O celibato de Casaldáliga

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11 Agosto 2020

"O reconhecimento é unânime, temos certeza: Pedro Casaldáliga era a encarnação de um amor tão apaixonado, tão intenso, tão envolvido com seu povo, que foi verdadeiramente um matrimônio de povo de um bispo com a sua Igreja, uma realidade de dedicação ministerial completa, bem representada pela aliança nupcial que todo bispo usa no dedo", escreve Stefano Sodaro, em artigo publicado por Il Giornale di Rodafà, 09-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Com a morte de Pedro Casaldáliga muitas e muitos de nós sentimos que estamos diante da narração da própria vida, porque o bispo brasileiro de São Félix do Araguaia – talvez realmente sentindo seu envolvimento planetário – realmente fez parte de nossas vidas, marcou nossos tempos não apenas de Igreja, nossos entusiasmos e questionamentos juvenis, nossas ansiedades de querer mudar o mundo para que pudéssemos ser felizes apenas junto com os outros, os mais pobres, as mais pobres e não sozinhos. 

Mas o fato de Casaldáliga ter sido um bispo católico fez também com que nos apaixonássemos por um sonho propriamente eclesial que depois imaginávamos estar perto de se realizar com Francisco Bispo de Roma e que agora percebemos que necessita de outras evoluções e outras perspectivas, porque nós mudamos e mudou o próprio mundo que queríamos “refundar” sob a insígnia da justiça para os mais fracos e oprimidos e da fraternidade com os últimos da terra.

A teologia da libertação dos anos vinte de dois mil não pode ser – hoje percebemos – a teologia da libertação dos anos setenta de mil e novecentos.

Assomam quatro urgências que ainda carecem dramaticamente de resposta: a realidade dos abusos, de qualquer abuso que seja, mas sem dúvida com uma preeminência da tragédia para os comportamentos sexualmente abusivos; a realidade das mulheres, cuja presença na Igreja parece, apesar de cada pronunciamento de suma dignidade, jamais poderá permitir qualquer acesso a um dos sacramentos (com uma exclusão por isso bastante problemática, já que pensar em 6 sacramentos, e não em 7, em relação às mulheres, cria algum constrangimento dogmático de não pouca importância); a realidade jurídico-institucional, já que por um lado não parece mais possível confiar no mero instrumento da codificação canônica, mas, pelo outro lado, parece quase totalmente ausente uma classe de canonistas em condições de medir-se não com as instâncias do passado, mas com aquelas do futuro. E, por fim, mas de modo algum última em importância, aliás, no topo de qualquer emergência pastoral, a questão das subjetividades, entendida como a aquisição de consciência pós-moderna de qual seja o status próprio de cada existência humana que se coloque criticamente em busca de lugares comuns culturais muitas vezes apenas funcionais a dispositivos de poder e sondagens, e ao mesmo tempo, uma aquisição cada vez mais sensível de direitos civis que as comunidades estatais devam reconhecer e garantir.

E, no entanto, apesar dessas quatro urgências – pelo menos na minha opinião –, resta um apelo, uma pergunta, talvez mesmo uma dúvida, que perturba qualquer outra reflexão no âmbito eclesial. Digamos assim: quem se atreve a dizer que a dimensão "sacerdotal" ("episcopal" na realidade, mas aqui interessa colocar em evidência o potencial simbólico das funções ministeriais na Igreja) do bispo Casaldáliga tenha sido algo indiferente, secundário ou separado e clerical? E quem, ao mesmo tempo, atreve-se a dizer que seu celibato "monástico" – Casaldáliga foi de fato um religioso claretiano (isto é, da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, fundada em 1849 na Espanha por Antonio María Claret) – tenha sido um sintoma de uma incompletude humana, de uma fratura não recomposta, de uma parcialidade paralisante?

O reconhecimento é unânime, temos certeza: Pedro Casaldáliga era a encarnação de um amor tão apaixonado, tão intenso, tão envolvido com seu povo, que foi verdadeiramente um matrimônio de povo de um bispo com a sua Igreja, uma realidade de dedicação ministerial completa, bem representada pela aliança nupcial que todo bispo usa no dedo e que, por exemplo, Tonino Bello usou tirando-a carinhosamente de sua mãe, fazendo desse mesmo objeto, de uma aliança matrimonial, um sinal episcopal.

Casaldáliga não era – como certa retórica espiritualista foi bombardeando constantemente com referência ao celibato eclesiástico ou religioso – "casado com Deus", mas "casado com o povo", não diversamente da realidade matrimonial que o próprio Deus quis concretizar na carne de Jesus de Nazaré.

O bispo brasileiro falecido ontem era mais "cônjuge" do que muitas levas de maridos excelentes e respeitáveis que, no entanto, não conseguem transcender o círculo do casal ou da família que formaram.

O que importa no Reino de Deus, muito mais amplo que as fronteiras da Igreja: ser celibatário, ser casado ou amar?

É surpreendente constatar que há mais celibatários envolvidos em nossa cotidiana realidade do que muitos casados e muitas casadas e que há casados e casadas muito mais monasticamente empenhados com a causa dos outros e das outras do que infinitas fileiras de padres, freiras, monges e monjas.

Acima das quatro urgências, que nos permitimos citar antes, permanece, portanto, a distinção do amor efetivo. Na presença do qual as lógicas morais, devedoras de encadeamentos metafísicos que não respondem de forma alguma às nossas instâncias mais vitais, se estilhaçam com facilidade.

Se o que importa é amar, é fácil perceber quem ama e quem não ama.

Quem ama sofre e se alegra, quem não ama fica indiferente.

Quem ama não exclui, mas "elege", escolhe abrir o coração e o corpo a quem sabe merecedor de toda confiança. Porque quem ama supera até mesmo o pudor no abandono. Quem ama hospeda, enquanto quem não ama fecha bem a porta para não acolher.

E, no entanto, o acolhimento, que alimenta de nupcialidade qualquer opção de vida, não é prerrogativa nem de religiosos celibatários nem de leigos casados: é sacramento fonte do imergir-se e deixar-se comer. Batismo e Eucaristia, como a Reforma Protestante atesta e ensina.

No próximo dia 26 de agosto, comemoraremos o 10º aniversário da morte de Raimon Panikkar, também nascido na Catalunha – justamente em Barcelona – como Casaldáliga (nascido em Balsareny em 16 de fevereiro de 1928).

A teologia da libertação não pode ser arquivada, não foi absurdamente extinta, porque a libertação é uma característica própria do amor. Se o amor não liberta, não é amor. Assim como a religião (ver a reflexão de Panikkar:)

Então, talvez possa ser revelado que décadas e décadas atrás, ao poema de Casaldáliga que cantava:

 

Niña precoz,
hermana primogénita
de la Liberación
que se conquista.
Niña novia del Día prometido,
bautizada en la sangre,
grávida de esperanza.
Quiero abrazarte, América,
por tu cintura ardiente,
¡Centroamérica nuestra!
alguém (um tal Ítalo Joven), no calor dos seus vinte anos, respondeu:
Quiero abrazar contigo,
amigo obispo,
Centroamérica nuestra,
y, como soy pobre
de corazón
y de vista,
quiero también
que sea
una novia verdadera.

Casaldáliga nos indica o caminho de desejos apaixonados e muito concretos, os únicos que nos salvam.

Acabamos de começar a percorrê-los. Ninguém sabe para onde nos levarão.

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