"Uma vez que a desinformação como estratégia de campanha se consolidou, agora, de forma mais grave, com o uso de inteligência artificial, é preciso renovar o alerta neste ano eleitoral. São dinâmicas que desafiam reflexões e ações de partidos, grupos, movimentos sociais e eleitores, em especial aqueles e aquelas que cultivam uma fé e que primam pela participação cidadã baseada na justiça e na democracia."
O artigo é de Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e integrante da International Association Media Religion and Culture e da World Association for Christian Communication.
Magali Cunha (Foto: Arquivo Pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Uma constatação para quem observa atentamente a disseminação acelerada de desinformação (as chamadas ‘fake news’) nos diversos meios de comunicação no Brasil é que ela se consolidou como uma estratégia de campanha eleitoral. A recorrência e a reapresentação de conteúdo falso e enganoso nas disputas nacionais e estaduais de 2018 e 2022, bem como nas eleições municipais de 2020 e de 2024, indicam que esse expediente não pode ser considerado episódico mas, sim, um método reiterado de captação de votos e de destruição da reputação de opositores.
É evidente que o uso de mentiras em campanhas não é novidade histórica. Ao longo do tempo, mentiras sempre foram mobilizadas tanto para conquistar apoio quanto para desgastar adversários. O diferencial agora está, de um lado, na velocidade e na amplitude proporcionadas pelo ambiente digital e, de outro, na elaboração minuciosa dos conteúdos, pensados para atingir sensibilidades específicas. A estratégia consiste em acionar emoções e dialogar com visões de mundo previamente consolidadas, incentivando compartilhamentos em larga escala, reforçando rejeições e consolidando apoios.
Nesse cenário, é fundamental compreender por que a desinformação encontra amplo alcance em contextos religiosos, tendo como alvo as pessoas de fé. Elementos como a força da crença, o sentimento de pertencimento comunitário, a confiança depositada em lideranças religiosas e o uso intensivo de aplicativos de mensagens na formação de grupos de fiéis contribuem decisivamente. O WhatsApp, por exemplo, passou a funcionar como uma extensão da vivência eclesial de cristãos e cristãs, uma nova forma de participar da igreja, que preenche os intervalos da presença física ou mesmo substitui atividades presenciais com a articulação em grupos.
Os conteúdos inicialmente classificados como ‘fake news’ ultrapassam em muito a ideia restrita de ‘notícia falsa’. O que está em jogo é um processo mais amplo de fabricação e difusão de conteúdo em múltiplos formatos, que vão de anúncios e denúncias a sátiras materializadas nos conhecidos memes na forma de textos, fotos, vídeos. Trata-se, portanto, de um fenômeno multifacetado, que envolve linguagens diversas e estratégias articuladas de circulação.
Pesquisas no exterior e no Brasil têm indicado como religiões, com destaque para o cristianismo, têm funcionado tanto como facilitadoras da circulação da desinformação quanto como público prioritário de seus efeitos. Estudos apontam a participação ativa de grupos cristãos nas vitórias eleitorais de Donald Trump (2016 e 2014) e de Jair Bolsonaro (2018), com significativa difusão de conteúdos fraudulentos que mobilizaram afetos e sustentaram discursos de campanha.
Essas dinâmicas tornaram-se exemplares. No caso brasileiro, a desinformação assumiu contornos institucionais durante o governo Bolsonaro (2019-2022), quando o chamado ‘Gabinete do Ódio’ direcionou produções especialmente ao segmento cristão. Pesquisas também evidenciam como, durante a pandemia de covid-19, comunidades cristãs foram fortemente impactadas pela circulação de conteúdos negacionistas sobre medidas sanitárias e vacinação.
A Psicologia Social oferece chaves interpretativas para compreender a adesão de cristãos a esses conteúdos. Emoção e cognição se entrelaçam de tal forma que, mesmo quando a falsidade é reconhecida, a mensagem pode continuar operando como reforço de crenças e de identidades. O chamado ‘viés de confirmação’ – tendência a aceitar informações que corroboram convicções prévias – explica a propagação de falsidades sem distinção de gênero, classe, idade e grupo ideológico.
No universo cristão, a assimilação e a difusão da desinformação relacionam-se não apenas à coerência com crenças, mas também ao sentimento de pertencimento e à confiança nas comunidades religiosas. Soma-se o impulso missionário, que estimula o compartilhamento do que se entende como ‘verdade revelada’, configurando o espalhamento deste tipo de conteúdo como uma espécie de evangelização. Discursos estruturados no pânico moral e na retórica do medo encontram nesse ambiente terreno fértil, alimentando percepções de ameaça e construindo inimigos simbólicos.
O Bereia – Informação e Checagem de Notícias -, único projeto jornalístico que tem como objeto a desinformação que circula em ambientes digitais religiosos, levanta três grandes eixos temáticos mobilizadores em torno de conteúdo fraudulento. O primeiro envolve moralidade sexual, com ênfase em infância, adolescência e educação, difundindo denúncias de ‘doutrinação marxista’ e ‘erotização’ promovidas por governos de esquerda, além da rejeição à educação sexual nas escolas. Movimentos como o Escola sem Partido e a retórica da chamada ‘ideologia de gênero’, amplamente disseminada por católicos e evangélicos, integram esse repertório.
Outro eixo é a noção de ‘cristofobia’, construída a partir da ideia de perseguição aos cristãos no Brasil, frequentemente associada ao temor de censura ou fechamento de templos por governos alinhados à esquerda. Esse discurso é mobilizado sobretudo quando lideranças religiosas e políticos são questionados por suas posições sobre direitos sexuais e reprodutivos.
Há ainda estratégias extremistas em eixo voltado à deslegitimação do sistema eleitoral e do voto eletrônico, que, radicalizadas em 2022, culminaram nos ataques às sedes dos Três Poderes (8 de janeiro de 2023). Este episódio encontrou ampla adesão em ambientes digitais religiosos.
Há iniciativas de enfrentamento articuladas por acadêmicos, coletivos e agências de checagem, como o Bereia, reunidos na Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). Instituições estatais, como o Tribunal Superior Eleitoral, também passaram a adotar regras específicas a cada eleição para lidar com propaganda e desinformação no âmbito eleitoral.
Uma vez que a desinformação como estratégia de campanha se consolidou, agora, de forma mais grave, com o uso de inteligência artificial, é preciso renovar o alerta neste ano eleitoral. São dinâmicas que desafiam reflexões e ações de partidos, grupos, movimentos sociais e eleitores, em especial aqueles e aquelas que cultivam uma fé e que primam pela participação cidadã baseada na justiça e na democracia.