O caminho sinodal

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20 Julho 2021

 

Hans Küng lembrava que o pontífice vivia “entre lobos” e prognosticava que se depararia com um muro de hostilidade no Vaticano. Façamos-lhe sentir que muitos de nós seguem com sonho o seu Magistério, apoiando suas reformas e sua coragem. O Caminho Sinodal, longe de destruir a Igreja, pode ser uma magnífica oportunidade para edificá-la sobre bases mais sólidas”, escreve Rafael Narbona, escritor e crítico literário, em artigo publicado por Vida Nueva Digital, 18-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Todas as reformas que surgiram no seio da Igreja católica sofreram a rejeição e a incompreensão da hierarquia eclesiástica, sempre reacionária às mudanças. Inocêncio III olhou com receio para São Francisco de Assis na primeira vez em que se encontrou com ele, sugerindo-lhe depreciativamente que talvez devesse pregar para os porcos, pois sua vestimenta era tão miserável que parecia apropriado para um chiqueiro e não para uma audiência papal.

Santa Teresa de Jesus não chegou a ser processada pelo Santo Ofício, mas o Livro da Vida permaneceu nas mãos dos inquisidores até sua morte, sujeito a exames que rastreavam possíveis heresias. São João da Cruz foi preso em Toledo, suportando todos os tipos de privações e vexames. Sua cela não era um calabouço convencional, mas uma antiga latrina. As penúrias não o impediram de começar o Cântico espiritual, um dos pontos altos da mística espanhola do século XVI.

O filósofo e jesuíta Teilhard de Chardin publicou postumamente grande parte de sua obra para evitar represálias. Foi acusado de posições heréticas (questionou o pecado original, aprovou os métodos anticonceptivos e apontou que a finalidade do matrimônio não é a procriação, mas o enriquecimento espiritual dos cônjuges), mas – conforme reconheceu Bento XVI – sua liturgia cósmica, que convertia o universo em uma hóstia viva, inspirou a Gaudium et spes, a única constituição pastoral do Concílio Vaticano II.

No dia 20 de julho de 1981, L’Osservatore Romano afirmou que Teilhard de Chardin foi “um homem possuído por Cristo no mais profundo de sua alma. Estava preocupado em honrar tanto a fé como a razão, e antecipou a resposta ao chamado de João Paulo II: ‘Não tenham medo, abram, escancarem as portas dos imensos âmbitos da cultura, a civilização e progresso para Cristo”.

O Caminho Sinodal empreendido pela Igreja católica alemã está experimentando o mesmo desprezo suportado por figuras honradas pela posteridade, como Santos e Doutores da Igreja. Penso que esse clima de inimizade se parece às inevitáveis dores de um parto. Tudo o que é frutífero passa por um turbulento processo de gestação.

O Caminho Sinodal surgiu como resposta a um demolidor relatório na Alemanha que contabilizava 3.677 casos de abusos sexuais contra crianças e jovens cometidos por 1.670 clérigos, entre 1946 e 2014. A notícia provocou uma perda em massa de fiéis e um gravíssimo desprestígio. Esta crise fez com que muitos destacassem a necessidade de refletir sem medo, adotando as mudanças que fossem necessárias.

Em 2019, a Assembleia Plenária de Primavera, realizada em Lingen, aprovou o início do Caminho Sinodal, advertindo que não se tratava de um sínodo formal, mas de uma reflexão em assembleia, com estilo próprio. Urgia adotar novas posturas em certos temas para abrir novos caminhos.

O Papa Francisco apoiou a iniciativa em sua Carta ao Povo de Deus que peregrina na Alemanha (29 de junho de 2019): “É essencialmente um sínodo, um caminho comum sob a condução do Espírito Santo. Isto significa que se empreende um caminho com toda a Igreja sob a luz do Espírito Santo, sob sua condução e agitação, para aprender a escutar e discernir o novo horizonte que quer nos dar”.

Os temas abordados pelo Caminho Sinodal são a distribuição do poder na Igreja, a sexualidade e o matrimônio, o ministério sacerdotal e as mulheres. Dentro desse esquema, defende-se uma reforma democrática da Igreja que conceda maior protagonismo aos leigos para mitigar o flagelo do clericalismo.

Celibato opcional

O Caminho Sinodal defende o celibato opcional dos presbíteros, a ordenação sacerdotal das mulheres, uma nova moral sexual e uma eleição democrática dos bispos. A reação dos setores mais conservadores não demorou, acusando o clero alemão de promover um cisma, uma reprovação reforçada pela recente bênção a casais homossexuais, desafiando a proibição expressa da Congregação para a Doutrina da Fé.

Os pontificados de Wojtyla e Ratzinger promoveram uma contrarreforma que deu asas aos movimentos integristas, liquidando o espírito do Concílio Vaticano II. Essa guinada levou a Igreja católica a se comportar, em certas ocasiões, como um fundamentalismo antidemocrático, conforme foi visto recentemente no choque entre o Vaticano e as leis contra a homofobia e a transfobia que estão sendo elaboradas pelo Parlamento italiano. Francisco está fazendo tudo o que é possível para que o fundamentalismo retroceda, o que suscitou críticas jamais vistas contra um Papa.

O Caminho Sinodal talvez seja a última oportunidade para que a Igreja católica não se transforme em um baluarte das ideias mais reacionárias. Suas propostas são muito razoáveis. O celibato sacerdotal não é um dogma, mas uma tradição eclesiástica e seu caráter opcional talvez possa ser a solução para acabar com a pedofilia. A sexualidade faz parte de nossa natureza. É necessário educá-la, conforme reconheceu o próprio Freud, mas reprimi-la pode propiciar distúrbios neuróticos e comportamentos inapropriados.

Em relação à ordenação sacerdotal das mulheres, convém lembrar que as mulheres desempenharam um papel essencial na pregação de Jesus e, conforme reconheceu João Paulo II, mostraram-se mais firmes e corajosas durante a Paixão. O reconhecimento de Maria Madalena como apóstola dos apóstolos confirma a importância da mulher na propagação da Boa Notícia. Continuar impedindo seu acesso ao ministério sacerdotal só pode ser interpretado como uma injustificável resistência à igualdade entre os sexos.

No que diz respeito à eleição democrática dos bispos, não há argumentos sólidos para se opor ao procedimento que regulamenta o funcionamento das sociedades livres e plurais. Tudo indica que as primeiras comunidades cristãs funcionaram desse modo.

O Caminho Sinodal também aborda a necessidade de reformar a moral sexual da Igreja católica. Continuar classificando a homossexualidade como “um comportamento gravemente desordenado” é inaceitável em um tempo onde ainda proliferam as agressões homofóbicas. É preciso lembrar que alguns países islâmicos ainda consideram a pena de morte para os homossexuais, um castigo que foi comum durante séculos na Europa cristã.

Também não parece muito sensato continuar condenando os métodos anticonceptivos, o que só favorece as gravidezes não desejadas e as doenças de transmissão sexual, ou negar a Eucaristia aos divorciados.

É difícil prever para onde levará o Caminho Sinodal, mas sua coragem em abordar certas questões abre um horizonte de esperança. A Igreja católica não pode abandonar, de modo algum, sua defesa da dignidade do ser humano e seu compromisso com os mais pobres e vulneráveis, mas deve refinar sua perspectiva em outras frentes, abrindo-se ao diálogo com o mundo moderno.

Conforme destacou Hans Küng em sua carta aberta ao Papa Francisco, é preciso combater o “impiedoso dogmatismo que mata o espírito e se apega à letra, que impede a renovação completa da vida e do ensino da Igreja e obstrui qualquer avanço sério no campo do ecumenismo”.

Em sua exortação apostólica Amoris Laetitia, Francisco pareceu ecoar esta reflexão, afirmando que “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas com intervenções magisteriais” e se posicionando contra “uma fria moral de gabinete”. O Papa alertava que os bispos não podiam continuar agindo como “controladores da graça” e lembrava que a Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um “alimento para os fracos”.

Hans Küng lembrava que o pontífice vivia “entre lobos” e prognosticava que se depararia com um muro de hostilidade no Vaticano. Façamos-lhe sentir que muitos de nós seguem com sonho o seu Magistério, apoiando suas reformas e sua coragem. O Caminho Sinodal, longe de destruir a Igreja, pode ser uma magnífica oportunidade para edificá-la sobre bases mais sólidas.

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