida armamentista com novas e mais sofisticadas tecnologias para matar e vencer. A pomba da paz é a primeira vítima.
Na entrada de um tradicional batalhão do exército situado em Porto Alegre há a antiga afirmação que lembra o império e a Pax romana: “Si vis pacem, para bellum” – Se queres a paz, prepara a guerra. Expressa a convicção e a experiência romana de que são as armas que garantem a paz. Na melhor das hipóteses, como dissuasão: não se ousa guerrear quem é militarmente mais forte. Essa convicção não é somente romana nem somente imperialista, é do senso comum, aplica-se ao nosso cotidiano em circunstâncias diversas. O elegante presidente da França, em meio à guerra difusa no Oriente Médio e Estados Unidos, ao ordenar o aumento de ogivas nucleares para a França, disse com absoluta clareza: “Para ser livre, é necessário ser temido, e para ser temido é necessário ser poderoso”.
Macron segue a lógica que a humanidade, ainda indistinta dos primatas, quando se desceu das árvores, portanto desde a era da vida em bandos e cavernas. Até nossos dias, ora de forma cínica, ora de forma sofisticada, é a “lei do mais forte”. Não progredimos como civilização e como humanidade. Não há progresso linear, e na violência e na morte ao outro, podemos ser piores que os animais, que só matam para comer. Nós matamos para dominar. Apenas sofisticamos Caim com mais tecnologia, não há mais necessidade de um bastão ou de uma espada. Nem mesmo estabelecemos campos de batalha limitados, como em guerras medievais. Desde que entramos na era nuclear, na II Guerra Mundial, aprendemos a matar de forma massiva, cidades e regiões inteiras, e tudo assepticamente à distância.
O conceito de ser humano elaborado e explicado por Edgar Morin é honesto e cru: não somos apenas homo sapiens, ou, depois que se comprovou a inteligência para além do animal humano, não somos apenas homo sapiens sapiens – os únicos que sabem que sabem. Somos homo sapiens demens. Somos tão dementes, loucos, quanto sábios: nós utilizamos nosso saber para inventar nossa destruição. Assim, nosso saber termina em loucura, até porque hoje a destruição do outro acarreta imediatamente a própria destruição e até de todo o mundo ao redor. Afinal, tánatos vence sobre eros, o ódio à vida vence sobre o amor à vida, como lembrava reiteradamente Jürgen Moltmann. E a paz final é a paz do cemitério e das paisagens de destruição. O premiado filme “Nada de novo no Front” ( All quiet on the Western Front ) ilustra esta tragédia da humanidade de forma exemplar.
E então surge o novo Papa no balcão da basílica de São Pedro, com suas primeiras palavras, a saudação de paz, a Paz de Cristo em tempos de Páscoa, uma paz que seja “desarmada e desarmante”. Inteiramente ao contrário do mandato “Se queres a paz, prepara a guerra”.
Apesar da solenidade do momento, as palavras de Leão XIV se extraviam no meio do rufar de tambores de guerra que já escutamos por trás das palavras do presidente francês, repercutindo o presidente americano: “Para ser livres é necessário ser temido. E para ser temido, é necessário ser poderoso” (il faut être puissant). Essa afirmação faz lembrar o confronto entre Pilatos e Jesus na narrativa de João. Jesus tinha sido aprisionado por soldados romanos e guardas do templo que foram captura-lo armados. E agora Pilatos, o representante do poder romano, avisa Jesus: “Não sabes que eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?” (Jo 19,10). É a lógica que leva à crucificação de quem tinha afirmado antes a Pilatos: “Se meu reino fosse deste (teu) mundo, meus súditos teriam combatido (...) vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade, escuta a minha voz” (Jo 18, 36-37). É o confronto do poder sem verdade com a verdade sem poder, confronto das armas com a palavra da verdade. A sequência trágica foi a cruz.
E, no entanto, a paz é a marca de ressureição, junto com as marcas da crucificação - as chagas, agora transfiguradas. E os seguidores de Jesus começam finalmente a entender as palavras de despedida na ceia do lava-pés: “Eu vos deixo a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá” (Jo 27). A paz do mundo é paz armada; a paz de Jesus é paz desarmada. Na tradição cristã ela é frequentemente representada na pequena bandeira branca levantada por um cordeiro, e que se pode ver frequentemente sob o altar ou na porta do sacrário ou mesmo desenhada na hóstia sobre o altar. É a paz do Cordeiro de Deus, a paz que provém da vítima, do seu perdão e da sua reconciliação sem limites, inclusive para seus assassinos. A tentativa de usar Jesus como bode expiatório por parte das autoridades unanimemente conspiradas não deu certo: o túmulo está vazio, e o que temos não é o bode, mas o Cordeiro e a sua oferta de paz. Na sua bandeira branca está normalmente representado um fio vermelho de sangue: a paz de Cordeiro não tem o preço das armas, mas o preço de sua vida até o sangue.
A lógica do mundo das armas sorri com a ironia de Pilatos – diante do poder das armas, o que pode a verdade, “que é a verdade?” (Jo, 18, 38). A verdade desarmada pode ser tomada por ingenuidade, idealismo e romantismo. Mas é ela que tem o paradoxal poder de romper a lógica da paz armada e oferecer os termos de uma paz desarmada e desarmante. A palavra da verdade parece flor frágil em meio a canhões e mísseis, assim como sua promessa de paz é mansa em meio ao turbilhão da guerra, mas ela é muito exigente, tem alto preço, exige a oferta da outra face. Esse ensinamento foi vivido pelo próprio Jesus quando foi esbofeteado na presença dos chefes de Jerusalém. A outra face é justamente a palavra que convoca à razão – “porque me bates?”. A guerra, afirmava o filósofo judio Emmanuel Levinas, suspende a moral. A única possibilidade de romper a lógica que desencadeia uma guerra após a outra e introduz uma paz definitiva, é a palavra com a autoridade de quem põe sua vida como caução. Por isso na representação do Cordeiro, ele é assentado sobre um livro – a autoridade da Palavra de quem deus sua vida como caução.
Uma narrativa a respeito de São Francisco coloca a guerra e a paz em ambiente medieval. É o capítulo 21 do livro dos Fioretti, um florilégio de narrativas edificantes para transmitir o espírito franciscano. Em síntese: Gúbio, uma cidade vizinha de Assis estava em pé de guerra por causa de um lobo voraz que rondava a cidade. Francisco se apresenta como mediador de paz. Ele caminha sozinho e desarmado em direção ao lobo, para espanto dos cidadãos que observam dede os muros da cidade. O lobo avança ameaçador, e a primeira palavra de Francisco é “Irmão lobo”, que coloca o lobo em atenção. Em seguida Francisco diz a verdade sem enfeites: tu foste violento, mereces punição. Mas logo acrescenta: sei que foi a fome que te levou a isso. Francisco reconhece as “razões” do lobo, e oferece um pacto de pacificação com a cidade. Assim, juntos – Francisco como “fiador” do lobo, da parte mais fraca - vão até a pequena multidão espantada e Francisco diz outra verdade: a cidade não alimentou o lobo, pelo contrário, o maltratou. E então celebra o pacto: o lobo andará mansamente pelas ruas e será alimentado por todos. Voltou a reinar a paz, uma vitória sem vencidos, todos ganharam. Em conclusão: a palavra trouxe um pacto de reconciliação e pacificação. Mas para isso o mediador escutou os dois lados e as razões de cada parte, e só conseguiu fazer valer a palavra com autoridade porque ele, Francisco, despojado desde sua conversão juvenil, era livre para a paz sem usar o poder e as ameaças das armas.
Essa narrativa edificante interpreta, na realidade de Francisco, alguns episódios históricos: aos leigos que, mesmo em família, queriam seguir seu modo de vida, prescreveu o compromisso de andar sem armas – num mundo feudal que se caracterizava pelo espírito bélico e por muralhas. Já no final de seus dias, sabendo do conflito entre as autoridades de Assis - o prefeito e o bispo - enviou dois frades para cantar a eles o Cântico do Sol com o acréscimo de uma estrofe: Bem-aventurados serão os que perdoam e fazem a paz, pois pelo Altíssimo serão coroados. E foi eficaz. Francisco é invocado como santo da paz, instrumento de paz. É o que celebramos nesse ano de 2026, nos 800 anos de sua morte: um jubileu franciscano para toda a Igreja.
É possível ser da paz em meio a uma civilização de guerras? Tolstoi, em seu clássico Guerra e Paz, contextualizado nos desastres das guerras napoleônicas, considera que subjetivamente há quem aspire a paz, mas objetivamente a história carrega de roldão todas as subjetividades para dentro de políticas de guerra. No entanto, foi justamente Tolstoi, depois de se despojar de suas propriedades como Francisco, quem desencadeou um movimento revolucionário pacífico na Rússia. Seu método foi inspiração para Gandhi, que foi inspiração para Martin Luther King e para a mudança para a paz de Mandela e o arcebispo Desmond Tutu na África do Sul, todos de inspiração religiosa em movimentos eficazes. A paz desarmada e desarmante, com a autoridade da palavra, é possível, ainda que pareça frágil.