O desejo imortal de fascismo. Artigo de Massimo Recalcati

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06 Março 2018

Para Pasolini o "novo fascismo" não tinha nada a ver com as organizações fascistas renascidas após o fim da Segunda Guerra Mundial e da Libertação, mas com o poder de plasmar as vidas e as consciências que o novo "sistema dos consumos" tinha conseguido produzir a partir dos anos 1960. Essa tese geral - em si talvez questionável - tem o mérito de emancipar o fascismo do problema da sua eventual reorganização política - que de acordo com Pasolini era um fenômeno totalmente residual - para reconduzi-lo a um grande tema antropológico: estamos tão certos que os seres humanos amam mais a sua liberdade que as suas correntes?

O artigo é de Massimo Recalcati, professor das universidades de Pavia e de Verona, publicado por La Repubblica, 01-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O fascismo como renúncia ao pensamento crítico, massificação, arregimentação, supressão sacrificial do singular, suscita esse vertiginoso e poderoso dilema: o ser humano carrega consigo a aspiração à liberdade ou a tendência a sua negação? Tal como mostraram com eficácia psicanalistas como Reich e Fromm, o verdadeiro escândalo não é tanto o fascismo como regime político-militar de cunho repressivo, mas o seu desejo, o seu fascínio, o seu apelo de sedução sobre as massas.

Como Reich escreve, no início do livro Psicologia de Massas do Fascismo, o verdadeiro problema não é porque as massas têm passivamente suportado a opressão do fascismo, mas porque o tenham tão ardentemente desejado. Aqui está o ponto mais escabroso que a crise do nosso mundo parece ter desenterrado: é possível desejar o fascismo? Existe na alma do homem - em seu inconsciente - uma tentação fascista, um impulso gregário para adorar o líder, algo como um desejo fascista?

Quando Freud escreve Psicologia das Massas e Análise do Eu a Europa está precipitando no abismo do totalitarismo. Nessa obra, ele sugere, com um espírito que beira a clarividência, um retrato perturbador da pulsão que anima os vínculos de massa e que vai levar a Europa para a Segunda Guerra Mundial.

A guerra, o conflito violento entre massas contrapostas, a subversão de qualquer dispositivo democrático, a contenda fundamentalistas das ideologias, derivam, de acordo com Freud, de uma transformação ordálica do vínculo social. A afirmação vitalista das massas "sem pensamento", como diria Bion, sempre está destinada a reverter-se na paixão pela destruição do inimigo. O amor arrebatado pelo "líder" libera o ódio paranóico e de massa pelo adversário.

Isso significa que a razão iluminista não foi a última palavra da Europa sobre o homem. A incandescência acéfala da vida das massas fascistas mostra a outra face da razão crítica: pulsões borbulhantes, movimentos agressivos, impulsos vorazes que, excluindo qualquer forma de mediação simbólica - a democracia -, exigem imperativamente a sua satisfação. A Europa que Freud descreve como um conjunto de feixes direcionados ao sonho perverso de uma unidade compacta, identitária, não dividida, é uma Europa que tentou resolver a sua falta de rumo, seu déficit de instabilidade e de identidade, através da identificação hipnótica com o olhar e o cajado do líder.

Na Europa contemporânea, a ameaça à sua (precária) unidade parece ser encarnada principalmente pelo fenômeno da imigração. É uma "emergência" que, para algumas pessoas coloca em jogo a sua própria sobrevivência identitária. Em uma realidade política ainda frágil e cheia de contradições - como a europeia - a presença desse perigo externo - combinado às vivências "intrusivas" geradas pela globalização - reacendeu nem tanto o ativismo político neofascista, mas - algo bem mais perigoso - o desejo de fascismo. Trata-se uma preciosa lição da psicologia coletiva: quando o tumulto social, a insegurança e a instabilidade atingem o seu auge, a pulsão gregária que anima a identificação "da massa" sempre pode recuperar o seu vigor. O desejo de fascismo é um desejo - como diria Umberto Eco - "eterno" porque expressa uma tendência própria da realidade humana: livrar-se da ansiedade da liberdade, preferir a consistência das correntes e da ditadura em vez da aleatoriedade de vida, buscar refúgio na ‘cimentificação’ da própria identidade em vez de se arriscar à abertura e à contaminação.

O inconsciente das massas contemporâneas – mesmo que desprovidas de qualquer envoltório ideológico e pulverizadas em relação a tendências -, empurra na mesma direção para a qual havia se encaminhado o negro fantasma do totalitarismo: invoca-se a mão pesada, a militarização dos territórios, o fechamento das fronteiras, a repressão, a exclusão étnica, a expulsão do invasor.

As direitas reacionárias na Europa e em todo o mundo navegam na onda emotiva da emergência. A miragem do muro prometido por Trump torna-se assim o símbolo de um desejo renovado de fascismo. Mas seria tolo zombar ou olhar com superioridade esses movimentos pulsionais da alma, porque eles não dizem respeito exclusivo a uma parte política, mas a cada um de nós em sua intimidade mais profunda. A tarefa da política não é para negar a sua existência, nem para aproveitá-los como um meio cínico para obter um fácil consenso.

A liberação do desejo de fascismo é um empreendimento cultural e ético de longo prazo. Na dureza da atualidade, a política deve dar prova de não ceder nem à ilusão segregativa do muro, nem ignorar a demanda de legalidade e de proteção que daquele infame desejo eterno, pode-se assim dizer, provém.

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