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10 Julho 2011

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU.  A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Sumário:

Economia Mundial. Cenário sombrio
Economias estressadas
A crise na Grécia e na zona do Euro
Quem controla as agências de risco?
Velhos problemas, velhas receitas
O Brasil no contexto mundial de incertezas econômicas

Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

Economia Mundial. Cenário sombrio

Prolongamento da grande crise – que se iniciou em agosto de 2007 e atingiu seu ápice com a quebra do banco americano Lehman Brothers em setembro de 2008 –, a crise da zona do Euro recolocada a nú pelos acontecimentos nos últimos dias na Grécia, põe na agenda global o risco de uma nova crise econômica sistêmica.

O cenário da economia mundial é hoje tão ou ainda mais sombrio quando da crise de 2008. Vivemos sob a perspectiva econômica de uma era de incertezas. Nem mesmo a locomotiva econômica do mundo, a China, está a salvo das implicações da crise que ronda a Europa e os Estados Unidos. Os outros emergentes, entre eles o Brasil, menos ainda.

Assim como a crise de 2008 não foi prevista pelos oráculos da economia mundial, como as escolas de economia de renome e as agências de consultoria que fazem de seus ratings dogmas de fé, qualquer afirmação cabal sobre os desdobramentos e consequências da crise são tiros n’água.

A retomada da crise econômica na zona do Euro coloca em debate velhos temas, como "regulação versus livre mercado" e novos temas, como o papel que exercem na economia mundial as agências de classificação de risco.

Economias estressadas

Os últimos dias foram péssimos para a economia mundial. Na Europa, na América e na Ásia veem-se movimentos de retração econômica. A situação econômica na Europa é de desconfiança generalizada e se deteriorou pela crise grega. Apesar da aprovação do pacote draconiano imposto à Grécia – demissões em massa, redução salarial, privatizações e aumento de impostos – em troca de alguns bilhões de euros para estancar a sangria e a insolvência financeira do país, ninguém acredita que o problema foi solucionado. Ato contínuo, agências de classificação de risco rebaixaram Portugal como a "bola da vez", o que causou irritação no meio político europeu sobre o poder dessas agências.

As más notícias na Europa se estendem ainda às medidas e anúncios de pacotes de austeridade por parte da Itália e da Espanha. O movimento 15M é uma reação direta aos cortes sociais em curso na Espanha.

A economia dos EUA, por sua vez, patina há anos e o endividamento do Estado assume proporções sem precedentes. Uma notícia curiosa na semana dá conta de que existe uma chance pequena, mas real, de que o impasse entre os dois partidos americanos – republicanos e democratas – leve o Congresso a não renovar o teto de endividamento do governo. Segundo o economista, Alan Blinder, da Universidade Princeton e vice-presidente do Federal Reserve, "se isso acontecer, em agosto o governo dos Estados Unidos terá de fazer um corte imediato de 40% nas despesas federais". Isso, para ele, faria o país "mergulhar numa nova recessão e, com o resto do mundo achando, com razão, que os Estados Unidos enlouqueceram, o dólar poderia desabar", diz ele. A possibilidade remota coloca em evidência o tamanho do déficit da economia americana.

A China, economia ainda superaquecida, diante das ameaças de recessão mundial e dos riscos inflacionários internos, reduz a velocidade da locomotiva. O banco central chinês anunciou o terceiro aumento dos juros neste ano e o quinto desde o início do aperto monetário. A economia chinesa crescendo menos é uma péssima notícia para todo o mundo. A desaceleração chinesa é ainda mais grave num momento de estagnação de boa parte da Europa e da perda de impulso da economia americana.

O Brasil, particularmente, pode ser uma das vítimas da redução de aquecimento da economia chinesa, na medida em que é a China é dos grandes importadores das commodities brasileiras, responsável por superávits sucessivos na balança comercial de nosso país. Nesse contexto, o debate sobre os riscos de desindustrialização da economia nacional se torna ainda mais importante.

A crise na Grécia e na zona do Euro

A crise da Grécia tem a ver com o ingresso do país na Comunidade Econômica Europeia (CEE). Como todo país que ingressou no euro, a Grécia teve que, além de cumprir uma série de metas fiscais, monetárias e financeiras, renunciar à possibilidade de emitir sua própria moeda. Esse privilégio ficou nas mãos do Banco Central Europeu (BCE), entidade supranacional que funciona como um banco central independente. O BCE tem como uma de suas regras não financiar déficits fiscais dos Estados membros. Logo, os países ficam seriamente restringidos em suas políticas econômicas pela dificuldade de obter créditos. Encontrar-se-iam nessa situação os chamados países denominados PIIGE (anagrama para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).

A receita para a Grécia permanecer na zona do euro e continuar recebendo apoio é dura: demissões, cortes salariais, adiamento das aposentadorias, aumento de tarifas e impostos e privatizações. A sociedade grega explodiu em manifestações.  Ironicamente, a Grécia, ao procurar abrigo na solidez da zona do Euro, encontrou a tragédia.

"Se não vier o dinheiro [da União Europeia/FMI, condicionado à aprovação do pacote], enfrentaremos um terrível cenário, a volta da dracma [a antiga moeda grega], com os bancos sitiados por multidões aterrorizadas querendo retirar suas poupanças, veremos tanques protegendo bancos porque não haverá policiais suficientes para fazê-lo", afirmou com ares apocalípticos o vice-primeiro-ministro Theodoros Pangalos sobre a necessidade e urgência do parlamento aprovar o pacote de austeridade em troca de ajuda financeira,  12 bilhões de euros imediatamente para Grécia fechar as contas até setembro e na sequência um segundo plano de socorro, escalonado de aproximadamente € 120 bilhões, até 2014.

Na opinião do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, "o Banco Central Europeu, a Comunidade Europeia e o FMI decidiram empurrar o problema da Grécia com a barriga em vez de resolvê-lo". O mesmo pensa o economista Luiz Gonzaga Belluzzo:  "Entre cinco analistas experientes e de boa reputação, quatro não acreditam na solução aviada nos gabinetes da União Europeia com o propósito de "salvar a Grécia’. A crise fiscal e de balanço de pagamentos que ora assola a periferia europeia é filha legítima (com DNA comprovado) do despropósito financeiro global".

Segundo Bresser-Pereira, "a crise da Grécia teve quatro responsáveis: o governo grego anterior, que não soube administrar suas contas; a Alemanha, que aumentou a produtividade sem aumentar os salários e assim desequilibrou as economias dos países mais fracos, endividando-as; os bancos, que alegremente emprestaram para a Grécia e para outros países; e a teoria econômica ortodoxa, que defende o crescimento com "poupança externa’. Ou seja, tentar crescer à custa de déficits em conta corrente esquecendo que estão geralmente associados a déficits públicos". Em sua opinião, "a alternativa de empréstimos adicionais combinados com medidas de austeridade que provoquem recessão e reduzam os salários é ineficaz porque a dívida é grande demais para poder ser paga".

O economista Belluzzo também identifica no sistema financeiro parte considerával da responsabilidade. Diz ele: "Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia se esbaldaram na abundância de crédito destinado ao mercado imobiliário e encaminhado aos desvarios do consumo. Essa pletora de financiamentos a juros alemães e prazos idem foi generosamente concedida por bancos franceses, alemães, ingleses e italianos. Na euforia do ciclo de crédito, os austeros germânicos lavaram a égua: acumularam pingues saldos comerciais contra os "gastadores e preguiçosos’ (sic) do sul da Europa".

O prêmio Nobel da Economia Joseph Stiglitz destaca que o "socorro" aos gregos tem um destino final, os bancos europeus, particularmente os bancos alemães. Destaca ele: "A questão que se coloca é: trata-se de um pacote de socorro à Grécia ou aos bancos alemães? É a mesma pergunta que me fazia quando eu estava no Banco Mundial e íamos "resgatar’ o México, a Coreia, a Tailândia ou Indonésia. Não, nós não estávamos salvando esses países, mas os bancos ocidentais, mas não queríamos falar em  resgate dos bancos ocidentais, dizíamos que era uma ajuda para aqueles países. E é isso que está acontecendo agora: estamos salvando os bancos na Alemanha é assim que se deveria chamar", diz o economista.

Para Stiglitz, não se pode  "pedir aos cidadãos que sacrifiquem suas vidas para salvar os bancos, quando foram estes que causaram os problemas. Aqui está em jogo o conceito de justiça social", diz ele.

A análise de Stiglitz é corroborada pelo ministro da Fazenda da Alemanha, Wolfgang Schäuble, quando afirma que "não podemos permitir um segundo Lehman Brothers".

Quem controla as agências de risco?

As receitas para a saída da crise na Grécia e nos demais países como Portugal, Espanha e Itália que vivem às voltas com déficits é dado pela ortodoxia do FMI e do Banco Central Europeu, instituições hegemonizadas pelos interesses do capital financeiro. Esse fato fica ainda mais evidente quando se assiste nos últimos dias uma crescente reação contra as agências de consultoria que classificam a saúde financeira dos países. Essas agências estão visceralmente ligadas às instituições financeiras, credoras essas últimas de títulos a serem resgatados dos tesouros do orçamento dos Estados-nação.

Na Grécia, a assessora internacional do Partido Socialista grego e conselheira do primeiro-ministro, George Papandreou, Polina Lampsa, acusou as agências de minar o país.

A Europa acusa as agências de classificação de risco de desestabilizar o mercado depois do rebaixamento de Portugal e propõe novas medidas para restringir o poder dessas empresas. O anúncio da ofensiva vem no momento em que a decisão da Moody’s sobre a dívida de Lisboa reabriu os temores na Europa de que o contágio da situação na Grécia é inevitável. Há poucos dias, a agência rebaixou o rating da dívida de Portugal para o nível especulativo, também denominado junk (lixo, em tradução literal) e alertou que, assim como no caso da Grécia, o país também precisará de um segundo pacote de resgate.

Para a Comissão Europeia, a atitude da Moody’s é "duvidosa", já que está baseada em cenários "altamente questionáveis". Com o objetivo de lidar com o poder desmesurado dessas agências classificatórias, a União Europeia apresentará novas propostas para frear a atuação das agências. Pela proposta, a influência das mesmas diminuirá e será exigido maior transparência para que divulguem a base de suas decisões. Na ONU, o economista-chefe da Unctad, o ex-secretário de Estado de Finanças alemão, Heiner Flassbeck, também criticou as agências, alertando que elas não deveriam ser autorizadas a avaliar Estados e só empresas.

O economista e Nobel da economia, Amartya Sen, está entre aqueles que criticam duramente o papel das agências de consultoria. Segundo ele, "o diagnóstico dos problemas econômicos por parte das agências de qualificação não é a voz da verdade como pretendem. Vale a pena lembrar que o histórico dessas agências nas instituições de certificação financeira e de negócios antes da crise econômica de 2008 era tal que o Congresso dos EUA debateu seriamente se deviam ser processadas".

Particularmente em Portugal a agência Mody’s despertou a ira dos portugueses. O primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho,  classificou a medida como um "murro no estômago". Uma campanha virtual contra a agência passou a ser organizada. Ana Luísa Janeira, filósofa, professora Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, uma das organizadoras da campanha "Portugal contra Mody’s" propõe retirar do ar os servidores da agência do ar durante o pregão da bolsa de valores de Nova York, afirmou: "Querem guerra? Pois não sabem com que povo se estão a meter... vamos retaliar como podemos".

Capital financeiro dá as cartas. Velhos problemas, velhas receitas

A relevância que as agências multilaterais como o Fundo Monetário Internacional - FMI - e o Banco Central Europeu – BCE - associado às agências de classificação exercem no cenário da crise sinaliza para a força do capital financeiro. Mesmo após a crise e a desmoralização dessas instituições na crise economica mundial de 2008, são elas que continuam dando as cartas. Como destaca Bruno Lima Rocha, cientista político, e Fábio López López, economista, em artigo no sítio do IHU, "os governos de Portugal, Espanha e Grécia estão diante de um túnel do tempo, retrocedendo ao período em que na América Latina, o FMI ditava as regras e o Poder Executivo de nossos países operava como títere deste organismo multilateral".

"Nada foi absorvido da recente crise financeira que mostrou a necessidade de maior igualdade, regulamentação mais forte e melhor equilíbrio entre mercado e governo", constata Joseph Stiglitz.

Na essência, a crise da zona do euro que se postou no centro do debate europeu desde a grande crise de 2008, expõe o embate entre a regulação versus livre mercado. O choque de fundo que se manifesta na zona do Euro é essencialmente sobre a forma de organizar a economia e a sociedade – um embate entre os fundamentos do neoliberalismo e o Estado de Bem-Estar Social – o "modelo social europeu".

Para uma retomada do debate acerca da natureza da crise de 2008, sugerimos a leitura das revistas IHU On-Line nº 276 – A crise financeira internacional. O retorno de Keynes e A financeirização do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx. Outras revistas do IHU On-Line retomaram o debate acerca da crise do capitalismo mundial, entre elas destacamos a revista nº 287 – A crise capitalista e a esquerda e, recentemente, a revista nº 330 – A crise da zona do euro e o retorno do Estado regulador em debate.

Novamente, o capitalismo financeiro emerge como o grande protagonista da crise e é em nome dele que se exigem enormes sacrifícios. A resistência dos fundamentos do neoliberalismo, que se julgava debilitado pela grande crise de pouco tempo atrás, dá sinais de que a transição da economia de livre mercado para uma economia regulada está distante de acontecer. A tese propagandeada pelos políticos de que era preciso "refundar o capitalismo" virou quimera.

"A crise é o Muro de Berlim do livre mercado". Assim definiu a crise econômica de 2008, Joseph Stiglitz.  À época o economista afirmou: "A queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo". O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu que a crise nasceu no coração do sistema financeiro.  Falou-se exaustivamente da necessidade de mecanismos mínimos de regulação sobre o mercado financeiro e até de um novo Breton Woods.

Até mesmo a maior potência econômica do mundo, os EUA, reconheceu que a sua cruzada em defesa das virtudes do liberalismo havia se esgotado. O secretario do Tesouro americano Henry Paulson implorou aos países que adotassem pacotes de emergência ao sistema financeiro e num rompante de sinceridade chegou a afirmar: "Odeio ter de fazer isso, mas é melhor (...) Este é um momento de muita humildade para os EUA".

No contexto do debate acerca da natureza e do caráter da crise de 2008, os mitos do liberalismo foram abalados, a tese liberal do mercado como aquele que se auto-regula se demonstrou uma falácia. Os anos dourados do neoliberalismo e as orientações do "Consenso de Washington’ foram duramente questionados.

Afirmou-se ainda à época que a crise não foi apenas de macro teoria, mas de natureza ética. Com a crise de 2008 rompeu-se a ética de um sistema fundado em valores que decorrem da máxima "vícios privados, benefícios públicos", ou seja, a ideia de Bernard de Mandeville, de que a sorte dos demais é, em última instância, uma manifestação do nosso amor-próprio, do nosso auto-interesse. A tese do egoísmo como virtude exposta por Adam Smith ao destacar que a busca compulsiva do próprio interesse conspiraria para a elevação do bem-estar da sociedade falhou.

O evangelho do mercado: reduzir o Estado, quebrar a coluna dos sindicatos, cortar os gastos sociais e privatizar foi colocado em xeque. Os desdobramentos e as "lições" da crise, porém duraram pouco tempo. O jogo continua sendo jogado da mesmíssima maneira como se percebe agora com a crise da zona do euro. As velhas receitas são as mesmas de sempre.

"Eu estava entre os que esperavam que, de algum modo, a crise financeira ensinaria aos americanos (e a outros) uma lição sobre a necessidade de maior igualdade, de uma regulamentação mais forte, e de um melhor equilíbrio entre mercado e governo. Pobre de mim, não foi o que ocorreu. Ao contrário, o ressurgimento de uma economia de direita, impelida, como sempre, por ideologia e interesses especiais, ameaça uma vez mais a economia global - ou, ao menos, as economias da Europa e dos Estados Unidos onde essas ideias continuam prosperando", afirma frustrado o economista americano Joseph Stiglitz.

Amartya Sen é outro que critica o mercado financeiro e a hegemonia que exerce no debate sobre a crise. Diz ele: "É difícil ver que os sacrifícios que os comandantes financeiros vêm exigindo dos países em situação precária vão garantir a viabilidade destes países e a continuidade do euro dentro de um modelo sem reformar o setor financeiro e um conjunto de membros sem mudanças dentro do clube do euro".

Pergunta Stiglitz: "Será que realmente precisamos de uma nova experiência dispendiosa com ideias que falharam repetidamente? Não precisamos, mas ao que tudo indica teremos de suportar outra mesmo assim", afirma de forma pessimista.

O Brasil no contexto mundial de incertezas econômicas

O Brasil está livre do perigo do contágio da crise da zona do euro? A nossa economia está robusta o suficiente para evitar as consequências da deterioração da economia mundial? Ninguém sabe ao certo o tamanho da crise, seus estragos e sua duração. A crise de 2008 "ensinou" que tendo a crise iniciada no sistema financeiro, logo baixou à economia real, espraiando-se dos países ricos aos mais pobres, passando pelos países em desenvolvimento. Numa economia globalizada, todos os recantos do mundo, mais ou menos intensamente, foram de uma ou de outra maneira atingidos.

Quando da crise de 2008, Lula afirmava que o Brasil vivia um "momento mágico e glorioso" e que a crise chegaria no país apenas como uma "marolinha": "Lá, ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar", disse Lula em setembro de 2008.

O fato é que a crise mundial de dois anos atrás mesmo chegando com menos intensidade no país, pulverizou 700 mil empregos e exigiu sacrifícios e respostas rápidas do país. O cenário apenas não foi pior porque o país vivia um momento de crescimento econômico. Mesmo assim viu-se o socorro do Estado ao capital financeiro e produtivo através da edição da Medida Provisória 443 autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem sem licitação bancos e todas as empresas financeiras ligadas a eles, passando pela redução de IPI sobre determinados produto, até a injeção de recursos nas montadoras.

Algumas medidas anunciadas pelo governo Lula na época na perspectiva de aquecer a economia: Anúncio do programa Minha casa, Minha Vida; prorrogação por três meses da redução do IPI para o setor automotivo; desoneração tributária de geladeiras e outros bens da linha branca; redução de encargos trabalhistas para empresas que evitarem demissões;  ampliação do seguro-desemprego em duas parcelas; pacote de ajuda às prefeituras e Estados; troca da direção do Banco do Brasil na perspectiva de forçar a redução do spread; pacote de R$ 10 bilhões ao agronegócio.Como se pode perceber as respostas à "marolinha" foram em grande número. Para muitos analistas as consequências apenas não foram maiores porque o país adotou uma estratégia econômica de crescimento e as medidas  adotadas pelo país se inscreveram na perspectiva keynesiana, ou seja, medidas para estimular o consumo.

A crise, portanto, ensina que mesmo em economias em crescimento as consequências podem ser severas. É em função do que já aconteceu que não se pode afirmar que o país está livre do contágio da nova crise mundial. Aliás, nos últimos dias notícias deram conta de que a deterioração da crise grega pode impactar os bancos Santander e BBVA na América Latina. O presidente do conselho de administração do Santander Brasil, Fábio Barbosa refutou a ameaça e rechaçou a existência de bolha de crédito no país – alerta que mais se ouve nas análises internacionais sobre a economia brasileira. Reiterou ainda que o sistema financeiro brasileiro é forte, "parte da solução e não do problema".

O boom da economia brasileira foi propagandeado ao redor do mundo como exemplo para a recuperação após a crise global de 2008. No entanto, já se percebem vozes divergentes que alertam sobre possíveis estouros de bolhas que levem a uma desaceleração no país. "As pessoas estão subestimando os problemas na economia brasileira", disse o analista Neil Shearing, economista da consultoria britânica Capital Economics. "Fundamentalmente, o ritmo e a natureza do crescimento brasileiro não são sustentáveis", afirmou Shearing.

"O estouro da bolha de crédito deve ser bastante grave e levar a economia a uma desaceleração", disse Amit Rajpal, gerente de portfólio do fundo de investimentos Marshall Wace. Em um artigo pelo diário econômico Financial Times, Rajpal e Paul Marhsall, diretor de investimentos do Marshall Wace, alertam para o risco de uma crise no setor de crédito no Brasil, citando um aumento dos gastos proporcionais das famílias brasileiras com o pagamento de suas dívidas e a perspectiva de aumento dessa proporção por conta dos juros em alta. "O peso no fluxo de caixa (das famílias) é astronômico e está crescendo", escreveram.

Em um relatório publicado nos últimos dias, a Capital Economics faz um alerta sobre as perspectivas negativas da indústria no Brasil, apesar do crescimento na produção registrado em maio, e sobre a contínua valorização do real, que "está distorcendo a economia brasileira".

A consultoria britânica mantém suas previsões positivas sobre a economia do país no curto prazo, mas advertiu em um relatório anterior sobre "um crescente risco de que a economia superaqueça ou que bolhas comecem a inflar". Para a Capital Economics, a vulnerabilidade da economia brasileira advém de dois fatores: a força do fluxo de capitais para o país e o aumento rápido do crédito para o consumo interno.

O jornalista Vinicius Torres Freire que acompanha a área econômica comenta o que chama de "fofocas": "O brasileiro está superendividado? A pergunta se tornou assunto na mídia econômica do mundo. A opinião mais pop e frequente diz que sim". Segundo ele, e numa referência indireta a análise anterior, "os mais alarmistas, em geral mais ignorantes do Brasil, acreditam que a parte da renda dedicada ao pagamento dos empréstimos teria chegado a um nível semelhante ao de países que viveram estouro de bolhas de crédito".

Vinicius Torres Freire em outro artigo diz: "A gente pode ouvir e ler estrangeiros a reclamar do seguinte: 1) A economia brasileira está "superaquecida". Cresce acima de suas possibilidades, o que causa inflação e pode provocar "bolhas"; 2) O real está supervalorizado. O país, ainda pobre, é agora um dos mais caros do mundo. Isso seria sinal de desarranjo grave da política econômica e/ou da bonança temporária, resultado de excesso de crédito barato no mundo e de preços exageradamente altos de commodities que exportamos. Pior, o real forte dá mais impulso à bolha e prejudica a indústria; 3) Os consumidores estão superendividados. A inadimplência cresce mesmo com a renda ainda alta e o desemprego historicamente baixo. Isso é sinal de que os consumidores não sabem administrar seu caixa e também de que os bancos concederam crédito ruim".

Refutando as teses alarmistas, afirma que "o superaquecimento passou, a economia se desacelera, embora exista grande controvérsia sobre o ritmo adequado do PIB, as taxas de juros, a política fiscal, mas se trata do assunto de sempre". Destaca ainda que "o real está fortíssimo, pelos motivos apontados pelos nossos críticos (crédito mundial, commodities, desarranjo da política econômica)".

O jornalista, entretanto, destaca que "no caso de alguma reviravolta, podemos levar um tombo feio. Numa crise financeira aguda, com seca de capitais ou com a queda abrupta do preço de commodities, pode haver desvalorização, inflação e anos de crescimento medíocre, para pensar apenas no curto prazo". Segundo ele, "o alerta mais interessante trata do excesso de endividamento dos consumidores. Não porque seja mesmo verdade, mas porque o assunto é novidade".

Num eventual agravamento da crise o que merece atenção são os rumos da China e dos preços das commodities, alerta Otaviano Canuto concordando com Vinicius Torres Freire. Canuto é vice-presidente do Banco Mundial para Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico e ex-integrante da primeira equipe montada pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, no início da primeira gestão de Lula.

Para ele, China e commodity podem influenciar mais do que a crise na Grécia. Segundo Canuto, "a variável que se deve olhar hoje, especialmente o Brasil, é a China. É para onde vão os preços de commodities, em que medida a evolução da China pode ou não afetar os preços". Uma eventual queda de preços internacionais das commodities pode trazer prejuízos para a economia brasileira ainda muito dependente das exportações desse tipo de mercadorias.

Aqui entra outro debate crucial para o futuro do país, a política de industrialização. Tema recorrente nas notícias do dia, nas revistas IHU On-Line e nas conjunturas da semana. Os riscos evidentes de desindustrialização da economia nacional podem a médio prazo tornar o país mais vulnerável as crises internacionais. Por ora, num contexto de incertezas na economia mundial, afirmar que o Brasil está salvo de riscos maiores é precipitado.

Conjuntura da Semana em frases

Falando claro

"Vamos falar claro: movimentei o caixa dois da campanha eleitoral. Isso todos os políticos brasileiros faziam" – Valdemar da Costa Neto, deputado federal – PR-SP – Folha de S. Paulo, 10-07-2011.

"O acordo com o PR foi feito pelo Lula, decepcionando quem esperava que esse tipo de aliança o PT nunca fizesse. Mas a Dilma, presidente também foi feita pelo Lula, que certamente sabia das suas implicâncias e da sua determinação. Dilma, desfazendo o acordo, estará redimindo Lula e o PT dos seus pecados por associação" – Luís Fernando Verissimo, escritor – O Globo, 10-07-2011.

Cai, mas fica

"Cai Alfredo Nascimento, o PR fica. A presidente tem força para derrubar o ministro, mas não para enquadrar o partido - ou simplesmente se livrar dele e moralizar o pedaço. Os espertalhões perderam a modéstia" – Fernando de Barros e Silva, jornalista – Folha de S. Paulo, 08-07-2011.

Locupletou-se!

"O PR - que até 2006, quando se fundiu com o Prona, se chamava PL- locupletou-se na pasta desde o início do governo Lula, em 2003" - editorial "Ministério dos desvios" – Folha de S. Paulo, 07-07-2011.

86.500%

"(Alfredo) Nascimento volta para o Senado sob acusação de propinas e superfaturamentos que podem estar por trás do crescimento do patrimônio da empresa do seu filho em 86.500%. É isso mesmo, segundo o jornal "O Globo": 86.500% em dois anos" – Eliane Cantanhêde, jornalista – Folha de S. Paulo, 07-07-2011.

Companheiro Alfredo

"Alfredo sempre foi correto, sério e atencioso com a nossa bancada. Sempre tratou a todos com respeito e sempre atendeu nossos pleitos. Já levei lá governadores, prefeitos, deputados e sempre fomos muito bem tratados. Ele tem o nosso apoio" - Henrique Eduardo Alves (RN), líder do PMDB – Valor, 06-07-2011.

É isso, companheiro?

"Dentro do PT e até do próprio PR causou surpresa a candente defesa inicial de Gilberto Carvalho a Pagot" – Jorge Moreno, jornalista – O Globo, 09-07-2011.

Pagot Levot

"O chefe do Dnit que acaba de cair atende por Pagot. Só faltava se chamar Pagot Levot" – Fernando de Barros e Silva, jornalista – Folha de S. Paulo, 09-07-2011.

É a Dilma!

"Essa é a Dilma Rousseff que chegou à Presidência da República" – Eduardo Braga, senador - PMDB-AM - , comentando a queda de seu adversário político Alfredo Nascimento (PR-AM), afastado ontem do Ministério dos Transportes em meio a suspeitas de irregularidades em licitações – Folha de S. Paulo, 07-07-2011.

Piada pronta

"A situação do PR ficou tão esquisita que, agora, o político mais sério do partido é o... palhaço Tiririca" – um observardor do PR, em Brasília – O Globo, 09-07-2011.

Suborno

"Mais do que uma demanda momentânea, o objetivo era fortalecer um projeto de poder do Partido dos Trabalhadores de longo prazo. Partindo de uma visão pragmática, que sempre marcou a sua biografia, José Dirceu resolveu subornar parlamentares federais, tendo como alvos preferenciais dirigentes partidários" – Roberto Gurgel, procurador-geral da República – Zero Hora, 09-07-2011.

Controles

"Os governos do PT, decidamente, não gostam de controles" - Rosângela Bittar, jornalista – Valor, 06-07-2011.

Tenda

"É algo pequeno, como uma tenda. As pessoas não conseguem entender isso. Depois de ter 20 milhões de votos, acham que você deve ir para uma torre, um palácio. Eu estou indo para uma tenda, uma coisa modesta" – Marina Silva,  ex-senadora, sem partido – falando do Instituto Marina Silva – Folha de S. Paulo, 09-07-2011.

Em campanha

"Vágner de Freitas, candidato à sucessão da CUT, puxou a participação da central ontem no ato que paralisou a rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo. A mobilização, organizada em parceria com a Força Sindical, não contava com a simpatia do presidente nacional da entidade, Artur Henrique"  – Ranier Bragon, jornalista – Folha de S. Paulo, 09-07-2011.

Novo ícone

"É graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos. É graças aos soldados, e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa. É graças aos soldados, e não aos professores, que existe liberdade de ensino. É graças aos soldados, e não aos advogados, que existe o direito a um julgamento justo. É graças aos soldados, e não aos políticos, que podemos votar" – Barack Obama, presidente dos EUA – O Globo, 09-07-2011.

Conversão

"Os norte-americanos acreditam que podem alterar as pessoas por conversão, e que todos no mundo são norte-americanos em potencial. Os chineses também acreditam que seus valores são universais, mas não acreditam que podem converter os outros a se tornarem chineses, este são apenas os que nasceram no país" – Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA – Der Spiegel – 10-07-2011.

O que  temos  a perder?

"Mesmo se as previsões climáticas estiverem equivocadas (e não estão), o que temos a perder mudando nossos hábitos para proteger melhor nosso planeta? A Terra existia já bem antes da gente, e vai continuar a existir sem nós. Mas nós não existiremos sem ela" – Marcelo Gleiser, físico – Folha de S. Paulo, 10-07-2011.

Veneno doce

"Açúcar é veneno. Deveria ser considerado tão ruim e viciante quanto o cigarro e o álcool. As pessoas comem doce em todas as refeições. Deveriam fazer isso uma vez por semana" - Robert Lusting, endocrinologista da Universidade da Califórnia – Zero Hora, 09-07-2011.

Maldade

"Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Por que eu saio em 2015. E aí, acabou" – Ricardo Teixeira, presidente da CBF – Correio do Povo, 08-07-2011.

Encalhado

"Escrevo ainda em máquina de escrever, não sei o que é computador. Comigo não adianta perguntar coisa moderna, sou um homem do passado. Eu sou encalhado no passado. Sou conservador. Uso bigode, ainda. Os jovens usam barba" – Antonio Candido, crítico literário – Folha de S. Paulo, 07-07-2011.

Despacho

"E a fusão Pão de Açúcar-Carrefour? Carrefour em francês quer dizer encruzilhada. Pão de Encruzilhada. Pão de Macumba! Isso não é uma fusão, é um despacho" – José Simão, humorista – Folha de S. Paulo, 05-07-2011.

Visita oficial

"Presidente Chávez inicia visita oficial de três dias à Venezuela" - manchete de ontem o site satírico El Chigüire Bipolar   (ou "A Capivara Bipolar") – O Estado de S. Paulo, 05-07-2011.

Pechincha divina

"Se é mesmo verdade que Neymar paga R$ 13 mil por mês de dízimo para a Igreja Batista Peniel, perto do que a Renascer levava do Kaká, francamente, tá barato pra caramba!" – Tutty Vasques, humorista – O Estado de S. Paulo, 06-07-2011.

Procura-se

"O Brasil é mesmo um país sem memória! Ninguém se pergunta mais nem cadê o Plínio de Arruda Sampaio, caramba!" – Tutty Vasques, humorista – O Estado de S. Paulo, 05-07-2011.

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