E Wojtyla fundou o papado global

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28 Abril 2020

Cem anos atrás, em 18 de maio de 1920, nascia na Polônia Karol Wojtyla, destinado a liderar a Igreja Católica por quase 27 anos com o nome de João Paulo II. Perguntamos a três estudiosos sobre o legado de seu pontificado: o historiador Daniele Menozzi, autor do ensaio João Paulo II. Uma transição inacabada? (Morcelliana, 2006); a teóloga Cettina Militello, autora do livro O sonho do Vaticano II (Edb, 2010) e curadora com Serena Noceti da obra As mulheres e a reforma da Igreja (Edb, 2017); o historiador Andrea Riccardi, colaborador do Papa polonês, autor entre outras obras da biografia João Paulo II Santo (San Paolo, 2014). No momento de seu desaparecimento, em 2 de abril de 2005, o papa Wojtyla foi muito exaltado, até a famosa invocação "santo imediatamente"; mas hoje sua figura parece ter entrado em segundo plano.

A entrevista com Daniele Menozzi, Cettina Militello e Andrea Riccardi é editada por Antonio Carioti, publicada por La Lettura, 26-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Trata-se de um redimensionamento fisiológico ou há razões mais específicas?

Daniele Menozzi – Ambos os fatores contam. Visto na perspectiva histórica, João Paulo II é inevitavelmente achatado no passado e perde a importância atribuída a ele durante seu pontificado. Mas, sem dúvida, também tem influência a virada introduzida pelo Papa Francisco no governo da Igreja. Wojtyla, como antes dele Paulo VI e depois dele Bento XVI, tentou administrar as novas aquisições do Concílio Vaticano II em chave de continuidade com a tradição anterior.

Com Jorge Mario Bergoglio, a visão se inverteu: são privilegiados os elementos de inovação contidos no legado do Vaticano II. E, portanto, diminui a atenção para a atuação de João Paulo II, que se moveu com grande energia e com sucesso em outra direção.

Cettina Militello – Todo Papa está sempre em descontinuidade, mais ou menos acentuada, com seus antecessores, no mínimo por razões culturais. Além disso, o pontificado de João Paulo II foi muito longo e o tempo desgasta as eventuais instâncias inovadoras. Assim, quando um novo bispo de Roma é eleito, os anteriores acabam na sombra. Com o Papa Francisco, a abordagem com o legado do Vaticano II mudou, como Menozzi observa, mas não estou muito otimista quanto a uma virada decisiva. Estou perplexa porque vejo uma violenta resistência explodindo contra as indicações conciliares que o Papa Francisco tenta retomar. Quanto ao grito de "santo imediatamente", o considero insensato: não porque João Paulo II não merecesse a canonização, mas porque sempre se deve permitir que o tempo passe para avaliar todas as facetas de um pontificado.

Andrea Riccardi – Com o tempo, tudo fica menor, principalmente porque vivemos uma época emocional e sem memória. Por outro lado, o primeiro arquivamento da obra de João Paulo II já ocorreu com o papa Joseph Ratzinger, seu fiel colaborador que promoveu sua canonização.

Justamente Bento XVI redimensionou a carga messiânica impressa no pontificado por seu antecessor, com uma primeira mudança de ritmo. Também é surpreendente que, ao celebrar os trinta anos desde a virada de 1989, não tenha sido suficientemente enfatizado o papel de João Paulo II no caso polonês, que foi um detonador (mesmo que não o único) para a dissolução do bloco soviético. Afinal, a virada de 1989 inverteu a ideia revolucionária nascida em 1789 e embasada em um recurso à violência que marcou as grandes revoltas sucessivas por dois séculos. O apelo alternativo do Papa Wojtyla aos valores espirituais e à resistência moral teve um peso importante na transição pacífica do Leste europeu. Sobre isso, ele estava em plena sintonia com o presidente tcheco Vaclav Havel, embora suas matrizes culturais fossem muito diferentes.

Quanto influenciou a origem polonesa sobre as escolhas de João Paulo II?

Daniele Menozzi – O Papa Wojtyla, em certo sentido, universalizou aspectos relacionados à sua experiência nacional específica. Em primeiro lugar, a Igreja polonesa, imprensada entre o protestantismo alemão e a ortodoxia russa, cultivou uma forte dimensão identitária para se distinguir, que encontramos na maneira como João Paulo II caracteriza sua ação. Depois, há no catolicismo polonês uma acentuação do elemento nacional que João Paulo II reconhece, tentando valorizar as identidades dos diferentes povos no contexto do universalismo cristão. O magistério de Wojtyla não condena o nacionalismo em si, mas suas versões exasperadas, repropondo um nexo entre patriotismo e fé católica que pesou muito (nem sempre de maneira positiva) na história da Igreja no século XX. Um terceiro ponto é que o catolicismo polonês sempre reivindicou a dimensão oriental, muitas vezes negligenciada, da cristandade romana. A referência de João Paulo II aos "dois pulmões", ocidental e oriental, do catolicismo, com a frequente homenagem a Cirilo e Metódio, evangelizadores do Leste e patronos da Europa, juntamente com outros santos, constitui um aspecto central e positivo de seu pontificado.

Cettina Militello – As palavras identidade e nacionalismo me deixam arrepiada, depois das tragédias do século XX. Mas não vivi as experiências de João Paulo II e da Igreja Polonesa, por isso tomo cuidado para não fazer julgamentos precipitados. No entanto, se a Polônia foi muitas vezes oprimida, também passou por fases de hegemonia nas quais dominou outros povos. Em vez disso, a abertura ao Oriente e a imagem da Igreja que respira com "dois pulmões" expressam a atenção do Papa Wojtyla à alteridade e à diversidade, que é um grande mérito dele. Infelizmente, é a concepção de um catolicismo identitário nacionalista que prevalece na Polônia de hoje, que certamente não me parece ser um exemplo a seguir.

Andrea Riccardi – Em 1979, quando João Paulo II foi a Puebla, no México, para a Conferência do Episcopado Latino-Americano, o arcebispo brasileiro Hélder Câmara, conhecido por seu engajamento em favor dos pobres, disse-lhe: "Santo Padre, lembre-se de que a Igreja não é uma grande Polônia”. A marca pessoal e nacional do pontificado já era clara. Pensem que Pio XII, dirigindo-se aos italianos, dizia "a vossa pátria", porque a função pontifical era vista como despersonalizante. Wojtyla reivindica as raízes eslavas. O eu, com sua história, entra no pontificado: o papa usa o singular "eu", não o pluralis maiestatis "nós". Suas raízes na história polonesa, no entanto, devem ser contextualizadas, não podem ser equiparadas ao nacionalismo atual.

Por que razões?

Andrea Riccardi – João Paulo II nasceu em 1920, quando sua pátria havia recuperado a independência há apenas dois anos e vem de Cracóvia, antiga cidade de Habsburgo, diferente de uma específica Polônia profunda. Muito significativa, em uma igreja tradicionalmente antissemita, é sua amizade com os "irmãos mais velhos": como arcebispo em 1968, ele visitou a sinagoga em Cracóvia enquanto os judeus estavam na mira do regime comunista. Wojtyla se alinha com uma ideia de uma nação que remonta à dinastia Jagelloni, a um reino polonês-lituano pluralista sob o perfil religioso. E sempre pensou a Polônia dentro da Europa. Ele acredita no valor da pátria, mas também é um pontífice global, que alerta contra o nacionalismo e exorta ao acolhimento dos migrantes. Talvez seja especialmente na Polônia atual, apesar da veneração geral, que João Paulo II tenha sido posto de lado.

Cettina Militello – O paradoxo é que tudo o que Wojtyla fez pela sua Polônia se voltou contra ele. Ele próprio, na parte final do pontificado, exortou seus compatriotas a recuperar valores que estavam sendo perdidos. Mas eu também gostaria de colocar outra questão. Se a Santa Sé não tivesse reconhecido imediatamente a secessão da Croácia em 1991, o que teria acontecido na Iugoslávia? Teria sido possível evitar a guerra? A tentativa de estender o modelo messiânico-polonês foi um erro que, acredito, possa ser atribuído a João Paulo II. Na minha opinião, um papa deve sempre ir além de sua cultura nacional e assumir uma dimensão universal.

Daniele Menozzi – É difícil se aventurar na história contrafactual, fazendo suposições sobre um comportamento diferente de Wojtyla em relação à Iugoslávia. Mesmo assim concordo que a proposta de distinguir entre patriotismo saudável e nacionalismo degenerado, longe de ser nova, era decididamente inadequada. Os eventos subsequentes e a realidade atual da Europa Oriental demonstram isso.

Andrea Riccardi – Mas é preciso ter o cuidado para não fazer processos contra a história. Não foi apenas Wojtyla, mas toda a diplomacia do Vaticano que quis o reconhecimento da Croácia, em uníssono com os alemães e italianos. E mais tarde João Paulo II corrigiu tal posição unilateral com sua viagem a Sarajevo. Também acredito que seus esforços para estabelecer contatos com as mais diversas realidades devem ser reconhecidos. O encontro com a China foi perdido, com a ortodoxia russa deu resultados parciais. Mas, em geral, Wojtyla intuiu que as religiões têm um papel importante a desempenhar em nosso tempo. Ele esteve atento ao Islã, ao cristianismo africano, ao fermento da América Latina. Em 1986, promoveu o encontro em Assis com os representantes das grandes religiões, alguns meses depois de visitar a sinagoga em Roma. Ele estabeleceu um relacionamento importante com o rabino Elio Toaff, que é a única pessoa mencionada no testamento de Wojtyla, além de seu secretário Stanislaw Dziwisz.

Daniele Menozzi – Eu faria uma distinção. Por um lado, João Paulo II está convencido de que o nacionalismo pode ser enredado por uma visão católica: é uma ilusão que deriva de sua formação cultural e lhe impede entender quais dramas produziram as tentativas de compor as ideologias identitárias com o cristianismo. Ao mesmo tempo, Wojtyla envia uma mensagem de extrema importância em nível planetário. Ele afirma que a religião não pode justificar a violência, proclama que é uma blasfêmia legitimar a guerra em nome de Deus. É uma linha seguida com absoluta coerência, que exclui definitivamente a ideia da guerra santa do horizonte do magistério. Trata-se de um dos pontos mais altos do pontificado de João Paulo II.

Andrea Riccardi – É um aspecto que também foi apreciado pelo padre Ernesto Balducci, nunca benevolente em relação a Wojtyla. João Paulo II experimentou o horror da Segunda Guerra Mundial quando jovem, que começou justamente na Polônia em 1939. Ele viveu angustiado o retorno dos conflitos bélicos; portanto, se opôs às intervenções armadas dos EUA contra o Iraque, em 1991 e depois em 2003, e iniciou contatos com expoentes de outras religiões para contrastar junto com eles a ideologia da guerra santa. Aqui aparece uma diferença com Ratzinger, que mostrou perplexidade em relação ao encontro ecumênico em Assis e não tinha a mesma visão profética sobre o tema da paz, mesmo sendo hostil à guerra.

Cettina Militello – Também apreciei o espírito de Assis, que deixou uma marca construtiva nas relações entre religiões, bem como a familiaridade de Wojtyla com o judaísmo. Lamento, no entanto, que seu diálogo com outras religiões não tenha sido orientado em pé de igualdade, mas atribuindo uma espécie de liderança à Igreja Católica. Em vez disso, na minha opinião, para abrir novas fronteiras de diálogo, é preciso ter a humildade de se colocar no mesmo plano que os outros. Sei que pode parecer uma utopia, mas, como o retorno das crenças no cenário mundial realmente beneficia a humanidade, precisamos reconhecer a verdade de que cada religião é portadora.

O conservadorismo doutrinal foi criticado ao papa Wojtyla, por exemplo, no que diz respeito à teologia da libertação. Mas ele também é o pontífice do pedido de perdão pelas culpas da Igreja, o "mea culpa". Não são aspectos contraditórios?

Daniele Menozzi – Para entender como possam se reconciliar, é necessário partir do slogan inicial e programático do pontificado: Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo! Isso significa que Jesus pode entrar em todas as dimensões da vida humana, para animá-la e fortalecê-la. João Paulo II acredita que a mensagem católica seja dotada de tanta força que também pode se permitir repensar criticamente o passado da Igreja e pedir perdão por seus pecados. Alguns temem que isso enfraqueça a instituição eclesiástica, Wojtyla não: ele não tem medo. No entanto, essa atitude implica que a Igreja se apresente na forma de uma autoridade central bem sólida. De fato, sob Wojtyla, a Cúria Romana se fortalece, enquanto as conferências episcopais são relegadas ao segundo plano. Por exemplo, um catecismo universal é promulgado para servir de modelo aos catecismos nacionais. Em suma, a Igreja pode se colocar em jogo, aceitando também rediscutir a função do papado no diálogo ecumênico, graças à centralidade indiscutível do bispo de Roma. As concessões de João Paulo II são, portanto, parte de um projeto hegemônico, que também inclui as canonizações iniciadas de outros papas. A beatificação de Pio IX e João XXIII contribui para reafirmar o papel fundamental da cátedra de São Pedro.

Cettina Militello – Assim, contudo, foi desvalorizado o espírito do Vaticano II, que mirava valorizar os episcopados e as igrejas locais e promover a subjetividade do povo de Deus. A centralização, pelo contrário, reduz as conferências episcopais à insignificância e promove uma elefantíase da Cúria que coloca vozes críticas fora de jogo, como a teologia da libertação. O próprio mea culpa ocorre em 2000, quando o pontificado de Wojtyla está no auge de sua ênfase messiânica. Também considero desviantes as beatificações e as canonizações sem fim, especialmente as dos papas. A Igreja é santa em si mesma, não precisa lotar o calendário. O juízo sobre essas escolhas será dado pela história, mas certamente perderam sentido as orientações do Vaticano II. É uma história que vivencio com extremo sofrimento: de fato, a implementação do Concílio parou e é necessário reencontrar suas diretrizes que não foram realizadas. Muito tempo foi perdido.

Andrea Riccardi – Gostaria de focar na teologia da libertação. Wojtyla se opôs, na América Latina, porque a considerava de influência marxista: uma ideologia em sua opinião opressiva e irrecuperável em uma visão cristã. A luta contra a teologia da libertação tinha duas faces: a mais intransigente do cardeal Alfonso López Trujillo e a mais fundamentada de Ratzinger; mas sem dúvida cria uma laceração profunda. Já no pontificado de João Paulo II há uma tentativa de costura. A escolha feita por Wojtyla de nomear o cardeal Jorge Mario Bergoglio como arcebispo de Buenos Aires, não alinhado à teologia da libertação e estranho a aquela contenda, é fruto de uma nova fase. Precisamente nessa fase - é um paradoxo - se destaca o sucesso dos neoprotestantes e neopentecostais na América Latina. Certa vez, um motorista de táxi, com grande perspicácia, ao passar diante de uma de suas igrejas em Salvador, me disse: "Está vendo? A Igreja Católica escolheu os pobres, mas os pobres escolheram as seitas”.

E o "mea culpa"?

Andrea Riccardi – Na minha opinião, deveria ser incluído em um projeto de reforma que João Paulo II perseguiu na fase final do pontificado, mas foi interrompido por causa de sua doença. Quanto à amplitude global das aberturas de Wojtyla e à questão da igualdade no diálogo, no final, também será a história a determinar as dimensões de uma instituição e as situações de encontro. Por outro lado, os processos de interconexão em nível mundial inevitavelmente produzem uma globalização do papado. Até o próprio Papa Francisco, mesmo que fale sobre valorizar as conferências episcopais, mantém uma estatura global, como demonstra o eco de seus gestos durante a pandemia. Isso também se aplica a outras religiões: vamos pensar no papel que Ahmad Al Tayyeb, reitor da Universidade egípcia Al-Azhar, assumiu como representante do mundo islâmico no diálogo com Bergoglio.

Cettina Militello – A visão global do papado é um fato, mas deve ser equilibrada com a atenção às realidades locais que compõem a Igreja. Francisco interveio sobre o coronavírus, falando ao mundo inteiro, como bispo de Roma. Na minha opinião, a globalização da figura pontifícia não é uma solução desejável.

Andrea Riccardi – Não estou dizendo que seja uma solução, é um processo em curso com o qual devemos nos medir.

Como vocês avaliam a atitude de Wojtyla sobre a questão feminina?

Cettina Militello – Quando a carta apostólica sobre a mulher Mulieris dignitatem saiu em 1988, escrevi que João Paulo II era quase o último menestrel, um cantor do "amor cortês" medieval. Naquele texto, Wojtyla desenvolve o que era antecipado no ano anterior na encíclica Redemptoris Mater. Esboça uma mulher angelical e alterocêntrica que na realidade não existe. E, assim, avaliza uma ideologia que considero funesta. Se não levarmos a sério a passagem de São Paulo (Gálatas 3, 28) segundo a qual em Cristo "não há mais judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher", acabamos falando em vão. Mitificar as virtudes das mulheres, indicando como modelo a mãe de Deus, leva à conclusão de que elas são tão santas que não precisam se ocupar com a gestão da Igreja e da representação de Cristo, questões prosaicas a serem reservadas aos menos santos homens. É uma lógica contra a qual me rebelo, porque não aceito a tese de uma diferença ôntica entre homens e mulheres.

Repropor uma imagem idealizada das mulheres serve apenas para fazer regredir a questão, justificando a recusa de sua presença igual na Igreja. Entendo a resistência cultural, mas teria esperado mais coragem, como aquela mostrada por outras confissões cristãs.

Isso também tem a ver com a insistência de Wojtyla sobre a ética sexual tradicional?

Cettina Militello – Parece-me um tema secundário. Já não há mais disposições possíveis naquela esfera íntima. Todos, homens e mulheres, se regulam de acordo com a consciência e se recusam que lhe sejam impostos "ônus insustentáveis", sem por isso sentir que precisam se afastar da Igreja.

Daniele Menozzi – Concordo com o que foi dito, mas com alguns ajustes. Embora João Paulo II conserve uma visão tradicional do universo feminino, ele tenta chamar a atenção geral para as condições desumanas em que as mulheres muitas vezes se encontram no trabalho ou dentro da família. Ele denuncia o fato de que sua dignidade é pisoteada, tenta promover um reconhecimento de seu papel social. No entanto, no lado oposto, deve-se lembrar que Wojtyla conferiu um caráter de definitiva exclusão das mulheres do sacerdócio. Ou seja, achou que aquela proibição poderia ser repassada para o futuro sem levar em conta as transformações que podem ser provocadas pelo devir histórico. Estamos diante de um impasse: João Paulo II tornou absoluta uma norma ditada por contingências históricas e atribuiu-lhe uma forte qualificação teológica. Um terceiro ponto digno de nota diz respeito à condenação que a Igreja expressou à ideologia de gênero, sob o pontificado de Wojtyla, sem considerar a ampla articulação que caracteriza uma realidade variegada como o movimento das mulheres. Toda reivindicação feminista foi atribuída a uma ideologia de gênero inaceitável, e isso induziu a rejeitar de maneira indistinta todas as exigências relacionadas à mudança nas relações entre os sexos.

Andrea Riccardi – As Igrejas anglicanas e luteranas fizeram escolhas muito diferentes em relação à católica em termos de admissão de mulheres para o ministério, mas não é que a situação delas seja reconfortante como a adesão dos fiéis: eles estão passando por uma crise profunda. João Paulo II nasceu em 1920, em uma sociedade patriarcal como a polonesa da época, talvez ele não tivesse as ferramentas para se mensurar plenamente com a grande revolução constituída pelo fim da dominação masculina. Mas também é preciso acrescentar que esse fenômeno preocupa principalmente o Ocidente, porque a história das mulheres e da família no âmbito asiático ou africano permanece diferente.

Portanto, é anacrônico culpar Wojtyla por não ter se aberto o suficiente a instâncias que talvez fossem impensáveis nos anos de sua formação?

Andrea Riccardi – Eu diria que sim, embora eu gostaria de enfatizar que a classe dominante da Igreja de João Paulo II havia se forjado no Vaticano II, tinha vivido experiências e debates teológicos muito intensos. Da Cúria, que certamente foi ampliada como Menozzi lembrou, tomavam parte personalidades respeitadas como Agostino Casaroli, Roger Etchegaray, Johannes Willebrands. Basta pensar nas nomeações de Carlo Maria Martini em Milão e Jean-Marie Lustiger em Paris. Wojtyla tinha colaboradores de um nível que hoje não se encontra. Não apenas as vocações diminuem, mas o status cultural da hierarquia eclesiástica se enfraquece, talvez como o das classes dirigentes políticas. Uma situação que coloca ainda mais responsabilidade e iniciativa sobre a figura global do pontífice.

Empenhado firmemente na oposição ao comunismo, João Paulo II também acusou o modelo capitalista e suas desigualdades. Há quem veja nessas suas posições nuances antimodernas, mas que também poderiam ser consideradas proféticas. O que vocês acham?

Daniele Menozzi – Desde a sua origem em 1891, com a encíclica Rerum novarum de Leão XIII, a doutrina social da Igreja quer representar uma terceira via, em antítese ao socialismo marxista, visto como o maior perigo, mas também ao capitalismo. Ambos são julgados pelo ministério como inadequados para resolver os problemas determinados pelo desenvolvimento da sociedade moderna através da revolução industrial. Nos documentos que depois atualizaram a doutrina social, o acento foi geralmente posto no que era considerado o mal mais grave, o comunismo ateu e materialista. Antes do colapso do império soviético, João Paulo II destacou especialmente os riscos de empobrecimento e de asfixia da livre iniciativa dentro do modelo coletivista. Mas depois de 1989, suas críticas investiram com mais determinação o liberalismo capitalista. Sendo mantida inalterada importância do mercado como uma ferramenta de regulação das trocas, Wojtyla denuncia a falta de regras e ética no campo da economia, relançando a doutrina social católica como alternativa. O risco, no entanto, é que essa terceira via seja colocada no mesmo plano das outras duas: que se torne uma ideologia, como temia o teólogo francês Marie-Dominique Chenu, em vez de se referir primeiro ao Evangelho como critério orientador para o cristão diante dos problemas sociais.

Cettina Militello – Sem dúvida, no magistério papal do século XX, a oposição ao comunismo prevaleceu sobre o capitalismo. Hoje, o desafio de retornar ao Evangelho, lembrado por Menozzi, está diante de nós. João Paulo II tentou, mas talvez não com a necessária decisão, mesmo que suas condenações à guerra fossem muito importantes. Não é fácil, tendo aceitado as estruturas econômicas e institucionais do capitalismo anteriormente, conseguir se livrar delas.

É preciso uma conversão profunda, para a qual ainda não usamos ferramentas culturais adequadas. Lembrar a data de nascimento de Wojtyla nos ajuda a entender até onde ele poderia ir e a reconhecer seu espírito profético. Mas isso também nos leva a lamentar as limitações que seu magistério teve, especialmente na parte intermediária do pontificado.

Andrea Riccardi – João Paulo II expressa plenamente a experiência do catolicismo e, portanto, também a complexio oppositorum, a combinação dos opostos, que sempre a caracterizou. Apesar de seu forte anticomunismo, nunca negado, de ter vivido na Polônia agrícola e depois socialista não o tornara sensível aos argumentos do liberalismo ocidental. Quando Wojtyla falava do futuro do Leste e da Rússia após a queda do bloco soviético, nunca auspiciava que esses países adotassem o capitalismo. Na verdade, ficou impressionado com o desenvolvimento da história e com a rápida adesão da Europa Oriental ao modelo ocidental. Sua mensagem social sempre insiste na necessidade de colocar sob controle o mercado. Significativa, nesse sentido, é sua posição crítica em relação ao capitalismo no que diz respeito às relações entre o norte e o sul do mundo. Wojtyla se reconecta com a encíclica Populorum progressio, publicada em 1967 por Paulo VI, mas vai ainda mais longe, tecendo relações profícuas com os países pobres, especialmente os africanos.

Então, a queda do comunismo marca uma ruptura para o pontificado de Wojtyla?

Andrea Riccardi – No momento de sua eleição, o mundo é bipolar, com o antagonismo entre os impérios americano e soviético, mas depois de 1989 apenas uma superpotência permanece em pé. A posição da Igreja em confronto com um único império nunca é fácil. Assim, João Paulo II se vê diante da hegemonia absoluta dos Estados Unidos, um país que o Papa polonês aprecia em muitos aspectos, mas do qual critica a política quando deságua no recurso à guerra, a partir de 1991. Chega-se assim soldagem da posição de Wojtyla com o movimento pacifista europeu, outro elemento que evidencia a extrema complexidade de seu pontificado.

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