China e commodity influenciam mais que crise na Grécia

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04 Julho 2011

A crise financeira da Grécia tornou-se tema de discussão permanente nos mercados financeiros no Brasil e no exterior, mas seu potencial de contágio não é relevante para o mundo. O que merece atenção agora são os rumos da China e dos preços das commodities, na avaliação de Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial para Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico. O economista, que já lecionou na Unicamp e na USP, integrou a primeira equipe montada pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, no início da primeira gestão Luiz Inácio Lula da Silva.

Canuto disse que a China deve crescer por 10 ou 15 anos a taxas elevadíssimas. Os preços das commodities também ficarão firmes por mais cinco ou dez anos. E isso dará ao Brasil uma grande oportunidade de avançar, de aproveitar o fato de ter baixo endividamento ou um balanço enxuto, como se constatou na esteira da crise financeira global de 2008.

Canuto não concorda que commodities em alta trazem necessariamente mais inflação. "Não vamos esquecer que mais inflação é o processo sustentado de aumento de preços, e quando falamos das commodities estamos falando de mudança de preços relativos", explica o economista, que vê a economia mundial num ciclo de valorização de recursos naturais e considera a descoberta do pré-sal uma "renda caída do céu".

Para Canuto, será fundamental o papel da sociedade civil na cobrança de regras explícitas de uso desses recursos naturais no Brasil e de regras para o uso do dinheiro. "Espero sinceramente que o brasileiro não se acostume com a ideia de virar um caçador de rendas."

O economista observa ainda que, como o interesse do mercado varia de acordo com a agenda, também entrará no foco, em breve, a negociação do aumento do limite de endividamento do governo americano.

A entrevista é de Angela Bittencourt e publicada pelo jornal Valor, 05-07-2011.

Eis a entrevista.

Os mercados estão exagerando com a crise na Grécia? Qual é a profundidade dessa crise?

O problema principal da Grécia vai ser adquirir competitividade. Passar por um ajuste de custos, estabelecer uma relação salário/valor da moeda que permita ao lado real da economia grega voltar a crescer, mas sem ter o recurso da desvalorização cambial. Essa é que é a história para além da adequação do passivo, que já está encaminhada. A grande questão a respeito da Grécia é como criar emprego e crescer de maneira diferente da que caracterizou o país até a crise financeira, que foi viver do bônus da redução de risco-país, pura e simplesmente por integrar a zona do euro. Isso gerou margem enorme de endividamento, que foi utilizada e sustentou o consumo grego e os salários mais altos. Mas passou. O problema agora é como ser um país e não ser apenas um membro do bloco. Só que a diferença entre uma Grécia e uma Argentina, por exemplo, é que a Argentina contou com a desvalorização da moeda local para seu ajuste. A Grécia não vai contar com isso.

Qual é o potencial de contágio da Grécia?

Não acredito que o potencial de contágio é importante para o resto do mundo.

Por que o assunto agora é a Grécia? Ou não se trata tanto da Grécia e sim da zona do euro?

Se trata, sim, da zona do euro. Mas o foco muda. Já-já, o foco dos mercados será a negociação do aumento do limite de endividamento do governo americano. O foco depende da hora. Vai de acordo com a agenda. Um calote da Grécia certamente teria um impacto no sistema bancário europeu, mas bem menor do que seria há um ano. Desde o início dessa crise, o Banco Central Europeu (BCE) passou a absorver parte dos papéis de bancos. O sistema bancário teve, portanto, pelo menos a chance de se proteger. Provavelmente, os bancos não eliminaram totalmente sua exposição. Portanto, haveria um impacto que poderia em maior ou menor medida afetar o resto do mundo.

Então, para onde olhar?

A variável que se deve olhar hoje, especialmente o Brasil, é a China. É para onde vão os preços de commodities, em que medida a evolução da China pode ou não afetar os preços.

A China está em desaceleração ou não?

Parece difícil a China sustentar taxas de crescimento de 10% ao ano. Talvez nem sustente taxa de 8%. Mas é grande a probabilidade dessa taxa cair a 6% nos próximos anos, o que ainda é considerável e suficiente para fazer o PIB chinês alcançar o PIB americano em alguns anos. E esse crescimento será acompanhado de redução de pobreza. A grande dúvida em relação à China era o grau de resistência do sistema bancário em relação a um choque de preços imobiliários para baixo. Mas especialistas não veem fragilidade nos bancos. Nada que coloque em risco o crescimento econômico e o modelo das zonas econômicas especiais montadas na fronteira do mar. Essas zonas miram lugares onde há uma diáspora chinesa. Temos, por exemplo, a zona especial de Hong Kong, a zona especial mirando Cingapura. O governo chinês pretende agora transferir esse modelo para o interior, para dentro, o que dá margem importante para o país continuar crescendo por 10 ou 15 anos a taxas elevadíssimas. Isso é bom para o Brasil e para o mundo.

A China continuará sendo o motor da economia mundial?

Continuará. Na ausência de fontes de dinamismo nas economias avançadas, a China puxará a economia mundial que passa por uma troca de locomotivas. As economias centrais não têm como recuperar o dinamismo das últimas décadas, porque estarão lambendo as feridas deixadas pela crise por muito tempo. Nos Estados Unidos, a desalavancagem das famílias está longe de ser completa. Por mais que mecanismos como o quantitative easing (afrouxamento monetário) tenham mitigado a crise, a realidade se impõe. E não é simples.

Quando falamos da desalavancagem ou da `limpeza` dos orçamentos da famílias, é possível calcular o tempo que isso vai levar?

Tudo vai depender do dinamismo da economia mundial fora dos Estados Unidos.

Aí entra a China?

Se olharm os os dados setoriais da economia americana, os componentes mais dinâmicos têm sido justamente os beneficiados pelas exportações para os países em desenvolvimento. É assim e será assim por muito tempo, porque, do lado interno, a pressão se mantém para a redução dos gastos das famílias americanas. As empresas estão cheias de dinheiro, mas não querem investir, porque não têm perspectiva de expansão do mercado. Preferem manter dinheiro em caixa ou comprar ativos aqui fora. Por exemplo, no Brasil.

As operações bancárias estão fluindo nos Estados Unidos? As famílias estão endividadas e não tomam empréstimos. As empresas têm dinheiro em caixa e também não tomam empréstimos. Como ficam os bancos?

Os bancos estão apostando em ativos financeiros. Estão comprando papéis em `Brasis` da vida e em commodities. Na Europa, os bancos estão alavancados, o que também é entrave para o crescimento econômico.

Há exceção na Europa?

A única exceção é a Alemanha, que vai conseguir uma taxa de crescimento mais alta que a dos outros países por sua capacidade de produzir e vender equipamentos de alta tecnologia para economias em desenvolvimento. O que acontece no mundo hoje é a continuidade de uma grande revolução, que teve início na virada do milênio e foi acentuada pela crise financeira global. A crise deixou mais clara a troca de locomotivas da economia global. Mesmo com o baixo dinamismo das economias avançadas, existem algumas fontes autônomas de crescimento nas economias do Sul - economias em desenvolvimento - que vão permitir a essas economias continuar crescendo mesmo com os ventos de proa que as economias avançadas estão sofrendo.

Os emergentes estavam em vantagem quando chegou a crise há quase três anos...

Verdade. A crise encontrou as principais economias emergentes, à exceção da Europa Oriental, com balanços públicos e privados apresentando baixo endividamento, desalavancados. Até por conta da nossa experiência trágica com tantas crises, isso aconteceu aqui e também na Ásia. A crise encontrou patrimônios enxutos. A situação era inversa nas economias avançadas. Portanto, há margem de crescimento nas economias emergentes e nas economias de baixa renda que é muito interessante e que existe em função de espaço de alavancagem nos patrimônios.

A vantagem dos emergentes persiste?

Sim. Os patrimônios enxutos favorecem investimentos com grande poder multiplicador. Investimentos em infraestrutura no Brasil, quando comparados a investimentos em economias avançadas, têm impacto enorme de produtividade. Outro ponto a considerar: mesmo que a fronteira tecnológica nos países avançados entre num período de estagnação, os países que estão vindo detrás têm a vantagem enorme que é aprender e adaptar criativamente a tecnologia existente. Outro fenômeno importante, e não só para o Brasil, embora o Brasil tenha sido campeão a respeito, é a redução da pobreza e o surgimento de uma nova classe média.

Isso cria mercados, certo?

Sim. Isso cria mercados diferentes de economias desenvolvidas. Um exemplo: faz sentido alguém pensar em carro de US$ 2 mil nos Estados Unidos? Não. A classe média americana não vai comprar carro de US$ 2 mil. Já a Índia, com a empresa Tata, criou um carro com enorme penetração no mercado indiano das novas classes médias - gente que saiu da pobreza e aceita ter um carro despojado de qualquer coisa por US$ 2 mil. Outro exemplo do que está acontecendo no Brasil: material de construção. Alguns anos atrás, material de construção no Brasil era quase como vestuário. Havia mudança de linha todos os anos, para criar a sensação de casa nova. A classe média alta comprava tudo de uma vez. Mas o pobre, quando faz casa, faz aos pouquinhos. Então, fundamental para o pobre é a continuidade das linhas de produtos de material de construção. Se olharmos as lojas de material de construção no Brasil afora, hoje vemos continuidade ano a ano e promessa de continuidade de produtos mais simples - isso reflete a variação da demanda. Nas economias emergentes existem empresas com imensa capacidade de adaptar tecnologias existentes para as condições peculiares dos seus mercados, o que é uma vantagem frente às economias avançadas.

De que forma as economias emergentes tornam-se locomotivas globais?

O que assistimos na China nos últimos anos é um fenômeno muito similar ao que se passou no Brasil nos anos 50, 60 e 70. Há um crescimento com aumento na produtividade total decorrente da simples transferência de trabalhadores de atividades rurais improdutivas, ou de baixo valor, para atividades industriais urbanas, com maior valor. Por isso o Brasil teve taxas de crescimento de 8% a 10% nesse período. Isso foi resultado de ganho de produtividade decorrente do manejo das pessoas das atividades rurais para as urbanas.

Isso acontece espontaneamente?

Sim. Quando a atividade dá sinais de avanço, as pessoas se movem. Devemos ter esse mesmo dinamismo econômico em outras partes do Hemisfério Sul pelo processo de transferência de mão de obra. Tal processo está para acontecer na África subsaariana, em boa parte da Ásia e ainda está longe de terminar na China. Essa é uma fonte importante de expansão nas economias do [Hemisfério] Sul. E o último elo, que atinge o Brasil diretamente como oportunidade e ameaça, é o fato de que a composição do PIB mundial também está mudando e vai mudar ainda mais, para uma composição mais intensiva em uso de recursos naturais.

Esses novos mercados levam a aumento de demanda?

Sim. O consumo de energia no PIB global vinha caindo brutalmente. A China surgiu em cena e ele começou a subir. O componente de alimentos também vinha caindo e já voltou a subir. A substituição, pelos chineses, do consumo de proteína de soja por proteína de boi altera as pressões [de demanda]. E o impacto nas commodities é importante.

Isso impacta nos preços...

Isso impacta nos preços porque é demanda. E a capacidade de oferta não é muito elástica. Temos um cenário de pelo menos cinco ou dez anos com os preços de commodities firmes. Eles não devem ficar no patamar alcançado em 2008 e início deste ano, mas não voltam ao patamar baixo das décadas de 80 e 90. Temos, portanto, uma janela de oportunidade de cinco a dez anos em que os preços de produtos com base em recursos naturais serão extremamente favoráveis. Mas isso vale para o bem e para o mal.

Para o bem é nossa exportação. Para o mal é mais inflação?

Eu não diria que é mais inflação. Não vamos esquecer que mais inflação é o processo sustentado de aumento de preços, enquanto estamos falando de mudança de preços relativos. Provavelmente o impacto já aconteceu. A possibilidade de ameaça vem junto com a bênção. A valorização de recursos naturais, particularmente no caso de commodities minerais, ou uma descoberta como o pré-sal, é uma renda caída do céu. Um presente dos deuses. De repente estamos mais ricos. E a gente sabe o que acontece quando as pessoas ficam ricas da noite para o dia. Nem sempre sabem utilizar o dinheiro. Vamos pensar no Zimbábue com uma descoberta de diamantes. A descoberta destruiu o país.

O Brasil é Zimbábue? Essa ameaça de enriquecimento súbito existe para o Brasil?

O Brasil não é o Zimbábue e essa ameaça de enriquecimento súbito vale para qualquer país. Vai ser fundamental o papel da sociedade civil na cobrança de regras explícitas de uso dos recursos, na cobrança de regras intertemporais no uso do dinheiro, da receita. Espero que o brasileiro não se acostume com a ideia de virar um caçador de rendas. Um país que deixa de ir atrás da inventividade, do investimento, do esforço, da educação, e se transforme num caçador de rendas. É fundamental que essa bonança, esse prêmio caído do céu, seja usado para mudar o patamar da educação e da infraestrutura. Se isso for feito, a oportunidade estará sendo realmente capturada para o país avançar. Isso, sim, é um presente dos deuses.

Qual a relevância da batalha contra a inflação?

Em relação a essas questões estruturais de longo prazo, a relevância é menor, porque o que está em jogo [quando se pensa na inflação] é a velocidade dos ajustes, de custos e benefícios, de se fazer ajustes mais rápidos ou mais lentos. De qualquer maneira, o que está em jogo importa menos ou tem menos implicações para o bem-estar do país do que as questões de longo prazo. Por exemplo, como o Brasil vai aproveitar a janela de oportunidade que se abre com os preços de commodities nos próximos cinco a dez anos. É preciso garantir que essa renda não seja gasta em consumo, que seja gasta em investimento, em capital humano e em infraestrutura. É uma grande chance que, por coincidência, ocorre quando o Brasil tem um bônus demográfico. Período em que todo e qualquer país tem uma oportunidade única de deslanchar, de mudar de patamar. Tem tanta coisa em jogo no longo prazo que é melhor não pensar no curto.

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