"O fascismo foi uma tragédia, hoje é uma farsa". Entrevista com Massimo Cacciari

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25 Março 2019

“Nós estamos fazendo um favor a essas pessoas quando usamos essas palavras (“Fascismo, racismo”). Não é racismo, é o eterno medo do pequeno burguês, do individualismo egoísta diante de qualquer novidade, do organismo fraco incapaz de mudar situações que não pode mais enfrentar, cuja política, em vez de enfrentar os desafios, consiste em tranquilizar com o fechamento”, afirma Massimo Cacciari, filósofo, acadêmico e político, foi prefeito de Veneza de 1993 a 2000, e novamente de 2005 a 2010”.

Segundo ele, sempre existe a possibilidade de uma guerra mundial. “Quem lida com política – afirma - deve sempre levar em conta a possibilidade de uma guerra. Teremos que ver como o poderio chinês evolui, no que se refere às políticas estadunidenses. E também há a Rússia que, como todos os impérios, tende a se expandir. Todas essas são causas de grande tensão. Acrescente-se a isso o mundo do Oriente Médio e a questão de Jerusalém e, diga-me você, se um conflito não poderia irromper”.

A entrevista é de Alain Elkannin, publicada por La Stampa, 24-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Qual a situação da esquerda na Itália?

É um momento delicado, porque se não for possível criar um partido diferente, que não seja uma reedição do neoliberalismo ao estilo Renzi ou da velha socialdemocracia, é claro que não será possível resistir aos novos populismos, soberanismos e nacionalismos ou ao aparecimento de movimentos como os 5 estrelas, os Coletes Amarelos ou o Podemos.

O que a esquerda deveria fazer?

Dependerá da habilidade de Nicola Zingaretti. Vamos ver se ele terá a capacidade de dar um novo impulso ao Partido Democrata, conseguir mudá-lo.

Você acredita que estamos indo em direção ao fascismo?

Bom Deus, não. O fascismo foi uma grande tragédia. Aqui assistimos a uma farsa, essas pessoas não têm condições de produzir grandes tragédias. Para causar desastres, você precisa ter grande poder e um mínimo de raízes culturais e históricas, mesmo que sejam artificiais e distorcidas. Para grandes desastres são necessários grandes mitos. Estes de agora não passam de uns pobres infelizes e nos levarão a uma catástrofe coerente com seu tamanho, com sua evidente incapacidade de conduzir o país e mirar apenas à defesa dos "senhores em nossa casa".

Como a França de Pétain?

Sim, semelhante. Na verdade, a França de Pétain não teria causado nenhum desastre. Era preciso Hitler para isso. A França de Pétain não contava, e o fascismo é uma categoria que não pode ser usada de forma aleatória. Como o racismo. Nós estamos fazendo um favor a essas pessoas quando usamos essas palavras. Não é racismo, é o eterno medo do pequeno burguês, do individualismo egoísta diante de qualquer novidade, do organismo fraco incapaz de mudar situações que não pode mais enfrentar, cuja política, em vez de enfrentar os desafios, consiste em tranquilizar com o fechamento.

Mas o racismo não está voltando? Os Gilets Jaunes profanam os túmulos.

Tenho certeza de que seria mais eficaz criticá-los pelo que são, sem enfatizar alguns de seus traços. A sua xenofobia é no sentido literal, "medo dos estrangeiros", não necessariamente racismo. O risco não é fascismo. O risco é que a Europa se desintegre e retorne às pequenas soberanias, totalmente impotentes no cenário internacional, com países que lutam ferozmente no campo econômico para sobreviver. E naquele ponto não haverá mais nem direita, nem centro e nem esquerda; apenas a sobrevivência.

E quanto ao Brexit?

Os ingleses estão percebendo que, se pudessem voltar, votariam para continuar na Europa, porque entenderam que fora desse contexto até os direitos sociais adquiridos desaparecem.

Quem votou pelo Brexit, Salvini ou Di Maio?

Pessoas zangadas com a Europa pela forma como vem funcionando até agora. Os verdadeiros europeístas devem participar no debate explicando como querem mudar o quadro institucional.

E nos EUA há a era Trump.

A Europa está cada vez mais em crise desde que Trump está na política. O que isso nos diz? Que a Europa não pode mais ser atlântica. A UE cresceu porque tinha os Estados Unidos do seu lado, o grande aliado. Agora precisamos continuar por nós mesmos, se quisermos a união.

O verdadeiro vencedor é Putin?

Bem, sim. Se as forças de tradição liberal não encontram um bom compromisso e não conseguem desenvolver verdadeiros programas alternativos no lugar daqueles soberanistas, acabarão por ganhar pessoas como Salvini. E devemos também considerar a revolução tecnológica, que gera crescentes desigualdades. Não por sua culpa, mas por sua natureza. Se não for gerenciada politicamente, criará desastres sociais e as condições para um novo conflito mundial.

Você considera possível uma guerra mundial?

Sim, naturalmente. Quem lida com política deve sempre levar em conta a possibilidade de uma guerra. Teremos que ver como o poderio chinês evolui, no que se refere às políticas estadunidenses. E também há a Rússia que, como todos os impérios, tende a se expandir. Todas essas são causas de grande tensão. Acrescente-se a isso o mundo do Oriente Médio e a questão de Jerusalém e, diga-me você, se um conflito não poderia irromper.

Você ensina na Universidade Vita-Salute San Raffaele de Milão: o que os jovens pensam?

Eles estão nauseados por essa a política que aprenderam a conhecer. Eles não confiam na liderança atual. Têm dificuldade em se comprometer porque não sabem onde se posicionar. Há uma ampla gama de jovens interessados ​​em entender e que sente a exigência de um espaço político e econômico para desempenhar algum papel. Espero que eles possam se expressar nas eleições europeias.

Como você vê o futuro?

Estamos atravessando por uma crise política que diz respeito às forças políticas tradicionais, e esta é uma crise europeia. No entanto, penso que exista a possibilidade, após o Brexit e o fracasso do experimento dos 5 estrelas, de não ter resultados catastróficos para as eleições europeias. Um ano atrás eu não teria dito isso, mas hoje vejo a possibilidade de que forças políticas tradicionais encontrem um caminho diferente do passado.

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