Abraão e o Gênesis do Êxodo. Artigo de Marco Rizzi

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22 Maio 2013

Para fazer remontar no tempo a identidade do povo hebreu, teria sido construída a narração de outro êxodo imediatamente posterior à criação do mundo, justamente o de Abraão.

A opinião é de Marco Rizzi, professor de literatura cristã antiga da Università Cattolica del Sacro Cuore, em artigo publicado no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 19-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ao ler o capítulos 11-25 do Gênesis, em que é contada a história, Abraão certamente não parece ser o tipo ideal do viajante, ao menos do moderno, tão determinado e organizado para chegar ao destino pré-escolhido: o seu vagar parece ser casual e sem uma direção clara.

As viagens de Abraão começam com o seguimento do seu pai, que abandona a Ur nativa, próximo do Golfo Pérsico, para se dirigir com todo o seu povo para o noroeste, ao longo do Eufrates, até Carran, a atual Harran no sul da Turquia. Aí, Abraão recebe a ordem de Deus de se colocar novamente a caminho para o sul, na direção de Aleppo e de Damasco, para chegar a Siquém, perto da atual Nablus, na Cisjordânia, onde Deus lhe revela que aquela terra havia sido concedida à sua descendência.

Por enquanto, porém, Abraão se move ainda mais para o sul, a Betel, poucos quilômetros ao norte do lugar onde, em seguida, surgiria Jerusalém. Nem mesmo esse é o ponto de chegada, porque logo ele passa para o deserto de Negev, de onde uma carestia o leva para o Egito. Partindo novamente de lá, Abraão sobe novamente o vale do Jordão, que Deus impõe que ele percorra ao longo e ao largo, porque aquela era a terra prometida à sua descendência.

Ao longo de mais essas peregrinações, verificam-se os episódios mais conhecidos: o encontro com Melquisedeque e aquele com os três misteriosos viajantes aos carvalhos de Manre (não muito longe da atual Hebron, onde Abraão seria sepultado), a destruição de Sodoma, o nascimento de Ismael da serva Hagar e a sua expulsão, para o nascimento do tão esperado Isaac.

Nesse ponto, viagem em viagem, Deus impõe que Abraão parta novamente, desta vez com uma meta e um propósito bem específicos, a montanha que Deus mesmo lhe indicaria, sobre a qual deveria sacrificar o filho amado. Levando consigo Isaac e dois servos, Abraão viaja por três dias, completando o último trecho do caminho sozinho com o filho. Mais um vez, o resultado não é o esperado: Deus vê no paciente encaminhar-se de Abraão toda a medida da sua fé e salva o seu filho, concedendo a ambos que desçam do monte, para voltar para onde haviam partido.

Com toda a probabilidade, na narração bíblica, confluíram relatos diversos, transmitidos na memória dos clãs nômades presentes nas regiões do Oriente Médio durante a Idade do Bronze, entre os séculos XX e XIII a.C., das quais depois se originaria as tribos de Israel.

Assim se explicariam as contradições e as repetições, além da presença de comportamentos e costumes muito distantes da posterior ética bíblica: por exemplo, Abraão cede algumas vezes a própria mulher ao senhor do território sobre o qual passa, para evitar consequências piores para si; Lot, depois, não hesita em oferecer aos habitantes de Sodoma as suas próprias filhas, já prometidas em casamento, a fim de salvar os hóspedes que ele havia acolhido na sua casa das atenções pelas quais os seus concidadãos eram famosos (e pelas quais, justamente, foram incinerados do céu); ou a prática do concubinato, no caso de Abraão não limitado apenas a Hagar, mas estendido a um número impreciso de mulheres, que se acrescentavam à segunda esposa, Quetura, tomada como esposa depois da morte de Sara e mãe de outros seis filhos.

Uma leitura mais teologizante vê nesse relato, ao invés, a retroprojeção mítica da história do êxodo do Egito. Para fazer remontar no tempo a identidade do povo hebreu que, ao invés, nascera naquele momento, teria sido construída a narração de outro êxodo imediatamente posterior à criação do mundo, justamente o de Abraão. Ambas as viagens, assim, tinham a mesma meta, aquela terra que o povo de Israel agora reivindicava para si.

Além das possíveis explicações históricas, no entanto, o símbolo de Abraão tornou-se um poderoso símbolo da viagem, daquela viagem que encontrou a melhor definição nas palavras de Antonio Machado: "Caminante no hay camino, / se hace camino al andar..." ( "Caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao andar"). A viagem que todos nós percorremos.

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