Bolívia. “O elemento central da derrubada de Evo Morales não é a direita, mas o levante popular”. Entrevista com Fabio Luís Barbosa dos Santos

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17 Novembro 2019

A derrubada de Evo Morales pegou o continente de surpresa e os dias que se seguiram são de forte conflitividade social na Bolívia. Enquanto a direita reacionária e racista tenta se afirmar no poder, as complexidades étnico-sociais do país andino voltam à superfície, o que indica um vazio de legitimidade política. Enquanto os dois lados gritam golpe, é necessário compreender as repercussões para um povo acostumado aos levantes de massa. É sobre todo este contexto que o Correio da Cidadania entrevistou Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor do livro Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016).

A entrevista é de Gabriel Brito, publicada por Correio da Cidadania, 14-11-2019.

“Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que não se trata de uma disputa da esquerda contra a direita. Há muitos anos, a base popular do governo Morales está cindida. O ponto de inflexão foi a repressão à marcha contra a construção da rodovia atravessando o parque nacional e reserva indígena Tipnis (Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure), em 2011. Naquele momento, diversas organizações deixaram a base do governo”.

Na conversa, Fabio Luís recupera a trajetória de mais um governo que não soube evitar o caminho da burocratização associada ao afastamento de parte de sua base e acomodação com as velhas elites econômicas, inclusive aquelas que quase colocaram o país na guerra civil em 2008.

“O outro lado da moeda foi a incorporação da agenda dos poderosos na Bolívia; gente da velha política ingressou no MAS, enquanto os militares foram afagados com muito dinheiro e privilégios. É importante reiterar que tanto em 2016 como nas eleições disputadas em outubro de 2019 muitos na esquerda e setores importantes do movimento social votaram contra o MAS”, explicou.

De todo modo, é inegável que uma direita virulenta que não conforma maioria social tomou a dianteira da crise.

“Ódios reprimidos em uma sociedade altamente desigual e racista se destamparam. A direita mais reacionária se movimenta para assumir o comando de uma situação em que o elemento central da derrubada do presidente não é a direita, mas o levante popular. As vacilações do MAS colaboram para que a oposição parlamentar assuma as rédeas da situação”.

Eis a entrevista.

Em primeiro lugar, como descreve a derrocada de Evo Morales? Qual o caráter dos acontecimentos em curso?

Os seguintes fatos aconteceram recentemente: uma eleição sobre a qual paira ampla suspeita de fraude, reelegendo Evo Morales no primeiro turno; esta suspeita desencadeou manifestações massivas, com forte presença da juventude; também gerou contra-manifestações de apoiadores do governo, frequentemente violentas; Evo Morales e seu vice García Linera renunciaram domingo passado, e deixaram o país rumo ao México; e agora, a senadora da oposição Jeanine Añez assumiu a presidência.

O MAS fala em golpe, enquanto os que se opõem ao MAS alegam que a fraude foi um golpe. Neste enredo, há coisas claras e outras ainda por esclarecer. O que está claro é o pano de fundo da situação.

Suas análises, a exemplo da que podemos ler em seu livro, têm pontos críticos ao chamado processo de cambio capitaneado por Evo Morales, hoje mais distante de certos movimentos sociais da base que o conduziu ao poder. Quais teriam sido as falhas neste processo que explicam os atuais acontecimentos?

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que não se trata de uma disputa da esquerda contra a direita. Há muitos anos, a base popular do governo Morales está cindida. O ponto de inflexão foi a repressão à marcha contra a construção da rodovia atravessando o parque nacional e reserva indígena Tipnis (Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure) em 2011.

Naquele momento, diversas organizações deixaram a base do governo - o chamado ‘Pacto de Unidade’, selado durante a constituinte em anos anteriores, quando os ‘cambas’ de Santa Cruz ameaçaram dividir o país.

O governo reagiu a esta cisão em sua base de modo truculento: organizações foram atacadas e divididas, como a Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (CIDOB) e a Conamaq (Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu, que representa povos das terras altas do país). Favoreceu-se um braço fiel ao governo. ONGs críticas ao governo foram difamadas e perseguidas - como o Centro de Estudos Para o Desenvolvimento Laboral e Agrário (Cedla), o Centro de Documentação e Informação da Bolívia (Cedib) e a Fundación Tierra, enquanto a organização dinamarquesa Ibis, que apoia as lutas indígenas, foi expulsa do país.

O outro lado da moeda foi a incorporação da agenda dos poderosos na Bolívia: o agronegócio, os hidrocarbonetos e a mineração prosperaram. Esta agenda contradiz a noção constitucional de um Estado “Plurinacional”, protetor da “Pachamama” e adepto do “Bem Viver”. E isso gerou múltiplos conflitos, como o do Tipnis.

Ao mesmo tempo, gente da velha política ingressou no MAS, enquanto os militares foram afagados com muito dinheiro e privilégios.

Dessa forma, como explicar essa ofensiva reacionária, por conta das consideráveis doses de racismo e fundamentalismo religioso expressadas pela oposição, quando se trata do país mais festejado do ponto de vista dos indicadores econômicos nos últimos anos na América do Sul e com esses pactos que você descreveu?

Em resumo, o MAS se consolidou como o poder na Bolívia. Este projeto de poder se centrou cada vez mais em torno da figura de Evo Morales (‘evismo, o nacional popular em movimento, como dizia García Linera’). Impedido pela constituição de concorrer a um terceiro mandato consecutivo (na realidade o seu quarto, já que o primeiro não entra na conta porque foi sob outra constituição), Evo submeteu a proposta a referendo em 2016, no qual foi derrotado.

Mesmo assim, alegou que concorrer à presidência era um ‘direito humano’ acima da constituição, e disputou as eleições. Muitos veem já nesta manobra uma fraude. É importante reiterar que tanto em 2016 como nas eleições disputadas em outubro de 2019 muitos na esquerda e setores importantes do movimento social votaram contra o MAS.

A regra na Bolívia é que não há segundo turno se um dos candidatos tiver mais de 50% dos votos, ou uma vantagem superior a 10% em relação ao segundo colocado. Para tirar votos do seu concorrente Carlos Mesa, ex-presidente derrubado por uma insurreição popular em 2003, dizem que o MAS favoreceu a candidatura de um pastor coreano ultrarreacionário, que ficou em terceiro lugar.

Quando a apuração já estava avançada e a vantagem de Evo não lhe dava vitória no primeiro turno, o processo foi interrompido. Quando foi retomado, o presidente levou no primeiro turno. Houve mal-estar generalizado e muitos saíram às ruas, com destaque para a juventude, para quem o MAS sempre foi poder.

Deste ponto em diante, há elementos que precisam ser melhor elucidados. Muitos dizem que o governo instigou suas bases a saírem às ruas também, cometendo atos de violência que não caracterizavam os oposicionistas. Entre os oposicionistas, evidentemente, havia gente à esquerda, mas também à direita, como os chamados ‘cívicos’ de Santa Cruz liderados por Fernando Camacho – que até há pouco compunham com o governo.

Além disso, há uma juventude sem ideologia clara. O então presidente teria insuflado as tensões com uma retórica de confronto. Os protestos cresceram e se intensificaram. Muitas vezes, policiais confraternizaram com manifestantes. Há suspeita de que o baixo-clero das forças armadas se levantou em massa contra o governo, a despeito de esforços do alto escalão para contemporizar.

Ainda não temos suficiente clareza em relação a estas dinâmicas, mas o fato é que Morales e Linera se encontraram em uma situação que os obrigou a renunciar. Não está claro qual o motor desta decisão: o mais provável é que se depararam com um obstáculo incontornável para permanecer no poder – como os militares.

O certo é que não saíram por qualquer argumento democrático ou relacionado ao interesse geral. O fato de que governos progressistas gritem ‘golpe’ quando não há – como no mensalão no Brasil ou na rebelião policial no Equador em 2010 – mina a credibilidade da narrativa.

Ao renunciar, presidente e vice convocaram os demais masistas a fazer o mesmo, o que nem todos acataram. Mas a presidenta do Senado, Adriana Salvatierra, renunciou – o que abriu caminho para a posse de Añez. Ato contínuo, registraram-se inúmeros relatos de depredação a propriedades e ameaças a figuras do regime. Hoje, muitos cidadãos não saem de suas casas em La Paz, e relatam hordas de manifestantes encapuzados atuando impunemente com violência. Ódios reprimidos em uma sociedade altamente desigual e racista se destamparam.

Foi neste contexto que o jovem líder racista e machista de Santa Cruz entrou no palácio presidencial abandonado e jurou sobre uma bíblia.

Claramente, a direita mais reacionária se movimenta para assumir o comando de uma situação em que o elemento central da derrubada do presidente não é a direita, mas o levante popular. As vacilações do MAS – desorientados, os parlamentares que não renunciaram não atenderam à sessão de posse de Añez porque exigiam garantias às suas vidas – colabora para que a oposição parlamentar assuma as rédeas da situação.

Correio da Cidadania: E a repercussão regional?

Certamente, o país mais afetado é a Venezuela. Não só porque Maduro perde um de seus escassos aliados, mas porque o fiel deste governo são os militares. A movimentação na Bolívia dará ideias aos militares venezuelanos e é motivo de grande preocupação para o governo.

No Brasil, dois aspectos merecem reflexão: em primeiro lugar, as mobilizações massivas contra a fraude contrastam com a pífia reação ao impeachment de Dilma. Defrontamo-nos com o grau de apassivamento das organizações sociais brasileiras sob o PT. Em segundo lugar, o desenlace à direita da situação na Bolívia evidencia mais uma vez o descompasso entre: de um lado, os parlamentos como lugar de domesticação da política; e de outro, o clamor por mudança no continente, que é uma panela de pressão social.

A despeito da radicalidade das manifestações e do êxito em derrubar o presidente, a situação não vai virar para o povo na Bolívia. Enquanto isso no Brasil, com a libertação de Lula muitos dobram a aposta na via parlamentar: a esperança como farsa, e como tragédia. Enquanto equatorianos se levantam contra o Estado, bolivianos recusam a fraude e chilenos lutam contra o neoliberalismo, no Brasil muitos ainda apostam no líder operário messiânico.

O futuro da América Latina não está no passado, mas esta ficha ainda não caiu para muitos brasileiros. Enquanto resta uma ponta de esperança no passado, ficamos sem futuro. Deste ponto de vista, Lula livre significa que o Chile – ou o Equador, ou a Bolívia – não chegará aqui.

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