As armadilhas de uma fé alicerçada na promessa e a emergência da opção pelos pobres. Entrevista especial com Flavio Lazzarin

Diante da atual conjuntura, de um Brasil mergulhado em crises, o religioso defende uma ação política profética que não pode parar no altruísmo, no assistencialismo

Foto: Santuário Bom Jesus da Lapa

Por: João Vitor Santos | 14 Agosto 2020

Como no verso de Ariano Suassuna, que traz na sua assinatura de e-mail, o padre Flavio Lazzarin pode ser definido como “um realista esperançoso”. É do interior do Maranhão que ele olha para um Brasil e um mundo pandêmicos, mas que há tempos se veem doentes. Por isso não se entrega ao otimismo descompromissado com a realidade e não se resigna a um pessimismo fatalista. “Vejo nas dificuldades e sofrimento do povo mais humilde da minha Diocese a prova existencial do que os analistas do Brasil traduzem em considerações estatísticas, sociopolíticas e econômicas sobre desigualdade e violência”, destaca, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Vindo da Itália para o Brasil, não esquece a luta pela terra que o fez ficar por aqui. “Não entrei na Igreja do Brasil pelo viés sacramental, mas pelo viés da luta por vida e justiça, carregado nas costas dos camponeses e camponesas de São Mateus, Pirapemas, Alto Alegre do Maranhão, Miranda do Norte...”, recorda.

É dessa sua experiência que surge um olhar para os pobres, os menores, aqueles que sofrem pela falta da terra ou pela terra que lhes foi tirada e pela opressão da mão dura do colonizador que ainda age forte pelo Brasil. “Estes rostos inspiram atitudes e práticas pastorais, que não podem parar no altruísmo, no assistencialismo, na chamada promoção humana, que nos põem numa posição de poder, em que nós somos os protagonistas, autores da bondade e da acolhida”, observa. Assim, Lazzarin revela que o necessário é acolher e ser acolhido.

E com isso aprendeu também como é difícil caminhar no limiar de uma fé popular que se alicerça na promessa, na figura do padroeiro. “A tradição religiosa do padroeiro está em profunda relação de reciprocidade com a tradição sociopolítica do padrinho. Padroeiro e padrinho são figuras de um único sistema de dependência, que se reproduz a partir das necessidades e sofrimento dos pobres”, explica. Ou seja, cria-se uma espécie de interdependência quase que parasitária. Talvez, esteja aí a miopia de um Brasil que espera a mudança desde fora com a promessa de uma paga. “Como se paga o santo, assim deve-se pagar o padrinho, cujo preço é a garantia da lealdade política e a renúncia à liberdade. Em suma, tido deve ser pago. Tudo cria obrigação. Não existe gratuidade”, completa.

No entanto, se engana quem pensa que, para o religioso, a saída é romper de vez com essa piedade popular. Pelo contrário, daí a importância da acolhida e da cosmovisão local. Pois, segundo ele, do contrário, se estará apenas trocando o padrinho. “Quantas vezes nós padres pensávamos que estávamos contribuindo para a chamada conscientização, parteiras do processo de libertação das pessoas e das comunidades, que rompiam as correntes do apadrinhamento, quando, de fato e em muitos casos, tínhamos sido escolhidos como novos padrinhos”, tensiona.

É nesse mesmo sentido que Lazzarin tece sua análise política, especialmente a crítica a uma esquerda que, na verdade, buscou ser ‘um novo padrinho’ e que, com isso, deixou muita gente pagã e o espaço para a eclosão de forças conservadoras que muitos nem mais supunham que existiam. “A esquerda deixou de acreditar e apostar no campesinato como sujeito político e passou a tratá-lo como objeto da propaganda partidária e da mobilização eleitoral”, exemplifica.

Assim, é do interior do Maranhão que o padre provoca a pensar na construção política e social de um outro mundo que, se não soubermos articular, vai apenas iniciar um novo processo de adoecimento que culminará noutro estado pandêmico. Construção esta que passa, como ele diz, por uma Estado com menos Planalto e mais planície e também por uma Igreja que é chamada à saída. “Existe um ‘pântano’ intermédio de comunidades, paróquias e dioceses, as quais não fazem oposição explícita e até mostram-se obedientes ao magistério pontifício, mas, de fato, não compreenderam a urgência da ‘Igreja em saída’ e permanecem naquela indefinição pastoral que as caracteriza, há muitos anos. São Igrejas locais que se limitaram a retomar os ritos do festejo da padroeira ou do padroeiro, missas, catequese, pastoral do dízimo, com investimentos que envolvem frequentemente aliança e recursos com os políticos municipais. O que, evidentemente, é o melhor antídoto contra a profecia e a liberdade da Igreja”, reflete.

Flavio Lazzarin (Foto: Arquivo pessoal)

Flavio Lazzarin é padre italiano Fidei donum. Formado em Teologia pelo Seminário Vescovile di Mantova, e em História pela Universitá Statale di Milano, ambas instituições da Itália. Hoje, ele atua na Diocese de Coroatá, no estado do Maranhão. Também é agente da Comissão Pastoral da Terra - CPT.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que Brasil o senhor vê desde a Diocese de Coroatá, interior do Maranhão? E como esse Brasil vem sendo impactado pela pandemia?

Flavio Lazzarin – Vejo nas dificuldades e sofrimento do povo mais humilde da minha Diocese a prova existencial do que os analistas do Brasil traduzem em considerações estatísticas, sociopolíticas e econômicas sobre desigualdade e violência. Também aqui o impacto da pandemia foi mais cruel com os mais pobres.

Os nossos municípios têm uma economia que se reduz ao salário dos funcionários públicos, à aposentadoria dos idosos e ao comércio. Economias ameaçadas pela morte dos mais velhos e pela precariedade da situação dos servidores públicos, expostos ao sistema de apadrinhamento dos mandatários municipais, que oferecem uma estabilidade que dura normalmente quatro ou oito anos, dependendo das mudanças “políticas”.

Também no Maranhão, a pandemia foi particularmente impiedosa com os povos indígenas e com as comunidades tradicionais camponesas, e – o que é também grave – pela redução exponencial das visitas pastorais e a impossibilidade das mobilizações populares, empresas, aliadas ao estado, aproveitam a oportunidade da pandemia para “deixar passar a boiada” do desmatamento e da violência, acompanhada pelas corriqueiras estratégias de cooptação em função eleitoral atuadas pelo governode esquerda”. O caso do conflito do Cajueiro, conhecido nacionalmente, é um exemplo desta aliança neodesenvolvimentista entre uma empresa privada, poder executivo e judiciário, polícia militar, milícias com CNPJ, esquerdistas que se reconhecem nesta compulsão à repetição, em função da construção de um porto.

Repete-se, em todo estado, via Programa Matopiba [Projeto criado com recursos do Fundo Mundial para o Ambiente, a partir da identificação de uma rápida expansão da fronteira agrícola na região de Matopiba. Esta é uma área que compreende territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, repleta de grande biodiversidade], o que o lulo-dilmismo fez com a Transposição do Rio São Francisco, Estreito, Jirau, Santo Antônio, Belo Monte, Tapajós, Olimpíadas, Copa do mundo, Código Florestal...

Localização da cidade de Coroatá no mapa do Maranhão (Fonte: Wikimedia Commons)

Localize a cidade de Coroatá no mapa interativo:

IHU On-Line – O que significa exercer o serviço pastoral no contexto em que o senhor vive?

Flavio Lazzarin – Nestes últimos cinco anos, por fragilidades da saúde, passei a morar em São Luís e acompanhava como celebrante comunidades da periferia, na Vila Luizão e na Maioba. A pandemia, também na atualidade, em que foram reduzidas as regras do distanciamento, me impede – solidário com os idosos e idosas, os marginalizados mais recentes – de viver estes momentos de comunhão com os irmãos e irmãs das comunidades. O serviço pastoral era substancialmente homilético, guiado pelos comentários do amigo Sandro Gallazzi, na tentativa de iluminar e suscitar pela Palavra do Evangelho novas atitudes na vida, também nas suas implicações de reformas da vida comunitária, sem deixar de lado as responsabilidades políticas dos batizados e das batizadas no enfrentamento do mal.

Na Diocese de Coroatá, fui vigário cooperador e pároco de várias paróquias, de 1988, o ano em que cheguei ao Maranhão da Itália, até fim de 2000, mas o que me marcou, desde a minha chegada, foi a luta por terra e Reforma Agrária dos camponeses da Diocese e do Maranhão. Lembrando esses tempos germinais, amo repetir: “não entrei na Igreja do Brasil pelo viés sacramental, mas pelo viés da luta por vida e justiça, carregado nas costas dos camponeses e camponesas de São Mateus, Pirapemas, Alto Alegre do Maranhão, Miranda do Norte...”. Assim, faz 32 anos que sou agente da Comissão Pastoral da Terra.

Na chegada, desvela-se a luta pela terra

Os primeiros passos remontam ao mês de janeiro de 1987. Pela primeira vez chegava ao Maranhão, conhecido na Itália pelo triste recorde de ser o estado mais pobre e injusto do Brasil. Enviado pelo bispo de Mântua, dom Egídio Caporello, eu tinha a missão de acompanhar a exumação e autópsia do corpo de Maurício Maraglio, padre Fidei donum da minha Diocese, morto em circunstâncias misteriosas e martiriais, em 28 de outubro de 1986. Já em 1987, visitando pela primeira vez a Diocese de Coroatá pude encontrar inúmeras famílias camponesas empobrecidas e oprimidas pelo latifúndio e pela oligarquia. E com o arame farpado que desfigurava a paisagem maranhense, evocando imagens de campos de concentração.

Foi encontro também com a história dos mártires da terra: padre Josimo Tavares e um cortejo de camponeses pobres, mortos pelos pistoleiros a serviço dos "proprietários" de terra. Encontrei uma Igreja vivificada pela caminhada das comunidades de base, que iluminavam o compromisso em defesa da Vida com a Palavra de Deus. Igreja pobre dos pobres. Igreja samaritana. Igreja laical. O testemunho de grandes mulheres e homens: Hélio Campos, Antônio Fragoso, Claudio Bergamaschi, Dorothy Stang, Carolina Clemens, Aurora Uscidda, Eider Furtado da Silva, Carlos Ubbiali, Xavier Gilles, Pascásio Rettler, Rino Carlesi, José de Ribamar Moraes, dona Dadá, Mário Aldighieri, Zé Vieira, Pedro da Vaca, Bernardinho da Divina... A herança, já contestada naquele tempo, de Medellín e Puebla. E, apesar da violência e do sofrimento, Igreja da festa e da Esperança. Igreja que lutava pelo Reinado de Jesus e sua justiça (Mt 6,33).

O martírio do meu amigo, padre Maurício Maraglio, me deixou indignado também pelo atentado à verdade histórica tramado pelos donos do poder, que nos faz órfãos da verdade, destituídos da possibilidade de desvendar os desenhos assassinos dos poderosos. Estado de exceção e impunidade como sistema vigente. A lei como arma contra adversários e inimigos e a isenção da obediência à lei reservada a aliados e amigos, acobertados e defendidos até e além do homicídio.

 (Fonte dos mapas: Reprodução)

Localização no mapa do Maranhão das cidades de atuação do Pe. Lazzarin (Fonte: Google maps)

IHU On-Line – O que mais o encanta e o que mais o entristece em seu trabalho?

Flavio Lazzarin – O que me encantou e ainda me encanta é o dom da certeza que ideologias e teologias não são companhias suficientes para o missionário e que, pelo contrário, se constituem, quando ignoram os rostos e as vidas concretas, em obstáculos ou, o que é pior, em prisões. Com efeito, os meus primeiros contatos com os pobres ficaram marcados por sentimentos de estranhamento e era forte a sensação de uma diversidade que desafiava minha vontade de comunicar. Tudo era novo, diferente e desconhecido.

Existia, também, o obstáculo da língua, porque o português falado pelos camponeses não é o português culto dos livros, da mídia e da Igreja. É o português herdeiro do nheengatu, uma língua que resiste, em que pese a hegemonia do português sobre o tupi-guarani, decretada pelo Marquês de Pombal, no século XVIII.

Percebia-me pela primeira vez radicalmente estrangeiro, um peixe fora d’água, desnorteado, com a impressão de ser chamado a começar tudo de novo, com quarenta anos de idade. Além disto, não me sentia à vontade no eventual papel de filantropo, delegado por mim mesmo para dar respostas em nome das minhas eurocêntricas, patriarcais e coloniais habilidades de homem branco e padre.

A emergência da acolhida pelo outro

Esta narrativa pode ser entendida como um conjunto de perigosos psicologismos, agravados por complacências autobiográficas, mas este choque cultural deveria acompanhar todos aqueles que – às vezes, com presunção "missionária" – são chamados a mergulhar numa nova língua e em culturas diferentes e, neste caso, inferiorizadas como subalternas e colonizadas. Existia também uma forte dimensão evangélica e teológica, porque eram os pobres que desafiavam o meu desejo de sentir, entender e comunicar.

Acredito, assim, que a lição que veio pelos rostos de camponeses e camponesas de São Mateus, envolvidos nos riscos de uma luta pela conquista da terra, é obra do Espírito Santo, que nos fala de Justiça e Paz através da vida dos pobres, limitados e pecadores, mas, sem terem consciência disto, autênticos sacramentos da presença de Jesus de Nazaré na história. Estes rostos inspiram atitudes e práticas pastorais, que não podem parar no altruísmo, no assistencialismo, na chamada promoção humana, que nos põem numa posição de poder, em que nós somos os protagonistas, autores da bondade e da acolhida. Deixar-nos acolher pelo outro vira assim um êxodo necessário, um caminho de Graça.

Passaram-se cerca de três anos, tempos difíceis, em que não tinha confirmação da minha inserção e da reciprocidade da comunicação. Somente no ano de 1991 me dei conta que tinha sido acolhido e "adotado". Foi quando, ameaçado de morte pelos pistoleiros de um latifundiário de São Mateus, cinco camponeses foram me buscar, após a celebração da Missa num povoado do interior. Entendi que o meu noviciado existencial estava concluído e que, apesar de permanecer estrangeiro, já não era mais um estranho.

A acolhida do padroeiro e a mão forte do padrinho

O que me entristece é o sofrimento e a dor dos seres humanos. Envelhecendo, nos é dada minimamente a capacidade de sentir, de sermos empáticos. Além disto, até hoje, me interpelam e me desafiam pastoralmente alguns aspectos problemáticos da religiosidade popular.

Estou pensando naquele alicerce da fé que é a promessa. Nas culturas caboclas, em situações-limite que ninguém pode resolver, existe o recurso, através da promessa, a um santo ou santa padroeiros. Se o pedido for acolhido, o fiel deverá pagar ao santo quanto prometido. Se o trato parasse no âmbito da espiritualidade e dos compromissos íntimos dos fiéis, não acharia problemático, mas o fato é que a tradição religiosa do padroeiro está em profunda relação de reciprocidade com a tradição sociopolítica do padrinho. Padroeiro e padrinho são figuras de um único sistema de dependência, que se reproduz a partir das necessidades e sofrimento dos pobres.

Quando a necessidade é urgente e não pode ser resolvida por falta de dinheiro e meios, recorre-se ao padrinho, ao proprietário de terras, ao comerciante, ao político, a quem tem o poder de resolver e tirar do sufoco. Como se paga o santo, assim deve-se pagar o padrinho, cujo preço é a garantia da lealdade política e a renúncia à liberdade. Em suma, tido deve ser pago. Tudo cria obrigação. Não existe gratuidade.

Novos padrinhos

E quantas vezes nós padres pensávamos que estávamos contribuindo para a chamada conscientização, parteiras do processo de libertação das pessoas e das comunidades, que rompiam as correntes do apadrinhamento, quando, de fato e em muitos casos, tínhamos sido escolhidos como novos padrinhos. Tenho que afirmar, porém, que, na luta pela conquista da terra, pude assistir a incontestáveis processos de conversão de mulheres e homens que se libertavam do sistema padroeiro-padrinho, revivendo e reinterpretando a suã fé e dignidade humana, sem renunciar à companhia dos santos e dos encantados.

Acredito que este nó sociocultural permanece como desafio missionário, porque a resistência de raízes religiosas que legitimam o apadrinhamento são as mesmas que validam relações patriarcais, machistas e escravistas e o próprio sistema oligárquico. Os antigos ditados “Cachorro sem dono não presta”, “Mulher sem dono não presta”, “Caboclo sem dono não presta” continuam inspirando práticas libertadoras que precisam da luz do Evangelho.

Pedras de tropeço da ética popular

Acrescento outros elementos da ética popular que interpelam os evangelizadores. Temos dois fundamentos éticos diferenciados para os homens e as mulheres: "O homem deve ser trabalhador, respeitador e bom pagador". Isto não seria ruim, se, discriminando e inferiorizando, não se afirmasse que "A mulher deve ser submissa e recatada".

Outra pedra de tropeço é constituída pelo fatalismo popular. "Precisa se conformar"; quantas vezes ouvimos esta afirmação "batizada" pela cristandade colonial. Celebrar o Cristo morto na Sexta-feira Santa, removendo a Ressurreição, é a raiz do conformismo, que nega todo desejo de dignidade, liberdade e justiça. Se conformar, como se o medo diante dos poderes fosse a única lei que governa a história. Se conformar, como a única forma de “bom senso” para poder sobreviver numa realidade de injustiça e desigualdade, de clientelismo, apadrinhamento, cooptação. “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

E, frequentemente, os pobres reproduzem a lógica dos seus opressores, herdando a esperteza de tirar vantagem, mentir e roubar – como boa parte de nossos administradores – sem se preocupar com a vida dos outros. E acontece que, às vezes, os pobres repetem o esquema da opressão dentro de seus lares e quem sempre fica humilhado e oprimido, no mundo como nas nossas casas, são os mais fracos: as mulheres e as crianças. A introjeção do opressor de Paulo Freire.

IHU On-Line – O que o senhor mais tem ouvido das pessoas aí no interior do Maranhão? Quais são os principais anseios das pessoas, tanto do ponto de vista econômico e social, quanto psicológico e espiritual? E o que tem respondido a elas?

Flavio Lazzarin – Enquete difícil esta! Com efeito, quantas subjetividades! E o amplo leque de desejos e expectativas! Todo mundo quer viver, comer, morar, ter um trabalho e um mínimo de segurança. Mas multíplices são os caminhos escolhidos e, às vezes, são caminhos sem futuro.

A pandemia foi um indiscutível papel de tornassol do nosso nível de humanidade. Proporcionou uma nítida separação entre pessoas solidárias e pessoas irresponsáveis, sem nenhuma preocupação com a vida dos outros. Dois campos que não necessariamente identificam-se com a direita e a esquerda partidárias, mas se misturam pré-politicamente.

No panorama virtual aparece com força, apesar de ser minoritária, a inconformação de indígenas, quilombolas, comunidades do campo e da cidade, que, em tempos ainda mais violentos e perigosos, não se rendem à injustiça do capital e do Estado. Além disto, não podemos esquecer a escondida fidelidade dos humildes, que silenciosamente tecem a teia do Reinado de Jesus, com a partilha e a oração.

IHU On-Line – Como a Igreja e o Estado brasileiro respondem – ou deveriam e podem responder – a essas demandas que o senhor ouve dessa população do interior do Brasil?

Flavio Lazzarin – Frequentemente repito que a salvação não vem dos planaltos institucionais, mas das planícies populares. Amo imaginar o Estado como “poder obediente” às necessidades e demandas que surgem na base organizada. Não um Estado imperial que decide, mas um Estado que obedece. Sonho! Mas, sem a construção de processos de autonomia territorial e cultural, não teremos justiça na nossa Abya Ayala.

Podemos dizer que, desde os primeiros dias da colonização material e espiritual, os nativos deste fragmento maior da Abya Ayala souberam inventar um novo jeito de lutar: “vamos aproveitar o que supostamente pode ser bom do inimigo europeu, sem jamais renunciar em nenhum momento ao nosso jeito de rezar, de pensar e de ser. Vamos comer simbolicamente o outro, que nos ameaça”. Antropofagia! Não é mera resistência passiva e não se trata de um conciliatório sincretismo! Proibidos pelos portugueses de canibalizar os inimigos valentes e corajosos, os Tupinambás começaram a comer simbolicamente os invasores.

Não tem nenhum regime de paridade nesta troca simbólica: quem prevalece, apesar do poder do colonizador, é o biopoder dos nativos, que canibalisticamente se reinventam, porque não têm armas adequadas para resistir ao poder colonial e porque não querem ser reduzidos totalmente à escravidão. “Se é uma simples questão de nomes, fingiremos adotá-los da boca para fora, fiéis à nossa espiritualidade e visão do mundo.”

Evidentemente, não podemos pensar que todas as vítimas da colonização e do regime de cristandade reagiram e reagem em termos antropofágicos, porque a demonização e destruição das culturas anteriores à invasão é etnocídio documentado. Assim como é documentado o papel dos capitães-do-mato assumido por pobres do passado e da atualidade. Essa figura foi tão importante para a manutenção do sistema escravista que até a Santo Antônio de Pádua, um dos santos mais venerados tanto na Coroa quanto na colônia, é atribuída a patente de capitão-do-mato.

IHU On-Line – Qual sua leitura da conjuntura política do Brasil atualmente?

Flavio Lazzarin – É a leitura dos 152 bispos, com algumas considerações críticas.

IHU On-Line – Bispos e padres, inclusive o senhor, assinaram documentos que criticam a gestão de Jair Bolsonaro. O que essas manifestações representam e como ler as notas?

Flavio Lazzarin – Assinei o documento dos padres porque concordo com a análise. Tenho, porém, desde sempre, uma crítica às análises de conjunturas que chamo de lista dos secos e molhados, aquelas análises que listam os fatos, mas não querem reconhecer os desafios para a praxe, que eles carregam. Faltou isso, talvez, nos últimos manifestos eclesiais. Seria suficiente aceitar a nossa insegurança diante dos enigmas do Brasil e do mundo e formular perguntas que possam facilitar a volta às práticas transformadoras.

IHU On-Line – Quais os desafios para transformar as manifestações das notas e críticas de diversos grupos, não só da Igreja, em ações concretas?

Flavio Lazzarin – Devo repetir que a gente tem perguntas e não respostas. Sempre pensei, porém, que a desobediência civil é um testemunho poderoso a favor das vítimas e contra os opressores. Mas, não é evento que possa ser organizado, porque é fruto de personalidades que têm carisma ou consequência de circunstâncias excepcionais que transformam pessoas humildes e desconhecidas em testemunhas carismáticas.

Fica a pergunta: “o que fazer?”, acompanhada pelas palavras de Pedro Casaldáliga: “Somos soldados derrotados de uma causa invencível”.

IHU On-Line – Quais os desafios para ver além, complexificar a análise política da atualidade para além do lugar comum?

Flavio Lazzarin – Não é suficiente ser contra e concentrar a nossa atenção crítica sobre o inimigo e o mal. Deve ser feita a pergunta central sobre os sujeitos políticos insurgentes e emergentes, que poderiam enfrentá-lo. Com quem o Brasil pode contar? Sem compulsões à repetição, virando página com relação a partidos que abandonaram o povo e até a movimentos que há tempo não se movimentam.

Outra dimensão que não pode ser esquecida numa análise de conjuntura é o discernimento dos desafios e das prioridades a serem enfrentadas. Enfim, não podemos pensar em nos viabilizarmos politicamente sem pôr o acento sobre a crise civilizacional, o trágico conjunto de emergências, que obriga a mudar radicalmente os paradigmas da política e da economia.

IHU On-Line – Diante do atual cenário nacional, podemos vislumbrar uma saída à esquerda?

Flavio Lazzarin – Desde sempre, o ponto de partida das análises que tento fazer é pastoral. Por isto também a crítica radical à esquerda brasileira nasce da leitura de um processo político, em que, no passado, se fez a aposta pastoral do envolvimento das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs na conquista dos sindicatos, administrados por pelegos, na participação nos partidos políticos populares, na opção por candidatos do povo. Este processo histórico, há muitos anos esgotado, que a gente saiba nunca foi avaliado e precisava ser avaliado, por ter implicações teológicas determinantes.

Até 1994, via Articulação Sindical, que sucessivamente deu vida ao PSB, políticos socialistas se envolveram com os lavradores em luta pela terra, sendo presença solidária e assessorando na formação política do campesinato de algumas regiões do Maranhão. O mesmo papel teve um pouco mais tarde o PT, mas também este partido se dissociou das lutas camponesas em 1997. A esquerda deixou de acreditar e apostar no campesinato como sujeito político e passou a tratá-lo como objeto da propaganda partidária e da mobilização eleitoral. Foram divórcios não consensuais e efetivos. O mesmo aconteceu com os Sindicatos de Trabalhadores Rurais - STTRs e a Federação: derrotada boa parte da pelegada, nasceram novas burocracias cada vez mais distantes do campesinato. Essas antigas ferramentas populares começaram a enferrujar já nos anos 90!

Sendo agente da Comissão Pastoral da Terra - CPT, que tem como princípio metodológico insubstituível o protagonismo camponês, não podia mesmo engolir tamanha traição. Progressivamente, também a democracia de base dos militantes dos partidos de esquerda era substituída pelas decisões tomadas nos gabinetes dos deputados estaduais e federais. Daí para frente tudo se reduziu a mera competição eleitoral.

Resistências e polos

Hoje em dia, resistimos nas trincheiras da esperança e não nos deixamos influenciar por queixumes e lamentações, nem pela repetição psicótica de dialéticas datadas e inúteis que não irão "salvar" a gente da trágica e sombria conjuntura que estamos vivendo. Em alternativa às falsas polarizações que, há tempo, perturbam a esquerda oficial, não podemos ignorar a história e devemos afirmar que, bem antes do pesadelo bolsonarista, a trajetória governista do PT não contemplava polarização nenhuma face à lógica do condomínio com o PMDB e à promiscuidade com o agronegócio e o capital variamente oligopolizado.

E hoje é mesmo necessário polarizar contra a polarização espetacular e oportunista. O novo polo, que se configura como possível alternativa à esquerda desenvolvimentista, não é ilusão, porque, de fato, existem, há décadas, movimentos que agem e que pensam a partir da crise civilizacional do Antropoceno, nova era geológica em que é o ser humano o principal responsável pelos problemas ambientais que sofre o planeta crescentemente. Ser contra as causas e os causadores desta crise significa ser a favor de novas matrizes energéticas, que dispensam petróleo e hidrocarbonetos, hidrelétricas e falsas “energias limpas”. E ser aliado de lutas contra o agronegócio e a mineração sem freios que destroem, junto com biomas e ecossistemas, a vida de seres humanos. Aqui estão os pobres e os povos que teimosamente acompanhamos, há 45 anos. E que sempre perderam as eleições!

Reduzir a análise das conjunturas à tragédia da reedição do fascismo e apostar simplesmente em apontamentos eleitorais, os de 2020 e 2022, é aceitar e se conformar à navegação de pequena cabotagem, quando, por lutas e reflexões, já tínhamos alcançado o mar aberto.

IHU On-Line – Em suas análises, o senhor remete à velha esquerda. Mas já podemos falar em ‘nova esquerda’?

Flavio Lazzarin – Tenho a impressão que ainda esteja cedo para termos essa mudança no campo da chamada esquerda. Tudo indica que a pequena cabotagem das estratégias eleitorais vai ser novamente a bola da vez.

IHU On-Line – Podemos considerar que a política nacional sofre uma virada a partir de 2013? Por quê? E como o senhor lê aquele momento político e seus desdobramentos?

Flavio Lazzarin – 2013 é ainda um acontecimento enigmático, mas, de fato, parece-me apresentar um fato incontestável: o PT tinha se distanciado definitivamente de boa parte da sociedade brasileira, ao ponto de condenar e reprimir como se fosse de direita uma movimentação social, cuja ambiguidade não foi reconhecida. Identificado com o governo, tinha perdido as praças, que sempre foram monopólio da rebeldia de esquerda.

O suicídio ético e político da esquerda terá que ser completado pelos dias dramáticos de 2016, que muitos continuam chamando de golpe. Parece que o suicídio ético e político é uma característica recente da esquerda latino-americana: Morales, Correa, Maduro, Ortega..., mas, podemos sempre, como faz a esquerda, ter aquele jeito estalinista de apoiar e absolver a companheirada, porque, em última análise, ele seria anti-imperialista e antifascista.

IHU On-Line – Como, diante de uma crise política, vislumbrar uma saída que não negue a própria política e ainda reforce o estado democrático de Direito e faça, efetivamente, da Constituição muito mais do que uma ‘letra morta’?

Flavio Lazzarin – Assisto há muitos anos a processos de construção da relativa autonomia territorial, não só pelos povos indígenas, mas também pelas comunidades quilombolas, comunidades tradicionais das inúmeras “vias campesinas” e comunidades das periferias urbanas. Esta insurgência anticolonial, antiestatal e crítica do mercado capitalista defende a retomada não só dos territórios, mas também das heranças ancestrais e culturais. Luta relativa, quer dizer, em relação com a existência inegável e hegemônica do estado e do mercado, mas que, com discernimento, semeia a autonomia possível para um dia colher mais autonomia.

Se renunciasse à radicalidade desta opção e pensasse que a semente não tem nada a ver com a colheita, seria derrotada pelos inimigos de sempre, os fiéis servidores do estado e do status quo, que plantam dependência, cooptação, divisão, silenciamento e ocultação da subjetividade popular. Podemos correr o risco de mitificar o biopoder do povo, mas a política poderia renascer, de baixo para cima, a partir destas insurgências.

IHU On-Line – Qual a sua análise sobre a Igreja no Brasil diante da atual conjuntura?

Flavio Lazzarin – O que está acontecendo é a ilusória convicção de muitos católicos que seja possível um divórcio entre a dimensão carismática e a dimensão institucional da Igreja. Desde o testemunho de Paulo, com efeito, as duas dimensões articulam-se dialeticamente na experiência de cada fiel. O que muda é a dosagem: mais carisma, sonho, poesia, profecia, ou mais instituição, fidelidade às tradições e às certezas dogmáticas.

Em suma, são problemáticos os católicos que defendem a instituição, ignorando os carismas, e são também equivocados aqueles que, em nome da profecia, ignoram a necessidade constitutiva da Igreja, como instituição. Esta convicção não elimina as tensões entre as alas progressista e conservadora da Igreja, mas não abre espaço para ameaçar a comunhão. É bom lembrar que esta mescla de anseios de reforma e mudanças com a preocupação da tradição está presente em todas as constituições do Concílio Ecumênico Vaticano II e não se trata de incertezas e contradições, mas de dialéticas eclesiais que irão persistir até a Parusia.

Papa Francisco

Eu me percebo como aliado do Papa Francisco. Admiro a sua coragem e medito sobre as suas encíclicas. Desde João XXIII, nós não tivemos tanta profecia no coração da instituição. Carisma, porém, que se encontra obrigado à dialética com a tradição. Fato, este, que não absolve os maus-caracteres e os inimigos da fé, que se abrigam na Igreja. As ervas daninhas das nossas vidas pessoais e eclesiais, porém, serão arrancadas só quando Jesus voltar.

E Francisco veio depois de 33 anos, tempo que eu chamo de inverno eclesial, em que houve até perseguições e condenações de dezenas de teólogos e teólogas, de bispos e de inteiras Dioceses. Sofremos, mas nunca chegamos a semear ódio e ruptura da comunhão. Atitudes que deveriam caracterizar também os fundamentalistas e espiritualistas, que se opõem odiosamente ao papa e aos chamados católicos esquerdopatas.

Pântano da indefinição pastoral

Além dos inimigos jurados do Papa Francisco, existe um “pântano” intermédio de comunidades, paróquias e dioceses, as quais não fazem oposição explícita e até mostram-se obedientes ao magistério pontifício, mas, de fato, não compreenderam a urgência da “Igreja em saída” e permanecem naquela indefinição pastoral que as caracteriza, há muitos anos. São Igrejas locais que se limitaram a retomar os ritos do festejo da padroeira ou do padroeiro, missas, catequese, pastoral do dízimo, com investimentos que envolvem frequentemente aliança e recursos com os políticos municipais. O que, evidentemente, é o melhor antídoto contra a profecia e a liberdade da Igreja. Uma espécie de padroado reeditado. E isto se dá apesar das Diretrizes da CNBB, amplamente esquecidas. Mais uma prova do distanciamento entre documentos oficiais e prática pastoral.

Triste se pensarmos a pastoral dos anos 1940 e 1950 no nosso Maranhão. Era uma pastoral definida. Para os interiores vingava o regime da desobriga, mas nas cidades muitos párocos planejavam a presença da Igreja com a construção do templo, do hospital e da escola. Isto a partir de uma visão antropológica: o ser humano é espírito, corporeidade e inteligência. Fenômeno este que mereceria ser estudado, para desvendar influências e, sobretudo, analisar as mudanças na relação com o Estado.

Pastoral libertadora

A partir dos anos 1960: pastoral libertadora. Pela influência incipiente do Concílio Vaticano II, temos uma antecipação do que será Medellín. Assistimos ao surgimento de um novo jeito de fazer pastoral com o protagonismo laical das comunidades de base e o projeto de libertação, que, no Maranhão majoritariamente camponês, se articula nas lutas pela conquista da terra, da organização sindical e partidária. Trata-se de uma pastoral definida, que entra em crise nos anos 1990 e, sem desaparecer do cenário pastoral e missionário, é progressivamente substituída por uma pastoral indefinida ou de difícil definição.

Das cinco dimensões que caracterizam a vitalidade de uma Igreja: kerigma, koinonia, liturgia, diakonia, marturia, são estas duas últimas dimensões que ignoramos sistematicamente na nossa pastoral.

Cristianização e colonização

Esta dependência dos pequenos, que mescla, num único conjunto cultural, opressão sociopolítica e religião, me obrigou a refletir sobre a história da colonização e a olhar para o papel que a Igreja Católica teve na conquista ibérica da Abya Ayala: o Cristianismo chegou junto com a espada e o Cristo chegou junto com o Rei. A cristandade colonial proclamou a hegemonia da Sexta-feira Santa, a Cruz sem a Ressurreição. Não foi nenhuma "boa notícia" para os povos da Abya Ayala. A "evangelização" começou com a radical rejeição das espiritualidades indígenas e continuou com a implementação de uma política de demonização e sistemática e violenta perseguição. O processo de conquista e colonização territorial é inseparável da colonização espiritual, em que não se nega apenas a experiência religiosa dos indígenas, mas se tenta acabar com todas as culturas, através da imposição da língua, dos costumes e da submissão política aos Reis.

Esta trágica memória perdura até a atualidade. Conseguiu transitar, entre destruições, reconstruções, antropofagias, reinvenções, lutas, resiliências, clandestinas e perseguidas resistências, até os nossos dias. O que os europeus fizeram com os indígenas continuou, mais tarde, com os africanos deportados e escravizados. Quem mais sofreu, ao longo do processo colonial, foram as mulheres indígenas e negras, submetidas à violência sexual, obrigadas a gerar, na vergonha e na amargura, para multiplicar a raça e o povo dos invasores.

O vivo legado colonial

O legado colonial perdura até hoje, como desafio político para a sociedade como um todo, mas também como desafio teológico e pastoral para as Igrejas, sobretudo para a Igreja Católica. Podemos fazer memória daqueles religiosos que, profeticamente, levantaram a voz para defender os indígenas e, nem sempre, os negros, e lembramos figuras como Bartolomé de Las Casas e Pedro de Córdoba em Chiapas - México, Antônio Valdivieso na Nicarágua, Antônio de Montesinos em Santo Domingos..., mas todos eles pagaram, como Dom Oscar Romero, a sua coragem com perseguições, exílios e morte matada.

E o seu testemunho, até hoje, é sinal de contradição nas Igrejas, em que somente setores minoritários não esquecem o legado profético da Conferência de Medellín e lidam com o desafio do pluralismo religioso e do macroecumenismo, à revelia de quem defende identidades e ortodoxias, esquecendo o perdurar do processo colonial de submissão, inferiorização, desigualdade, etnocídio, racismo, machismo, homofobia e discriminação.

IHU On-Line – Como ler e empreender entre os povos nesses tempos a novidade evangélica? Que respostas essa novidade é capaz de trazer aos nossos problemas atuais?

Flavio Lazzarin – Nada de novo, no entanto tudo novo: “Stat crux dum volvitur orbis” (A cruz está imóvel, enquanto a terra gira). A boa notícia martirial da Páscoa de Ressurreição: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,55); “Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Uma resposta que a Igreja do Brasil podia oferecer para participar da insurgência anticolonial, para pagar a sua dívida histórica com indígenas e negros, seria a revisão crítica do ecumenismo e a escolha de práticas pastorais macroecumênicas. Podemos afirmar que, antes do Concílio, a Igreja Católica não valorizava e até rejeitava o movimento ecumênico que foi criado pelos protestantes, nas primeiras décadas do século XX. Com efeito, era opinião teológica dominante que a unidade dos cristãos se dava só como retorno dos demais cristãos cismáticos e hereges à única verdadeira Igreja. O Vaticano II, ao contrário, muda radicalmente esta perspectiva e se converte a um novo e decidido espírito ecumênico.

É no Decreto Unitatis Redintegratio que a Igreja Católica define o seu compromisso ecumênico, afirmando que o Espírito Santo age também na “IgrejaOrtodoxa e nas “comunidades eclesiais” herdeiras das Reformas Protestantes. Estabelece-se certa hierarquia entre Igreja e comunidade, mas, de fato, fundamental é a afirmação que, na fé no Cristo Pascoal e pelo dom do batismo, os fiéis das outras igrejas são irmãos e irmãs, ainda que o sejam como “irmãos separados”, e não são mais considerados cismáticos e hereges.

Começa, assim, o diálogo entre cristãos de confissões diferentes, que prossegue nas décadas sucessivas, muitas vezes desmentindo o entusiasmo e as motivações iniciais.

Até hoje, a teologia magisterial limita o campo do ecumenismo propriamente dito ao diálogo entre “Igrejas” e “comunidades eclesiais” e, seguindo a distinção do Concílio (O Decreto Nostra Aetate e a Declaração Dignitatis Humanae), define a relação com as outras religiões como diálogo inter-religioso. A mensagem do Concílio foi o início de uma revolução teológica e de uma mudança de mentalidades, que envolveu as consciências de muitos cristãos e teve reflexos importantes na América Latina.

Avanço latino-americano

É na América Latina e no Brasil que, de forma criativa, se avança pastoral e teologicamente no espírito ecumênico inaugurado pelo Concílio. O aprofundamento prático e teológico desta renovada atenção ao diálogo, à alteridade e à reciprocidade se expressou na perspectiva do macroecumenismo, prática e reflexão teológica que vão além da distinção inicial entre ecumenismo e diálogo inter-religioso. E, mais recentemente, abriu-se um diálogo entre macroecumenismo e outra tendência teológica de origem asiática e europeia: a Teologia do Pluralismo Religioso ou, como traduz o nosso Marcelo Barros, Teologia do Pluralismo Intercultural.

Macroecumenismo: uma palavra nova, latino-americana, nascida em setembro de 1992, durante o 1º Encontro Continental da Assembleia do Povo de Deus, em Quito, Equador. Foi Pedro Casaldáliga que proclamou e fundamentou este sonho, que o teólogo José Maria Vigil apresentou teologicamente no livro Espiritualidade da Libertação, lançado naquela mesma ocasião. Palavra nova, que nasce no chão do encontro com os povos de Deus que carregam culturas, tradições, visões do mundo e da terra, religiões e religiosidades diferentes.

Foi a descoberta de religiosidades outras, ocultadas e desprezadas pelo processo secular da cristandade colonial, que nos conduziu a repensar e reviver de outro jeito a relação pastoral com os caboclos, com os negros, com a chamada religiosidade popular. Foi a escuta dos camponeses e das camponesas de que acompanhamos as lutas e as resistências, que nos conduziu – e nos conduz – a atitudes autocríticas das dimensões eurocêntricas, eclesiocêntricas e coloniais de certo cristianismo. São os rostos dos pobres e dos indígenas que nos despertam não só para o desafio da igualdade, mas também para o direito à diversidade cultural e religiosa.

Macroecumenismo e libertação

O macroecumenismo está estritamente ligado à pastoral da libertação, que escolhe a história como único lugar em que se dá a salvação. Outro elemento de junção entre a perspectiva macroecumênica e a caminhada libertadora é a centralidade do Reino. Não é a Igreja o centro; ao contrário, ela tem sentido só se viver em função do Reino anunciado por Jesus. Por isso, podemos colaborar com todos os que amam a vida, a justiça, a paz, a verdade, a fraternidade, mesmo que sejam seguidores de outras religiões.

A opção pelo Reino e pela Justiça implica necessariamente a opção pelos pobres. Não se trata dos pobres como objeto da assistência cristã, mas dos pobres injustiçados, das mulheres injustiçadas, dos indígenas, quilombolas, camponeses/as injustiçados; dos pobres como vítimas, que revelam o pecado estrutural e sistêmico, o anti-Reino; dos pobres como sujeitos e protagonistas da libertação inaugurada pela Páscoa de Jesus.

Inspirações para transformações

Esta sensibilidade macroecumênica deveria inspirar cada vez mais a nossa espiritualidade, numa estação da história do planeta, em que a possibilidade de a vida morrer – também de morte matada – é mais do que uma hipótese remota e alarmista. Deveríamos repensar e tentar viver o ecumenismo também a partir da profecia de Francisco e de Clara de Assis que anunciaram e viveram a fraternidade e a sororidade de todos os seres vivos, não só da humanidade, mas da vida como um todo.

Ampliaríamos, assim, os horizontes do diálogo e da reciprocidade, recuperando, nas lutas por terra, água e territórios, o sentido originário da palavra ecumenismo: terra habitada, casa da gente, casa de todos e todas. Isso, com certeza, favoreceria o diálogo e a aliança com os povos originários e tradicionais, que revelam, nas suas falas e práticas, a ligação profunda entre religião, espiritualidade e luta; que pensam e vivem a terra como mãe, como abrigo sagrado, como espaço dos encantados, como um “tu” e não como um “isto”.

Não podem ficar escondidas a dimensão do sagrado e as espiritualidades que fundamentam a resistência e as lutas destes povos. É um sagrado plural e multifacetado, que pode se opor ao fundamentalismo hegemônico do capitalismo globalizado como religião. Yanomami, Munduruku, Tupinambá, Guarani, Kaiowá, Terena, Mbya, Kaingang, Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe, Kaiapo, Tenetehara... quilombolas e comunidades tradicionais põem-se como profecias existenciais. São pobres e marginalizados, são minorias, que, na ótica de uma cristologia que privilegia os pobres crucificados e insurgentes, se opõem aos processos de deculturação e contra a imposição do "valor" do desenvolvimento econômico e do terrorismo da contabilidade.

Estamos diante duma reinvenção dos povos como sujeitos políticos, em que a tradição do sagrado, do comunitário e da festa casa-se com o direito reconquistado de falar por si mesmo. Movimentos que não representam o atraso pré-moderno, mas que, pelo contrário, anunciam a esperança do novo em tempos de crise não só econômica, mas, sobretudo, civilizacional. Eles têm um recado para nós, para a modernidade enlouquecida e para o planeta doente.

IHU On-Line – Qual sua leitura da Instrução “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”, elaborada pela Congregação para o Clero e publicada em 20 de julho deste ano?

Flavio Lazzarin – Também neste caso, faço uma leitura dialética entre a dimensão carismática da Igreja em saída e a dimensão jurídica. O documento é tão contraditório quanto a nossa praxe pastoral. Deixa em aberto a possibilidade da criatividade profética e missionária e no mesmo tempo fecha com o Direito Canônico. Mais uma vez é uma questão de dosagem: mais carisma ou mais instituição?

IHU On-Line – Voltando a resistências ao atual pontificado – muitas dentro da própria Igreja: o que essas resistências revelam sobre a Igreja e sua compreensão acerca das transformações do mundo?

Flavio Lazzarin – Nada de novo. Sabemos, há muito tempo, que estas tensões do mundo católico já vingavam no I século, bem antes do desvio constantiniano, quando já no ano de 90, com o Papa Clemente, cogitava-se a inserção do cristianismo dentro das instituições imperiais, como religio licita. Com efeito, em poucas décadas, surge a tensão entre os discípulos dos mártires e os diplomáticos defensores da Igreja como religião.

Há exegetas que encontram esta dialética já presente no Evangelho de Marcos, quando o evangelista narra o episódio em que os seus acham excessivo, imprudente e louco o comportamento de Jesus: “E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si”. Na comunidade de Roma, talvez algumas décadas antes de Clemente, já existiam os críticos da radicalidade martirial e defensores da paz com o império. Se esta dialética é verdadeiramente neotestamentária, assume a autoridade da norma normans e devemos considerá-la constitutiva para a vida e a história da Igreja, até a Parusia.

Até hoje, a opção constantiniana é vitoriosa, seja na relação com sistemas políticos democráticos, seja com sistemas autoritários e opressivos. Revisitamos por um momento a tragédia da Cristandade colonial: aliança com os reis de Espanha e Portugal, padroado, genocídio dos indígenas e escravidão dos africanos.

Desejo de volta à Cristandade

Isto acontece também na Europa, em nome da Cristandade, em troca de tutelas concordatárias que garantam a liberdade e eventuais privilégios fiscais concedidos à instituição Católica. Além disto, é mais fácil para as burocracias eclesiásticas simpatizar com os políticos de extrema direita, que, estrategicamente, se apresentam como os paladinos da família natural, sexualidade sem gênero e radicalidade antiabortista. Esta ideologia, que quer dar continuidade ao regime de Cristandade, em que as leis do Estado se identificam com a moral católica, produz pessoas absolutamente incapazes de conviver com quem é diferente e, às vezes, escolhe ódio e comportamentos violentos.

Observando a história mais recente, não podemos evitar de olhar para a aliança de setores significativos da instituição com as ditaduras mais perversas: Mussolini, Hitler, Pavelic, Franco, Salazar, Videla, Pinochet... E cada um de nós pode estudar dois mil anos da história do Ocidente e encontrará inúmeros exemplos em que defender a Igreja pode virar desumano.

IHU On-Line – Quem, na sua opinião, representa um ideal de igreja a ser seguido?

Flavio Lazzarin – Em termos de dosagem das dimensões carismática e institucional, me sinto permanentemente interpelado pelo testemunho e a palavra profética e poética de dom Pedro Casaldáliga: “Há muitos caminhos que levam a Roma; Belém e o Calvário saíram de rota. Nossa Madre Igreja melhorou de modo, mas tem muita cúria e carisma pouco”.

IHU On-Line – Que futuro vislumbra para o mundo, e especialmente o Brasil, no pós-pandemia?

Flavio Lazzarin – Ou vamos pôr a marcha a ré do decrescimento e da mudança do padrão energético ou a humanidade está condenada à extinção.

 

Confira um trecho do poema de Suassuna acima citado

Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo. O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.” Ariano Suassuna

 

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