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07 Dezembro 2016

Rocco D’Ambrosio é professor de Filosofia Política na Universidade Gregoriana de Roma e seu último livro Ce la farà Francesco? La sfida della riforma ecclesiale, foi publicado em espanhol com o título Francisco irá conseguir? Reforma eclesial e lógicas institucionais (San Pablo), onde faz uma análise institucional do atual pontificado.

Rocco D’Ambrosio é presbítero da Diocese de Bari, Itália. Estudou Filosofia e Teologia na Pontifícia Universidade Lateranense e na II Università delgi Studi Tor Vergata de Roma, tem doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente, é professor de Filosofia Política na Universidade Gregoriana e de Ética da Administração Pública no Ministério do Interior (SSAI, Roma). Publicou vários livros: Il potere e chi lo detiene (2008), Come pensano e agiscono le istituzioni (2011), La storia siamo noi. Tracce di educazione politica (2011), Luoghi comuni. Un tour etico a Roma (2013), Corruptia. Il malaffare in un Comune italiano (2014), Non come Pilato. Cattolici e politica nell'era di Francesco (2015), Ce la farà Francesco? La sfida della riforma ecclesiale (2016). Além disso, dirige o jornal de cultura e política Cercasi un Fine.

A entrevista é de Diego Meza e publicada por Religión Digital, 02-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é a natureza e o objetivo do seu livro?

Eu me ocupo da análise institucional do ponto de vista filosófico, mais exatamente na perspectiva antropológica e ética. Portanto, aplico este enfoque não à Igreja em geral, mas ao atual momento eclesial, isto é, à reforma do Papa Francisco; portanto, este livro não é de teologia, nem de espiritualidade; é um livro de análise institucional.

Quais são as características e os principais temas desta reforma?

Penso que para responder a esta pergunta devemos recordar aquilo que Francisco reafirmou em várias ocasiões, que ele está em plena sintonia com o Concílio Vaticano II, que, naturalmente, o Papa interpreta com sua história, sua sensibilidade, sua procedência da América Latina. Com relação aos temas do Concílio, penso que o Papa destaca algumas coisas: uma Igreja em comunhão, uma comunidade sinodal, a visão de uma Igreja em saída, uma atenção aos pobres e à pobreza do mundo e uma grande solicitude pelo ecumenismo.

Isto influencia na concepção do poder dentro da Igreja?

Devemos afirmar que o Papa tem um grande cuidado pelo tema do poder na Igreja. Pode-se observar inclusive uma mudança neste aspecto: no princípio, Francisco assinalava com muita força os problemas que tem a ver com o manejo do poder, depois acrescentou os elementos positivos e as virtudes que cardeais, bispos e sacerdotes exercem neste campo. Acrescentaria que as sugestões que o Papa recebeu dos cardeais nos encontros anteriores ao Conclave estavam relacionadas com a necessidade de empreender uma reforma sobre os aspectos mais degenerados do poder eclesial, que não são exclusivamente a pedofilia de alguns sacerdotes e bispos, mas também o carreirismo, o triunfalismo e outros mais que o Papa enumera. A atenção a este tema é pessoal e tem a ver com a sua sensibilidade, mas também é uma espécie de mandato que recebeu do Colégio Cardinalício.

Em seu livro, o senhor fala de uma idealização do Papa. A que se refere? Também pode explicar o fenômeno da rejeição ao seu pontificado?

Considero que, com referência ao Papa, pode-se falar de uma espécie de partidos. Existe, por exemplo, um partido que o idealiza muito transformando-o em um super-homem; obviamente, isto provoca um grande mal. Existe outro partido, como se viu com a última intervenção dos quatro cardeais, que vai contra, que não aceita nem sua pessoa, nem sua reforma. E, por último, o grupo daqueles que não se alinham, que agem de forma ambígua. Penso que este é o pior partido. Esta situação é típica dos grandes líderes. Um grande líder obtém sempre uma reação positiva ou negativa. As reações ambíguas são geralmente negativamente ocultas, pertencem àqueles que não têm a coragem de dizer: somos contra. Devemos sublinhar que o Papa conhece esta situação, por isso diz que todas estas coisas não lhe tiram o sono.

Agora, nós, como crentes, devemos ser capazes de passar da consideração da pessoa do Papa a fixar a vista no conteúdo, no que ele diz e no que ele quer para a Igreja. Obviamente, podemos encontrar defeitos nele, isso é normal. Pedro, por exemplo, traiu Jesus. Francisco é uma pessoa como nós, é um bispo como os outros. O problema a considerar não é Francisco, mas o que ele indica à Igreja. Em síntese, devemos recordar, como ele mesmo disse, que surgem muitos problemas “quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da Palavra de Deus” (EG 38).

Em qualquer instituição existem contradições. Por que neste pontificado assumiram tanta importância?

Em todos os pontificados surgiram contradições e isto é normal. O problema é que se o Papa recorda constantemente o Concílio Vaticano II o problema não é ele, mas o Concílio. Aqueles que se opõem ao Papa deveriam ter a coragem de dizer que não estão de acordo com o Concílio.

Também se pode ver que proliferam páginas de internet, artigos em jornais e revistas expressando sua resistência ao Papa.

O Papa é fortemente midiatizado, não porque ele o queira, mas porque o Papa é uma figura que é amada popularmente. Uma frase que ele disse pela manhã na Capela de Santa Marta em cinco minutos dá a volta ao mundo. É culpa dos meios de comunicação? Não, os meios de comunicação fazem o seu trabalho e o reproduzem de forma sistemática. Agora, um bom cardeal, bispo, presbítero ou leigo, se quiser ter uma boa ideia do Papa, não pode ler somente um artigo ou uma frase solta; deve fundamentar-se melhor em referência ao que ele afirma em suas homilias, discursos e documentos.

Por exemplo, com respeito à nova carta do Papa, os meios de comunicação tomaram somente a frase relativa ao aborto e à faculdade de perdoar dos sacerdotes. É normal a seleção feita pelos jornalistas, mas a carta não fala somente disso. Se alguém quiser entender este Pontificado deve ampliar a leitura, aprofundar e fazer uma crítica inteligente. A este respeito, não penso que o Papa tenha dito uma heresia, porque a misericórdia não é uma heresia, é uma realidade.

O que significa fazer uma reforma a partir da base?

Quem estudou a vida de Jorge Mario Bergoglio afirma que seu ponto de referência, mais que a Teologia da Libertação, é a Teologia do Povo. A partir desta concepção, creio que o Papa pensa que o mundo deve ser observado não do ponto de vista dos vencedores, mas dos vencidos; não a partir dos ricos, mas dos pobres. Ele reflete muito sobre este assunto: existe um centro político, cultural, religioso, econômico, mas o mundo não pode ser visto a partir destes centros; deve ser visto da periferia. Não do alto, de quem governa, mas da base. Isto não é apenas de Bergoglio; isto pertence ao Evangelho. Jesus nos ensinou que se identifica com quem tem fome, sede, com quem está na prisão, com quem é maltratado. Jesus se identifica com os últimos, e depois, existe uma grande tradição na história da Igreja nesta mesma direção.

Como pode ser vista a recepção do Papa fora da Igreja?

Se pudesse fazer uma classificação, diria que o Papa gosta muito das pessoas honestas e genuínas, dos católicos de fronteira, aqueles que estão um pouco dentro, um pouco fora, e também das pessoas que estão em busca. Além disso, gosta das pessoas simples; não é difícil entender isso, porque quando fala e escreve o faz para ser compreendido por todos. E de quem não gosta? Daqueles que têm problemas com o poder, daqueles que estão certos de si mesmos, dos corruptos. Devo destacar que estou convencido de que diante dele, assim como diante de qualquer pessoa com uma responsabilidade profética, existem duas possibilidades: alguém pode dizer: esta pessoa me confunde, mas desejo pensar, quero discutir o que ela diz; ou a rejeito e começo a atacá-la, a rezar por sua morte, como fazem alguns. Aqui não existe terceira via.

Por último, Francisco levará esta reforma até o fim?

Esta pergunta leva a uma segunda pergunta: o processo que Francisco está colocando em prática será irreversível? Do ponto de vista institucional, esta é a pergunta: é possível que quem vier depois diga ‘não aconteceu nada, retornamos a 2013’? Eu penso que não. Há coisas que Francisco fez e que são irreversíveis. Todas? Não. A Igreja é lenta, como disse Bento XVI, em seu processo de amadurecimento, mas algumas coisas não têm retrocesso. O fará? Já o fez em algumas coisas, em outras necessita-se de tempo. Concluindo, quanto mais tempo tiver para fazer a reforma, mais irreversível será o processo.

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