Francisco: “É preciso alimentar a esperança de amanhã curando a dor de hoje”

Foto: L'Osservatore Romano

16 Novembro 2021

 

Às 10h desse domingo, 33º Domingo do Tempo Comum, o Santo Padre Francisco presidiu a celebração eucarística na Basílica do Vaticano por ocasião do V Dia Mundial dos Pobres, da qual participaram 2.000 pobres e indigentes, junto com os voluntários que os acompanhavam e os expoentes das numerosas instituições de caridade que os assistem diariamente no território de Roma.

 

O sítio da Santa Sé, 14-11-2021, publicou a homilia que o papa proferiu após a proclamação do Evangelho. A tradução é de Anne Ledur Machado.

 

Segundo o Papa, comentando a passagem de Marcos, 13,28, "quando o ramo fica tenro": "Eis a palavra que faz germinar a esperança no mundo e alivia a dor dos pobres: a ternura. Compaixão que leva você à ternura. Cabe a nós superar o fechamento, a rigidez interior, que é a tentação de hoje, dos 'restauracionistas' que querem uma Igreja totalmente ordenada, totalmente rígida: isso não é do Espírito Santo. E nós devemos superar isso e fazer germinar a esperança nessa rigidez".

 

 

E ele continua:

 

"Assim como as folhas da árvore, somos chamados a absorver a poluição que nos rodeia e a transformá-la em bem: não é preciso falar dos problemas, polemizar, escandalizar-se – todos sabemos fazer isso. É preciso imitar as folhas, que, sem chamar a atenção todos os dias, transformam o ar sujo em ar limpo. Jesus quer que sejamos 'conversores do bem': pessoas que, imersas no ar pesado que todos respiram, respondem ao mal com o bem (cf. Rm 12,21). Pessoas que agem: partem o pão com os famintos, trabalham pela justiça, levantam os pobres e lhes devolvem a sua dignidade, como fez aquele samaritano".

 

Eis o texto.

 

As imagens usadas por Jesus na primeira parte do Evangelho de hoje nos deixam consternados: o sol que escurece, a lua que não brilha mais, as estrelas que caem e as forças dos céus abaladas (cf. Mc 13,24- 25). Pouco depois, porém, o Senhor nos abre à esperança: precisamente naquele momento de escuridão total, o Filho do Homem virá (cf. v. 26); e no presente já podem ser contemplados os sinais da sua vinda, como quando se vê uma figueira que começa a brotar porque o verão se aproxima (cf. v. 28).

 

Esse Evangelho nos ajuda, assim, a ler a história, captando dois aspectos dela: as dores de hoje e a esperança de amanhã. Por um lado, são evocadas todas as dolorosas contradições nas quais a realidade humana permanece imersa em todos os tempos; por outro lado, há o futuro da salvação que a espera, ou seja, o encontro com o Senhor que vem, para nos libertar de todo o mal. Olhemos para esses dois aspectos com o olhar de Jesus.

 

O primeiro aspecto: a dor de hoje. Estamos dentro de uma história marcada por tribulações, violências, sofrimentos e injustiças, à espera de uma libertação que parece não chegar nunca. Sobretudo, são os pobres, os elos mais frágeis da cadeia, que são feridos, oprimidos e às vezes esmagados.

 

O Dia Mundial dos Pobres que estamos celebrando nos pede que não nos voltemos para o outro lado, que não tenhamos medo de olhar de perto o sofrimento dos mais fracos, para os quais o Evangelho de hoje é muito atual: o sol da sua vida muitas vezes é obscurecido pela solidão; a lua das suas expectativas se extingue; as estrelas dos seus sonhos caem em resignação; e é a sua própria existência que é abalada.

 

Tudo isso devido à pobreza a que muitas vezes são forçados, vítimas da injustiça e da desigualdade de uma sociedade do descarte, que corre veloz sem os ver e os abandona sem escrúpulos à sua própria sorte.

 

Por outro lado, porém, existe o segundo aspecto: a esperança de amanhã. Jesus quer nos abrir à esperança, nos arrancar da angústia e do medo diante da dor do mundo. Por isso, Ele afirma que, precisamente enquanto o sol escurece e tudo parece cair, Ele se faz próximo.

 

No gemido da nossa dolorosa história, há um futuro de salvação que começa a brotar. A esperança de amanhã floresce na dor de hoje. Sim, a salvação de Deus não é apenas uma promessa do além, mas já cresce agora, dentro da nossa história ferida – todos temos o coração doente –, abre caminho entre as opressões e as injustiças do mundo. Precisamente no meio do pranto dos pobres, o Reino de Deus floresce como as tenras folhas de uma árvore e conduz a história à meta, ao encontro final com o Senhor, o Rei do Universo que nos libertará definitivamente.

 

 

Perguntemo-nos, neste ponto: o que é exigido de nós, cristãos, perante essa realidade?

 

É-nos pedido alimentar a esperança de amanhã curando a dor de hoje. Estão conectadas: se você não vai em frente curando as dores de hoje, dificilmente terá a esperança de amanhã. A esperança que nasce do Evangelho, de fato, não consiste em esperar passivamente que as coisas melhorem amanhã; isso não é possível; mas em tornar concreta a promessa de salvação de Deus. Hoje, todos os dias.

 

 

A esperança cristã, de fato, não é um otimismo beato ou, melhor, eu diria, um otimismo adolescente, de quem espera que as coisas mudem e, enquanto isso, continua levando a sua vida. Mas é construir todos os dias, com gestos concretos, o Reino do amor, da justiça e da fraternidade que Jesus inaugurou.

 

A esperança cristã, por exemplo, não foi semeada pelo levita e pelo sacerdote que passaram na frente daquele homem ferido pelos ladrões. Ela foi semeada por um estranho, por um samaritano que parou e fez o gesto (cf. Lc 10,30-35). E hoje é como se a Igreja nos dissesse: “Pare e semeie esperança na pobreza. Aproxime-se dos pobres e semeie esperança”.

 

A esperança daquela pessoa, a esperança sua e a esperança da Igreja. Isto nos é pedido: ser, entre as ruínas cotidianas do mundo, incansáveis construtores de esperança; ser luz enquanto o sol escurece; ser testemunhas de compaixão enquanto ao nosso redor reina a distração; ser amantes e atentos na indiferença generalizada. Testemunhas de compaixão.

 

Nunca poderemos fazer o bem sem passar pela compaixão. No máximo, faremos coisas boas, mas que não tocam o caminho cristão, porque não tocam o coração. O que nos faz tocar o coração é a compaixão: aproximamo-nos, sentimos a compaixão e fazemos gestos de ternura. Exatamente o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura. Isso nos é pedido hoje.

 

 

Recentemente, voltou à minha mente aquilo que um bispo próximo dos pobres e pobre de espírito ele mesmo, D. Tonino Bello, repetia: “Não podemos nos limitar a esperar, devemos organizar a esperança”. Se a nossa esperança não se traduz em escolhas e gestos concretos de atenção, justiça, solidariedade, cuidado da casa comum, os sofrimentos dos pobres não poderão ser aliviados, a economia do descarte que os obriga viver às margens não poderá se reconvertida, as suas expectativas não poderão florescer novamente.

 

 

Cabe a nós, especialmente a nós, cristãos, organizar a esperança – é bela esta expressão de Tonino Bello: organizar a esperança –, traduzi-la em vida concreta todos os dias, nas relações humanas, no compromisso social e político. Isso me leva a pensar no trabalho que tantos cristãos fazem com as obras de caridade, o trabalho da Esmolaria Apostólica... O que se faz aí? Organiza-se a esperança. Não se dá uma moeda, não: organiza-se a esperança. Essa é uma dinâmica que a Igreja nos pede hoje.

 

Há uma imagem da esperança que Jesus nos oferece hoje. É simples e ao mesmo tempo indicativa: é a imagem das folhas da figueira, que brotam sem fazer barulho, sinalizando que o verão está próximo. E essas folhas aparecem, sublinha Jesus, quando o ramo fica tenro (cf. Mc 13,28).

 

Irmãos, irmãs, eis a palavra que faz germinar a esperança no mundo e alivia a dor dos pobres: a ternura. Compaixão que leva você à ternura. Cabe a nós superar o fechamento, a rigidez interior, que é a tentação de hoje, dos “restauracionistas” que querem uma Igreja totalmente ordenada, totalmente rígida: isso não é do Espírito Santo. E nós devemos superar isso e fazer germinar a esperança nessa rigidez.

 

 

E cabe a nós também superar vencer a tentação de ocuparmo-nos apenas com os nossos problemas, para nos enternecer diante dos dramas do mundo, para nos compadecermos da dor. Assim como as folhas da árvore, somos chamados a absorver a poluição que nos rodeia e a transformá-la em bem: não é preciso falar dos problemas, polemizar, escandalizar-se – todos sabemos fazer isso. É preciso imitar as folhas, que, sem chamar a atenção todos os dias, transformam o ar sujo em ar limpo.

 

Jesus quer que sejamos “conversores do bem”: pessoas que, imersas no ar pesado que todos respiram, respondem ao mal com o bem (cf. Rm 12,21). Pessoas que agem: partem o pão com os famintos, trabalham pela justiça, levantam os pobres e lhes devolvem a sua dignidade, como fez aquele samaritano.

 

É bonita, é evangélica, é jovem uma Igreja que sai de si mesma e, como Jesus, anuncia aos pobres a boa notícia (cf. Lc 4,18). Paro nesse adjetivo, o último: é jovem uma Igreja assim; a juventude de semear esperança. Essa é uma Igreja profética, que, com a sua presença, diz aos perdidos de coração e aos descartados do mundo: “Coragem, o Senhor está perto, para você também há um verão que desponta no coração do inverno. Mesmo a partir da sua dor pode ressurgir a esperança”.

 

Irmãos e irmãs, levemos esse olhar de esperança ao mundo. Levemo-lo com ternura aos pobres, com proximidade, com compaixão, sem julgá-los – nós seremos julgados. Porque ali, junto deles, junto dos pobres, está Jesus; porque ali, neles, está Jesus, que nos espera.

 

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