Hans Küng, o teólogo rebelde que contestou a infalibilidade do pontífice

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07 Abril 2021

 

A crítica de Hans Küng à infalibilidade papal não nasceu no clima antiautoritário de 1968, mas se insere em um percurso coerente, iniciado com a tese de doutorado defendida em 1957 e dedicada à análise do tema da justificação.

A opinião é de Marco Rizzi, professor de literatura cristã antiga da Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, Itália, em artigo publicado em Corriere della Sera, 06-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Morreu aos 93 anos de idade, na sua casa em Tübingen, Alemanha, o teólogo suíço Hans Küng. Nascido em Sursee, pequeno vilarejo no cantão de Lucerna, Suíça, no dia 19 de março de 1928, foi ordenado sacerdote em Roma em 1954, após os estudos de teologia na Universidade Gregoriana. Depois de um breve período de atividade pastoral na sua diocese de origem, a sua atividade se desenvolvera inteiramente no âmbito da pesquisa teológica.

Nessa qualidade, Küng conheceu um primeiro momento de notoriedade junto ao grande público em 1970, quando publicou o livro “Infallibile? Una domanda” [Infalível? Uma pergunta]. Como indica o ponto de interrogação do título, Küng examinava criticamente o dogma da infalibilidade papal, sancionado pelo Concílio Vaticano I em 1870.

O livro desencadeou uma onda de polêmicas que, a partir da Universidade de Tübingen, onde Küng lecionava, e do mundo acadêmico alemão, logo chegaram a Roma, resultando em uma convocação formal da Congregação para a Doutrina da Fé em 1975 e, quatro anos depois, na retirada do título de “teólogo católico”, necessário na Alemanha para lecionar nas faculdades de teologia presentes nas universidades públicas.

O caso teve repercussão mundial e desconcertou as autoridades acadêmicas; Küng não pôde mais lecionar na faculdade onde havia se tornado professor em 1960, quando tinha apenas 32 anos. Mas manteve a cátedra no Instituto de Teologia Ecumênica, por ele fundado após o Concílio Vaticano II.

Precisamente no Concílio, ele foi o mais jovem dos teólogos nomeados por João XXIII como peritos, ou seja, consultores dos trabalhos, junto com Joseph Ratzinger, apenas um ano mais velho. Os dois também seriam colegas em Tübingen até 1969, quando a explosão da contestação estudantil levou Ratzinger a se mudar para a mais tranquila Regensburg.

A crítica de Küng à infalibilidade papal, entretanto, não nasceu no clima antiautoritário de 1968, mas se insere em um percurso coerente, iniciado com a tese de doutorado defendida em 1957 e dedicada à análise do tema da justificação, ou seja, de um dos principais nós teológicos sobre os quais havia se consumado a separação entre católicos e protestantes no século XVI.

Por meio do exame dos escritos do maior teólogo protestante do século XX, o calvinista Karl Barth, Küng chegou a uma conclusão absolutamente inesperada no clima dos anos 1950, ainda ligada a esquemas de tipo polêmico, ou seja, a um modo de proceder que contrapunha afirmação a afirmação, categoria a categoria.

Para Küng, existem diferenças entre a posição católica e a de Barth, mas elas não dizem respeito ao núcleo da fé; a terminologia, as categorias, as formas do pensamento são simplesmente diferentes. Para usar uma metáfora, é como se a mesma coisa fosse dita em duas línguas diferentes. A tarefa da “teologia ecumênica” é fazer dialogar as teologias das diversas confissões cristãs, traduzindo-as, por assim dizer, de uma linguagem para outra.

A infalibilidade, portanto, é apenas uma etapa de um percurso mais geral, que, ao longo dos anos 1960, se concentrou sobretudo na eclesiologia (a reflexão sobre a Igreja e sobre as suas estruturas visíveis e espirituais), com volumes que antecipam ou desenvolvem os temas conciliares, como “Riforma della Chiesa e unità dei cristiani” [Reforma da Igreja e unidade dos cristãos] (Ed. Borla, 1965) ou “La Chiesa” [A Igreja] (Ed. Queriniana, 1967).

Os anos 1970, viram Küng comprometido, além do conflito com Roma, nos grandes assuntos teológicos, como a cristologia (“Ser cristão”, Ed. Vozes, 1979), Deus (“Dio esiste?”, Ed. Mondadori, 1979), escatologia (“Vita eterna?”, Ed. Mondadori, 1983), sempre abordados na perspectiva de uma integração efetiva entre as perspectivas das diferentes confissões cristãs.

Era até certo ponto inevitável que tal itinerário levaria ao longo dos anos 1980 ao alargamento do olhar de Küng para fora da tradição cristã, transferindo a sua abordagem ecumênica para o complexo das religiões do mundo: “Cristianesimo e religioni universali” [Cristianismo e religiões universais] (Ed. Mondadori, 1986), “Cristianesimo e religiosità cinese” [Cristianismo e religiosidade chinesa] (Ed. Mondadori, 1989), “Projeto de Ética Mundial” (Ed. Paulinas, 1993), “Ebraismo. Passato, presente, futuro” [Judaísmo. Passado, presente, futuro] (Ed. Rizzoli, 1993), “Islam” (Ed. Rizzoli, 2005) delineiam o quadro de uma aliança ética e intelectual entre todas as religiões em defesa da paz e da dignidade humana.

Küng não se esquivou sequer do debate com as disciplinas científicas, muitas vezes consideradas como “inimigas da teologia”, como emerge do livro “Teologia in cammino” [Teologia a caminho] (Ed. Mondadori, 1987), que se defronta com o ponto de vista das revoluções científicas de Thomas Kuhn, e de “L’inizio di tutte le cose” [O início de todas as coisas] (Ed. Rizzoli, 2006), em que Küng examina os resultados mais recentes da física teórica e contesta, sobre bases epistemológicas, a sua pretensão de constituir uma forma de conhecimento absolutamente certa.

Depois de tantas polêmicas, a reaproximação de Küng com a Igreja de Roma foi marcado pelo encontro com o seu antigo colega, Ratzinger, então no sólio pontifício, em setembro de 2005, e pela carta que o Papa Francisco lhe havia enviado no dia 20 de março de 2016, por ocasião do seu 88º aniversário, que começava com as palavras Lieber Mitbruder, “querido coirmão”.

 

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