A "boa nova" de Ivan Illich

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25 Novembro 2011

Foi em um colóquio da Unesco em 2002, sentado ao lado do teólogo austríaco Ivan Illich e do sindicalista francês Joseph Bové, que o economista e sociólogo francês Serge Latouche inspirou-se para lançar a sua "utopia concreta" do decrescimento. E foi nesse mesmo colóquio, realizado em Paris, entre os dias 28 de fevereiro a 3 março, com a presença de mais de 800 pessoas, que Ivan Illich fez a sua última aparição pública, já bastante afetado pelo tumor cerebral que ceifou sua vida no fim daquele mesmo ano, no dia 2 de dezembro.

O colóquio foi organizado por uma associação composta por amigos do economista francês François Partant, para dar visibilidade a uma longa linha de pensamento que promovia a crítica do desenvolvimento como ideologia e como prática. O colóquio, depois, virou livro, inclusive traduzido ao português, intitulado Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo (Ed. Cidade Nova, 2010).

Esse pano de fundo serviu de ponto de partida para a palestra A atualidade da obra de Ivan Illich, ministrada por Latouche, professor emérito de economia da Universidade de Orsay, na tarde desta quinta-feira, 24 de novembro, como parte do Ciclo de Palestras: Economia de Baixo Carbono. Limites e Possibilidades. Nela, Latouche buscou mostrar aproximações entre a crítica culturalista e ecológica do desenvolvimento realizada pelo decrescimento e o pensamento de Illich.

Segundo Latouche, Illich viveu a sua glória – até mesmo midiática – nos anos 1970, quando publicou uma série de panfletos. Por isso seus seguidores sempre dividem a vida de Illich em dois momentos, explicou o economista: 1) o período dos panfletos e 2) o período do gênero vernacular. Foi nesse segundo momento que ocorreu uma ruptura em seu pensamento, após Illich ter sido violentamente atacado nos EUA pelo seu livro Deschooling society. Foi nessa mesma época que abandonou a vida religiosa, devido a seus conflitos com o Vaticano e a Igreja local, devido à sua defesa do preservativo, quando era reitor da Universidade de Porto Rico. Também decidiu fechar o Centro Intercultural de Documentación Cidoc, em Cuernavaca, no México, que, de proposta alternativa, já estava se tornando uma instituição. E, para Illich, comentou Latouche, quando algo se institucionaliza, torna-se contraprodutivo, pois a instituição se esquece da mensagem que a fez nascer.

Retomando um artigo do filósofo francês Jean-Pierre Dupuy ao jornal Le Monde, Latouche também falou da "boa nova de Illich": viver de outro modo para viver melhor. Por isso questionou-se: "Será o decrescimento a boa nova de Ivan Illich?". Segundo Latouche, é possível afirmar que Illich é um dos pais do decrescimento, especialmente pela sua proposta da convivialidade e da sobriedade. Ainda em 1970 Illich já afirmava que o nosso crescimento e desenvolvimento não são sustentáveis.

Decrescimento e Illich

Para Latouche, portanto, "o decrescimento se situa na linha direta de Ivan Illich", forte crítico das instituições da cultura moderna, especialmente da escola e da publicidade. Em sua fala, o economista francês mostrou alguns pontos de cruzamento entre a sua prática teórica atual e a influência do pensamento e do convívio com Illich.

O primeiro deles é a insustentabilidade do desenvolvimento e do nosso modo de vida. Isso está ligado ao segundo ponto, o desvalor e a contraprodutividade, ou seja, a perda que não pode ser estimada em valor econômico, que não pode ser avaliada economicamente. Na sociedade do crescimento, as pessoas se tornam cegas à perda provocada pelo desvalor, afirmou. E aqui Latouche retomou a disputa entre Illich e a Igreja em torno dos preservativos. Se, como afirmava a Igreja, o preservativo é um "meio antinatural", o que dizer da bomba atômica, sobre a qual a Igreja nada falava? Não seria ela também um "meio antinatural"?, questionava Illich. Por outro lado, demonstrando a radicalidade de seu pensamento, Illich se perguntava: os pneus dos automóveis, o uso da borracha, que privam os pés do seu "uso natural", são naturais?

Outro conceito que conjuga decrescimento e o pensamento de Illich, segundo Latouche, é o de colonização do imaginário. E aqui, além de Illich, Latouche faz referência a outro "mestre" que influenciou o seu pensamento: Cornelius Castoriadis. O economista francês encontra nos dois pensadores um mesmo fio que os conecta por meio da crítica à escola e a história das necessidades. Ambos também buscaram desconstruir o "par infernal na base do pensamento econômico: escassez e abundância".

Voltando a Illich, Latouche reconhece que o pensador austríaco criticou a escola como instituição, ou seja, lugar onde se aprende a aceitar o destino, a servilidade, a insatisfação. Uma instituição que "forma a maioria para um consumo disciplinado". Embora amigo e interlocutor de Paulo Freire, Illich defendia que a educação e a formação precisavam sair dos grilhões institucionais da escola. Jacques Ellul, a quem Illich considerava como um mestre, afirmava que o processo de informação se torna desinformação e, somado à publicidade, se torna deformação. Portanto, é preciso vencer aquilo que Ellul chamava de "reificação alienante", ou seja, a criação e a manipulação de necessidades, defendeu Latouche.

O quarto ponto apresentado por Latouche foi a autolimitação das necessidades, que, para ele, é um "processo político": em um mundo de recursos limitados, é preciso fazer cada vez mais com cada vez menos. Illich dizia que a autolimitação podia parecer utópica, mas, se deixássemos a crise se aprofundar, ela, a autolimitação, seria de um profundo realismo – e ele falava isso em 1973. Illich também defendia o "tecnojejum", ou seja, a ideia de que podemos viver sem as tecnologias. Segundo Latouche, nesse sentido, Illich preconiza uma espécie de ascese, de limitação do consumo e da produção para a libertação da criatividade.

O penúltimo conceito é o de convivialidade. Segundo Latouche, Illich retoma esse conceito da máxima obra dos gastrônomos, Fisiologia do gosto, de Jean Anthelme Brillat-Savarin. A convivialidade, afirmou o economista, tinha um papel estratégico para Illich. Aproximava-se da filia (amizade) de Platão, ou seja, um cimento para a sociedade, para que o indivíduo não fique isolado, para reforçar o laço social corroído pelo "horror econômico". Além disso, afirmou, o conceito de Illich remete à simpatia, à common decency de George Orwell.

Por último, a "pedagogia das catástrofes". A ideia provém do pensamento do ecologista suíço Denis de Rougemont, que, ainda nos anos 1950, pressentia a vinda de uma série de catástrofes organizadas. Para Rougemont, explicou Latouche, se essas catástrofes não destruíssem tudo, seriam ao menos pedagógicas para nos ensinar a respeito dos fatores de perigo, para sairmos do delírio produtivista. Essa pedagogia se manifestou de forma clara, defende Latouche, no extremamente quente verão europeu de 2003, no colapso da usina de Fukushima, eventos que tiveram mais peso do que qualquer argumento. São essas "disfunções inevitáveis da megamáquina", comentou o economista, que, ao mesmo tempo em que geram sofrimentos insuportáveis, abrem espaço para "ocasiões de conscientização, questionamentos, revoltas". Aquilo que Hans Jonas chamava de "heurística do medo": a necessidade de denunciar os perigos para evitar um "otimismo suicida". Ou, retomando Dupuy, o que pode nos salvar é justamente o que nos ameaça, explicou Latouche.

Porém, há uma pedra no meio desse caminho. Para Latouche, apesar dessas similaridades e aproximações entre o pensamento de Illich e o decrescimento, não é possível dizer com total segurança que o estudioso austríaco seja o precursor desse projeto. E, para explicar, Latouche contou que, em um encontro em Bolonha, em junho de 2003, ele apresentou a proposta do decrescimento, relacionando-a a Illich. Porém, uma senhora se levantou na plateia e denunciou a "impostura" da comunicação de Latouche por atribuir ao teólogo austríaco a paternidade do decrescimento e do pós-desenvolvimento, especialmente no que se referia aos 8 Rs, uma "forma sistematizada", à qual Illich tinha horror. Essa senhora, descobriria Latouche depois, era Barbara Duden, a última companheira de Illich.

A sabedoria do caracol

Entretanto, a "sociedade convivial" de Illich, afirmou Latouche, se aproxima do decrescimento. "A palavra está ausente, mas o conteúdo está presente" na obra do estudioso austríaco, sintetizou. A relação, portanto, entre o decrescimento – que apareceu pela primeira vez em francês, enquanto conceito, no título de uma obra traduzida na França do economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen em 1994 – e a "boa nova de Ivan Illich", afirmou Latouche, tem uma inspiração semelhante: a sabedoria do caracol, emblema do decrescimento e também do Slow Food.

E é o próprio Illich quem a explica, citado por Latouche: "O caracol constrói a delicada arquitetura de sua concha adicionando, uma após a outra, espirais cada vez mais largas e depois cessa bruscamente e começa a fazer enrolamentos agora decrescentes. Isso porque uma única espiral ainda mais larga daria à concha uma dimensão 16 vezes maior. Ao invés de contribuir para o bem-estar do animal, ela o sobrecarregaria. A partir de então – continua Illich –, qualquer aumento de sua produtividade serviria somente para paliar as dificuldades criadas por esse aumento do tamanho da concha para além dos limites fixados para a sua finalidade. Passando do ponto-limite de alargamento das espirais, os problemas do sobrecrescimento se multiplicam em progressão geométrica, ao passo que a capacidade biológica do caracol só pode, na melhor das hipóteses, seguir uma progressão aritmética".

(Por Moisés Sbardelotto)

 

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