A revolução da economia circular: “Proteger o ambiente salva as empresas”

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09 Setembro 2021

 

A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular, lemos no Evangelho. Aquilo que Francesco Borgomeo – licenciado em Filosofia com estudos na Universidade La Sapienza e na Pontifícia Universidade Gregoriana, na Itália, presidente do grupo Sax Gres e há cerca de um ano da Unindustria Cassino-Gaeta – faz também é muito semelhante: ele lida com intervenções de resgate e de reconversão industrial, utilizando materiais de descarte para criar algo novo, respeitando o ambiente. Ele aplica a economia circular à green economy, salvando postos de trabalho e um certo “saber-fazer” no setor dos revestimentos cerâmicos.

A reportagem é de Lorenzo Cipolla, publicada em In Terris, 09-08-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

Atualmente, o seu grupo, nascido em 2015, conta com as fábricas de Anagni, as da ex-Marazzi Sud, de Roccasecca, ex-Ideal Standard, e na Umbria, em Gualdo Tadino, ex-Tagina. As instalações já existiam antes do nascimento do grupo e, devido à crise econômica, estavam em grandes dificuldades.

“Tais intervenções de resgate e de reconversão foram motivadas pelo fato de que o valor das pessoas é um fator crucial nas empresas”, explica o empresário ao jornal In Terris.

“O Made in Italy se baseia nas competências de quem aprendeu a realizar esse tipo específico de atividade, e isso representa um bem fundamental que não deve ser desperdiçado.”

As pessoas no centro, o respeito pelo ambiente, o espírito de sacrifício e a capacidade de repensar categorias. Esses são os quatro pontos cardeais da sua atividade. O caminho que ele decidiu seguir, a direção escolhida, foi este: “Se eu abater os custos de energia e de matérias-primas, o valor da pessoa se torna central. Os três fatores clássicos de produção – matérias-primas, custos de energia e custos de produção – sempre foram considerados incomprimíveis, enquanto, com a economia circular, isso pode ser alcançado, permitindo devolver competitividade às empresas sem afetar as pessoas.”

Eis como: “A recuperação de materiais de descarte permite ter matérias-primas a um custo baixíssimo, e, se fizermos biogás com a fração orgânica para fazer os fornos dos estabelecimentos funcionarem, reduzindo o custo da energia, a fábrica volta a ser competitiva”.

O que é central, porém, é “o valor da pessoa”. “Não podemos reconverter uma empresa sem a participação de todos”, porque é da união que nasce a força. “Quem viu a sua fábrica fechar e o sonho de sua vida fracassar, vê a morte de frente. Se essa pessoa tiver a oportunidade de se relançar, ela fica tão motivada a ponto de atravessar o deserto e escalar as montanhas mais altas”, afirma Borgomeo.

Eis a entrevista.

Como nasceu a ideia de obter cerâmicas a partir de materiais de descarte?

Desde o início, eu me ocupada da produção de ladrilhos tradicionais, depois me dediquei aos produtos para exteriores. Também patenteei um paralelepípedo de grés porcelanato, o grestone, obtido a partir das cinzas dos termovalorizadores em substituição às pedras naturais. Evitamos, assim, destruir as montanhas, já não mais na Europa, mas em países distantes, onde, em alguns casos, existe um intenso uso do trabalho infantil. Com a economia circular, é possível salvaguardar a natureza, evitar tratamentos desumanos e favorecer a reconversão e o resgate de empresas, evitando a perda de postos de trabalho e de know-how. Além disso, a economia circular também permite pôr em segurança os resíduos, que se tornam matéria-prima a ser transformada. Retirados de negócios muitas vezes opacos, a fase de fim de vida dos resíduos se torna transparente e rastreável.

Qual é o futuro da economia circular?

A sensibilidade ambiental, de recuperação e de reutilização, ao invés da retirar materiais virgens da natureza, produzir, consumir e jogá-los nos aterros. Ao todo, no Plano Nacional de Recuperação e Resiliência, estão previstos cerca de 30 bilhões de euros [quase 190 bilhões de reais] para a economia circular e o ambiente, que se somam ao planejamento comunitário existente. É preciso uma mudança cultural, é preciso a coragem de todo o sistema, político, institucional, administrativo, industrial, para favorecê-la.

O mundo das empresas está se tornando mais ético?

A grande questão das mudanças climáticas e a preocupação ligada aos riscos que corremos pela situação ligada ao ambiente nos obriga a repensar os modelos econômicos. A responsabilidade ética da empresa se tornou um tema muito forte, e as gerações mais jovens entenderam que economia e ambiente, economia e ética devem ter um caminho comum, devem conviver. Hoje, a tecnologia permite alcançar os mesmos resultados de bem-estar sem penalizar o planeta. Então, está tudo nas nossas mãos.

Qual a importância dos valores para você, como pessoa e como empresário?

Aprendemos essas operações de reconversão industrial e de reutilização dos resíduos com o Evangelho: a pedra descartada pelos construtores se torna a pedra angular. Entre outras coisas, uma operação como uma reconversão industrial é difícil, cansativa e exige muito das pessoas em termos de sacrifícios. O trabalho é árduo, tanto que em algumas regiões da Itália os dois termos são até sinônimos. Devemos pensar que o tema do sacrifício é positivo, porque ajuda as pessoas a entenderem o valor das coisas que fazem. É graças ao sacrifício e ao fato de saber enfrentar as dificuldades com serenidade que se obtêm resultados extraordinários. Outra coisa muito importante é a capacidade de se colocar no lugar dos outros e de encontrar soluções para superar os problemas alheios. Isso, por sua vez, se traduz na capacidade de participar, de entender, de escutar e de se colocar de modo cristão a serviço dos outros na própria comunidade empresarial. Isso oferece uma vantagem, pois uma equipe coesa que trabalha serenamente é muito mais forte.

Como ocorreu a sua passagem da filosofia para o mundo dos negócios?

Para definir um novo modelo, é preciso a filosofia. A certa altura, comecei a entender que alguns paradigmas da empresa tradicional estavam entrando em crise. Pegar uma empresa que produz louças sanitárias para transformá-la em uma que fabrica paralelepípedos, utilizando matéria de recuperação em vez de matérias-primas, também deriva da capacidade de repensar categorias, algo que a filosofia lhe dá. Antes, pensava-se, como paradigma, que indústria e ambiente competiam, enquanto percebemos que a proteção do ambiente – que permite recuperar matérias-primas dos processos que antes poluíam – salva as empresas.

Como o seu grupo enfrentou a pandemia?

Todos trabalhamos para não fechar as empresas, utilizando luvas, usando máscaras e mantendo o distanciamento. Consegui manter as fábricas abertas, e a produção correu bem. Vivemos momentos de dificuldade, até porque ninguém sabia o que estava acontecendo, mas hoje estamos aqui, em plena serenidade. Vivemos em uma comunidade e não podemos pensar que temos direitos sem deveres, como o respeito pela saúde dos outros. Nós nos vacinamos e, se não conseguimos fazer com que todos se vacinem, queremos o green pass [passaporte da vacina] como instrumento que nos ajude a nos proteger.

 

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