A descoberta do ''outro'' em uma Igreja em saída. Artigo de Severino Dianich

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15 Junho 2018

Podemos ser levados a evangelizar para estender a Igreja, plantar em toda parte as suas imponentes instituições e adquirir prestígio e poder na sociedade para a comunidade cristã. Mesmo que se acredite que, ao se fazer isso, abrem-se os caminhos do evangelho no mundo, a evangelização autêntica não é isso.

A opinião é do teólogo e sacerdote italiano Severino Dianich, cofundador e ex-presidente da Associação Teológica Italiana e professor da Faculdade Teológica de Florença. O artigo foi publicado na revista Jesus, n. 6, de junho de 2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Do moco como o Concílio Vaticano II o levanta na Gaudium et spes, nunca antes o problema da Igreja mundial havia sido levantado. No clima da escatologia atalhada, característico da primeira temporada da fé, havia se difundido a opinião de que os próprios apóstolos haviam completado a evangelização do mundo.

Agostinho, no entanto, atesta ter sido informado pelos escravos de algumas famílias romanas que, na África persistem “barbarae innumerabiles gentes”, as quais não teriam recebido a pregação do evangelho. Ele permanecia firme, porém, na convicção de que, antes do retorno do Senhor, todo o mundo se tornaria cristão.

Também por causa dos limitados conhecimentos do planeta, na Idade Média, era comum a ideia de que “per totum mundum aedificata est ecclesia”. O Islã, apesar de sua presença imponente, era considerado uma heresia cristã a ser erradicada, e não uma parte da família humana a ser evangelizada. Como parecia óbvio que todo o velho mundo era cristão, não surpreende que a descoberta do novo mundo e a sua rápida cristianização deram a sensação de se ter chegado ao fim dos tempos.

Se a Exsurge Domine de Leão X se preocupou em condenar a sentença de Lutero: “Praeliari adversus Turcas est repugnare Deo visitanti iniquitates nostras per illos” (“Combater contra os Turcos é como se opor a Deus que, por meio deles, vem visitar as nossas iniquidades”), isso significa que algo novo estava acontecendo no século XVI.

Os Reformadores, para dizer a verdade, não tinham nenhum interesse na evangelização do novo mundo: as missões protestantes só nasceriam apenas no século XVIII no seio do pietismo. Para os protestantes, porém, o Anticristo não seria mais o Turco, mas sim o papado. Nos humanistas, por sua vez, a figura do outro, o Turco, antes apenas inimigo, estava se transformando, de personificação do mal, em objeto interessante de conhecimento, de estudo e de debate.

Mesmo que embrionariamente, estava nascendo a concepção iluminista da alteridade. Em todas essas metamorfoses, porém, o outro continuava a ser sentido, como quer que fosse, como uma realidade interna à societas christiana. O amadurecimento da modernidade e o progressivo movimento de emancipação da cultura e da sociedade em relação à Igreja a colocariam, por sua vez, gradualmente, mas de forma cada vez mais severa, diante de uma societas não mais, ou não necessariamente, cristã.

Embora o Ocidente cristão estivesse se emancipado da Igreja, as instituições eclesiásticas, excluindo a Propaganda Fide e as ordens missionárias, continuavam agindo como se o mundo fosse todo cristão. Ainda em 1922, Pio XI pedia às nações que reconhecessem a Igreja como “mestra e guia de todas as outras sociedades”. A dura contraposição do magistério católico, em vez de frear o grande movimento libertário, favoreceria, por reação, sua mais ampla extensão, começando pelo âmbito dos intelectuais, para depois envolver, sob o impulso do socialismo e do comunismo, grande parte do mundo operário e, por fim, todos os estratos da sociedade.

Hoje, a legislação dos Estados está se movendo, em total liberdade do magistério, em caminhos muitas vezes divergentes da moral cristã tradicional, e o próprio ethos popular está se afastando dela visivelmente. O panorama religioso dos países de antiga tradição cristã se transformou radicalmente, tanto pelo não raro abandono por parte dos batizados, não só da prática da Igreja, mas às vezes também da fé, quanto pelo advento, em virtude das migrações, de porções relevantes de população de outras religiões.

Assim se explica-se que Paulo VI, embora avisado do que estava acontecendo, ainda podia se delongar na Evangelli nuntiandi sobre a problemática da relação entre “evangelização e promoção humana”, como dizia uma fórmula muito difundida na época, enquanto nas últimas décadas está se impondo cada vez mais a atenção fundamental à tarefa fundamental dos cristãos, sic et simpliciter, a de comunicar a fé a todas as pessoas. Não dentro dos velhos esquemas de fáceis cristianizações dos povos, mas na perspectiva de um mundo que não está necessariamente destinado a ser, um dia, todo cristão.

João Paulo II, a esse respeito, ainda conservava a clássica distinção entre países cristãos e países não cristãos, que, em seguida, se tornaria cada vez mais obsoleta. Para os países cristãos, ele lançaria em 1979 a fórmula da “nova evangelização”, visando ao renascimento de um forte senso de militância dos católicos e apelando à história de fé das nações cristãs e às riquezas de sua tradição cultural, que teriam modelado de modo indelével a identidade delas. Quase como se fosse possível pôr em marcha um processo de reconstrução, de forma modernizada, da antiga societas christiana.

O Papa Bento XVI o seguiu, apenas de maneira bastante matizada, nesse caminho. Tentando, porém, abrir caminhos diferentes, ele pensou que o outro podia ser trazido de volta, independentemente da adesão à fé, para a mesma plataforma cultural, sobre a qual o cristianismo se moveu ao longo da história, com a assunção do logos grego na sua própria estrutura doutrinal. Seria no nível da razão que a Igreja ainda poderia reconstruir de alguma forma uma unidade cultural, uma ética de valor universal e uma sociedade ordenada no respeito ao direito natural, pelo menos nos países de antiga tradição cristã.

Essas configurações, além de despertarem novamente debates no plano histórico, jurídico e requintadamente político, como o debate sobre as raízes cristãs da Europa, sobre a lex naturae e sobre o direito natural, provocaram desconfianças generalizadas no nosso mundo secularizado, quase como se a Igreja pretendesse reconquistar, mesmo que sob o guarda-chuva da identidade cultural das nações ou o da razão, a antiga hegemonia sobre a sociedade.

Paradoxalmente, o não crente e o cidadão de outras religiões estão mais disponíveis à simples proposta da fé em Cristo, pela qual se sentem interpelados na sua liberdade, do que a serem chamados a fazerem parte de um determinado quadro histórico-cultural ou a aderir, por força da razão, a um determinado sistema ético, sob pena de serem considerados, na sua eventual discordância, como pessoas irracionais.

O quadro geral da situação humana, hoje, de fato, é irredutível a qualquer forma de unidade cultural, ética ou religiosa, embora tenha uma extrema necessidade de ser libertado das relações conflituosas do passado entre países de uma ou outra cultura, de uma ou outra religião e de encontrar o caminho da paz.

Jürgen Moltmann afirmava que “não se pode obter a partir da Igreja uma inteligência da missão, mas sim uma inteligência da Igreja a partir da missão”. Uma plena inteligência da Igreja, que foi desejada pelo Senhor para uma missão a ser realizada na história, não pode ser obtida apenas da meditação do seu mistério de graça, nem apenas das disposições do seu fundador. A autoconsciência eclesial, de fato, muda de tempos em tempos, porque a missão muda de rosto, à medida que o destinatário, o mundo, se torna diferente.

A “Igreja em saída”, que o Papa Francisco está promovendo com vigor, em muitos aspectos tem implicações de caráter pragmático, em vez de teórico. Trata-se de um apelo a sair do recinto da liturgia, das devoções, da vida interna da comunidade, para ir aos pobres e entrar nos ambientes dos quais parece que Deus se afastou. Na realidade, é muito mais. É a proposta de uma nova forma ecclesiae.

Em um mundo globalizado, mas extremamente fragmentado, em um crescente pluralismo étnico, cultural e religioso que caracteriza também os países de tradição cristã, o modo com o qual a Igreja pretende se estruturar em seu interior, estabelecer a sua espiritualidade e o seu estilo de vida deve permitir que ela mostre ao mundo um rosto disponível ao encontro, sempre, em todo o lugar e com qualquer um, sem pretender se pôr no centro da vida social.

Ela deverá continuar na sua tradicional obra missionária, porque “uma grande parte da humanidade ainda não foi alcançada pela boa nova de Jesus Cristo”. O seu testemunho dado ao evangelho de Jesus não terá apenas a forma do chamado a crer no Ressuscitado, no Kýrios da criação, mas também será, no relato da sua vida e na operosidade marcado pelo sinal evangélico, um fazer reviver para as pessoas aquele Jesus da história que sempre tem muito a dizer, pelo bem da família humana, até mesmo para aqueles que não o acolhem como o Senhor.

O desafio para a Igreja é tornar-se disponível, permanecendo submetida ao absoluto da Palavra, ao relativo das contingências históricas, para poder dizer o evangelho não acima, mas a partir de dentro de uma sociedade que, no seu pluralismo e no seu ordenamento democrático, não está disposta a acolher propostas que reivindiquem um caráter de absolutismo.

O anúncio do Evangelho deverá ser para todos um “anúncio de esperança, de reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia, da sua salvação, anúncio de que o poder do amor de Deus é capaz de vencer as trevas do mal e guiar pelo caminho do bem”.

Como a missão está demandando hoje do corpo cristão uma nova forma ecclesiae, está crescendo na consciência eclesial a necessidade de uma reforma da Igreja. A comunidade católica, fiéis leigos e pastores, precisa abandonar a pretensão de que a fé cristã e a Igreja devem ser, para toda pessoa honesta e razoável, o único ponto de chegada da sociedade.

Além disso, há também um problema de reforma das instituições: o Papa Francisco reconhece que “existem estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador” (Evangelii gaudium 24). As instituições eclesiásticas, com o seu ordenamento atual, parecem se colocar diante do mundo como se a sociedade civil devesse dar razão de si à Igreja, e como se esta não tivesse o dever de fazer isso diante da sociedade. [...]

O problema é o do propósito e da intenção de fundo com os quais se evangeliza. Podemos ser levados a evangelizar para estender a Igreja, plantar em toda parte as suas imponentes instituições e adquirir prestígio e poder na sociedade para a comunidade cristã. Mesmo que se acredite que, ao se fazer isso, abrem-se os caminhos do evangelho no mundo, a evangelização autêntica não é isso.

No que diz respeito às pessoas, é apenas o desejo de deixar os outros a par da mesma riqueza de graça que foi dada aos crentes e, no que diz respeito à sociedade, é a vontade de fazer uma contribuição para o seu melhor desenvolvimento humano na justiça e na paz: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6, 33).

Percebo na prática das comunidades um nobre exemplo de evangelização autêntica, onde a dedicação dos cristãos para o bem comum, no engajamento social e nas atividades de caridade, permanece firme mesmo quando a comunicação da fé é impedida ou as conversões à fé são proibidas pelas leis do Estado.

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