06 Março 2026
"Desde 1970, o Ecofeminismo é uma corrente do feminismo que liga a exploração da natureza com as opressões que as mulheres sofrem. São opressões, todas enraizadas na cultura patriarcal e capitalista. Esse movimento mostra que a dominação masculina e patriarcal sobre a natureza e sobre o corpo feminino tem a mesma lógica. Por isso, o ecofeminismo propõe justiça socioambiental, que valorize o cuidado com as pessoas, a sustentabilidade ecossocial e não mais a maximização do lucro."
O artigo é de Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor. Assessora movimentos sociais e comunidades eclesiais de base e é membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.

Marcelo Barros (Foto: Arquivo pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Eis o artigo.
A cada ano, a humanidade celebra o dia internacional da mulher e constata que, na sociedade, a condição feminina ainda não foi radicalmente transformada. No Brasil, as estatísticas mostram que, apesar de leis mais claras e até de um Ministério das Mulheres, como organismo de governo, muitas mulheres ainda sofrem abusos e violências.
Infelizmente, as religiões que deveriam ser instrumentos de humanização e justiça, quase todas têm sido injustas com as mulheres. Desenvolvem uma visão patriarcal de Deus e da fé. Fazem leitura fundamentalista de textos sagrados, escritos em antigas culturas patriarcais. Por isso, sustentam que o homem deve ser o chefe da família e discriminam a mulher no acesso aos ministérios de coordenação eclesial. No Judaísmo, só na corrente mais aberta, as mulheres podem ser rabinas e ainda não são muitas as que conseguem. No Islã, em geral, os imãs são homens. No Hinduísmo não existem mulheres reconhecidas como lamas (gurus). No Cristianismo, as Igrejas orientais e a Católica não aceitam o sacerdócio feminino. Igrejas evangélicas aceitam, mas em um modelo de ministério, pensado a partir do masculino e dentro de uma Igreja ainda patriarcal.
Apesar da marginalização injusta que as mulheres sofrem por parte da maioria das religiões, nas diversas tradições espirituais elas formam a maioria das comunidades e, nelas, assumem responsabilidades.
Apenas nas religiões de matriz africana, as mulheres sempre tiveram papel importante. Vários templos do Candomblé são coordenados por Yalorixás, ou mães de santo, reconhecidas como sacerdotisas.
Entre todas as grandes mudanças sociais, características do século XX, o feminismo foi uma das principais conquistas da sociedade. Foi a maior revolução pacífica da nossa história recente. O feminismo nasceu fora das religiões, transformou a democracia e os direitos humanos individuais e coletivos. Incluiu as mulheres como protagonistas da história e da libertação da terra e da humanidade. O feminismo surgiu na sociedade civil, mas acabou contagiando as comunidades religiosas das principais tradições espirituais.
Desde 1970, o Ecofeminismo é uma corrente do feminismo que liga a exploração da natureza com as opressões que as mulheres sofrem. São opressões, todas enraizadas na cultura patriarcal e capitalista. Esse movimento mostra que a dominação masculina e patriarcal sobre a natureza e sobre o corpo feminino tem a mesma lógica. Por isso, o ecofeminismo propõe justiça socioambiental, que valorize o cuidado com as pessoas, a sustentabilidade ecossocial e não mais a maximização do lucro.
Nas últimas décadas, em diversas religiões e, especialmente, nas Igrejas, desenvolvem-se teologias feministas, que ressaltam a profecia da mulher nas Igrejas e no mundo. Suas reflexões partem do sofrimento e das lutas das mulheres contra o patriarcado. Reescrevem a história das religiões e da espiritualidade, a partir da perspectiva de gênero e dão voz e protagonismo às mulheres. Assim, era normal que surgisse, também, uma teologia ecofeminista, que liga à luta pela libertação da mulher à opressão que a terra e a natureza têm sofrido.
Na década de 1960, em vários países da América Latina, a partir das experiências de participação de cristãos e cristãs nos movimentos de libertação social e política, surgiu a Teologia da Libertação. Ela nasceu em Igrejas de cultura patriarcal e no mundo, no qual, mesmo os grupos considerados de esquerda, eram machistas. Por isso, infelizmente, os teólogos homens que iniciaram a Teologia da Libertação levantaram a questão das classes e das opressões sociais, mas só a partir da abertura da teologia às mulheres, despertaram para a iniquidade que é o patriarcalismo e todas as suas consequências. Por isso, ao surgirem as teologias feministas, algumas delas, com toda razão, marcaram distâncias da Teologia da Libertação, como construção ainda patriarcal e não suficientemente atenta às questões de gênero.
Pouco a pouco, teólogas e teólogos feministas e da libertação perceberam que, embora com enfoques que podem ser diversos, a causa é uma só. As teologias feministas converteram a teologia da libertação e revelaram que a causa da igualdade de gêneros e da defesa da mulher é tarefa de mulheres e homens que, juntos, aprendem vida e teologia. Se um teólogo (homem) não assumir as causas da teologia feminista, como sendo causa sua, esse teólogo pode fazer pesquisa sobre teologia da libertação, mas não é teólogo da libertação.
Uma anedota judaica conta que, no início de tudo, Deus tinha criado a mulher. Como esta se sentiu sozinha, pediu a Deus um companheiro e este hesitou:
- Você precisa saber: por natureza, o homem (macho) é arrogante. Tem sempre a sensação de ser o primeiro. Quer ser mais importante de tudo. Não se conformará em ser o segundo.
A mulher respondeu:
- Então, isso fica um segredo entre nós. E para mim mesmo viver sossegada, é melhor que ele pense que foi o primeiro a ser criado.
Deus aceitou: Tudo bem. Guardemos então esse segredo e deixemos o homem pensar que foi o primeiro.
A mulher quis garantir:
- Então, você, Deus, promete mesmo manter esse segredo?
Deus respondeu:
- Prometo. Palavra de Mulher!
Fontes
[1] Cf D’EAUBORNNE, Françoise. Feminismo ou Morte. Editora Bazar do Tempo, 2025.
[2] Cf. GEBARA, Ivone. Teologia Ecofeminista. São Paulo: Editora Olho d’Água, 2008.
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