Ivan Illich: imaginar o ministério. Artigo de Fabrizio Mandreoli

Ivan Illich (Foto: Settimana News)

15 Mai 2020

"Uma síntese do nosso exercício da imaginação eclesial poderia ser encontrada na pergunta típica dos Atos dos apóstolos, quando se abrem caminhos novos e inéditos. Uma pergunta que tem o objetivo de promover e não dificultar o caminho do Evangelho: "O que impede?". Trata-se de compreender o que impede a reflexão e a imaginação: se são razões boas e de ampla visão ou se são fatores que obscurecem e de curta duração", escreve Fabrizio Mandreoli, teólogo, filósofo e historiador, e que tem publicado estudos sobre história da teologia (idade média e era moderna), Vaticano II, Giuseppe Dossetti, Erich Przywara e perspectivas teológicas de Bergoglio, em artigo publicado por Settimana News, 09-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Nesta primavera europeia de 2020, na Itália e em muitos países do mundo estamos vivendo um momento difícil que apresenta questões sem precedentes para a vida das comunidades humanas e também para a vida da Igreja. O debate já é amplo. Vamos nos aproveitar disso, na consciência dos problemas em jogo e do drama das pessoas que adoecem e morrem, para analisar uma parte desse tempo que para muitos é também um tempo suspenso, forçosamente parado, de inação.

 

Uma hipótese diferente e "compensatória"

 

Um tempo que às vezes é descrito como um momento de repensamento para reler a vida pessoal e social que precede um evento - a pandemia - que mostrou os muitos desequilíbrios da vida "de antes". Gostaríamos, portanto, de participar do debate para propor, com base em muitos outros exemplos [1], um exercício de imaginação que talvez possa dar alguma contribuição para a revisão de um aspecto importante, certamente não o único, da vida da Igreja.


Nos últimos dias foi publicado o primeiro volume - cuidadosamente editado por Fabio Milana - da obra completa de Ivan Illich [2], um autor que tem muitas coisas a dizer ao nosso tempo e que talvez possa nos ajudar em nosso experimento de imaginação de vias diferentes. No início da primeira coletânea de textos, há uma indicação do método do próprio Illich: “Cada capítulo deste livro documenta uma tentativa de minha parte de questionar o fundamento de alguma específica certeza. Portanto, cada um deles trata de um engano - o engano incorporado em uma de nossas instituições. As instituições produzem certezas e certezas, levadas a sério, anestesiam o coração e paralisam a imaginação. Cultivo a esperança de que minhas afirmações, sejam elas indignadas ou paradoxais, sofisticadas ou ingênuas, sempre provoquem um sorriso e, assim, uma nova liberdade - embora a liberdade também tenha um preço" [3].

Ivan Illich (Foto: Settimana News)

Dentro dessa análise, que quer ser, ao mesmo tempo, desconstrutiva e reconstrutiva, Illich aborda vários temas importantes de sua reflexão geral, como: o sistema escolar, a praxe missionária não colonial, uma reforma da Igreja em um sentido de maior pobreza e despojo do poder, um modo diferente de pensar - e praticar - a caridade e o testemunho do evangelho [4].

 

Nessa ampla discussão que nos convida a retomar algumas perspectivas evangélicas originárias [5], encontra-se um texto – O caso do clero (A vanishng clergymen) [6] - que, quando foi publicado no final da década de 1960, animou as discussões. Apesar da total fidelidade às posições fundamentais da tradição cristã, ao valor do celibato livremente escolhido, à estrutura episcopal da Igreja e à permanência e necessidade de um ministério ordenado, a dimensão inovadora de algumas de suas teses provocou algum debate. Hoje, sessenta anos depois, talvez possamos retomar essa reflexão e reinterpretá-la para imaginar de maneira diferente - com criatividade fiel - alguns aspectos da figura histórica do presbítero, do padre, na Igreja.

 

Exercícios sobre o ministério

 

Antes de chegar ao cerne da argumentação de Illich, vale a pena explicar em que sentido assumo, na minha releitura, sua hipótese como compensatória. Levando em conta vários elementos históricos e de contexto atual, não acredito que a hipótese illichiana possa ser assumida como um cancelamento ou, menos ainda, como uma desvalorização da maneira como o ministério tem sido e é exercido até o momento, muitas vezes de maneira evangélica e exemplar. Tampouco significa procurar um remédio para tempos calamitosos.

 

Ao contrário, pode ser vivida - pelo menos por alguns - como uma hipótese concreta e corretiva de uma série de possíveis desvios institucionais e humanos que parecem afligir um ministério que hoje permanece em nível planetário na Igreja Latina - se for excetuado o exemplo das Igrejas orientais – um âmbito ocupado e gerenciado apenas por homens, celibatários, mantidos em grande parte pela própria instituição Igreja.

 

O motivo do qual Illich parte é justamente de natureza institucional. Ele questiona o risco de um processo de burocratização do ministro e de sua vida, que experimenta uma sobrecarga de trabalho administrativo, gerencial e impessoal que corre o risco de levar a uma funcionalização. Uma modalidade burocratizada que pode, portanto, levar a uma desvinculação do pertencimento e da vida do povo e a um esgotamento espiritual, humano e evangélico. Nesse quadro crítico sobre o risco burocrático e de esculturação percorrido pela Igreja Católica e seu sistema de gestão - local e universal - de seu "pessoal" - que poderia iluminar ex post também uma série de outros fenômenos [7] - Illich identifica e se perguntas sobre três dimensões da vida de um ministro.
Ele faz isso operando referências evidentes, embora implícitas, à tradição antiga do cristianismo, especialmente à testemunhada por alguns textos do Novo Testamento. Trata-se de dimensões concretas que muitas vezes não entram adequadamente – ou de forma alguma - nos tratados e nas conferências sobre a teologia e a espiritualidade do ministério ordenado, mas que, de fato, na vida e na reflexão cotidiana, influenciam profundamente a vivência e a teologia concreta do ministério [8]; eles são: o modo de se sustentar, o estado da vida, a formação tanto inicial quanto permanente.

 

Ivan Illich, jovem sacerdote

 

A maneira de se sustentar

 

O ponto de partida é a saída da ideia do ministério exercido como funcionário da uma instituição com uma prática fundamentalmente burocrática. Aqui estamos tratando de um ministério que para Illich não pode se tornar uma "profissão", sendo uma tarefa que se expressa na proclamação da palavra, na orientação e na presidência litúrgica de comunidades humanas. “Um dentista, um operário, um professor, enfim, um homem capaz de bastar a si mesmo presidirá esse encontro [litúrgico] no lugar do trabalhador ou do funcionário empregado pela Igreja. Em vez de um licenciado do seminário, profissionalmente formado em fórmulas "teológicas", o ministro do culto será um homem que amadureceu na sabedoria cristã através da participação em uma liturgia entre pessoas íntimas praticada por toda uma vida. Serão o casamento e a criação dos filhos, no lugar da aceitação do celibato como condição jurídica para a ordenação, que lhe conferirão uma liderança responsável" [9].

 

As palavras são claras e não acredito que devam ser entendidas – ontem como hoje - como desvalorizadoras dos muitos ministros que vivem uma vida de dedicação verdadeira e não burocrática, mas sim como uma hipótese compensatória que contempla a possibilidade de um modelo de presbítero - com base em algumas cartas e afirmações paulinas – tomado entre as pessoas comuns que trabalham e que mostraram na vida um carisma de confiabilidade e maturidade cristã.

 

Hipótese homogênea a algumas afirmações conciliares [10] - amadurecidas em relação também à importante experiência dos padres operários - e que poderia ajudar a superar o problema do clericalismo: “As atuais estruturas pastorais foram profundamente moldadas por dez séculos de sacerdócio clerical e celibatário. Em 1964, o concílio deu um passo sugestivo em direção à mudança desse modelo, aprovando o diaconato de homens casados", mas essa ainda é uma possibilidade ambígua, porque poderia "levar à proliferação de um clero de segunda categoria sem introduzir nenhuma mudança real na estrutura atual. Mas também poderia levar à ordenação de homens adultos e autossuficientes. Perigoso seria o desenvolvimento de um diaconato clerical"[11].

 

De fato, "hoje um homem se mantém exercendo uma profissão no mundo, não desempenhando um determinado papel em uma hierarquia"[12]. Em uma Igreja estruturada no nível de pequenas comunidades, diaconias, lideradas por diáconos e presididas em seu conjunto pelos presbíteros, reunidas concentradamente em torno do ministério do bispo, Illich vê, portanto, a importância de imaginar a ordenação de homens que se mantêm com um trabalho secular, como via de repensar em termos concretos a contraposição entre clérigos e leigos, uma saída libertadora de uma série de vínculos e laços econômicos nem sempre transparentes, uma atualização em relação às instâncias de seu tempo e como, verdadeira e própria, ressignificação espiritual cristã do ministro.

 

"Ele será principalmente o ministro da palavra e do sacramento, não o faz-tudo que desempenha superficialmente uma variedade desconcertante de tarefas sociais e psicológicas"[13]. Illich mostra aqui o quanto seja importante entender a importância do ministério junto com o sentido de seu limite, observando como hoje é cada vez mais difícil "aceitar as reivindicações de um pastor que, em virtude da mera ordenação ou consagração, finge ser competente para tratar de todos os problemas de sua heterogênea circunscrição - seja a paróquia, a diocese ou o mundo inteiro"[14]. Deve-se lembrar que, para Illich, tal possível cooptação dos presbíteros - e certamente dos diáconos - entre homens que trabalham e vivem de uma normal profissão, de maneira alguma revoga a tarefa de exemplaridade pessoal - humana, cristã e ministerial - dos próprios ministros, mas, pelo contrário, a reforça e radicaliza. A isso se pode acrescentar como hoje o apelo à busca de novas formas de atividade e de empenho social poderia ser ainda mais significativa se comparado ao horizonte de crise sistêmica global que estamos enfrentando.

 

Celibato voluntário e restauração do ministério uxorado

 

O ponto de partida dessa parte da reflexão de Illich mostra como: "A escolha do celibato voluntário, a instituição de comunidades religiosas e a prescrição jurídica de um clero celibatário" são "três realidades [que] devem ser examinadas separadamente"[15]. Nesse quadro em que queremos distinguir as questões, as palavras iniciais para descrever a escolha voluntária do celibato não poderiam ser mais belas e profundas: "Em todos os tempos, na Igreja, homens e mulheres renunciaram livremente ao matrimônio ‘por causa do reino’. Coerentemente com essa escolha, eles ‘explicam’ sua decisão simplesmente como a realização pessoal de um chamado íntimo de Deus" e acrescenta "a experiência misteriosa desse chamado deve ser mantida distinta das razões que ‘justificam’ tal decisão". Não se trata aqui de uma adesão que tenha uma conveniência teológica, mas "hoje o cristão que renuncia ao matrimônio e aos filhos por causa do reino não procura nenhuma razão, abstrata ou concreta, para a sua decisão". A sua escolha é puro risco na , é o resultado da experiência íntima e misteriosa de seu coração. Ele escolhe viver agora a pobreza absoluta que todo cristão espera experimentar na hora da morte. Sua vida não demonstra a transcendência de Deus; ao contrário, todo o seu ser expressa a fé nela. Sua decisão de renunciar a um cônjuge é igualmente pessoal e incomunicável, assim como o é a decisão de outro de preferir seu parceiro a todos os outros"[16].

Ivan Illich, padre jovem (Foto: Settimana News)

O celibato e a escolha matrimonial têm suas raízes no ser e na consciência pessoais - como uma espécie de insight fundamental -, portanto, devem ser reconhecidos, verificados e cultivados com toda delicadeza, inteligência e atenção [17]. Portanto, não é possível que o celibato seja considerado simplesmente um pré-requisito funcional para uma tarefa ou uma função que requer muito tempo a disposição.

 

Nesse sentido, o celibato só pode ser uma escolha cristã livre e não institucionalmente exigida - e, no máximo, motivada espiritualmente e sustentada a posteriori - para aqueles que se sentem chamados ao ministério, caso contrário, não haveria nenhuma real diferença com a preferência que as grandes multinacionais têm por gerentes sem família, devido à sua maior disponibilidade para serem geridos e transferidos de acordo com as necessidades da instituição para a qual trabalham. O tema já foi repetidamente analisado e sob vários pontos de vista, e aqui basta ressaltar a profundada leitura cristã que Illich faz da escolha do celibato e da escolha matrimonial e da possibilidade - neotestamentária e perfeitamente correspondente à grande tradição cristã - da existência, com as devidas atenções, de um clero misto.

 

Nessa análise, que se coloca no nível das dinâmicas institucionais e de sistema, Illich acredita que a mera ordenação de homens casados, sem uma profunda reforma do ministério e seu posicionamento dentro do povo de Deus, seria um erro, porque atrasaria a reforma bem mais radical que o presbiterado precisa. Não apenas isso, arriscaria ser pensada apenas como um meio de compensar o número de padres que estão faltando na atual estrutura da Igreja, que é precisamente o que precisa ser mudada porque é excessivamente burocratizada e, no final, espiritualmente mundana em seus funcionamentos profundos. A mudança não deve ser feita para preservar a estrutura clerical - e suas representações de uma Igreja na qual parece haver duas categorias metafísicas diferentes: os sacerdotes e todos os outros -, mas para uma maior fidelidade ao evangelho no próprio tempo.

 

Acredito que tais análises, embora aparentemente de sinal diferente, também poderiam ser aplicadas a situações contemporâneas, como a Amazônia, onde aqueles que acreditam que as comunidades cristãs vivam da Eucaristia, memória da Páscoa do Senhor, têm legítimas dúvidas sobre a oportunidade de deixar comunidades inteiras privadas do dom da celebração por um ano ou, às vezes, dois, apenas para preservar – talvez alhures - uma forma institucional, típica de uma época da história da Igreja [18], com suas correlativas representações [19].

 

Formação teológica

 

O último ponto diz respeito à formação teológica. “A partir do Concílio de Trento, a Igreja tem insistido na necessidade de instruir e formar seus ministros em suas próprias academias profissionais. Havia a esperança de que esse processo de formação depois seria continuado por iniciativa pessoal do ministro ao longo de sua vida estruturada de clérigo. A Igreja formava o seu pessoal para um tipo de vida que ela mesma controlava" [20].

 

Nesse ponto, Illich se pergunta - com palavras fortes - se esse tipo de formação para um modelo de vida clerical que parece fora do tempo ainda seja um gesto eticamente responsável. "Isso não significa que o ministério cristão exija menor formação intelectual. Mas isso só pode se desenvolver com a premissa de uma formação cristã melhor e mais ampla”. E aqui Illich surpreende bastante ao afirmar que a questão da formação deveria ser redefinida de maneira cristã.

 

“Maturidade pessoal, rigor teológico, oração contemplativa e caridade heroica não são especificamente cristãs. Os ateus podem ser pessoas maduras e os não-católicos teólogos rigorosos; os budistas podem ser místicos e os pagãos pessoas generosas até o heroísmo”. Por outro lado, "o resultado específico de uma educação cristã é a formação do sensus Ecclesiae, o ‘sentido da Igreja’. Quem se une a ela está enraizado na autoridade vivente da Igreja, experimenta a imaginação criativa da fé e se expressa de acordo com os dons do Espírito”. “A formação desse ‘sentido’ deriva do costume com as fontes da autêntica tradição cristã, com a celebração compilada da liturgia e com um estilo de vida particular. É fruto do encontro pessoal com Cristo e é uma medida da real profundidade da oração".

 

Portanto, "ao escolher um adulto para o diaconato ou o sacerdócio, é um traço desse sentido que deveríamos procurar nele, em vez de avaliar as suas credenciais teológicas ou o tempo passado na segregação do mundo" [21]. De fato, "não buscaremos a competência profissional para lecionar para um auditório, mas a humildade profética que serve para moderar um grupo cristão"[22].

 

Nesse sentido, é essencial na formação a vida cristã e a lectio bíblica: "Ao dizer isso, não pretendo subestimar a importância de um rigoroso estudo teológico. Eu só quero colocá-lo em seu lugar. Por fim, a função da teologia é esclarecer o significado de uma afirmação feita hoje, ou de verificar a sua fidelidade à revelação. [...] A teologia verifica a nossa fidelidade, a leitura espiritual nutre a nossa fé”. Isso significa uma verdadeira complexificação da teologia, dadas suas tarefas de interpretação da revelação em diálogo com contextos e pessoas, uma sua efetiva difusão para laicos e laicas, a possibilidade de um ensinamento feito não somente em âmbito clerical, junto com uma simplificação e intensificação da fé: "Deste modo, a Igreja crescerá na simplicidade infantil de sua fé e na profundidade intelectual de sua teologia"[23].

 

Trata-se, portanto, de uma formação que passa por um profundo sentido da Igreja, por uma intensa vida cristã, por uma teologia à altura dos tempos e contextos complexos, por uma lectio bíblica que "descobrirá uma nova fé e um novo poder na palavra revelada”, por uma liturgia “íntima e viva”. Nesse sentido - em que a dimensão formativa das liturgias cristãs é ressaltada - ele conclui: “O Espírito, que continuamente recria a Igreja, merece confiança. Presente de modo criativo em toda celebração cristã, conscientiza as pessoas do reino que neles vive.

 

Seja composta por poucos fiéis ao redor do diácono ou pela presença em escalões completos da Igreja ao redor do bispo, a celebração cristã renova toda a Igreja. A Igreja manifestará claramente a fé cristã como a revelação sempre mais alegre do sentido pessoal do amor - aquele mesmo amor que todos os homens celebram" [24].

 

"O que impede?"

 

O texto de Illich provavelmente requer uma segunda releitura, juntamente com uma contextualização histórica adicional, com a consciência de ter abordado apenas uma parte de uma análise eclesial, social e antropológica muito mais ampla. De qualquer forma, a impressão é que as questões levantadas por sua reflexão ainda são importantes - em chave "compensatória" - para a vida da Igreja e das tramas sociais em que a Igreja vive.

 

Uma síntese do nosso exercício da imaginação eclesial poderia ser encontrada na pergunta típica dos Atos dos apóstolos, quando se abrem caminhos novos e inéditos. Uma pergunta que tem o objetivo de promover e não dificultar o caminho do Evangelho: "O que impede?"[25]. Trata-se de compreender o que impede a reflexão e a imaginação: se são razões boas e de ampla visão ou se são fatores que obscurecem e de curta duração [26].

 

Perguntamo-nos, portanto, o que bloqueia um pensamento capaz de prestar atenção à grande tradição cristã e aos numerosos - e às vezes enterrados [27] - recursos da nossa história? O que impede de recolher e nos apropriarmos dos recursos para a vida da Igreja e das pessoas, que são depositados de maneira autorizada no Novo Testamento? O que impede que o ministério presbiteral seja desempenhado por homens que podem ser mantidos pela Igreja ou que podem se sustentar com seu trabalho? O que impede que tal serviço seja prestado - após cuidadoso e longo discernimento - por homens que podem ter decidido, livremente em seus corações, por uma vida celibatária para o Reino ou viver no matrimônio sempre no horizonte do Reino?

 

Então, o que impede os bispos das Igrejas locais ou regionais, se houver necessidade e sem enrijecimento [28], de reconhecer, com a contribuição concomitante do povo de Deus, pessoas normais que possam desempenhar, em espírito evangélico e com profundo sentido de Igreja, a orientação comunitária e a presidência eucarística[29]? Se tal perspectiva não for pensada apenas em chave de remédio para uma estrutura obsoleta e não mais sustentável, mas como recurso evangélico - espiritual e histórico, humano e cristão - não seria possível que para a Igreja e para a sociedade se pudessem liberar energias de bem e de sabedoria?

 

Creio que essas seriam perguntas - em nível pessoal e coletivo - importantes e, em última análise, simples, a fim de desemperrar a imaginação ao pensar em outro modelo de presbiterado, um modelo compensatório ao lado daquele existente, uma modalidade possível igualmente fiel às fontes do cristianismo, adaptada aos nossos tempos, respeitosa do mistério da interioridade das pessoas que são chamadas a um serviço à unidade e à apostolicidade da fé em nossos dias. Como sabemos, a fantasia não é muito perigosa, então por que simplesmente não experimentar, nessa situação tão específica, imaginar - e eventualmente antecipar [30] - algo assim para o futuro de nossas Igrejas (e de nossas sociedades)?

 

Notas:

[1] Cf. G. Lafont, Immaginare la Chiesa cattolica, San Paolo, Cinisello Balsamo 1998.

[2] I. Illich, Celebrare la consapevolezza. 1951-1971, Opere complete Vol. I, a cura di F. Milana, Neri Pozza, Vicenza 2020.

[3] Ivi, 101 (itálico meu).

[4] Cf. ivi, 345-369.

[5] Cf. I. Illich, I fiumi a nord del futuro, Quodlibet, Macerata 2013.

[6] Illich, Celebrare la consapevolezza, 145-165.

[7] Cf. M.-J. Thiel, L’église catholique face aux abus sexuels sur mineurs, Bayard, Paris 2019.

[8] Cf. M. Guasco, Storia del clero in Italia dall’Ottocento a oggi, Laterza, Roma-Bari 1997.

[9] Illich, Celebrare la consapevolezza, 135.

[10] PO 8.

[11] Illich, Celebrare la consapevolezza, 155.

[12] Ivi, 156.

[13] Ibidem.

[14] Ivi, 157.

[15] Ivi, 159.

[16] Ivi, 160.

[17] Cf. C.M. Martini – G. Sporschill, Conversazioni notturne a Gerusalemme, Mondadori, Milano 2008, 99-100.

[18] Cf. P. Prodi, Il paradigma tridentino. Un’epoca della storia della Chiesa, Morcelliana, Brescia 2011.

[19] Cf. M. Neri, L’Amazzonia, il Papa e la Chiesa, in Il Mulino online, 10 marzo 2020.

[20] Illich, Celebrare la consapevolezza, 163.

[21] Ibidem.

[22] Ivi, 164.

[23] Ivi, 164.

[24] Ivi, 165.

[25] Cf. At 8, 36.

[26] Cf. E. Biser, Introduzione al cristianesimo, Borla, Roma 2000, 51-82.

[27] Cf. H. Wolf, Krypta. Unterdrückte Traditionen der Kinkengeschichte, C.H. Beck, München 2015.

[28] Cf. J. L. Narvaja, L’eresia intraecclesiale, in La Civiltà Cattolica 3992 (2016), 105-113.

[29] Cf. G. Lafont, Piccolo saggio sul tempo di Papa Francesco, EDB, Bologna 2017, 88-90.

[30] Cf. C. Theobald, Il coraggio di anticipare il futuro della Chiesa, in Concilium 54 (2018) 4, 21-31.

 

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