O barco de Pedro e aqueles que remam contra

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18 Mai 2020

"Já está cada vez mais claro que o barco de Pedro tem uma direção bem específica: viver um modelo de Igreja conciliar que não esgota seu ser no rito, mas – junto com as celebrações - promove a sinodalidade e a formação não clerical dos leigos, acolhe todos, ajuda os fracos, denuncia as injustiças e a corrupção, tenta humanizar a economia, colabora para a criação de um mundo melhor, principalmente na promoção dos mais necessitados e no respeito ao meio ambiente", escreve Rocco D'Ambrosio, professor titular de Filosofia Política da Universidade Gregoriana, em artigo publicado por Formiche, 16-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Uma imagem recorrente, nesta crise sanitária, é a do barco, do “estar no mesmo barco”, como o Papa Francisco tem o hábito de lembrar. É uma metáfora tudo menos poética: lembra um lugar apertado, uma convivência que nem sempre é fácil, uma travessia a ser feita, ventos, medos, esperanças esmorecidas e uma pescaria a ser realizada. O barco de Pedro, ora confiado ao Papa Francisco, tem em parte as mesmas dificuldades que o barco humano. Aqui estou expressando reflexões estritamente pessoais. Como em qualquer instituição, há aqueles que remam a favor e os que remam contra, especialmente quando estão em jogo aspectos de reforma que mexem em questões fundamentais: a maneira de conceber poder, alguns escândalos (principalmente a pedofilia), a correção administrativa e luta contra corrupção, a relação com outros cristãos e fiéis de outras religiões, apenas para mencionar as principais. Aqui estou me referindo à Igreja Católica Italiana, embora o remar contra Francisco também está presente em várias Igrejas espalhadas pelo mundo.

A remar contra são cardeais, bispos, fiéis leigos, muitas vezes os mais engajados em associações e movimentos. Alguns agem abertamente, outros de maneira oculta e ambígua. Na atual crise sanitária, a questão da retomada das celebrações eucarísticas foi - e ainda é - um teste emblemático. Antes de mais nada, a "questão da missa" monopolizou o debate, certamente não por causa das informações, concentrando a atenção nos ritos, importantes sim, mas não essenciais, uma vez que nossa fé "é pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10,17). Várias populações ao redor do mundo celebram a Eucaristia uma vez por mês ou por ano. Eles não perderam a fé, muito pelo contrário! A ritualização excessiva também foi vista no que foi transmitido em streaming e TV: principalmente missas e rosários ou procissões (não autorizadas). Por que, em geral, faltaram reuniões sobre a Palavra de Deus, para ajudar a entender o momento histórico à luz da Palavra? Em vez disso, a celebração diária do papa foi orientada de forma muito diferente: uma oração central para recordar pessoas e grupos envolvidos na linha de frente da crise e uma pequena homilia para explicar o que o Senhor nos ensina "hoje". Foi acompanhada – fato nada trivial - também por várias pessoas não crentes: testemunho de uma fé cristã que não exclui, mas inclui, até a proposta de uma oração e jejum para todas as mulheres e homens de todos os credos.

Já está cada vez mais claro que o barco de Pedro tem uma direção bem específica: viver um modelo de Igreja conciliar que não esgota seu ser no rito, mas – junto com as celebrações - promove a sinodalidade e a formação não clerical dos leigos, acolhe todos, ajuda os fracos, denuncia as injustiças e a corrupção, tenta humanizar a economia, colabora para a criação de um mundo melhor, principalmente na promoção dos mais necessitados e no respeito ao meio ambiente. Por que os pastores católicos italianos, especialmente neste período, se fecharam num silêncio ensurdecedor (com muitas poucas exceções) sobre esses temas que o Papa lembrava todas as manhãs? A resposta não pode mais ser mantida em silêncio: eles se inspiram em um modelo de Igreja diferentes das paragens para onde Francisco dirige o barco. É muito difícil quantificar o fenômeno: aqueles que remaram contra são a maioria ou não? No entanto, é evidente que eles formam um grupo consistente, poderoso na mídia e muito presente no debate eclesial. De fato, eles dispõem de muitos recursos econômicos; inundam os meios de comunicação, especialmente as mídias sociais, com todo tipo de ofensas pessoais, falsidades (fake news), motivações pseudo-teológicas; eles têm poderosos aliados políticos, especialmente na área populista e conservadora. Obviamente todos eles se declaram fiéis ao papa ... desde que não seja o atual!

Fico extremamente fascinado pelo fato de que aqueles que remam "contra" geralmente têm duas características comuns:

1. eles, com outros papas, se consideravam muito leais ao Sumo Pontífice e agora parecem ter perdido as tão exaltadas lealdade e obediência;

2. o esquema de seu raciocínio é fortemente afetado pelas práticas dos regimes ideológicos: a doutrina-tradição não pode ser tocada, quem a toca é herege, sobre ela não podem ser feitos questionamentos, muito menos pesquisa filosófica e teológica, a tarefa dos pastores e mestres é apenas repeti-la e afirma-la sempre e em qualquer situação.

No entanto, seus elementos doutrinários são extremamente fracos e facilmente desmontáveis e se esgotam em uma acusação contra o Papa Francisco por supostos déficits doutrinários. Estou convencido de que essa acusação de heresia esconda, muitas vezes, a recusa em refletir sobre o que o Papa Francisco diz sobre poder doentio e a corrupção, também presentes na Igreja Católica.

Acontece na comunidade cristã o que acontece frequentemente em todas as instituições quando se tocam alguns pontos críticos ou deletérios, como corrupção, abuso, negação das finalidades fundamentais e assim por diante. Principalmente aqueles que têm responsabilidades - sejam eles cardeais, bispos, presbíteros, religiosos/as ou fiéis leigos – mais que mudar radicalmente, passam por aquele processo pelo qual, segundo Jung, enfatizam suas qualidades e negam, colocando-os em uma zona de sombra, seus lados escuros e problemáticos, aqueles que comprometem a identidade de pessoa integral e eticamente saudável. As "sombras" em questão são aquelas clássicas, denunciadas por todos os profetas, de todas as religiões e culturas, sejam elas chamadas de "doenças" ou de outra maneira, isto é: narcisismo, soberba, avareza, inveja, raiva, ganância, desordens sexuais, arrogância, caráter vingativo, ambições desenfreadas, demagogia, corrupção, formação de quadrilha, populismo, falsidade, vanglória, violência, agressividade, cinismo, hipocrisia, ambiguidade, ou seja, os aspectos mais deletérios que um homem ou uma mulher podem ter. Agora entendemos a força e muitas vezes a violência da reação ao papa que coloca o dedo na ferida desses males, justamente porque essas pessoas têm pouco interesse em reconhecer suas próprias zonas de sombra e em renovar-se na fidelidade e justiça.

Em poucos dias serão retomadas as celebrações eucarísticas. A base eclesial fez ouvir sua voz com apelos, assinaturas, cartas. Tudo isso serviu muito pouco: a decisão foi tomada em termos de verticalidade; os padres da paróquia - quase nada ouvidos - se encontram agora administrando o peso prático da decisão. Por que tanta pressa? Medo de perder os fiéis? Problemas econômicos? De visibilidade? De demonstração de um peso político no debate público? Respostas realmente difíceis, porque envolvem não apenas o modelo de Igreja em que se acredita, mas também aquilo que a pessoa é como ser humano e ser cristão, diante de Deus e diante de César. Quem tem a ilusão de que tudo possa voltar como antes, apenas porque se poderá celebrar a missa (com todas as restrições necessárias) se ilude.

A crise sanitária não pede apenas uma revisão dos parâmetros sociais, políticos, culturais e econômicos; também pede que revejamos os nossos parâmetros eclesiais, que muitas vezes, em vez de olhar para a frente como o papa faz, estão nostalgicamente ligados a um passado que é ... simplesmente passado.

A proposta lançada pelo Papa Francisco para pedir um sínodo da Igreja Italiana parece ser mais urgente do que nunca: é inegável que precisamos refletir todos juntos sobre nosso testemunho de fé no mundo, especialmente após essa crise mundial. Não basta ser contra o aborto, a eutanásia e outras questões de ética pessoal; ao lado deles tem que existir, com a mesma veemência, o não ao racismo, xenofobia, corrupção, máfias, guerras e tráfico de armas, egoísmos nacionais e discriminação, pesquisa científica escrava dos poderios econômicos. Georges Bernanosnel escrevia, em 1944, na Lettre aux Angleis: “Chegará o tempo em que Deus colocará a sua Igreja contra a parede, depois de ter cuidadosamente bloqueado todas as saídas, a direita, a esquerda, para trás, e ela terá que pressionar contra o obstáculo com todo o seu peso, com todo o heroísmo de seus santos e com toda a inércia acumulada pelos medíocres". Será este o momento?

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