A ultradireita ganha espaço na Europa

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03 Outubro 2017

As luzes se ofuscam na Europa sob as sombras de uma trepadeira que sobe pela coluna vertebral da democracia. As ultradireitas do Velho Continente não param de florescer em quase todos os países da União Europeia. Há tempo que deixaram para trás uma vida política congestionada em cenários tão nostálgicos como minoritários, para irromper agora no centro de poder. Até a própria Alemanha, um modelo permanente de estabilidade política e insuspeitável de qualquer tentação nacional populista, sucumbiu à onda marrom que começou a ser gestada com força na Franca, a partir dos anos 1980, com a palavra ardente do fundador do partido de ultradireita Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 01-10-2017. A tradução é do Cepat.

O nacional-populismo devora irresistivelmente as democracias do Ocidente. O último país a entrar na lista é Portugal. As eleições municipais contaram com um convidado surpresa que repete a narrativa dos demais países da União Europeia: sejam os nacionalistas, para quem o mundo é uma ameaça tóxica, ou os racistas, para quem os estrangeiros ou minorias são um elemento corruptor da essência nacional. Com a estreita perspectiva das eleições municipais portuguesas, André Ventura, candidato do conservador Partido Social Democrata (PSD) avançou contra os ciganos, a quem qualifica como “uma minoria privilegiada”, que “vive quase exclusivamente dos subsídios do Estado”.

Identidade e nacionalismo forjaram a força eleitoral dos partidos da extrema-direita europeus. Jean-Yves Camus, é especialista desta corrente política e autor do livro Extremas derechas em Europa, junto com Nicolas Lebourg (Seuil, 2015). Comenta que “até 30 ou 40 anos atrás, a ultradireita era bastante marginal, mas agora está em condições de disputar a liderança com a direita tradicional. Na maioria dos casos, os ultradireitistas desempenham um papel de lobby, mediante o qual exercem uma grande pressão sobre a agenda política e conseguem impor seus temas típicos, como a imigração e a identidade”.

Jean Faniel, diretor, na Bélgica, do Centro de Pesquisas e Informação Sociopolíticas (CRISP), acrescenta: “hoje, a extrema-direita adotou novas formas de discursos: o que mais almeja é se tornar frequentável”. Da Finlândia (PVF) à França (FN), passando por Bulgária (Ataka), Hungria (Jobbik), Dinamarca (DF), Grécia (Aurora Dourada), Bélgica (Vlaams Belang), Grã-Bretanha (UKIP), Itália (Liga do Norte, Força Nova), Alemanha (AfD), Holanda (PVV) e Áustria (FPÖ), quase toda a sociedade europeia não está livre do nacionalismo, ou do que se passou a chamar de “identitarismo”, dois postulados que, segundo o presidente francês Emmanuel Macron, “acenderam as brasas onde a Europa esteve a ponto de morrer” e que “agora retornam “com novas vestimentas”.

Como explicar este auge continental? Jean-Yves Camus observa que, “globalmente, a ultradireita prospera quando há três crises que se desdobram mutuamente: uma crise de representatividade, ou seja, do funcionamento das instituições; uma crise da redistribuição, ou seja, um questionamento do caráter equitativo dos impostos; e uma crise da identidade”. Estes três detonadores, em maior ou menor medida, foram instalados na Europa. Se estes três eixos foram o combustível do vulcão à exaltação comum da comunidade nacional (“os franceses primeiro”), o desprezo aos estrangeiros, o ataque contra as elites e a globalização, nem todas as ultradireitas são um bloco. Como se viu na França e Alemanha, com a ruptura entre “nacionalistas” e fanáticos da identidade, esta proposta política é constituída por duas raízes antagônicas: uma tradicionalista, com traços antissemitas e descendente do mais típico fascismo (Aurora Dourada, na Grécia, por exemplo), e outra que reformulou sua narrativa, a partir do ano 2000 (Frente Nacional, na França), com a meta de retirar de si o rótulo de “diabo da democracia”.

Essa transformação conduziu à emergência do chamado “neopopulismo” que, internamente, derrotou os ultratradicionalistas. Essa foi precisamente a disputa pública entre Jean-Marie Le Pen e sua filha, Marine Le Pen. Esse neopopulismo encobriu os traços históricos da extrema-direita, dissolveu o antissemitismo na fobia ao islã, apresentou-se como o defensor do povo contra as elites globalizadas, como o porta-bandeira da soberania e um vigoroso espadim oposto às sociedades multiculturais, partidário da defesa das fronteiras e contra “o totalitarismo islâmico” (Marine Le Pen). A essas características, cada partido acrescenta seus ingredientes locais.

Os analistas europeus situam de forma muito precisa, no tempo, o impulso da extrema-direita no Velho Continente: 2001. O atentado contra as Torres Gêmeas, a designação de um “eixo do mal” (George Bush) e a cruzada contra o islamismo radical deram aos ultradireitistas a oportunidade de reciclar suas retóricas. O modelo é sempre a Frente Nacional francesa. Quando se toma sua evolução, a partir de 2001, sua ascensão foi imparável: passou para o segundo turno das eleições presidências, em 2002 (Jacques Chirac contra Jean-Marie Le Pen), tornou-se, em 2014, o “primeiro partido da França” e, em 2017, a filha de Le Pen disputou novamente o segundo turno de uma eleição presidencial, desta vez diante do atual chefe de Estado, Emmanuel Macron. Nas eleições legislativas de junho, aumentou de dois para oito o número de deputados. Na consulta presidencial europeia, municipal, regional e legislativa os resultados foram em constante crescimento, inclusive a derrota de Marine Le Pen na eleição presidencial avivou a guerra interna entre “tradicionalistas” e “neopopulistas”.

Junto ao Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), a Frente Nacional (FN) é o partido mais sólido e, sobretudo, o mais persistente e enraizado. A Frente Nacional (FN) e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) estão há 15 anos em um leque que vai de 15% a 35% dos votos. Na Áustria, o FPÖ conseguiu o que a FN não conseguiu na França, apesar de sua potência eleitoral: fazer parte de uma coalizão de governo (1999).

Na Holanda, por exemplo, o líder Pim Fortuyn fez do islã e da oposição entre o povo e as elites sua pedra angular. Seu assassinato, em 2002, por uma ativista de extrema-esquerda levou suas listas eleitorais a 17% dos votos, em 2003. Embora enraizada, a extrema-direita holandesa atravessou períodos de montanha russa. Com uma temática similar à de Fortuyn, o Partido pela Liberdade (PVV) de Geert Wilders (criado em 2006) superou os 10% em cada eleição. Em 2010, com 15% dos votos, tornou-se a terceira força política do país e formou o arco parlamentar que apoiou o governo minoritário de Mark Rutte. Desde então, Geert Wilders não voltou a reiterar a façanha.

Na Grã-Bretanha, até a chegada do UKIP, os extremistas do National Front ou do British National Party nunca haviam encontrado eco na sociedade. Paradoxos da história política, o UKIP chegou aos 12% nas eleições legislativas e, depois, foi tragado pela vitória do Brexit, do qual foi o principal promotor.

A chave do êxito da extrema-direita europeia sempre foi “a mudança retórica”. Na Suécia, por exemplo, o Partido dos Democratas Suecos (SD), próximo aos neonazistas, contentou-se com o 1% dos votos até que, em 2006, se iniciou a “lavagem” do edifício extremista. Com nova logomarca e retórica reorientada para a defesa dos direitos sociais e a impugnação do liberalismo, nas eleições legislativas de 2014, Jimmie Akesson elevou o SD a 13% e à categoria de terceiro partido da Suécia.

O expansionismo da extrema-direita e suas narrativas variadas (xenófoba, soberanista, nacionalista, defensora dos direitos sociais, defensora do povo, adversária da globalização ou da ideia multicultural) chegou, agora, à hermética Alemanha. A ascensão foi paulatina. Nas eleições europeias de 2014, com 1% dos votos, os extremistas do Partido Nacional Democrata (NPD) ingressaram no Parlamento europeu. Os ricos ao Oeste, os pobres ao Leste. Com essa configuração socioeconômica que dividiu as duas alemanhas unificadas, após a queda do Muro de Berlim (1989), a extrema direita fez seu enraizamento ao lado dos movimentos anti-islã, como o PEGIDA (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente, 2014, 2015). O neonazismo do NPD e o anti-islamismo do PEGIDA se dissolveram, em 2013, no agora vitorioso AfD (13% e 90 deputados nas últimas eleições de 2017).

Na consulta europeia de 2014, o AfD atingiu 7% graças a sua posição contra o euro e em defesa das classes médias baixas. Em seguida, o AfD se radicalizou e adotou o discurso da identidade, a partir da crise migratória de 2015-2016, impulsionado por sua hoje renunciante líder Frauke Petry. Assim como a FN na França, o AfD se dividiu entre a linha dura de Petry e as opções ainda mais radicais de Alice Weidel e Alexandre Gauland.

O mapa da extrema-direita europeia é complexo, mas cada vez mais extenso e marrom, tanto no centro histórico, França, Itália, Alemanha, como nas repúblicas do Leste da Europa, que antes pertenciam ao cinturão de segurança de Moscou. Todas prosperaram sob as mesmas canções anestesiantes: a imigração contaminante, o Islã, as elites que abusam do povo e a globalização, que só beneficia um punhado de privilegiados.

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