João Paulo II. Balanço de um pontificado. Artigo de Xabier Pikaza

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27 Mai 2020

Este balanço do pontificado de João Paulo II foi escrito por ocasião do centenário do seu nascimento (18-05-2020) pelo teólogo espanhol Xabier Pikaza (1941): basco de origem, com doutorado em filosofia e estudos no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, ex-membro da Congregação dos Mercedários, professor na famosa Pontifícia Universidade de Salamanca, com cursos em universidades sul-americanas. É autor de inúmeras publicações e considerado um dos mais renomados teólogos espanhóis.

O artigo foi publicado em Religión Digital, 17-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

João Paulo II nasceu há 100 anos (18 de maio de 1920) em Wadowice, Polônia, e morreu há 15 anos (1º de abril de 2005) no Vaticano. Ele foi papa durante quase 27 anos (1978-2005), um dos homens mais influentes e controversos do último século.

Eu o vi quando ele foi à Pontifícia Universidade de Salamanca (1982) e depois em Roma, em um Capítulo das Mercês (1992), quando trocamos algumas palavras sobre a teologia de Salamanca.

Tenho uma ideia da sua teologia e do seu papado desde 1981, quando nós, integrantes da Cátedra Domingo de Soto, da Universidade de Salamanca, elaboramos um relatório sobre o seu pensamento sociorreligioso, a pedido de altas instâncias que não sabiam como se situar perante ele.

Ele foi um homem controverso, e alguns se atrevem a dizer que foi um papa de partido, mais do que da Igreja inteira, um homem cuja herança continua sendo grande, mas parece rachada. Contribuiu para a queda do marxismo político, mas essa queda foi a ocasião ou início de novas ditaduras. Criticou o capitalismo antigo, mas, depois dele, surgiu outro tipo neoliberal pior do que o anterior. Foi o papa da evangelização integral, mas cortou germes de libertação eclesial que podiam ter sido mais promissores.

Não há, talvez em toda a história, ninguém em cujo nome tenham sido escritos e assinados mais documentos, centenas de milhares de páginas de encíclicas, exortações, documentos, muitas muito boas, mas em grande parte esquecidas em arquivos, bibliotecas e centros de documentação eletrônica. Diz-se que foi um santo (um atleta da fé) e foi canonizado imediatamente (santo súbito!), mas há muitos que não se sentem representados por sua santidade...

Assim poderíamos seguir em frente ainda mais com o seu paradoxo. Tenho dele uma recordação pessoal, eclesial e teológica “agridoce” (talvez mais “agri” do que doce) e sinto que o seu papado não foi bom para o conjunto da Igreja, mas quero recordar dele com carinho, aos 100 anos do seu nascimento, pois foi um grande cristão. Bispo de Roma.

João Paulo II

Após o brevíssimo pontificado de João Paulo I, que durou apenas 33 dias (de 26 de agosto a 28 de setembro de 1978), foi eleito papa o cardeal polonês Karol Wojtyla (1920-2005), que assumiu o nome de João Paulo II e dirigiu a Igreja durante mais de 26 anos, em meio a muitos problemas.

Passados 15 anos desde a sua morte, as diretrizes do seu pontificado continuam marcando a orientação de muitíssimos católicos, de modo que é difícil oferecer ainda um juízo imparcial sobre os seus valores e suas possíveis deficiências.

Ele tinha uma enorme personalidade, potencializada pela sua experiência anterior sob a barbárie nazista (1939-1945) e a ditadura comunista (1945-1978) e foi um papa convencido da sua missão magisterial e administrativa dentro de uma Igreja que ele dirigiu de forma incansável, perante o aplauso de alguns, o receio de outros e a admiração da maioria.

Introdução geral

Ele foi uma das personagens sociais e religiosas mais significativas da segunda metade do século XX, de forma que o seu pensamento e ação definiram poderosamente a vida da Igreja Católica e a política da Europa, com a queda dos governos comunistas vinculados ao eixo soviético. Suas contribuições pastorais e sociais são muito numerosas e aparecem refletidas em encíclicas, exortações e cartas, com outros textos mais ocasionais, que ocupam mais de 100 mil páginas escritas.

Apesar disso, João Paulo II foi mais pastor do que pensador, mais homem de ação do que teólogo. Significativamente, nessa linha, ele deixou os temas teológicos de fundo nas mãos de Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI), a quem ele nomeou como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981), encarregado de defender um tipo de ortodoxia católica.

Seu pontificado foi generoso no diálogo com as diversas tendências políticas e sociais, mas implicou um tipo de recuo eclesial a posturas de maior “segurança” teológica e de mais uniformidade intraeclesial.

O ensinamento de João Paulo II abrange praticamente todos os temas da teologia, elaborados de um modo basicamente trinitário, desde a Redemptor hominis (1979), na qual ele desenvolve o mistério de Cristo, até a Dominum et vivificantem (1986), que trata do Espírito Santo, passando por Dives in misericordia (1980), que trata de Deus Pai.

Sua teologia, em princípio, foi muito tradicional, mas teve o mérito de oferecer uma espécie de corpo teológico completo, embora talvez menos atento às novidades da modernidade, de um ponto de vista evangélico.

João Paulo II foi o papa do segundo milênio e, assim, preparou e comentou com imenso interesse a celebração do Jubileu do ano 2000 do Nascimento de Cristo, desde a carta apostólica Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994), que anunciava e organizava o magno acontecimento, até a Novo millenio ineunte (6 de janeiro de 2001), com a qual ratificava a entrada e a tarefa do novo milênio, começando com palavras muito significativas:

“No início do novo milênio quando se encerra o Grande Jubileu, em que celebramos os dois mil anos do nascimento de Jesus, e um novo percurso de estrada se abre para a Igreja, ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado às multidões a partir da barca de Simão, convidou o Apóstolo a ‘fazer-se ao largo’ para a pesca: ‘Duc in altum’ (Lc 5,4)” (Novo millennio ineunte, n. 1).

Eram palavras bonitas, cheias de evangelho e esperança para o terceiro milênio, mas que não se traduziram em um novo impulso eclesial, porque, visto em conjunto, o papado de João Paulo II continuou ancorado no segundo milênio, de modo que o “duc in altum” (“rema mar adentro”) de Jesus a Pedro não se traduziu de fato em um compromisso mais profundo de “navegação eclesial”, na linha da nova derrota/rota da Igreja no começo do terceiro milênio.

João Paulo II continuou ancorado na Igreja e na teologia do começo do segundo milênio (a partir do ano 1.000 d.C.), que começa significativamente com a “conversão dos eslavos” (e, em especial, dos poloneses) e com a Reforma Gregoriana, com a instituição da Igreja hierárquica romana.

Foi o maior representante da passagem da Igreja do segundo ao terceiro milênio, mas, a 15 anos da sua morte (2005), sua mensagem e sua Igreja já nos parecem parte de uma Igreja do passado. Temos muito a aprender com ele, com a sua firmeza na fé, com a sua intenção de segurança, com a sua entrega... Mas sua Igreja já não é mais simplesmente a nossa.

Três magistérios: social, cultural e inter-religioso

Magistério social

Talvez esse tenha sido o âmbito mais fecundo do seu pontificado, na linha da justiça, como se pode ver em Sollicitudo rei socialis (1987) e em Centesimus annus (1991), em que ele retoma e recria alguns motivos básicos da Rerum novarum de Leão XIII. O papa se opôs não apenas ao marxismo, mas também, e de modo especial, ao capitalismo, destacando o valor primordial da pessoa e a prioridade do trabalho sobre o capital.

Suas palavras foram ouvidas com respeito por políticos e pensadores de várias tendências, mas não foram aceitas por todos, nem aplicadas de modo consequente no campo da política e da economia internacional (capitalista).

Nessa linha, sua insistência na prioridade do trabalho pessoal sobre a riqueza (o capital) e o mercado vai contra o novo espírito e prática do capitalismo dominante na atualidade.

Compromisso e missão cultural. Novos areópagos

Sua encíclica Redemptoris missio (1990) oferece um programa muito audaz de missão cristã, vinculando a luta contra a pobreza (nos quartos mundos, dominados pela fome e pela injustiça) com a presença da Igreja no nível da cultura, abrindo assim novos areópagos para que o cristianismo dialogue com o pensamento atual (na linha de Atos 17).

a. “O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a – como se costuma dizer – na ‘aldeia global’. Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais...”

b. “Existem muitos outros areópagos do mundo moderno, para os quais se deve orientar a atividade missionária da Igreja. Por exemplo, o empenhamento pela paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos, sobretudo o das minorias; a promoção da mulher e da criança; a proteção da natureza, são outros tantos sectores a serem iluminados pela luz do Evangelho.”

c. “É preciso lembrar, além disso, o vastíssimo areópago da cultura, da pesquisa científica, das relações internacionais que favorecem o diálogo e levam a novos projetos de vida. Convém estar atentos e empenhados nestas exigências modernas.” (Redemptoris missio, n. 37).

Diálogo com as religiões

João Paulo II destacou a vinculação entre as diversas religiões, dialogando não só com os monoteísmos abraâmicos (judaísmo, Islã), mas também com outras tradições espirituais, como mostraram os encontros celebrados em Assis, sob o patrocínio de São Francisco, a serviço da comunhão e da paz.

Nenhum papa havia mostrado anteriormente essa capacidade de diálogo e respeito pelas tradições religiosas. No entanto, são muitos os cristãos e crentes de outras religiões que têm medo de que a sua postura implique uma atitude de domínio e superioridade cristã (católica), de forma que não estão de acordo com a declaração Dominus Iesus, da Congregação para a Doutrina da Fé, assinada pelo cardeal Ratzinger (2000), na qual se insiste especialmente nessa superioridade formal da Igreja Católica.

João Paulo II anunciou o terceiro milênio de Cristo e o fez com imenso rigor intelectual, com grandes documentos e sínodos dedicados ao tema. Mas ele, com seu modelo de Igreja, continuou fazendo parte do segundo milênio, ratificando e, em certo sentido, culminando a visão da Reforma Gregoriana e do começo do segundo milênio. Talvez ele não soube se dar conta de que começava um milênio realmente distinto, que certas coisas não podiam ser restauradas, que realmente era preciso ir mais a fundo, com seu lema latino “duc in altum” (Lc 5,4), que pode ser traduzido como “navega de outra forma”, porque o mar já é diferente. Nessa linha, pode se entender (e reformular) grande parte do seu magistério.

Magistério intraeclesial

Nesse campo, o magistério de João Paulo II foi mais “tradicional”, insistindo nas últimas posições de Paulo VI, nos temas já indicados sobre o celibato ministerial, a regulação “física” da sexualidade e a proibição do ministério às mulheres.

A esses temas, é preciso acrescentar a sua forte tomada de posição contra a Teologia da Libertação, com o que isso implicou na visão social e na liberdade e compromisso da Igreja no campo concreto do compromisso direto a favor dos pobres.

1. Moral da pessoa

O papa ratificou a doutrina de Paulo VI (Humanae vitae, 1968), aprofundando-a, de um modo mais sistemático e exigente, em sua encíclica Evangelium vitae (1995). Certamente, foi exemplar a sua defesa da vida, em todos os momentos, mas, em alguns casos (como na recusa global dos métodos contraceptivos), possivelmente foi pouco matizada e mal fundamentada no conjunto do Novo Testamento, mais centrada em um tipo de proibições do que no desdobramento pessoal do amor e da vida dos casais cristãos.

2. Antropologia

João Paulo II quis ser um antropólogo, em linha personalista, e suas reflexões sobre o sentido da vida e a dignidade dos homens e mulheres são muito valiosas. Mas a sua visão do homem e da mulher parece mais centrada em um tipo de possível “direito natural” (fundado em um tipo de antropologia fisicista) do que na mensagem do evangelho lida à luz da modernidade. Dessa maneira, sua visão do homem e da mulher (e, em seu conjunto, a visão da humanidade) tem um sentido e fundamento mais “ontológico” do que bíblico.

3. Ordem ministerial

João Paulo II foi um homem da Igreja, mas em uma linha de ordenamento externo mais do que de liberdade pessoal, de obediência à lei mais do que de autonomia individual e de busca comunitária. Nesse plano, salvando todas as distâncias, sua postura pode ser comparada à do neoconservadorismo eclesial e social (filosófico e econômico) de muitos políticos e pensadores do último terço do século XX.

Ele foi um papa que vinha de um contexto diferente, o primeiro papa polonês, o primeiro a ter sido formado em um entorno comunista. Talvez por isso lhe pareceu mais importante a manutenção de uma ordem cristã, fixada de fora (em uma linha clerical e de autoafirmação eclesial) do que o desdobramento da liberdade do evangelho.

4. O tema da pedofilia em um tipo de clero

João Paulo II manteve a lei do celibato e defendeu a “honra clerical” em um contexto em que começava a se divulgar os problemas da homossexualidade de um tipo de clero, com muitos escândalos de pedofilia. Ele conheceu bem o problema, mas não se atreveu a enfrentá-lo com seriedade, indo às suas raízes. Talvez fosse velho demais para isso, sua visão da Igreja era muito “sacral/espiritual” para um tema como o da “carne” (na linha de Jo 1,14).

Talvez ele tenha morrido com o sofrimento de não poder enfrentá-lo e começar a resolvê-lo com clareza e caridade, com a verdade cristã. Não conhecemos bem os detalhes da “trama” clerical do “alto Vaticano”, no qual João Paulo II não se sentia à vontade. Evidentemente, apesar de seus valores (e em parte por causa deles), ele não era o homem capaz de propor os temas evangelicamente.

5. Teologia e moral de gênero

Aos temas anteriores, deve-se acrescentar o da sua teologia e moral de gênero, com a proibição do acesso das mulheres aos ministérios. Certamente, João Paulo II foi um papa muito interessado pela função e dignidade da mulher na Igreja, como mostra a sua carta apostólica Mulieris dignitatem (1988), na qual defendeu um feminismo da diferença.

Mas, nessa linha da diferença de gênero e sexo, e fundamentando-se em uma visão hierárquica do Cristo homem, o papa continuou recusando o acesso da mulher aos ministérios eclesiais (Ordinatio sacerdotalis, 1994). Nesse contexto, muitíssimas mulheres e homens sentiam e sentem dificuldade em aceitar a visão antropológica, bíblica e teológica que está na base da sua teologia e doutrina sobre a mulher, pensando que ela não é definitiva, de modo que poderá e deverá ser revisada no futuro.

Teologia da Libertação

Talvez esse não seja o tema mais importante do papado de João Paulo II e também deve ser interpretado no contexto da visão geral da sua teologia, da sua Igreja e da história cristã. Mas acabou sendo o mais significativo e midiático.

Bem canalizada, animada e potencializada (e corrigida!) pelo Vaticano, a Teologia da Libertação poderia ter sido um elemento-chave da Nova Evangelização e do novo desdobramento da Igreja. Mas a visão tardia do Vaticano (com o Papa João Paulo II) converteu esse tema em um campo de ruínas, não só da Teologia da Libertação, mas também do conjunto da Igreja.

A Teologia da Libertação nasceu na América Latina para se estender a todo o mundo, abrindo-se às Igrejas protestantes e até a outras religiões (como o budismo e alguns tipos de hinduísmo). Mais do que uma teologia escolar (acadêmica), é um estilo integral de pensamento e vida cristãos, a partir da perspectiva dos pobres, em consonância com o evangelho. Aceitando em princípio alguns valores dessa teologia, João Paulo II (e Bento XVI) reagiram perante ela com receio, pois tinham medo de suas possíveis conotações comunistas e anti-hierárquicas (sobretudo anti-hierárquicas).

João Paulo II tinha medo de “deixar” a teologia e a vida da Igreja nas mãos dos fiéis, isto é, do povo de Deus e das comunidades vivas segundo o evangelho. Talvez ele tenha sentido a “síndrome do poder”, pensando que somente a partir de uma perspectiva de poder, bem dirigido a partir de cima, com bispos obedientes à letra da hierarquia (mais do que ao Paráclito de Cristo) pode-se dirigir e fazer triunfar a Igreja.

Essa foi a “luta surda” de João Paulo II e de seus assessores com algumas Igrejas mais centradas na vida e obra das comunidades, pensando que elas levavam, por um lado, ao comunismo e, por outro, a um tipo de relaxamento pessoal e social.

Por isso, para evitar os riscos de um certo tipo de liberdade cristã, eles se empenharam em criar uma Igreja obediente em torno do papado, com bispos bem submetidos a uma autoridade fixada a partir de fora, bispos funcionários, e não pastores livres de uma Igreja de cristãos adultos. Eles conseguiram a obediência (um tipo de obediência!), mas correram o risco de perder a vida real da Igreja.

Nem toda a culpa era deles, de forma alguma. A “culpa” era, antes, do novo “espírito” que estava surgindo em toda parte: um novo capitalismo da ordem, uma nova estrutura de poder que começava a triunfar nos anos 1970 e 1980 nos campos econômico, político e social, com um surdo e forte (e falso) liberalismo anticristão (ou de pessoas que usavam e usam o cristianismo para defender seus privilégios e segurança).

A partir desse pano de fundo, quero interpretar a reação do Papa João Paulo II à Teologia da Libertação (ou, melhor, àquilo que ela podia representar nesse novo tempo).

1. Visão geral: contra a Teologia da Libertação, que parecia anti-hierárquica e anticristã

João Paulo II foi um homem que cresceu em um contexto marxista e possivelmente não pôde conhecer as nuances da Teologia da Libertação, que surgiu e cresceu na América Latina, em um contexto eclesial e social muito diferente, que, na sua opinião, estava inclinado ao comunismo e era contrário à identidade hierárquica da Igreja Católica.

Assim indicam os documentos que foram preparados, sob o seu mandato, pela Congregação para a Doutrina da Fé: Libertatis nuntius (1984) e Libertatis consientia (1986), destacando os erros doutrinais e os perigos eclesiais dessa teologia, que, na sua opinião, seria dependente do marxismo e destruiria a autonomia da Igreja, para convertê-la em uma instância social, sem base na revelação de Jesus Cristo.

Muitos teólogos e fiéis pensam que essas condenações não respondem na realidade àquilo que queriam e querem a Teologia da Libertação e o próprio evangelho, de modo que deverão ser revistas no futuro (como está sendo feito, de fato, no pontificado de Francisco, desde 2013).

Mas, muito mais do que esses documentos, tinha influência a forma com que João Paulo II tratou a pessoas da Igreja que, na sua opinião, podiam cair em um tipo de possível comunismo ou de esquecimento da dimensão espiritual da vida cristã, como São Óscar Romero (assassinado em 1980).

Também foi importante a sua política de nomeação de bispos para a América Latina (e para o conjunto da Igreja), em uma linha de segurança doutrinal e de imposição eclesial (contra as diretrizes do tempo de Paulo VI).

2. Medo de pensar a partir da liberdade do evangelho, com a liberdade de Jesus

A Teologia da Libertação recebe água de diversas fontes. Ela se inspira no movimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que surgiram no Brasil por volta de 1960 e assumem elementos próprios da teologia política que estavam sendo desenvolvidos na Europa, também nos anos 1960, por alguns teólogos católicos e protestantes como J. B. Metz e J. Moltmann.

Ela também se inspira em alguns dos grandes documentos do Vaticano II (Gaudium et spes) e do Celam (Medellin, 1968), que foram ratificados por Paulo VI: Evangelii nuntiandi (1976).

Mas a sua fonte básica é a tentativa de ler e atualizar o evangelho de Jesus a partir da perspectiva dos pobres e excluídos que são a maioria da sociedade latino-americana.

Foi um movimento de teólogos, de bispos, de presbíteros, de religiosos e religiosas... de povo. Na origem da Teologia da Libertação, há diversos bispos e teólogos, como H. Câmara, P. Casaldáliga, S. Méndez Arceo, R. Muñoz, H. Assmann, J. Comblin, J. L. Segundo, S. Galilea, L. Boff, I. Ellacuría e J. Sobrino.

Mas o seu representante mais significativo continua sendo Gustavo Gutiérrez, que publicou um livro intituladoTeologia da Libertação (Lima, 1971; Salamanca, 1972), no qual oferecia um programa completo de vida cristã, estabelecendo uma espécie de novo giro copernicano; era necessário passar do cristianismo como uma ideologia (justificação sacral da ordem estabelecida) para o cristianismo como um princípio de transformação social, sem abandonar o mistério da vida e da transcendência para isso, pelo contrário, reforçando um novo compromisso evangélico de fidelidade à história de Jesus e solidariedade com os pobres.

Pois bem, contra isso, João Paulo II e uma parte da instituição do Vaticano tiveram medo dessa teologia e desse movimento da Igreja, pensaram que, com ela, destruíam-se os princípios da ordem cristã.

Recordo perfeitamente os temas de fundo. Eu convivia naquela época (1984) com Dom Aparicio, bom amigo, bispo auxiliar de Cuzco, homem muito tradicional, mas escandalizado pela forma como (assim ele me dizia) Ratzinger e João Paulo II queriam calar a voz do povo cristão, de fora, de cima, condenando a Teologia da Libertação.

3. Cristianismo, realidade social

A teologia do Ocidente, a partir do seu encontro com o helenismo, no século IV, havia se desenvolvido como ciência teórica, dentro de uma visão sacralizada e hierárquica da realidade. Acabara sendo, pelo menos em parte, uma ideologia, um pensamento para garantir a ordem estabelecida, tanto no plano político quanto econômico.

Pois bem, a Teologia da Libertação quer retomar a inspiração dos profetas e de Jesus, como mensageiro e promotor do Reino de Deus. Por isso, apela às ciências sociais, não para se deixar manipular por elas, mas para conhecer melhor o mundo real e para transformá-lo, a partir da escuta da Palavra de Deus.

Nesse campo, ela pode apelar (e às vezes o fez) à análise do marxismo, mas não como filosofia teórica (ou metafísica ateia), mas sim como ferramenta de análise social e de conhecimento da realidade.

A palavra central da Teologia da Libertação não provém do marxismo, nem de nenhuma teoria sociológica, mas sim da experiência bíblica, isto é, da Palavra de Deus, tal como ressoa no Êxodo, na voz dos Profetas e, de modo especial, na vida e páscoa de Jesus. A tentativa da Teologia da Libertação era recriar a Igreja a partir dos pobres, como Jesus quis e fez, assim como seus primeiros seguidores fizeram.

Mas João Paulo II e seus colaboradores não viam assim. Pensaram que a Teologia da Libertação era, acima de tudo, uma tentativa de “explodir” a Igreja hierárquica, um mau comunismo e liberalismo para o povo, mas sem Cristo, e assim impediram que se abrisse, que fecundasse o conjunto da Igreja, e fizeram isso a partir de um medo social mais do que da raiz do evangelho.

4. Consciência da Igreja. Povo de testemunhas

A Teologia da Libertação afirma que a Igreja deve superar o pensamento estabelecido sobre bases de poder, mais platônicas do que cristãs (a serviço da sacralidade de um sistema que se entende como expressão da vontade de um ser divino superior), para descobrir as exigências práticas do evangelho, a serviço do Reino de Deus, a partir de um Deus que se introduz na vida dos homens e mulheres agindo a partir de baixo, a partir dos pobres e dos excluídos, como diz Paulo (cf. Fp 2,6-1 1), como fez Jesus.

Portanto, não quer uma pequena mudança externa, mas sim uma transformação radical da Igreja, tanto no plano externo (a serviço da libertação dos pobres) quanto interno, superando assim uma visão de Deus como poder que se impõe a partir de cima e que se revela através de uma hierarquia com poder sobre o povo.

Nesse contexto, situam-se os numerosos casos de cristãos defensores da justiça social, assassinados por esses poderes estabelecidos, dentre os quais se deve citar Dom O. Romero (1984), com I. Ellacuría e seus companheiros da Universidade Centro-Americana, em El Salvador (1989).

Mas João Paulo II tinha medo de que, no fundo de um tipo de libertação e liberdade evangélica (cristã), se escondesse um puro anticristianismo, uma pura ideologia social contrária à ordem sagrada do evangelho. Foi uma grande pena, uma grande dor, uma oportunidade fracassada de evangelho.

Hoje (2020), após 40 anos de luta contra a Teologia da Libertação (com tudo o que ela poderia ter sido), talvez seja tarde demais. Já não se trata de simplesmente voltar ao que poderia ter sido uma Igreja da libertação. Trata-se, em vez disso, de começar a partir de baixo, a partir da base-base da vida, a partir do evangelho.

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