"A União Europeia não está salvando a Grécia, mas sim os bancos alemães", diz Stiglitz

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07 Julho 2011

Na opinião do Nobel da Economia de 2001, Joseph Stiglitz, o "resgate" da Grécia, Irlanda ou Portugal tem como objetivo central a "proteção dos bancos europeus". O economista concedeu entrevista ao El País, 03-07-2011. A tradução é do Cepat.

Eis trechos da entrevista.

"A Espanha ainda não foi atacada pelos especuladores, mas pode ser apenas uma questão de tempo". Continua pensando o mesmo?

A Espanha está numa situação diferente da Grécia. Começou a crise com uma dívida pública de 60% do seu Produto Interno Bruto (PIB), não 130%. No entanto, o desemprego é mais grave. Em grande parte, a resposta não está nas mãos da Espanha. Caso se crie um fundo de solidariedade europeu que venha auxiliar o crescimento da Espanha, o país não terá nenhum problema. Terá se a Europa não ajudar.

A Grécia tem condições de pagar sua dívida.

A melhor solução seria a criação de um fundo de solidariedade europeia, com o qual se ajudaria a Grécia a restaurar o seu crescimento.

Partidos de direita na Europa do Norte, como no caso da Finlândia tem sido contra pacotes de resgate. Neste contexto, esse fundo de solidariedade não se torna ainda mais difícil...

A questão que se coloca é: trata-se de um pacote de socorro à Grécia ou aos bancos alemães? É a mesma pergunta que me fazia quando eu estava no Banco Mundial e íamos "resgatar" o México, a Coreia, a Tailândia ou Indonésia. Não, nós não estávamos salvando esses países, mas os bancos ocidentais, mas não queríamos falar em  resgate dos bancos ocidentais, dizíamos que era uma ajuda para aqueles países. E é isso que está acontecendo agora: estamos salvando os bancos na Alemanha é assim que se deveria chamar.

Como os governos explicam aos cidadãos que há dinheiro para salvar os bancos e na sequencias impõem medidas de austeridade?

Não podem explicar. Ou a Europa demonstra sua solidariedade ou não pode pedir aos cidadãos desses países que sacrifiquem suas vidas para salvar os bancos, quando foram estes que causaram os problemas. Aqui está em jogo o conceito de justiça social.

Depois de anos de abundância, os países da União Europeia, incluindo a Espanha, e agora Estados Unidos, devem cortar gastos para endireitar as contas públicas. É a única maneira de sair da crise?

Não, esse caminho é errado. A austeridade nos levará a um baixo crescimento que significará arrecadar menos impostos e acumular mais gastos para cuidar das pessoas desempregados e outras necessidades sociais. E a redução do déficit será mínima e decepcionante. Enquanto isso, as conseqüências sociais no curto e longo prazo serão enormes. E as econômicas, também. Por exemplo, e isso é relevante, em especial na Espanha, onde os jovens desempregados ficam muito tempo sem trabalhar e perdem suas capacidades, destruindo assim o bem mais importante do país, que é o capital humano. Além disso, fica muito mais difícil a reintegração no mercado de trabalho.

Então, cortes significam prolongar a crise?

As perspectivas a longo prazo são de que a economia se enfraquece ainda mais. Na minha opinião, uma estratégia de austeridade não serve para a recuperação. Precisamos pensar como fazer crescer a economia e, simultaneamente, a médio e longo prazo, reduzir gradualmente o déficit. E existem maneiras de fazê-lo. A maior parte do déficit é devido ao baixo crescimento. O baixo crescimento é a causa do déficit. Isso é que as pessoas devem entender. Devemos pensar, portanto, estratégias que promovam o crescimento com um impacto positivo sobre o déficit.

Na primeira etapa da crise parecia que havia um grande consenso de que os mercados deveriam ser mais regulados. Inclusive vários chefes de governo falaram em "refundar o capitalismo". Onde ficou isso?

Os políticos ... Parece que as forças políticas que levaram à desregulamentação dos mercados e dos lucros que este tipo de capitalismo disfuncional criou procuram evitar a destruição do capitalismo. Isso não deveria ser uma surpresa. As exigências para a reforma foram de alguma forma absorvidas na campanha de Obama, que esteve marcada pela mudança. Mas agora, Obama tem a mesma equipe econômica que contribuiu para a crise. Já não podemos esperar mudança.

Os cortes no Estado de Bem Estar Social não deixam os governos com menos capacidade para enfrentar a crise?

É evidente. A crise está minando a capacidade de reação e também não se está fazendo o trabalho de reregulamentação necessário para reduzir a probabilidade de uma nova crise. Na verdade, a coisa nos EUA está pior e não melhor do que antes.

O euro está em perigo?

Não deveria estar. Existe um caminho pelo qual o euro poderia emergir com mais força, mas não parece que a Alemanha queira seguir. Cada vez mais pessoas reconhecem que há dois caminhos. Uma deles é apostar em uma Europa mais forte, reconhecendo que se cometeu um erro com a não conclusão do projeto do euro e terminá-lo. Isso exige um trabalho fiscal. Há uma outra possibilidade, que é a de não considerá-lo um projeto inacabado e abandoná-lo, mas no o quadro atual não é viável.

Isso exige uma maior integração política?

Na verdade, o sistema econômico europeu está mais integrado do que a política. E este modelo de integração deve ser capaz de operar em um contexto no qual as partes podem experimentar diferentes choques. Por exemplo, nos Estados Unidos existe um marco adequado de integração, ainda que não perfeito. Se a Califórnia sofre um choque, existem maneiras em que o sistema irá ajudar. A Europa não tem uma política uniforme ou uma doutrina diante dessas circunstâncias.

Se fala em novas bolhas? Alguns analistas falam do Brasil e outros emergentes...

A política do Federal Reserve ajudou a criar liquidez. E um novo mundo de integração global monetária, onde o dinheiro pode ir para onde quiser, a liquidez busca retornos mais elevados e cria bolhas. A resposta é sim, mas em certa medida os países estão tentando compensar esses efeitos.

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