Profeta da crítica à Igreja. Artigo de Margot Kässmann

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08 Abril 2021

 

"É preciso perseverança, força e um grande fôlego para apresentar visões. Mas precisamos de visões para moldar o futuro do mundo, da humanidade, das religiões, das Igrejas. Trata-se de garantir que as religiões não sejam mais um fator de agravamento dos conflitos, mas contribuam realmente para neutralizar os conflitos e alcançar a reconciliação. Hans Küng com sua Fundação Weltethos transmitiu essa visão para nós. É uma enorme contribuição de toda a sua vida", escreve pastora e teóloga alemã Margot Kässmann, ex-presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã (EKD), a Igreja Luterana da Alemanha, em artigo publicado por Zeit, 07-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Ela amava as contradições e unia as religiões com seu conceito de ética mundial. Obituário pessoal do teólogo Hans Küng. Há quase três anos, em 20 de abril de 2018, fui convidada à Universidade de Tübingen para fazer o discurso em honra de Hans Küng por seu 90º aniversário. O auditório estava lotado. Quando Hans Küng em uma cadeira de rodas foi apresentado por Stephan Schlensog, secretário-geral de sua Fundação Weltethos, todos os presentes se levantaram e o aplaudiram. Eles expressavam respeito pelo trabalho de uma vida de Hans Küng, mas também seu afeto e simpatia por esta pessoa especial. Homem erudito e culto, sua teologia foi importante não só no âmbito universitário, mas também na vida das pessoas e da sociedade. Eu experimentei isso por uma última vez em 2015, quando, após um evento em Tübingen, Hans Küng me convidou para sua casa na manhã seguinte para o café da manhã. Entre canapés e geleia, ele começou a discutir se perguntando se a ajuda para morrer poderia ser conciliável com a fé cristã. Estava convencido disso. Como muitas vezes acontecia, a contradição o deixava feliz, porque assim tinha a oportunidade de expressar suas convicções de forma extremamente clara. Foi muito estimulante poder discutir com Hans Küng. Com sua voz melódica com sotaque suíço e o brilho às vezes malicioso em seus olhos, Küng pode ser compreendido por qualquer pessoa que assista a seus programas na Sternstunde Religion no arquivo da televisão suíça.

Os piores quatro meses de sua vida

Já em 1977, eu ouvia fascinada Hans Küng em Tübingen. Para nós, jovens estudantes, ele era um exemplo, um rebelde que sustentava as suas convicções. Um católico com um habitus de Reforma. Especialmente porque havia escrito sua tese em 1957 sobre a doutrina da justificação de Karl Barth. Que foi publicada novamente como primeiro volume de sua Opera omnia - que será composta por 24 volumes. Küng ficou muito feliz com esta coletânea de suas obras. Ao período de Tübingen, seguiram-se aqueles que Hans Küng, com um olhar retrospectivo, definiu como os quatro piores meses de sua vida (de 18 de dezembro de 1979 a 10 de abril de 1980). Ele disse que não desejava tal experiência nem mesmo para seus piores adversários. A revogação de sua licença de ensino pela Igreja Católica o magoou profundamente.

Na coletiva de imprensa de 10 de abril de 1980, junto com o reitor da universidade Adolf Theis e seu amigo Walter Jens, ele nos explicou: "Independentemente da solução intrauniversitária, as questões fundamentais permanecem e as disputas não cessarão".

Ainda permanece sem resposta por Roma e pelos bispos a questão de sua infalibilidade. Resta a questão de um anúncio cristão hoje credível na Igreja e na escola. Resta a questão da compreensão entre as denominações cristãs e o reconhecimento mútuo dos ministérios e da celebração da Eucaristia. Resta a questão das tarefas urgentes de reforma: do controle da natalidade aos matrimônios mistos e ao divórcio até à ordenação das mulheres, ao celibato obrigatório e à resultante catastrófica falta de padres”. Suas perguntas permanecem sem resposta 41 anos depois, essas perguntas continuam a estar agudamente presentes, em vista dos processos de reforma interna da Igreja Católica. Nisso, Küng foi profeta. E se tornou um visionário. Ele estava convencido de que a verdade do evangelho e a verdade das grandes religiões do mundo podem ser dialeticamente conectadas uma à outra. Segundo Küng, a busca pela identidade cristã não exclui, mas inclui a construção do consenso ecumênico e também inter-religioso.

Por meio de seus estudos e diversos encontros, Hans Küng chegou à conclusão de que - mesmo com todas as diferenças que não devem ser subestimadas em termos de fé, doutrina e rito - pode-se observar convergências entre as religiões do mundo. Todas as pessoas se deparam com as mesmas grandes questões, as questões primordiais como "de onde viemos" e "para onde vamos", como mundo e como seres humanos, de superação da dor e da culpa, das normas de vida e ação, do sentido de viver e morrer. Em analogia aos conceitos de política mundial, economia mundial, sistema financeiro mundial, Küng cunhou o conceito de ética mundial, “Weltethos”. E resumiu sua visão em quatro frases: “Não pode haver paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não pode haver diálogo entre religiões sem normas éticas globais. Não pode haver sobrevivência do nosso planeta sem uma ética mundial”.

Um homem de fé

É preciso perseverança, força e um grande fôlego para apresentar visões. Mas precisamos de visões para moldar o futuro do mundo, da humanidade, das religiões, das Igrejas. Trata-se de garantir que as religiões não sejam mais um fator de agravamento dos conflitos, mas contribuam realmente para neutralizar os conflitos e alcançar a reconciliação. Hans Küng com sua Fundação Weltethos transmitiu essa visão para nós. É uma enorme contribuição de toda a sua vida.

Em "Justificação", ele escreveu: "Apesar de sua enorme carga política, Lutero continua profundamente um homem de fé". Quinhentos anos depois, isso também vale para Hans Küng. E em suas memórias, publicadas em 2013, ele reconheceu ter vivido como um cristão de fé: "Quando eu atingir meu eschaton, no último de minha vida, não me espera o nada, mas o todo que é Deus. A morte é a passagem para a verdadeira pátria, é a entrada no encobrimento de Deus e na magnificência do homem”. Que ele agora veja o que ele acreditava. Obrigado, Hans Küng!

 

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