O crescimento das atividades antrópicas e o fluxo metabólico entrópico

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11 Junho 2015

"A entropia é um indicador que mensura os níveis de irreversibilidade de um sistema, estando associada ao grau de ordem e desordem termodinâmica. A entropia serve para medir a parcela de energia que deixa de ser transformada em trabalho. Ela aumenta com o tempo", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado pelo portal EcoDebate, 10-06-2015.

Eis o artigo.

“As mudanças climáticas não são uma questão a se acrescentar à lista de coisas sobre as
quais devemos nos preocuparmos, ao lado da assistência à saúde e dos impostos.
As mudanças climáticas são um chamado ao despertar civilizacional”.
(Klein, 2014)

“A inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice”
Hélio Pellegrino

As atividades antrópicas são todas aquelas decorrentes da ação humana. Desde o início do Holoceno – há cerca de 12 mil anos – a humanidade passou de menos de 5 milhões de habitantes para a casa dos milhares de milhões, podendo chegar a mais de 10 bilhões de pessoas em 2100. Foi e tem sido um crescimento espetacular. Mas o desenvolvimento das atividades ecúmenas foi muitas vezes maior.

O crescimento econômico global se acelerou com o início da modernidade e a expansão europeia, especialmente após as Grandes Navegações e o processo de colonização e exploração dos recursos naturais do novo mundo. Com a Renascença, a humanidade se arvorou sujeita de direitos e transformou a vida na Terra e os recursos naturais em objetos a serem dominados e explorados. O crescimento tornou-se exponencial depois da Revolução Industrial e Energética que teve início no final do século XVIII.

O ano de 1776 foi marcante devido à conjugação de três acontecimentos históricos: a Independência dos Estados Unidos; O lançamento do livro “A riqueza das nações” de Adam Smith e a entrada em funcionamento da máquina a vapor aperfeiçoada por James Watt que deu início à utilização dos combustíveis fósseis em larga escala. Entre 1776 e 2014 o crescimento da população foi de quase 9 vezes (de cerca de 850 milhões para 7,3 bilhões de habitantes), enquanto o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 120 vezes. O aumento da renda per capita foi superior a 13 vezes. Isto quer dizer que um cidadão médio da atualidade recebe em um mês o que um indivíduo médio do antigo regime, antes da Revolução Francesa, levava mais de um ano para receber.

O sucesso humano ocorrido com o avanço do processo civilizatório poderia continuar indefinidamente se vivêssemos em um planeta infinito com ilimitadas áreas anecúmenas para a sobrevivência e a evolução da vida das espécies não-humanas que formam a rica biodiversidade da Terra. Mas a vitória do Homo Sapiens ocorreu em função da derrota da vida ecossistêmica e um empobrecimento da comunidade biótica. Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Patterson, 2014). Portanto, a geração de riqueza não ocorre no vácuo e, no mundo de acumulação de valor, não existe “almoço grátis”. O crescimento econômico tem preço e os bens gratuitos não fazem parte da contabilidade econômica.

Como mostrou Cavalcanti (2012), a economia, em suas dimensões físicas, é feita de material, coisas e energia fornecida pela natureza, o que gera permanentemente “estruturas dissipativas”. O sistema produtivo (throughput ou transumo) gera um fluxo metabólico do ambiente que leva à entropia. Com base nos princípios da economia ecológica (Georgescu-Roegen, 1971; Daly, 2007), o autor mostra que num sistema físico fechado – caso da natureza – o processo de extração de recursos naturais (exploração da flora e da fauna, minérios, água, energia, biomassa, etc.), seguido da produção de bens e serviços e o posterior descarte (lixo, esgoto e resíduos sólidos) produz um “fluxo metabólico entrópico”, aumentando as externalidades negativas do sistema.

Também de acordo com os ensinamentos da economia ecológica, Checin e Veiga (2010) mostram que a noção de metabolismo tem sido usada para se referir aos processos específicos de regulação que governam essa complexa troca entre organismos e meio ambiente. E o elemento essencial da noção de metabolismo sempre foi a ideia de que ele constitui a base que sustenta a complexa teia de interações necessária à vida. Os autores explicam, com base na segunda lei da termodinâmica, que “a qualidade da energia num sistema isolado, como o universo, tende a se degradar, tornando-se indisponível para a realização de trabalho. Daí a forma embrionária da entropia estar na ideia de que as mudanças no caráter da energia tendem a torná-la inutilizável. A relação entre a energia desperdiçada ou perdida – que não pode mais ser usada para realizar trabalho – e a energia total do sistema é considerada a entropia produzida” (p. 10). Por conta disto, os autores argumentam que é impossível ignorar os custos do processo de transformação do trabalho em valor: “O custo advém do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metabólico. Tal fluxo tem início com a utilização e consequente escasseamento dos recursos naturais e termina com o retorno da poluição ao ambiente” (p. 28).

A teoria marxista considera que a principal contradição da contemporalidade se dá pela desigual apropriação dos excedentes econômicos entre o lucro da burguesia (em todas as suas formas) e os salários dos trabalhadores da cidade e do campo. Porém, mesmo que de forma diferenciada, a burguesia e o proletariado (o primeiro com menos gente e mais consumo per capita e o segundo com mais gente e menos consumo per capita) formam um “capital antrópico” que estende e expande suas atividades para a dominação e a exploração do meio ambiente. Ocorre que o capital natural está sendo constantemente depreciado e apropriado como renda (lucro + salário). Assim, enquanto cresce o patrimônio antrópico, o patrimônio natural está permanentemente sendo subtraído. A riqueza humana cresce em função de empobrecimento do meio ambiente, ou como colocado de forma sarcástica por Astore (2013): “A Mãe Terra tem nos dado o seu sangue vital, mas como vampiros que somos, a nossa sede continua insaciada”.

De certa forma, a dinâmica econômica tem se transformado em prática crematística, ou seja, a prática de maximização da rentabilidade financeira, especulação e busca do lucro fácil em detrimento do bem-estar social e da conservação do meio ambiente. O fato é que a partir de certo momento histórico, o crescimento das atividades antrópicas passou a comprometer a biodiversidade e a biocapacidade do Planeta, fazendo com que o fluxo metabólico entrópico coloque em xeque a sustentabilidade do processo produtivo.

De acordo com a metodologia da Global Footprint Network (2015), a Pegada Ecológica global já superou em 50% a biocapacidade da Terra. O mundo já está vivendo um déficit ambiental e este déficit aumenta a cada dia. Para Herman Daly (2014), as atividades humanas já ultrapassaram os seus limites econômicos planetários e entraram em uma fase de “crescimento deseconômico”. Para estabelecer o equilíbrio é preciso haver decrescimento até o ponto de intercessão entre as curvas de utilidade marginal e desutilidade marginal.

A contabilidade nacional apresenta estatísticas parciais, pois confunde a depleção de recursos e o aumento da entropia como criação de riqueza. Uma floresta “virgem” geralmente não entra na contabilidade econômica, mas uma área desmatada e ocupada por pastagem é considerada parte dos fatores produtivos. Mas de acordo com a segunda lei da termodinâmica a quantidade de energia, em um sistema fechado, tende a se degradar, ficando indisponível para a realização de trabalho futuro. Assim, concomitante ao crescimento da riqueza humana, cresce a entropia do sistema produtivo.

A entropia é um indicador que mensura os níveis de irreversibilidade de um sistema, estando associada ao grau de ordem e desordem termodinâmica. A entropia serve para medir a parcela de energia que deixa de ser transformada em trabalho. Ela aumenta com o tempo. Por exemplo, o metabolismo humano (conjunto de reações químicas através das quais se realizam os processos de síntese e degradação das células) é entrópico, pois somente uma fração da energia dos alimentos ingerida é efetivamente utilizada pelas células. A maior parte da energia produzida pelo nosso corpo não fica disponível e é degradada. A entropia cresce ao longo do ciclo de vida, pois ela é pequena na fase ascendente, quando a criança se torna jovem e prossegue até a fase madura. Com a idade, a parte degradada aumenta e – refletindo o caráter entrópico do ser humano – surgem as doenças e a morte. Com certeza, o aumento da entropia pode ser retardado, mas nunca eliminado.

O mesmo vale para as civilizações e para o crescimento das atividades antrópicas. Segundo Enríquez (2008), o custo de oportunidade dos recursos naturais varia conforme o tamanho da presença humana: “Daly utiliza-se da ilustração de ‘mundo vazio’ e ‘mundo cheio’ para contrastar as diferenças entre uma época histórica em que o mundo apresentava baixa densidade populacional e padrões de consumo restritos com a época atual de superpopulação e padrões de consumo incompatíveis com a integridade do meio natural. Nesse mundo cheio, é muito elevado o custo de oportunidade no uso dos recursos naturais e ambientais. A não incorporação do terceiro nível (capital natural) poderia ser até tolerável em um ‘mundo vazio’, porém não tem sentido em um ‘mundo cheio’” (p. 14).

A questão ecológica na alta modernidade desafia as bases estruturantes da teoria social moderna e lança novos fatores de risco, como mostrou Ulrich Bech: “O que estava em jogo no velho conflito industrial do trabalho contra o capital eram positividades: lucros, prosperidade, bens de consumo. No novo conflito ecológico, por outro lado, o que está em jogo são negatividades: perdas, devastação, ameaças” (Beck, 1995, p.3).

O principal risco global da atualidade é a mudança climática provocada pela emissão de gases de efeito estufa liberados na queima de combustíveis fósseis, no desmatamento, na ampliação da pecuária, etc. A encíclica sobre o meio ambiente do Papa Francisco, que será lançada em junho, deverá reforçar o consenso científico de que o aquecimento global está se acelerando e que o fenômeno se deve às atividades humanas em um planeta lotado. A encíclica papal vai reforçar a luta contra o aquecimento global e as mudanças climáticas provocadas pelo crescimento demoeconômico exponencial. Resta saber se o Vaticano vai rever suas posições em relação aos direitos sexuais e reprodutivos e assumir a defesa da biodiversidade feita por Francisco de Assis em defesa real dos irmãos animais e das irmãs plantas.

No estágio atual da civilização, é preciso reduzir as atividades antrópicas globais, pois, para além do velho conflito entre capital e trabalho, o fluxo metabólico entrópico está fazendo com que os custos cresçam e os benefícios da economia decresçam em função da possibilidade de um colapso ambiental. Insistir no caminho do crescimento econômico infinito é o mesmo que avançar rumo ao precipício. Vale a máxima: “Mais é menos”, ou seja, maior bem-estar humano e maior biodiversidade serão possíveis somente em um mundo com decrescimento dos territórios ecúmenos e aumento das áreas anecúmenas.

Referências

CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade: mantra ou escolha moral? Uma abordagem ecológico-econômica. SP, Estudos avançados 26 (74), 2012

CECHIN, Andrei e VEIGA, J. Eli. O fundamento central da Economia Ecológica In: MAY, Peter (org) Economia do meio ambiente: teoria e prática, 2ª ed, RJ: Elsevier/Campus, p. 33-48, 2010

DALY, H. Ecological economics and sustainable development, selected essays of Herman Daly. Cheltenham: s. n., 2007.

BECK, U. Ecological Enlightenment. Essays on the politics of the Risk Society. New York: Humanity Books, 1995

DALY, Herman. Three Limits to Growth. Resilience, 05/09/2014

ENRÍQUEZ, MARS. O custo de oportunidade dos recursos naturais não-renováveis em um mundo cheio, na perspectiva de Herman Daly, Boletim Ecoeco, n. 19, 2008

GEORGESCU-ROEGEN, N. The entropy law and the economic process. Cambridge (EUA): Harvard University Press, 1971.

Global Footprint Network, 2015

KLEIN, Naomi. This Changes Everything: Capitalism vs. The Climate Hardcover, Simon & Schuster, 2014

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, Blog, 07/05/2014

William Astore. Biocide: A Memorial Day for Planet Earth, Nation of Change, 25 May 2013

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