O Holoceno está para o ‘paraíso’ assim como o Antropoceno está para o ‘inferno’. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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21 Dezembro 2020

"A humanidade abandonou a estabilidade climática do Holoceno e criou o Antropoceno que é uma Era marcada pelo aquecimento global e pela 6ª extinção em massa das espécies", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, em artigo publicado por Ecodebate, 18-12-2020.

Eis o artigo.

“Oh! que vergonha para a estirpe humana!

Firme concórdia reina entre os demônios:

E os homens, na esperança de alcançarem

A ventura do Céu, vivem discordes,

A racional essência desmentindo!”

- John Milton (1608-1674) em Paraíso Perdido

O Holoceno (os 12 mil anos antes da Revolução Industrial e Energética) foi um período de estabilidade climática e de abundância de serviços ecossistêmicos. Em certo sentido, algo parecido com a imagem luminosa e idílica do paraíso.

O Antropoceno – a Era da dominação humana desenfreada sobre o Planeta – tem sido a Era do aquecimento global, da degradação ecológica e do ecocídio que está provocando a 6ª extinção em massa das espécies.

Algo semelhante à representação lúgubre e tenebrosa do inferno. O Antropoceno se parece cada vez mais com o “Paraíso Perdido”.

A humanidade adotou um modelo de produção que tem como base a idolatria do dinheiro e do consumo conspícuo. A ganância e a arrogância colocaram os interesses humanos acima dos direitos da natureza e das demais espécies vivas da Terra. Como mostra a literatura especializada, o ser humano inventou Deus e possibilitou Deus criar o “homem” à sua imagem e semelhança. A força humana é tal que provoca o aquecimento global, como mostra o gráfico.

O livro Gênesis, do Velho Testamento, diz que Deus criou o mundo em sete dias, sendo que no sexto dia, no cume da criação e antes do descanso do sétimo dia, Ele criou o ser humano (primeiro o homem e depois a mulher) à sua própria imagem e semelhança, ordenando: “Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Esta concepção teo-antropocêntrica de superioridade e dominação humana reinou na mente das pessoas e nas diversas instituições durante milênios, especialmente no hemisfério Ocidental, e ainda está presente no mundo contemporâneo. Mesmo nos dias atuais, o “crescei e multiplicai-vos” orienta, por exemplo, as reações religiosas e conservadoras contra o processo de universalização dos métodos contraceptivos modernos.

Mas foi com a Revolução Industrial e Energética que a civilização humana iniciou a sua escalada para dominar e explorar a natureza em grande escala. Após a Segunda Guerra houve uma aceleração da exploração da riqueza natural e de aumento da poluição do solo, da água e do ar e do descarte dos resíduos sólidos.

Os últimos 7 anos (2014 a 2020) foram os mais quentes já registrados (2020, provavelmente, será o segundo ano mais quente). Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, a civilização estará no caminho de uma catástrofe. Como mostrou o jornalista David Wallace-Wells, a Terra pode se tornar um lugar inabitável ou terrivelmente inóspito.

Um estudo das universidades de New South Wales, na Austrália, e de Purdue, nos Estados Unidos, publicado na “Proceedings of the National Academy of Sciences”, em 2010, afirma um aumento de apenas 4ºC medidos por um termômetro úmido levaria metade da população mundial a enfrentar um calor equivalente a máximas registradas em poucos locais atualmente. Embora seja improvável que isso aconteça ainda neste século, é possível que já no próximo, várias regiões estejam sob calor intolerável para humanos e outros mamíferos. O estudo também ressalta que o calor já é uma das principais causas de morte por fenômenos naturais e que muitos acreditam, erroneamente, que a humanidade pode simplesmente se adaptar a temperaturas mais altas. A fisiologia humana não suporta temperaturas acima de 50º C. Ou seja, o aquecimento global pode deixar até metade do planeta inabitável.

Acompanhando o aumento médio da temperatura global, as ondas de calor ficaram cada vez mais frequentes. A duração, a frequência e a intensidade das mesmas provavelmente aumentarão na maioria das zonas terrestres ao longo deste século antecipando o “cenário de Mad Max” em diversas regiões do Planeta. Hoje em dia, já dá para notar o aumento da intensidade e da frequência de furacões, tufões e ciclones, além de tempestades e tornados que devastam o território e a qualidade de vida de milhões de pessoas.

A última vez que a temperatura ultrapassou os 2º C, no Planeta, foi no período Eemiano (há cerca de 120 mil anos) e provocou o aumento do nível dos oceanos em algo entre 5 e 9 metros. Tudo indica que a temperatura no século XXI vai ultrapassar os 2º C em relação ao período pré-industrial. Os prejuízos poderão ser incalculáveis tanto nas áreas urbanas, quanto rurais. A fome pode voltar a assustar grande parte da população mundial.

E o mais grave é que uma Terra inabitável e inóspita levará a autodestruição humana, mas também pode levar junto milhões de espécies que nada tem a ver com os erros egoísticos dos humanos que se julgam seres superiores e mais inteligentes. A humanidade pode estar rumando para o suicídio, podendo também gerar um ecocídio e um holocausto biológico de proporções épicas.

O último Relatório Planeta Vivo (2020) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 68% entre 1970 e 2016.

Existe uma grande desigualdade entre as espécies da Terra, pois enquanto cresce a população humana, definham as populações não humanas. Segundo Ron Patterson (2014): “Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinction, documenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização.

O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. Exatamente por isto, cresce a consciência de que é preciso mudar o modelo de desenvolvimento que adota um padrão de produção e consumo danoso para o meio ambiente e que é responsável pelo aumento da destruição da vida na Terra. Para tanto, é preciso considerar o Ecocídio um crime contra a paz, um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade e as futuras gerações. O crime do especismo é equivalente aos crimes de racismo, sexismo, classismo, homofobismo, escravismo, etc. Recentemente foi criado um site para incentivar a mobilização contra a discriminação das espécies, definindo o dia 22 de agosto de 2015, como o “Dia mundial contra o Especismo”.

Em vez de criar uma cornucópia, a humanidade criou um monstro como mostrou Mary Shelley, no livro “Frankenstein, ou o Moderno Prometeu”. Antes de mais nada, é preciso esclarecer duas coisas sobre o conteúdo e o título do livro: “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”. Victor Frankenstein representa a ambição do setor de ciência e tecnologia de “brincar de Deus”. No livro, após incrível esforço, ele conseguiu decifrar, sozinho, a fórmula da criação. Sua autoconfiança lhe deu a certeza de que era capaz de “dar a vida a um animal tão complexo e maravilhoso quanto o ser humano”.

Tal como o Criador, ele havia conseguido gerar um homem. Mas, quase imediatamente, a excitação cedeu lugar ao desespero. De fato, Victor Frankenstein conseguiu dar vida a um material inerte, como Deus criou Adão do barro. Mas sua criação era feia e asquerosa: “uma coisa que nem Dante poderia ter concebido”. Numa espécie de depressão pós-parto, tomado de pavor, Frankenstein, o criador, renegou e abandonou a sua Criatura, sem sequer ter feito o seu batismo. A Criatura, sem nome, gerada pela racionalidade do gênio humano, foi renegada por toda a humanidade e se tornou o monstro mais conhecido da era moderna.

Por que Frankenstein é o moderno Prometeu? Na mitologia grega, Prometeu é o personagem que roubou o fogo aos deuses do Olimpo e o deu ao ser humano, o que lhe assegurou o status de “ser racional” e a superioridade sobre os demais animais da Terra. O fogo representa o conhecimento e o poder que era posse exclusiva dos deuses. Como castigo pela desobediência e ousadia de se comparar aos seres superiores do Olimpo, Zeus ordenou que Prometeu fosse acorrentado no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia dilacerava seu fígado que, logo em seguida, se regenerava. Ou seja, o fogo que Prometeu deu aos humanos (racionalidade) tem lhes proporcionado importantes conquistas mas, em contrapartida, também derrotas e sofrimento. Desta forma, a analogia entre Frankenstein e Prometeu é evidente.

Mary Shelley também fez outra referência “mitológica” fundamental, quando na epígrafe do livro cita uma passagem do excepcional poema “Paraíso Perdido” (1667), de John Milton, em que Adão questiona a Deus: “Pedi para que me arrancasses das trevas?” Desta forma, a autora relaciona Victor Frankenstein ao Criador e sua Criatura a Adão. Mas um Adão desobediente e ciente do seu querer, que prefere perder o Paraíso a viver uma vida sem o poder orgástico do sabor dos frutos da árvore do conhecimento, condimentado pelo fogo prometeico.

O que Mary Shelley quis mostrar no livro é que a racionalidade humana – tão decantada pelos revolucionários iluministas do século XVIII – é incapaz de gerar apenas bons frutos. Em vez de alcançar a “perfectibilidade do ser humano”, realça a imperfectibilidade. O retrocesso, ao invés do progresso. O colapso e não a abundância fáustica. Enfim, em vez de um novo ser humano, monstros.

Indubitavelmente, o livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” é um alerta sobre os perigos de uma ciência arrogante e exagerada que desencadeia forças que não pode controlar. O livro de Mary Shelley inova ao trazer uma crítica ao iluminismo, não pelo lado conservador e tradicionalista de pensadores como Thomas Malthus e Edmund Burke (críticos ferrenhos de seus pais e da Revolução Francesa), mas pelo lado das consequências não antecipadas do efetivo sucesso da racionalidade.

De forma presciente, o livro, escrito no começo da modernidade urbano-industrial, permite uma leitura do poder da ciência e da tecnologia como fator modelador de um estilo de desenvolvimento que viola a natureza e a ordem natural do mundo, uma vez que as invenções físicas e químicas podem trazer embutidas blasfêmias, e a bioengenharia genética, perversões. Hoje, é senso comum dizer que as promessas maravilhosas da energia nuclear já traziam embutidos os desastres de Chernobyl, Three Mile Island e Fukushima.

Desta forma, a humanidade abandonou a estabilidade climática do Holoceno e criou o Antropoceno que é uma Era marcada pelo aquecimento global e pela 6ª extinção em massa das espécies. Assim, como Victor Frankenstein foi vítima do monstro que ele mesmo criou, a humanidade pode ser vítima do “monstro de duas cabeças” (mudanças climáticas e perda de biodiversidade) que foram gerados no Antropoceno.

O artigo “Extraordinary human energy consumption and resultant geological impacts beginning around 1950 CE initiated the proposed Anthropocene Epoch”, de Jaia Syvitski, Colin N. Waters, Jan Zalasiewicz et. al. (16/10/2020), publicado na revista Nature (Communications Earth & Environment) dá uma contribuição fundamental para a definição do início e do impacto do Antropoceno e mostra que o gasto de energia humana no Antropoceno, cerca de 22 zetajoules (ZJ), excedeu em muito o dos 11.700 anos anteriores do Holoceno (cerca de 14,6 ZJ), principalmente por meio da combustão de combustíveis fósseis.

O crescimento da população humana global, sua afluência e consumo de energia estão altamente correlacionados. Esta explosão extraordinária de consumo e produção demonstra como o Sistema Terrestre partiu de seu estado Holoceno, desde aproximadamente 1950, forçando mudanças físicas, químicas e biológicas abruptas no registro estratigráfico da Terra que podem ser usados para justificar a proposta de nomear uma nova época: o Antropoceno.

O relatório “Lancet Countdown on Health and Climate Change”, publicado em 02/12/2020, mostra que a contagem regressiva da Lancet sobre Saúde e Mudanças Climáticas está em andamento desde 2015, quando o acordo de Paris foi negociado.O relatório da revista The Lancet foi o trabalho de mais de 100 especialistas de 35 instituições ou universidades, incluindo a Organização Mundial da Saúde e a University College London (UCL).

A conclusão é que os impactos das mudanças climáticas na saúde foram os “mais preocupantes” desde o início do relatório. Todos os 16 indicadores de saúde monitorados no relatório estão piorando. Este é o novo normal e, se nada for feito, caminharemos para uma Terra muito quente, ácida e inabitável.

Referências:

ALVES, J.E.D. A tecnologia e o Frankenstein, Ecodebate, 18/04/2012. Disponível aqui.

ALVES, J.E.D. Frankenstein e o ‘monstro’ do aquecimento global, #Colabora, 17/10/2017. Disponível aqui.

ALVES, J.E.D. A Inteligência Artificial pode se transformar em um monstro incontrolável Entrevista IHU 28/09/2017. Disponível aqui.

ALVES, J.E.D. O Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí, Ecodebate, 14/02/2018. Disponível aqui.

ALVES, J.E.D. “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” de Mary Shelley, SCRIBD, 06/03/2018. Disponível aqui.

Jaia Syvitski et. al. Extraordinary human energy consumption and resultant geological impacts beginning around 1950 CE initiated the proposed Anthropocene Epoch, Nature Communications Earth & Environment, volume 1, Article number: 32, 16/10/2020. Disponível aqui.

Subcommission on Quaternary Stratigraphy (SQS). Working Group on the ‘Anthropocene’. Disponível aqui.

The Lancet Countdown on Health and Climate Change, The Lancet, 02/12/2020. Disponível aqui.

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