Sobre a carta dos bispos. Profetismo incompreendido

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12 Agosto 2020

"A missão profética consiste, basicamente, em anunciar e denunciar aquilo que é a Vontade de Deus ou aquilo que a contraria: idolatrias, injustiças, exploração do pobre e do mais fraco, leis injustas, violências, culto exterior sem o envolvimento do coração humano, perversões, desonestidades, adultérios etc. Portanto, a atitude dos 152 bispos brasileiros está, totalmente, de acordo com a vocação e a missão que lhes confiou a Igreja e Jesus Cristo", escreve Telmo José Amaral de Figueiredo, biblista, teólogo e padre, Diocese de Jales – SP.

Pe. Telmo é bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (São Paulo – SP), Filosofia (Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto – SP), mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma com cursos realizados na École Biblique et Archéologique Française de Jérusalem – Israel), doutor em Literatura Hebraica pela FFLCH-USP (São Paulo – SP), ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB), membro da Society of Biblical Literature (SBL) e da Associazione ex-alunni/e del Pontificio Istituto Biblico.

Eis o artigo.

Enquanto alguns, no Brasil, criticam e menosprezam a manifestação de 152 bispos brasileiros, na Itália, quem sabe das coisas elogia e sente, até mesmo, uma sadia inveja. 

Duas frases me inspiram no início desta publicação, vejamos:

«As duas cegueiras caminham juntas: aqueles que não veem o que acontece, pensam que veem o que não acontece
(Tertuliano: 150-220 – teólogo da Igreja Latina – Padre da Igreja)

«Se queres ser cego, sê-lo-ás
(José Saramago: 1922-2010 – poeta, escritor, crítico literário – Prêmio Nobel de Literatura de 1998)

No Brasil, hoje, o que mais vemos são pessoas cegas ou que preferem ser cegas!

A realidade está aí, diante de todos!

Porém, por pura ideologia, para não dar o braço a torcer, para não admitir suas más escolhas, para não se humilhar, para esconder seu ressentimento contra tudo e contra todos... Preferem seguir negando os fatos, negando a realidade, negando a verdade!

Por isso mesmo, tem toda a razão um ilustre professor de Filosofia da prestigiosa Universidade Gregoriana de Roma, Rocco D’Ambrosio, presbítero da diocese italiana de Bari, quando escreve sobre a “Carta ao Povo de Deus”, que veio a público no último dia 26 de julho:

«152 bispos brasileiros escreveram uma carta profunda e densa a seus fiéis: uma leitura da situação sanitária, social, política e institucional de seu país, com grande parresia (franqueza) e amor. Lê-la é um conforto para o coração e a mente.

Não pude deixar de pensar no silêncio ensurdecedor dos bispos italianos (com pouquíssimas exceções) sobre a situação de nosso país e nossas comunidades, neste período como em outros dramáticos. Torna-se cada vez mais insuportável ouvir intervenções de pastores que dizem respeito apenas a direitos (missas a serem celebradas), algumas questões éticas e não outras (os nunca abandonados “princípios não negociáveis”), privilégios econômicos e assim por diante.

A carta brasileira respira um ar completamente diferente: amor pelos pobres, os companheiros de viagem na Igreja e no mundo, meio ambiente, compromisso com a justiça e a paz.

É o ar que reina nas intervenções do Papa Francisco, que não são “dele”, mas do Evangelho! Mas aqui na Itália a noite parece muito longa... Deus nos ajude!» (Fonte: Acesse aqui).

Diante dessa carta, ouvimos de várias pessoas, inclusive que se dizem católicas, as mais impensáveis acusações aos bispos que a firmaram, um verdadeiro linchamento público pelas redes sociais! Eis algumas frases que encontramos:

  • os bispos destilaram ódio contra o presidente da república;
  • eles são todos uns comunistas;
  • eles são petistas enrustidos;
  • eles vão contra a maioria da população brasileira que apoia o presidente;
  • na época em que o PT governava, eles não foram tão críticos contra quem presidia o país;
  • bispo é para cuidar de sua diocese, ficar na igreja, cuidar só das coisas de Deus;
  • é uma “velharada” que não sabe de nada;
  • eles estão fazendo política ao invés de cuidar da religião;
  • esses bispos não me representam etc., etc., etc.

Penso que as coisas estejam muito, mas muito fora de lugar nesse tipo de debate e acusações! Não poderia deixar de recordar, aqui, uma famosa frase do grande filósofo grego Aristóteles (384–322 a.C.):

«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete

Falta aos que criticam a manifestação dos bispos o verdadeiro sentido do que compete a um bispo da Igreja Católica Apostólica Romana fazer. E, antes que eu me esqueça, a carta deles nada tem de partidária, ideológica, ódio, e não foi de crítica destrutiva! Basta ler o comentário, acima, daquele professor italiano.

Aliás, basta ler essa carta sem as lentes do ódio, do ressentimento, da ideologia, do fanatismo para se dar conta que ela propõe um «amplo diálogo nacional» em função do bem comum.

Para ler a «Carta ao Povo de Deus», assinada por 152 bispos da Igreja Católica, clique aqui.

A fim de sabermos o que compete a um bispo católico, nada melhor do que irmos à fonte das mais importantes, ou seja, ao Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). Primeiramente, todo bispo deve ter uma “solicitude pastoral” (cf. Lumen Gentium, 23) pela Igreja Universal, isto é, o bispo não é alguém que se preocupa, apenas e tão somente, com a porção da Igreja que lhe é confiada ao pastoreio, mas com todo o conjunto do Povo de Deus. O Concílio é ainda mais claro ao dizer que: «Todos os bispos devem promover e defender a unidade da fé e da disciplina comum a toda a Igreja e ensinar aos fiéis o amor do corpo místico de Cristo, especialmente dos membros mais pobres, dos doentes e dos que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5,10). Devem apoiar todas as iniciativas da Igreja, especialmente no que se refere ao aumento da fé, para que a luz da verdade plena brilhe para todos os homens» (Idem).

Portanto, os bispos devem ser pessoas interessadas em tudo aquilo que se passa na Igreja e no mundo. Ao propor a doutrina cristã à sociedade, o Concílio Vaticano II pede que os bispos «demonstrem a solicitude maternal da Igreja para com todos os seres humanos, fiéis ou não, cuidando especialmente dos pobres e dos mais fracos, a quem o Senhor os enviou para evangelizar» (Christus Dominus, 13). Fica claro, aqui, que a atenção dos bispos de nossa Igreja deve ser preferencialmente voltada aos mais pobres, fracos e necessitados. Ora, aquilo que a Carta ao Povo de Deus subscrita por 152 bispos brasileiros faz é, justamente, ter esse olhar paterno e misericordioso para com aqueles que mais sofrem com a atual situação de nosso país.

Algo que precisa ficar claro, entre os membros de nossa Igreja, é o fato de que não há separação, não há divisão entre a missão da Igreja e a atuação concreta neste mundo! O Concílio Vaticano II deixa claro que:

«As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo, dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (Gaudium et Spes, 1).

Portanto, é uma traição à missão da Igreja, desinteressar-se pelas tragédias humanas! O ser humano é uma unidade, «corpo e alma, coração e consciência, espírito e vontade» (Ibid., 3). Tudo aquilo que diz respeito ao ser humano e à sua dignidade, diz respeito também à Igreja, pois diz respeito a Deus. Apesar de sua finalidade «salutar e escatológica», que se realiza plenamente na vida futura, o Concílio reconhece que a Igreja «está presente aqui na terra, é feita de mulheres e homens que são membros da sociedade terrena, chamados desde agora a formar, na história, a família dos filhos de Deus, que deve ir aumentando até a vinda do Senhor» (Ibid., 40). Cabe destacar, aqui, a expressão «na história», isto quer dizer que a tarefa da Igreja não é, puramente, «espiritual», como querem alguns! A sua missão se dá na história, no aqui e agora em que vivemos. As coisas de Deus não se separam das coisas humanas, pois tudo é de Deus, no sentido de que ele é o Criador e Senhor de tudo! O Concílio reconhece isso ao afirmar que os fiéis devem lembrar-se que «em todas as circunstâncias temporais precisam se deixar inspirar pela consciência cristã, pois nada foge ao domínio de Deus» (Lumen Gentium, 36 – destaque nosso).

Deixando, por um pouco, o Concílio, tomemos um dos mais importantes documentos dos bispos latino-americanos e caribenhos: as conclusões da Conferência Episcopal de Medellín (1968), na Colômbia. Nesse encontro, aberto pelo Papa Paulo VI, em 26 de agosto de 1968, os bispos reconhecem que, como «Pastores da Igreja, cabe educar as consciências, inspirar, estimular e ajudar a orientar todas as iniciativas que contribuem para a formação do homem. Cabe-nos também denunciar todos aqueles que ao irem contra a justiça, destroem a paz» (2,20). Portanto, não é estranho à missão dos bispos, a denúncia daquilo e daqueles que não contribuem para o respeito à dignidade humana, à promoção da justiça e da paz.

Na Conferência Episcopal de Aparecida (2007), ficou claro para os bispos participantes, dentre os quais se encontrava Dom Jorge Mario Bergoglio, o atual Papa Francisco, que: «A pastoral da Igreja não pode prescindir do contexto histórico onde vivem seus membros. Sua vida acontece em contextos socioculturais bem concretos» (367). Portanto, não existe uma pastoral, uma atuação da Igreja que aconteça fora da história, fora do contexto social, econômico, político, cultural e moral em que vivemos! Repito, não há como «dedicar-se às coisas de Deus» como se ele atuasse fora a história! Aliás, a Primeira Epístola de João (4,20) deixa isso bem evidente: «Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê». Portanto, Deus se encontra nas pessoas, nos mais pequenos, nos mais fracos, nos mais pobres e não em um alto e longínquo céu! Se alguém, ainda, tem alguma dúvida a esse respeito, basta conferir os critérios que são levados em conta para a salvação ou não de cada ser humano, em Mateus 25,31-46. Nesse texto do Evangelho não se faz presente nenhum critério religioso, mas, apenas, humano e social!

Afinal, o que importa a Cristo é a humanização do ser humano!
Quanto mais humanos formos, mais cristãos seremos!

Se as críticas que os 152 bispos fizeram escandalizaram algumas mentes sensíveis ou mais fanáticas, o que essas pessoas diriam se ouvissem a seguinte denúncia:

«Ouvi esta palavra, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria: que oprimis o pobre, maltratais o indigente, que dizeis a vossos senhores: “Trazei para que bebamos”. Jurou o Senhor Deus por sua santidade, sim: eis que virão dias sobre vós em que vos levantarão com ganchos e as que de vós restarem, com arpões» (Amós 4,1-2).

As tais «vacas de Basã», das quais nos fala o profeta Amós (que atuou no 8º século a.C.), eram as damas da alta classe de Samaria, região central da Palestina, que levavam uma vida bem provida e luxuosa, como o gado nos morros do Basã.
Mas, tem mais, vejamos:

«Ai dos que tramam a iniquidade e dos planejam o mal em seus leitos!
Na luz da manhã o fazem, pois há poder em suas mãos.
Se cobiçam campos, os roubam; se casas, as tomam.
Defraudam o proprietário e suas casas, o homem e sua herança.
Por isso, assim diz o Senhor: Eis que tramo contra este clã o mal.
Dele não podereis desviar vossos pescoços nem caminhareis erguidos,
pois este tempo é mau» (Miqueias 2,1-3).

O profeta Miqueias (que atuou cerca de 740-700 a.C.) denuncia, também, os maus governantes de sua época, além daqueles que têm poder econômico, como no texto anterior:

«Eu disse: “Ouvi, chefes de Jacó e governantes da casa de Israel:
Não cabe a vós conhecer o direito?
Vós que odiais o bem e amais o mal, que roubais a pele deles e a carne de seus ossos”.
Eles comem a carne de meu povo, a pele deles, arrancam, seus ossos, eles rompem;
e os talham como carne na panela, como carne no meio do caldeirão.
Então clamarão ao Senhor e ele não lhes responderá.
Esconderá deles sua face, naquele tempo, porque, em suas obras, fizeram o mal» (Mq 3,1-4).

Acham, ainda, pouco?! Então, mais um exemplo, desta vez do profeta Isaías, que atuou nos reinos do norte, conhecido como Israel, e do sul, conhecido como Judá, entre os anos 740 a 700 a.C.:

«Ai dos que inventam leis injustas, dos escribas que referendam a injustiça
para oprimirem os pobres no julgamento.
Eles violentam a causa dos humildes do meu povo,
fazendo das viúvas suas presas e roubando dos órfãos.
Que fareis no dia do ajuste de contas, da calamidade que vem de longe?
A quem ireis procurar como refúgio, e onde guardareis vossa riqueza?
Pois tereis de vos curvar como os cativos, e haveis de cair entre os mortos. Com tudo isso, porém, a sua ira não se acalmou, e a sua mão continua erguida» (Is 10,1-4).

Poderíamos seguir citando dezenas de outras passagens bíblicas; nos firmemos nessas, apenas, como exemplo. É importante, entretanto, frisar que Jesus de Nazaré, em sua atuação e pregação foi reconhecido, acima de tudo, como um PROFETA (cf. Mt 13,52.57; 14,5; 16,14; 21,11.46; Mc 6,4.15; Lc 4,24; 7,16; 9,8.19; 13,33; 24,19; Jo 4,19.44; 6,14; 7,40; 9,17; At 3,22.23; 7,37). E a missão profética consiste, basicamente, em anunciar e denunciar aquilo que é a Vontade de Deus ou aquilo que a contraria: idolatrias, injustiças, exploração do pobre e do mais fraco, leis injustas, violências, culto exterior sem o envolvimento do coração humano, perversões, desonestidades, adultérios etc.

Portanto, a atitude dos 152 bispos brasileiros está, totalmente, de acordo com a vocação e a missão que lhes confiou a Igreja e Jesus Cristo, como sucessores legítimos dos Apóstolos.

Interessante observar, que o Concílio Vaticano II já nos advertia sobre o perigo de uma visão distorcida da política dividir a sociedade, dividir as pessoas, provocar divisão na Igreja! Sim, isso há 55 anos atrás!

«Ao se reunirem na Igreja, “os fiéis não se diferenciam das outras pessoas nem pelo governo a que estão sujeitos, nem pela língua, nem pelas instituições políticas”. Vivem por isso para Deus e para Cristo, segundo as maneiras de ser e os costumes honestos de seu próprio povo. Como bons cidadãos, cultivam o amor da pátria, verdadeiro e eficaz, mas evitam absolutamente o nacionalismo exacerbado e o desprezo de outras raças, empenhados que estão na promoção do amor universal para com todos os seres humanos» (Ad Gentes, 15).

Assim sendo, nós, católicos e cristãos, não podemos nos dividir, rachar nossa própria Igreja, desrespeitar nossos pastores, os bispos, devido às diversas posturas ideológicas e políticas incongruentes com o Evangelho! Pois, nossa meta é a construção do Reino de Deus, desde agora, até a eternidade!

Finalizo, trazendo presente um belo texto de nosso Concílio Vaticano II, mais oportuno que nunca, em vista do atual momento que vivemos. Prestemos atenção ao que nos disse os bispos do mundo inteiro, reunidos em sua mais importante assembleia:

«O respeito e o amor são devidos mesmo àqueles que pensam e agem de maneira diversa da nossa na sociedade, na política e na religião. Quanto melhor compreendemos, humana e caridosamente, seu modo de pensar, mais fácil se torna o diálogo com eles.
Amor e bondade não podem nos tornar indiferentes à verdade e ao bem.
Pelo contrário, o amor leva os discípulos de Cristo a anunciarem a verdade salvadora a todos os seres humanos. Mas é preciso sempre distinguir entre o erro e a pessoa que erra, cuja dignidade deve ser sempre respeitada, mesmo quando adere a ideias religiosas falsas ou pouco exatas» (Gaudium et Spes, 28).

Que todos saibamos divergir, mas sem nos ofender;
discordar, mas sem nos machucar;
termos nossas simpatias políticas, mas sem fanatismo;
nos informarmos, mas sempre com senso crítico.
Pois a verdade, jamais, está de um só lado!
Absoluto, neste mundo, somente Deus é!
Absolutizar o que é relativo, é idolatria! 

 

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