"'Nosso' é a palavra que me assusta, o fascismo começa com as palavras"

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06 Novembro 2018

"Tudo sempre começa com o apontar o dedo para as pessoas diferentes e as mulheres. Tudo começa apontando para os estrangeiros e os homossexuais. Se você quiser reconhecer os sinais de alerta do fascismo, olhe como o governo se comporta com as mulheres". Assim fala a escritora Michela Murgia, agora nas livrarias com "Istruzioni per diventare fascista” (Instruções para se tornar fascista - em tradução livre-, Einaudi), que gerou um debate previsível nas contestações, mas não nos tons.

A entrevista é de Flavia Piccinni, publicada por Huffington Post, 04-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Inúmeras as perguntas e as provocações no texto - que termina em um "fascistômetro" de 65 pontos - projetado para refletir sobre os tempos que estamos vivenciando. Em cada página, ressoa uma famosa máxima de Benito Mussolini: "Quando o fascismo toma posse de uma alma, não a deixa mais". E para contar as almas contemporâneas Murgia - já vencedora do Prêmio Campiello pelo livro Accabadora em 2009 - mergulhou na linguagem e no presente. "Tudo – ela me explica - nasceu em Lucca pelo desejo de explorar o tema do neofascismo, em uma cidade que tem percentagens significativas.

Também nasceu do encontro com o ator Marco Brinzi, no palco com 'Autobiografia de um espancador fascista', e de um grupo de pessoas que se perguntaram o que era certo fazer para responder ao que estava acontecendo".

Eis a entrevista. 

Sua resposta?

Minha ideia era começar com a linguagem. É como na arte do uso das ervas medicinais: para cada erva boa há uma extremamente venenosa que se parece muito com ela. Vamos pegar duas palavras como "adversário" e "inimigo" que aparentemente querem dizer a mesma coisa. Quando você as analisa, percebe que uma responde a um pensamento democrático e outra não. O fascismo começa com as palavras.

Nesse dicionário, qual você acha que é a palavra mais perigosa?

Nosso.

Por quê?

Porque fala de uma comunidade onde o fechamento é confundido com identidade. Na qual o pertencimento mútuo se torna um muro em relação ao que vem de fora. As nossas tradições, o nosso povo, as nossas raízes: essas declarações me assustam.

Explique-me melhor.

A obsessão com a posse defensiva revela a ideia de um inimigo, não de uma comunidade. Em si, ‘nosso’ não é uma palavra negativa. Torna-se negativa nos discursos em que você tem que assustar as pessoas contra alguém e fazê-las crer que tudo o que é nosso será tirado de nós.

O livro está nas livrarias há cinco dias e as polêmicas são cotidianas.

Se eu quisesse fazer um experimento sociológico para demonstrar que o que eu estava escrevendo era real, eu não poderia ter agido melhor. Fui acusada de tudo. Mas, acima de tudo, de banalizar o fascismo, chamando de fascistas estes tempos.

O que mais lhe incomodou?

A má fé. Este é um livro sobre o presente e sobre o risco que estamos correndo, não sobre o fascismo histórico. Vivemos em tempos de racismo, xenofobia, machismo: o que mais deve acontecer para chamar isso de fascismo?

Diga-me você: o quê?

Para mim, a distinção é clara: fascista é quem faz o fascista.

Defina a sua abordagem metódica, não ideológica.

O fascismo histórico é um fascismo ideológico. Havia um manifesto fascista. Havia documentos, leis raciais, um desenvolvimento temático. Neste momento ninguém usaria tal formuação. A grande maioria das pessoas fica ofendida por ser chamada de fascista, até mesmo os nostálgicos.

Conte-me sobre o fascismo metódico.

O fascismo metódico é um modo antidemocrático de se pensar dentro da democracia, é um protofascismo. A educação à zombaria do adversário até a sua aniquilação, o hábito de imaginar um inimigo que nos ameaça, a perpétua condição de perigo e a ideia de que um líder, único e forte possa resolver tudo são elementos principais desse método. Umberto Eco o chamava de "o eterno fascismo".

Apenas pronunciar essa palavra, fascismo, gera incômodo naqueles que querem usar esse método, mas não querem usar a palavra fascismo para não ter que responder como um fenômeno. Você se lembra de Marcello Dell'Utri que dizia "a máfia não existe, é uma invenção jornalística dos anti-máfia, assim eles têm algo para se manter ocupados?"

Sim, lembro disso.

Então é isso: se você nega a palavra, nega o fenômeno. Se você nega o fenômeno, este pode se desenvolver sem prestar contas a ninguém.

Qual foi seu primeiro contato com o fascismo?

Eu tinha quatorze anos. Uma mulher idosa, por muitos anos presidente da paróquia, filha do prefeito, falava-me dos tempos do Duce com nostalgia. E ela me contava que naquela época tudo estava em ordem, que todos sabiam qual era o seu lugar. Ela me confessou que não conseguia se adaptar à mudança. Mas adaptar-se à mudança é uma característica fundamental da inteligência evolutiva. Negando possuí-la, ela estava declarando a sua extinção.

Porém em seu livro, você revela a adaptabilidade do fenômeno, uma resiliência quase camaleônica.

Hoje estamos enfrentando algo diferente do passado. O debate público nas mídias sociais é uma coisa nova. Não existia na época de Spadolini ou Craxi, mas agora existe. Isso reduz nas pessoas qualquer potencial conflituosidade com o autoritarismo moderno.

De que forma?

O fascismo mandava seus adversários ao confinamento. Agora, eles são deixados nas redes sociais para expressar sua opinião em uma espécie incansável de ruído branco. As pessoas estão convencidas de que conversar sempre e com todos pode ser um sinal de liberdade. Mas se o que você fala não importa nada, como se impressa a sua força para discordar?

Conte-me como.

(suspirando) As mídias sociais se tornaram uma forma de desorganização da dissidência.

Você é da Sardenha. A Sardenha é racista?

Ser racista seria ilógico: somos um povo de emigrantes e tradicionalmente de dominados. Um, dez, cem sardos têm medo do estrangeiro. Mas isso não os torna racistas.

E a Itália?

Eu não acho que a Itália seja racista. Os racistas reais são muito poucos. Também temos a CasaPound (partido neofascista, ndt), é claro, mas as organizações que teorizam o racismo não devem ser confundidas com as populações tomadas por tentações xenófobas. Se com estas últimas é possível usar uma pedagogia para chegar à reflexão, com os primeiros não pode haver diálogo.

Na sua opinião, Salvini é fascista?

Como considero o fascismo um método, sua modalidade de ação é certamente fascista.

Você tem medo de Salvini?

Claro. Apenas um tolo não teria medo de Salvini e do que ele está fazendo. Como você pode não ter medo de um ministro do interior que deixa um navio da Guarda Costeira, o Diciotti, em alto-mar, lotado de pessoas em sofrimento e extenuadas, só para medir forças com a Europa?

Luigi Di Maio é racista?

Não. O Movimento das Cinco Estrelas em si não é racista, mas é culpado de estar acomodado em relação a Salvini. Inclusive nesse caso, se você apoia o racista, você também se torna racista. Não podem ser aceitos compromissos políticos sobre os direitos humanos.

Antes você mencionou o machismo como uma característica deste governo.

É evidente. A narração do homem forte necessita daquela da mulher frágil, dócil e funcional. Você pensa nas fotos de Elisa Isoardi que passa a roupa, e logo percebe que é material político, como tudo o que sai das mídias sociais de Matteo Salvini. Quando ele diz que "uma mulher deve sempre dar luz ao seu homem", ele defende uma ideia de docilidade funcional conservadora e retrógrada.

Como você considera a norma em estudo segundo a qual com o terceiro filho se tem acesso a um terreno?

Uma estratégia de comunicação capaz de desviar a atenção. E de sustentar a ideia de que a maternidade é um mérito social e não uma escolha pessoal. Se você quiser ajudar os pais, dê a eles creche grátis, cuidadoras de bairro, proteção e segurança, não um terreno!

O que você acha do projeto de lei Pillon?

Reduz a liberdade das mulheres tanto em termos de divórcio como nas denúncias sobre violência. Todas as associações feministas estão unidas nessa batalha.

Acredita que essa reação seja isolada?

Não. Eu vejo os intelectuais reagindo. Temos um alinhamento pacífico que nunca foi visto antes. Se tantos artistas e escritores se unem, isso significa que o perigo é perceptível de maneira orgânica e requer uma resposta orgânica.

No entanto, ela está demorando a chegar.

A culpa é a falta de um interlocutor político que consiga reunir tudo isso. Os escritores devem fazer o seu trabalho. É a política que já não parece capaz de fazer o seu.

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