O que resta do sagrado: o cristianismo, a ética e o Ocidente. Artigo de Vito Mancuso

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19 Novembro 2012

A tese de Umberto Galimberti segundo a qual "o cristianismo dessacralizou o sagrado, suprimindo a sua ambivalência e conferindo todo o bem a Deus e todo o mal ao seu adversário" tem fundamento: no cristianismo, a ambiguidade original do sagrado é minimizada, a imagem de Deus trazida por Jesus torna impossível um Deus da ira e da vingança.

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 15-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Aqueles que rezam todos os dias "Pai nosso que estás nos céus" provavelmente não gostam de ver a própria fé qualificada como "a religião do céu vazio", segundo o que diz o subtítulo do último livro de Umberto Galimberti recém-lançado pela editora Feltrinelli, Cristianesimo: La religione dal cielo vuoto. Consciente do ataque, o autor avisa que não quer ser "provocativo e nem mesmo ofensivo", mas nem por isso renuncia a reiterar: "Mesmo assim, o céu do cristianismo está vazio".

O livro de Galimberti é amplo, sinuoso, profundo, abre e fecha cenários com magistral desenvoltura. O crente que o lê pode se afogar, mas também pode aprender a nadar entre correntes perigosas. Entre as questões levantadas está a do sentido, isto é, se essa categoria não é apenas um refúgio vacilante da mente; está a conexão entre o Ocidente e a sua religião ("o Ocidente não tem somente as raízes de cristão, mas também o tronco, os ramos, as folhas, os frutos, tudo é cristão no Ocidente"); está a inevitável discussão sobre a técnica e a psique, a figura da fé filosófica e muitas outras coisas. Mas a questão decisiva é o céu vazio do cristianismo. Ou o céu vazio do Ocidente.

Para Galimberti, isso depende do fato de que o cristianismo eliminou do conceito de Deus a plenitude da vida. De fato, vida é bem + mal, justiça + injustiça, enquanto o Deus cristão é só bem e só justiça, portanto estruturalmente incapaz de refletir a transbordante totalidade da vida. Libertando Deus da responsabilidade do mal, o cristianismo o empobreceu, tornando-o incapaz de abraçar o todo, de modo que, diferentemente dos Deuses gregos e do Islã, o cristianismo permaneceu isento da dimensão do sagrado.

O sagrado, de fato, não conhece distinção entre bem e mal, mas veicula uma dimensão de fascínio e ao mesmo tempo de terror, em uma original ambiguidade que reflete perfeitamente a ambiguidade da vida (o latino sacer significa ao mesmo tempo "sagrado" e "execrado"). Desprovido de sacralidade, reduzido a ética, o cristianismo não é mais capaz de preencher o céu da história, que, portanto, para o Ocidente, permanece vazio.

Tal análise de Galimberti retoma e reatualiza a crítica teológica de Nietzsche ao cristianismo. Ao contrário do ateísmo antropocêntrico de Marx ou de Freud, o anticristianismo de Nietzsche sse alimenta da vigorosa teologia grega e acusa o cristianismo de ter produzido "a castração contranatural de Deus em um Deus apenas do bem". Para Nietzsche, porém, "precisamos tanto do Deus mau quanto do Deus bom", porque "o que importaria um Deus que não conhecesse nem ira, nem vingança, nem inveja, nem escárnio, nem astúcia, nem ações violentas... um Deus desses não seria compreensível, para que devemos tê-lo?".

As análises de Galimberti sobre o sagrado são variações desse motivo fundamental elaborado por Nietzsche para restabelecer o primado natural da força contra o primado natural da ética, uma operação pela qual o filósofo alemão considerava ter que lutar contra o cristianismo até a morte.

Mas como Galimberti julga a operação cristã que remove o sagrado original da ambiguidade ética para pôr o primado do bem e da luz? Ao leitor não é dado saber, porque a ambiguidade também envolve Galimberti, que, de um lado, conota negativamente a dessacralização cristã: "Perdidos os traços do sagrado, atenuada com a encarnação a transcendência de Deus, o cristianismo se reduziu a agência ética"; de outro lado, julga a mensagem cristã mais positivamente atribuindo a responsabilidade da crise não à ideia de Deus como bem, mas à teologia baseada na metafísica grega: "O cristianismo construiu a sua teologia não sobre a mensagem de Cristo, mas sobre a lógica e a metafísica platônico-aristotélica, que na sua queda também arrastou consigo o Deus cristão".

Eu penso que a tese de Galimberti segundo a qual "o cristianismo dessacralizou o sagrado, suprimindo a sua ambivalência e conferindo todo o bem a Deus e todo o mal ao seu adversário" tem fundamento: no cristianismo, a ambiguidade original do sagrado é minimizada, a imagem de Deus trazida por Jesus torna impossível um Deus da ira e da vingança. A encarnação como centro de cristianismo, de fato, deve ser especulativamente entendida no sentido de que o valor absoluto devido à divindade se estende à humanidade: isto é, o sagrado não é mais o templo ou a lei, mas encontra-se nos rostos concretos dos seres humanos, e por isso o Novo Testamento chega a dizer que não se pode amar a Deus que não se vê se não se ama o próximo que se vê.

Nietzsche, portanto, tem razão em atribuir a Jesus a identificação de Deus apenas com o bem, só que não se trata de uma "castração contranatural", mas sim uma aquisição teológica decisiva sobre a qual se fundamenta a ética do Ocidente, especialmente depois da derrota do monstro nazifascista inebriado pela sacralidade da força e da vontade de poder proclamada por Nietzsche. Nem se trata, como quer Galimberti, do "gérmen do ateísmo", mas sim da inauguração de um novo modo de pensar Deus, não mais à insígnia do teísmo, mas sim de outro modelo conceitual próximo da mística da unidade, o panenteísmo.

Naturalmente, tratou-se de um processo longo, incoerente (todos sabem que o cristianismo conheceu amplamente a violência) e ainda em andamento. Mas, depois do Vaticano II, que aceitou a liberdade religiosa e, portanto, o primado da consciência, a aquisição de que a única coisa sagrada é a vida livre dos seres humanos já é irreversível. Então, hoje, existem as premissas para que se cumpra a revolução teológica de Jesus (do teísmo ao panenteísmo) e pareça claro que a dimensão mais alta do sagrado é o ser humano vivo à imagem de Deus.

O cristianismo é jovem, tem apenas 2.000 anos, e talvez só agora, cada vez mais livre dos interesses do poder graças à secularização, está iniciando a lidar seriamente com as diversidades do mundo. Talvez Galimberti também perceberia isso se, em vez de prestar tanta atenção às análises de Baget Bozzo repletas de inveja pela força política do Islã e destinadas a suscitar hostilidade contra essa grande religião mundial, também tivesse se ocupado das dinâmicas mundiais do cristianismo, embora não nomeie autores como Bonhoeffer, Florensky, Teilhard de Chardin, Schweitzer, Rahner, Tillich, Panikkar, Küng e movimentos como a teologia da libertação, nem diga uma palavra sobre profetas como Romero, Câmara, Bello, Martini. Um pouco estranho para um livro que se intitula "Cristianismo".

Na realidade, assistimos hoje no mundo a uma profunda transformação do conceito de sagrado, que não pretende ter nada a ver com a concepção primitiva e machista do culto da força e da arbitrariedade, incluindo o Deus do teísmo e da onipotência de algumas páginas bíblicas. Hoje, o que está se tornando sagrada para a consciência, é a lealdade da relação, a harmonia que deve ser constantemente buscada e construída, o rosto humano de toda raça ou cor, com a profunda transformação do conceito de religião que isso traz consigo. Uma pena, porém, que os homens da Igreja capazes de captar essa dinâmica sejam raros, enquanto os demais – e nisso Galimberti tem razão – se ocupam de assuntos "que toda a sociedade civil pode abordar e resolver por si só" e deixam os indivíduos "se virando sozinhos com o abismo da própria loucura".

Galimberti conclui o seu livro perguntando-se: "O Ocidente, e o cristianismo que é a sua alma, é ainda capaz de ultrapassar as portas do nada?". Quanto ao Ocidente, eu não sei, mas sei que o céu interior da alma humana nunca será vazia enquanto haja aqueles que, à ideologia da força, preferem o nobre ideal do bem e da justiça. E eu sei que o cristianismo ainda pode alimentar muitas energias nessa direção.

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