Se não mudar com a vida, a liturgia se torna um mero teatro

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23 Abril 2020

"Nossas avós diziam que Deus envia o frio conforme o cobertor, mas, talvez, também possa ser dito que Deus envia o cobertor conforme o frio: a uma igreja católica que, há muito tempo, vive de celebrações embalsamadas, um idoso papa jesuíta está sugerindo que pode recomeçar apenas da vida: quando se extingue a vida dentro de fórmulas e reverências, a liturgia perde a sua função originária e sua força original", escreve Marinella Perroni, teóloga e biblista, fundadora da Coordenação das Teólogas Italianas, autora de vários livros, professora no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, em artigo publicado por Il Regno, 20-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nos dias da Páscoa, o impacto da emergência sanitária sobre a oração da Igreja trouxe mais do que nunca à tona as dificuldades de aceitação da reforma litúrgica. O Papa Francisco, com a oração na grande praça deserta e a Via crucis, mudou cenários agora irremediavelmente superados.


Foto: Vatican News

Talvez a liturgia nunca esteja tanto no centro das atenções - e não apenas dos crentes - como durante a Semana Santa. Em especial, aliás, durante o tríduo pascal. Este ano, a situação dramaticamente inédita que há quase dois meses revirou nossos hábitos e costumes, inoculando medo e incerteza nas veias do nosso cotidiano, fez implodir os já combalidos "equilíbrios litúrgicos" que garantiam que tudo se repetisse sempre mecanicamente igual. O fato de as igrejas estarem cada vez mais vazias parecia pouco relevante.

Se essa dolorosa prova tiver algo a dizer às igrejas, a reflexão deve partir justamente da liturgia. Não é coincidência, por outro lado, que o primeiro documento do Concílio Vaticano II seja aquele que diz respeito à reforma litúrgica. Tampouco é coincidência que, nestes meses, em que todos fomos assoberbados pelo peso do imponderável, vimos acontecer realmente e tudo no que diz respeito à liturgia. Como mais um testemunho do que já está claro há algum tempo, isto é, que, para a Igreja Católica, infelizmente, a experiência litúrgica se reduz exclusivamente à celebração da missa. Acima de tudo, no entanto, como um testemunho de como a resistência obstinada à recepção do Vaticano II e suas expectativas eclesiológicas sobre ministérios e ecumenismo se reflete fortemente na incapacidade de combinar lex orandi e lex credendi dentro dos tempos e dos espaços da cidade secular.

Este não é o lugar para examinar porque a Igreja Católica tenha tanta dificuldade para deixar para trás a forma da Igreja constantiniana e do modelo litúrgico tridentino e tenha teimosamente preferido tornar-se mundana em vez de se reformar. Basta dizer que, como nunca antes, ainda parece encastelada, do ponto de vista das instituições, em uma interpretação de non prevalebunt evangélico, para dizer o mínimo, pueril e paralisada pela recusa em ouvir aqueles teólogos corajosos e perspicazes que, há tempo, indicaram os caminhos a seguir para se abrir para o futuro.

É nesse contexto que Francisco assumiu para si, durante a Quaresma e, especialmente, durante o tríduo pascal, todo o peso de uma liturgia agora colocada diante de suas responsabilidades. Sua figura foi dominante. Certamente, em virtude do centralismo vertical romano apoiado pelo poder de fogo comunicativo do Vaticano, mas também graças ao seu pessoal calibre espiritual. Isso foi confirmado pela patética tentativa de imitação por parte de bispos que, depois de arejar vestes pluviais e mitras da época da luta pelas investituras, também tentaram subir no palco, mas com minguada sorte. De Roma, no entanto, Francisco não falou ao mundo, mas falou com o mundo, e seus gestos, embora às vezes não inteiramente livres de meneios medievais, no entanto, conseguiram dar corpo ao psicodrama em que o planeta inteiro mergulhou nos últimos meses.

Deve-se dizer que nem todos os crentes, de fato, ainda adquiriram a capacidade de (ou estão na situação certa para) colocar em prática as diferentes indicações oferecidas pelas igrejas locais para se tornarem sujeitos capazes de celebrar a Páscoa em suas próprias casas e com suas próprias famílias. E assim por três vezes o Papa Francisco teve que preencher o enorme vazio de uma basílica de São Pedro e infundir vida na inerte teatralidade de uma celebração eucarística composta de muitos objetos, de muitos movimentos e de muitas reverências. Se não houvesse o ânimo de um papa, idoso e cansado, mas indômito, a cena teria sido surreal, uma espécie de teatro em que um pequeno punhado de "soldadinhos de chumbo", respeitadores do distanciamento social, mas rigorosamente alinhados em ordem hierárquica pretendessem representar todo o corpo eclesial. Felizmente, para Francisco celebrar significa orar com intensidade e, assim, ele consegue envolver não apenas os espectadores, mas também os milhões e milhões presentes apenas virtualmente. Francisco consegue ser televisivo sem usar estratagemas cenográficos e, aliás, torna qualquer cenografia desbotada e até um pouco ridícula. De fato, ele confere à celebração eucarística o caráter de uma espiritualidade robusta, aquela inaciana, pela qual a profunda devoção individual nunca descamba em formas de insana carolice. O tom de suas palavras, mas também de seu silêncio, fazem com que ninguém possa simplesmente assistir, mas que todos se sintam chamados a participar.

Duas vezes, aliás, o imenso povo virtual que participou das celebrações do papa experimentou a possibilidade de sair do templo e transformar a praça em um local de celebração litúrgica que não fosse a missa. Finalmente, a liturgia e a vida se uniram, não artificialmente, como nas orações pré-prontas dos fiéis que são "recitados" com mecânica repetitividade, mas deixando que a vida invadisse a oração, aliás, que a oração brotasse da vida.

Indicando em 27 de março um longo momento de oração com significado planetário, o papa jesuíta não pretendeu preencher o vazio de uma Praça São Pedro, mas fez perceber a ausência de todos como a presença de cada um, tornando-o um lugar tão habitado no qual reunir a angústia do mundo e do qual elevar a oração de súplica. Na sexta-feira à noite, Francisco não "presidiu", mas participou da Via crucis, reunindo em sua figura todos os crentes e não crentes que há muito tempo aprenderam a reviver a antiga prática devocional. Ele o fez finalmente dando a palavra àqueles que, em um subterrâneo da história como a prisão, vivem caminhos de dor e esperança em carne e sangue, caminhos que, como os salmos bíblicos, já são em si mesmos oração. E sobre a autoridade daquelas palavras, finalmente não "emprestadas", Francisco não quis acrescentar mais nenhuma palavra: com aquele seu silêncio, ele realizou com autoridade magisterial um gesto do qual, não por acaso, temos medo de falar, porque coloca radicalmente em questão aquele uso/abuso da palavra tipicamente clerical durante as nossas liturgias.

Nossas avós diziam que Deus envia o frio conforme o cobertor, mas, talvez, também possa ser dito que Deus envia o cobertor conforme o frio: a uma igreja católica que, há muito tempo, vive de celebrações embalsamadas, um idoso papa jesuíta está sugerindo que pode recomeçar apenas da vida: quando se extingue a vida dentro de fórmulas e reverências, a liturgia perde a sua função originária e sua força original.

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