“Tempo da Criação” também exige atenção ao racismo ambiental

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03 Setembro 2020

"Existe uma interseção entre os excluídos e a degradação ambiental como uma questão ligada à vida, pois os pobres e marginalizados do mundo são os mais afetados pelas consequências devastadoras das mudanças climáticas e da poluição", escreve Daniel P. Horan, frei franciscano e professor da cátedra Duns Scotus de Espiritualidade na Catholic Theological Union, em Chicago, nos EUA, onde leciona Teologia Sistemática e Espiritualidade, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 02-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Depois de vários anos de espera por algum tipo de justiça ambiental, surgiram notícias no fim de agosto de que o Estado de Michigan, nos Estados Unidos, deverá pagar mais de 600 milhões de dólares aos residentes da cidade de Flint como parte de um acordo por um caso de negligência e malversação do governo que acabou envenenando milhares de pessoas, principalmente crianças, por meio do abastecimento de água da cidade.

O New York Times resumiu os eventos da seguinte forma:

“Em 2014, como medida de redução de custos para uma cidade em profunda crise financeira, as autoridades de Flint, lideradas por um gestor de emergência nomeado pelo Estado, mudaram o abastecimento de água da cidade do Lago Huron para o notoriamente sujo Rio Flint. As autoridades não conseguiram adicionar controles de corrosão à água da torneira, como as investigações descobriram mais tarde, o que permitiu que chumbo e outros produtos químicos vazassem de canos velhos e desgastados para o abastecimento de água.”

Embora a frase do senso comum para aquilo que ocorreu em Flint seja “crise hídrica”, esse fenômeno é mais apropriadamente definido como um caso de “racismo ambiental”, porque aqueles que foram desproporcionalmente afetados pelas consequências negativas para a saúde pertencem predominantemente a comunidades negras.

De acordo com os dados e estimativas mais recentes do Censo dos EUA, Flint é uma cidade cujos residentes são, em sua maioria, afro-americanos, com 53,7% autoidentificados como “negros ou afro-americanos”, enquanto aqueles que se identificam como “apenas brancos” representam aproximadamente 37,4% da população da cidade. Além disso, cerca de 40% dos 95.000 habitantes da cidade estão abaixo da linha da pobreza.

As autoridades do governo responsáveis por aquele que se tornou um envenenamento em massa de uma cidade estadunidense ao longo dos anos não discutiram explicitamente a raça como um fator nos seus processos de tomada de decisão, de acordo com centenas de e-mails divulgados em 2016 pelo então governador Rick Snyder. Mas a composição demográfica de uma cidade cujos habitantes são em sua maioria negros e muitos dos quais são pobres é difícil de ignorar, pois desempenhou algum fator na negligência e nos danos causados a essa comunidade.

Como observam os defensores dos direitos civis e do ambiente, não pode ser mera coincidência o fato de que as comunidades em Flint, e outras semelhantes em todo o país, que são mais fortemente afetadas pela poluição e pelos efeitos das mudanças climáticas globais, são pobres e negras.

O que é surpreendente sobre o caso de Flint não é a sua excepcionalidade, mas sim a magnitude do seu impacto, colocando em risco a saúde e a segurança de dezenas de milhares de pessoas, o que contribuiu para a ampla cobertura midiática do caso.

Como escreveu Paul Mohai, professor da Universidade de Michigan, em um artigo de 2018:

“Dada a magnitude do desastre em Flint, o papel que as decisões das autoridades públicas desempenharam e que levaram ao envenenamento da água da cidade, o seu ritmo lento para reconhecer e responder ao problema e o fato de Flint ser uma cidade de quase 100.000 habitantes realmente tornam este o exemplo mais flagrante de injustiça e racismo ambientais em minhas mais de três décadas de estudo desse assunto.”

Mas tais formas de injustiça e racismo ambientais existem em todos os Estados Unidos e em todo o mundo. E, infelizmente, muitos daqueles que não são afetados imediatamente por tais injustiças ambientais estão alheios às ameaças diárias à saúde e à vida que a segregação da habitação, as oportunidades de emprego limitadas e o acesso restrito a ar, água e terra puros normalmente representam para muitas comunidades negras.

O anúncio do acordo proposto em Flint coincide com o lançamento do “Tempo da Criação” deste ano, uma celebração ecumênica que convida os cristãos a focarem a sua reflexão, orações e ações no cuidado da criação.

O “Tempo da Criação”, que vai de 1º de setembro até a festa de São Francisco de Assis, no dia 4 de outubro, é um evento apoiado pelo Papa Francisco e copromovido pelo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano.

A celebração deste ano, particularmente em meio a uma pandemia global e no rastro de contínuos protestos em nome da justiça racial nos Estados Unidos, é um momento oportuno para estudar, refletir, rezar e agir em resposta ao “grito do terra e o grito dos pobres” que se entrecruzam e que Francisco destaca ao longo da encíclica Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum.

Os pobres, neste caso, certamente incluem os empobrecidos materialmente, que enfrentam injustiças ambientais, mas também inclui aqueles que foram historicamente excluídos do poder civil e social por causa da sua raça. Apesar das contínuas exortações de Francisco à Igreja sobre a necessidade de pensar em termos de uma “ecologia integral” que englobe formas de injustiça que se entrecruzam, muitas comunidades católicas ainda tratam as questões de justiça, como o racismo e a degradação ambiental, separadamente.

A mudança rumo ao reconhecimento da sobreposição entre a injustiça ambiental e racial é algo que Dorceta Taylor, também professora da Universidade de Michigan, destaca em seu livro de 2014 intitulado “Toxic Communities: Environmental Racism, Industrial Pollution, and Residential Mobility” [Comunidades tóxicas: racismo ambiental, poluição industrial e mobilidade residencial].

Taylor observa que, desde o movimento pelos direitos civis das décadas de 1960 e 1970, “houve uma mudança marcante nas respostas das minorias às desigualdades ambientais. (...) Os ativistas das minorias tornaram-se mais deliberados no seu ativismo ambiental – eles relacionaram o ambiente com as desigualdades raciais e sociais, e enquadraram as questões em termos de direitos a ambientes seguros e saudáveis”.

Desde os anos 1980, muitos estudiosos e ativistas negros têm liderado o esforço para destacar a urgência do racismo ambiental no contexto estadunidense. Entre os principais pesquisadores dessa área está Robert Bullard, professor da Texas Southern University de Houston.

No início deste ano, ele falou com o serviço EarthBeat, do NCR, e traçou conexões explícitas entre o acerto de contas público com os assassinatos de mulheres e homens negros por parte da polícia e a persistência do racismo ambiental nos Estados Unidos:

“A convergência de toda essa questão do racismo ambiental e do racismo no policiamento, e as mortes e sufocamentos de pessoas negras, e o fato de ver esses linchamentos pela televisão é um círculo completo. E um movimento único, e esse movimento é por justiça. E é um movimento para desmantelar o racismo sistêmico que está fazendo com que as comunidades não consigam respirar, porque estão cercadas por fábricas e refinarias de produtos químicos poluentes, e por outros tipos de emissões. Assim como o sufocamento letal de indivíduos desarmados e a morte deles, enquanto as pessoas clamam gritam ‘eu não consigo respirar’.”

Na Laudato si’Francisco ecoa as intuições de ativistas e estudiosos do racismo ambiental: “O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social” [n. 48].

Ele vê essa interseção entre aqueles que chama de “excluídos” e a degradação ambiental como uma questão ligada à vida, explicando que os pobres e marginalizados do mundo são os mais afetados pelas consequências devastadoras das mudanças climáticas e da poluição.

Enquanto continuamos lidando com os horrendos assassinatos de Ahmaud Arbery, Breonna Taylor, George Floyd e tantas outras pessoas negras, todas as quais tiveram suas vidas terminadas injustamente por meio de uma violência abrupta, não percamos de vista, como comunidade de fiéis, aquelas mulheres, homens e crianças negros que são submetidos a uma forma mais lenta de violência racializada sob a forma do racismo ambiental.

Isso é especialmente urgente em tempos de pandemia, porque muitas das consequências do racismo ambiental predispõem as comunidades negras a maiores riscos e à suscetibilidade a doenças como o novo coronavírus.

Como Bullard explica, “a Covid-19 está atingindo as nossas comunidades de forma especialmente forte. E, por causa da poluição, da asma e das doenças respiratórias, do diabetes, das doenças cardíacas, dos derrames, também estamos vendo esse tipo de ataque mortal ocorrendo”.

Embora plantar árvores e reavaliar as nossas pegadas de carbono sejam esforços valiosos, foquemos a nossa atenção e as nossas energias nas próximas semanas também em pensar e trabalhar em prol do desmantelamento do racismo ambiental no nosso país e no mundo.

Ao fazer isso, podemos chegar um passo mais perto de adotar uma verdadeira “ecologia integral” e de ajudar a garantir que situações como as vividas em Flint nunca ocorram novamente.

 

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