Hans Küng, teólogo rebelde. Artigo de Vito Mancuso

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08 Abril 2021

"O adjetivo grego katholikós significa de fato "universal" e Küng sempre almejou isso: unir ao máximo os seres humanos. Ele não quis ser católico-romano, mas mais genuinamente católico-universal, isto é, homem entre os homens, a serviço do bem do mundo, no mesmo caminho percorrido por católicos como Ernesto BalducciRaimon PanikkarLeonardo BoffCarlo Maria Martini", escreve o teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Teologia Moderna e Contemporânea da Universidade San Raffaele de Milão, e ex-professor de História das Doutrinas Teológicas da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Repubblica, 07-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A Igreja logo percebeu os dons extraordinários de Hans Küng, que morreu em Tübingen aos 93 anos: depois de seus estudos em Roma e Paris, o nomeou com a idade de 32 anos professor titular da Faculdade de Teologia Católica de Tübingen, o mais importante centro de teologia alemã e, portanto, do mundo naquela época.

Era 1960 e dois anos depois se iniciava o Vaticano II, onde Küng foi chamado como consultor teológico, o mais jovem participante da assembleia conciliar. O que então levou esse teólogo e sacerdote que teve diante de si oportunidades de carreira não menores que as de Joseph Ratzinger (um ano mais velho, mas chamado a Tübingen para lecionar pelo próprio Küng), a criticar a Igreja cada vez mais, a ponto de induzir João Paulo II em 1979 a revogar seu título de teólogo católico?

A resposta parece paradoxal: a vontade de ser verdadeiramente católico. O adjetivo grego katholikós significa de fato "universal" e Küng sempre almejou isso: unir ao máximo os seres humanos. Ele não quis ser católico-romano, mas mais genuinamente católico-universal, isto é, homem entre os homens, a serviço do bem do mundo, no mesmo caminho percorrido por católicos como Ernesto Balducci, Raimon Panikkar, Leonardo Boff, Carlo Maria Martini. Atuando em países com forte presença protestante, como sua terra natal Suíça e Alemanha, Küng quis acima tudo para contribuir para a unidade entre católicos e protestantes e nesta perspectiva ele elaborou a tese de doutorado sobre a doutrina da justificação em Karl Barth, mostrando sua coincidência com a mais genuína teologia católica e recebendo uma leitura entusiástica do próprio Barth e a já prestigiosa nomeação católica já mencionada.

Depois deu origem a uma disciplina teológica especial, a teologia ecumênica, que ensinou por mais de 20 anos, fundando o Instituto de Pesquisa Ecumênica em Tübingen. Seu desejo pelo diálogo o levou a enfrentar com rigor o pensamento leigo como negação de Deus: é de 1978 um de seus mais belos livros, Deus existe? Resposta ao problema de Deus na era moderna, onde em mil páginas ele discute as objeções dos vários ateísmos. Ele abordou o nó da fé-ciência com O início de todas as coisas, de 2005, ainda hoje uma das melhores contribuições a esse respeito.

Foi sempre o chamado à universalidade que o levou ao estudo sistemático das grandes religiões: publicou Cristianismo e religiões universais em 1984, Cristianismo e religiosidade chinesa em 1988, Judaísmo em 1991, Islã em 2004, ensaios de peso e de proveitosa leitura que o levaram para as universidades de todo o mundo. O Projeto por uma ética mundial data de 1990, do qual nasceu alguns anos depois a Stiftung Weltethos, "Fundação para a ética mundial", uma instituição educacional que hoje opera em vários países (mas não na Itália) com o objetivo de desenvolver a cooperação entre as religiões através do reconhecimento de valores comuns e de um conjunto de regras universalmente compartilhadas Küng também tratou de ética e economia, contribuindo para preanunciar aquela terceira via entre liberalismo e comunismo que procura aliar rentabilidade e justiça, eficiência e solidariedade.

Mas o que o Magistério Católico considerou problemático em todo este imenso trabalho? A resposta é simples: a liberdade. A liberdade com que Küng procedia (o primeiro volume de sua autobiografia intitula-se Minha batalha pela liberdade) foi considerada uma perigosa ameaça para a estabilidade da instituição. A questão tornou-se crítica com a publicação do livro Infalível? Uma pergunta, ensaio de 1970 com o qual Küng desafiava o dogma da infalibilidade pontifícia. Outros motivos de dissenso foram se acrescentando, entre os quais a função da hierarquia eclesiástica, os critérios para as nomeações episcopais, o papel da mulher, a sexualidade, a eutanásia, o celibato sacerdotal, a liberdade da pesquisa teológica. E foi assim que João Paulo II o tirou do time. Küng, no entanto, não deixou de se sentir plenamente católico e nenhum outro tema como a fé cristã recebeu a mesma atenção dele. Mas a questão é que ele nunca fez o cristianismo coincidir com a pertença eclesial, e em 2011 ele radicalmente começou a se perguntar: "Ist die Kirke noch zu retten?", "A Igreja ainda pode ser salva?", infelizmente traduzido para o italiano com o fraco exortativo Vamos salvar a Igreja. Hoje, um dos maiores problemas da Igreja é a desconexão entre a fé pessoal e a pertença eclesial, entre espiritualidade e dogmática. Graças à inteligência, ao trabalho e à preparação linguística que lhe permitia falar várias línguas com facilidade, incluindo um italiano quase perfeito, Küng foi em minha opinião o teólogo católico mais influente de nosso tempo. Sua obra pode ser descrita como dotada das seguintes características:

1) grande capacidade teórica: além de teólogo, foi também filósofo, como Agostinho, Tomás de Aquino, Cusano, Florenskij, Tillich, Balthasar, Panikkar;

2) grande capacidade sistemática: em suas obras principais revive o gênero das Summae medievais com aquela organização da matéria de uma forma didaticamente clara e hierarquicamente configurada, particularmente preciosa hoje quando abundam as análises, mas são escassas as visões gerais;

3) grande capacidade expositiva: Küng foi um ensaísta de sucesso em nível mundial, seu estilo, nunca hermético, mas sempre atento ao leitor, correspondia perfeitamente a suas inatas gentileza e amabilidade;

4) grande honestidade intelectual: um dia Barth lhe escreveu "gosto de considerá-lo em toda a sua forma de agir um israelita in quo dolus non est", uma clara referência às palavras de Jesus que definia Natanael "um israelita em quem não havia falsidade ". Isso é o que fez de Küng não só o eminente teólogo mencionado acima, mas também um dos mais ouvidos intelectuais do mundo: prova disso são os 16 títulos honorários e os inúmeros prêmios em todos os continentes, dos quais na Itália a cidadania honorária de Siracusa em 2002, o título Honoris causa da Universidade de Gênova em 2004, o Prêmio Nonino em 2012.

Com sua morte, está chegando ao fim o período extraordinário da teologia do século XX, que produziu personalidades únicas: entre os protestantes Barth, Bultmann, Tillich, Bonhoeffer, Moltmann, Pannenberg; entre os católicos Teilhard de Chardin, Rahner, von Balthasar, Congar, de Lubac, Panikkar, Boff. Entre eles, teve aqueles que interpretaram a própria investigação em função da instituição eclesial e outros que olharam mais para a frente, para o futuro. Entre estes, o suíço Hans Küng ocupará sempre um lugar de honra, um homem justo e alegre como a música de Mozart tão amada por ele.

 

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