A (re)descoberta eclesial do ambiente digital: entre luzes e sombras

Foto: Vatican Media

30 Março 2020

No ambiente digital, especialmente em tempos de isolamento social, as experiências de participação e presença; de comunicação e relação; e de comunidade são vivenciadas de formas inovadoras, e, portanto, o modo como as pensamos e as enunciamos também precisa ser problematizado. 

O comentário é de Moisés Sbardelotto, jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e professor colaborador da Unisinos. Seu livro mais recente é “Comunicar a Fé: Por quê? Para quê? Com quem?” (Ed. Vozes, 2020).

 

Eis o texto.

 

Nestes tempos de isolamento e confinamento, a Igreja, nas suas várias expressões, se vê desafiada a ser mais “ousada e criativa” ao repensar o estilo e os métodos evangelizadores (cf. Evangelii gaudium, n. 33). A pandemia do coronavírus está transformando a vida e a prática da Igreja de diversos modos.

Diante da suspensão de missas e de outros encontros eclesiais em várias dioceses e paróquias do mundo inteiro – começando pelo Vaticano, em que as celebrações litúrgicas do próprio Tríduo Pascal não serão abertas ao público – a comunidade cristã voltou seu olhar e suas energias principalmente para o ambiente digital.

Em muitos países, Estados e cidades que fecharam praticamente tudo, a Igreja pode continuar sendo – e talvez até mais – “em saída”, como pede Francisco. Desta vez, porém, pelas “estradas digitais”, que, como diz o papa, também estão “congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança”.

Ainda em 2002, João Paulo II já dizia que “a internet pode oferecer magníficas oportunidades de evangelização”. Seu sucessor, Bento XVI afirmava em 2013 que “o ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas” e, por isso, “se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos”.

Hoje, o Papa Francisco também reitera que “a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus”. Segundo ele, “a rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas”.

Neste momento inédito e histórico na vida da Igreja e das religiões em geral, entretanto, muitas vezes há aproximações apressadas ou distanciamentos receosos ao ambiente digital. Isso dificulta que a pastoral, no caso cristão, se “encarne” com mais profundidade na cultura emergente. Por isso, é importante atentar e refletir sobre algumas questões comunicacionais que surgem diante deste “sinal dos tempos” da pandemia e que incidem em aspectos teológicos, eclesiológicos e pastorais da relação entre a Igreja e o ambiente digital. O pensamento do Papa Francisco, especialmente em suas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, contribui nesse sentido.

Destaco aqui três pontos específicos que demandam novas ressignificações: as noções de comunicação e relação; de participação e presença; e de comunidade. No ambiente digital, especialmente em tempos de isolamento social, essas experiências são vivenciadas de formas inovadoras, e, portanto, o modo como as pensamos e as enunciamos também precisa ser problematizado.

 

Comunicação e relação, não apenas transmissão, encenação ou exibição

 

Circula nas redes um meme que, em tom bem-humorado, revela um pouco o que estamos vivendo neste tempo de isolamento social: “Tenho medo de abrir a geladeira e ter uma ‘live’ lá dentro”, isto é, mais uma transmissão ao vivo...

Isso também vale para a Igreja. Diante do ineditismo deste “confinamento litúrgico”, a resposta quase automática de inúmeras dioceses, paróquias e movimentos foi promover mais transmissões de missa ou outros momentos de reflexão, formação e oração via TV, rádio e internet. Em muitos casos, percebe-se um esforço muito grande, por parte de padres, religiosos/as ou leigos/as, muitas vezes diante de limitações tecnológicas várias, para que tais ambientes de encontro possam ser oferecidos e, assim, se consiga superar o isolamento e encurtar as distâncias.

Diante disso, um primeiro ponto a destacar é que, na internet, aquilo que é transmitido ao vivo geralmente fica disponível em rede para poder ser assistido novamente depois, a qualquer momento. Mas, para toda a liturgia, especialmente para a celebração eucarística, o tempo é um elemento fundamental. Não existe “replay” da missa. O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil esclarece esse ponto: “Toda a liturgia e, de modo particular, a eucaristia, é o memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor, que celebra a unidade e a comunhão de uma Igreja viva. A transmissão por meios eletrônicos, rádio, TV ou internet, deve ser sempre ao vivo. Uma transmissão gravada, embora possua características evangelizadoras legítimas, não possibilita o vínculo entre a comunidade que participa da celebração presencialmente e quem a ela assiste à distância” (n. 100).

As potencialidades do digital, portanto, podem trazer consigo alguns riscos para a vida de . Como, por exemplo, o de fomentarem um certo automatismo e simplismo das respostas pastorais diante de um cenário sem precedentes como o atual. Assim, no afã de transmitir celebrações e ritos, corre-se o risco de transformar a celebração da missa em um mero espetáculo, em uma “encenação” a ser exibida. E, por outro lado, de esquecer que há uma pessoa do outro lado da tela, que também é chamada a participar “ativa e efetivamente” da liturgia, mesmo que a distância.

O risco, em suma, é ignorar o “outro” em sua humanidade. Busca-se uma conexão, mas evitando ou dispensando o contato. Assim, a outra pessoa passa a ser considerada como uma mera “espectadora” apassivada, coisificada, como um “número” a mais a ser contabilizado pelos índices de audiência e de visualização.

Pior ainda é aproveitar-se – negativamente – deste período inédito e da atenção das pessoas conectadas para tentar “bombar” e “viralizar” nas redes. Já há muitos vídeos e subsídios religiosos circulando que, no fundo, são autorreferenciais, chamando a atenção apenas para seus próprios autores, na busca de aumentar a visibilidade pessoal. Junto com isso, muitas vezes, explicita-se um “clericalismo midiático”, senão até um “exibicionismo clericalista”, em que toda a comunicação pastoral em rede gira em torno do padre ou da celebração da missa (também centrada no padre).

Nas celebrações transmitidas, cabe especialmente aos presbíteros tomarem consciência de que o que estão celebrando não é uma “missa privada”. O Código de Direito Canônico deixa bem claro que “as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da própria Igreja [...] ou seja, o povo santo” (cân. 837). Também não são apenas um “monólogo encenado” diante das câmeras e performatizado única e exclusivamente pelo padre.

Pelo contrário, a celebração da eucaristia, como afirma a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), é sempre “ação de toda a Igreja” (n. 5). Trata-se de um gesto comunitário, presidido pelo presbítero, mas celebrado conjuntamente pelo povo, por pessoas concretas, de carne e osso, que, no ambiente digital, estão presentes a distância e precisam ser levadas em consideração para poderem participar ativamente do rito. Ainda mais em rede, é preciso que se “estimule a ação de toda a comunidade” na celebração (IGMR 35).

Portanto, mais do que um foco estreito na transmissão, é preciso levar em conta o processo comunicacional e interacional que se estabelece no ambiente digital. Isso não significa menosprezar a qualidade técnica da transmissão: pelo contrário, ela é fundamental para auxiliar o fiel a vivenciar o rito e a experimentar a graça de Deus. Contudo, mais importante ainda é possibilitar a construção de relações interpessoais em rede, e não apenas reunir “pessoas para ouvir” e “pessoas para ver”. Embora sabendo que há alguém “diante de mim” (neste caso, do outro lado da câmera e da tela), o foco na mera transmissão e em seus aspectos técnicos pode deixar de lado justamente a necessidade de estabelecer em rede uma relação humanizada e humanizante com pessoas humanas.

Como afirma Francisco, “o panorama atual convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade”.

Particularmente nestes tempos, portanto, é preciso ousadia e criatividade pastorais, mas sempre voltadas para o bem do outro e da comunidade. É melhor evitar avançar tecnologicamente se isso significa retroceder teológica e eclesialmente, por falta de discernimento. Isso se reflete no modo como aquilo que vem sendo transmitido é anunciado e enunciado.  

 

Participação e presença, não mera assistência, audiência ou ausência

 

O digital traz à tona os limites da nossa linguagem, especialmente em relação ao modo como conseguimos ou não expressar novas experiências humanas e sociais trazidas pelo processo de digitalização. Mas, principalmente, os limites da própria linguagem eclesiástica ao tentar expressar aquilo que se faz e se diz liturgicamente.

Neste tempo de isolamento social, a Igreja se viu obrigada a estabelecer um “confinamento litúrgico”. Foi o caso da Prefeitura da Casa Pontifícia, que, em seu site, avisou que, “devido ao atual estado de emergência sanitária internacional, todas as Celebrações Litúrgicas da Semana Santa realizar-se-ão sem a presença física de fiéis”.

Várias dioceses brasileiras também publicaram notas e decretos dispensando os fiéis da obrigatoriedade de “participar fisicamente” das celebrações dominicais em suas comunidades (a CNBB publicou uma listagem das arquidioceses, dioceses e prelazias que suspenderam as missas com fiéis). Outros documentos afirmavam ainda que as celebrações seriam feitas “sem povo” (sine populo).

Em todos esses casos, frisava-se que a participação poderia ocorrer por meio das transmissões ao vivo de tais celebrações em sites, redes sociais digitais, TVs e rádios.

É importante relembrar que a IGMR indica três formas diferentes de celebração da missa:

1) a “missa com povo”,

2) a “missa concelebrada” e

3) a “missa com assistência de um só ministro”.

Portanto, neste tempo inédito, a Igreja propõe a celebração desta última, entendida, de acordo com a IGMR, como a “missa celebrada por um sacerdote, ao qual assiste e responde um só ministro” (n. 252), mas agora transmitida pelas mídias (o IGMR também deixa bem claro: “Não se celebre sem a assistência de um ministro ou ao menos de algum fiel, a não ser por causa justa e razoável”, n. 254).

A CNBB chegou a publicar algumas indicações sobre “como se preparar para a missa em casa durante a quarentena imposta pelo coronavírus”. Sugere-se, por exemplo, preparar a própria casa e criar um “ambiente celebrativo” e se convida a participar “ativa e efetivamente” da liturgia transmitida pelos meios de comunicação. Essa conscientização é importante, pois a mera conexão não significa necessariamente participação. Não se trata de uma ação automática: para participar, é preciso agir ativamente, conscientemente. E, para isso, é preciso educar pedagogicamente os fiéis para essas novas formas de participação. 

Contudo, entre o que se diz e o que se faz, surge um paradoxo: se uma missa “sem povo” ou “sem a presença de fiéis” é transmitida ao vivo justamente para que o povo e os fiéis possam participar “ativa e efetivamente”, é possível continuar afirmando a ausência desse mesmo povo? Será que a mediação digital permite uma forma de presença ou, pelo contrário, reforça a ausência do povo? As tecnologias “despresencializariam” o contato humano? 

Especificar que se trata de uma ausência da presença “física” também não resolve o problema. Se a presença não é física, de que tipo ela é? Espiritual? Psíquica? Mental? Mística? Mas todas essas presenças não são também perpassadas sempre por uma experiência corporal, material, tátil, sensível, em suma, física? Ao estabelecermos um “con-tato” em rede, deparamo-nos com novas experiências de “tato”, em que não abrimos mão de nossos corpos, afetos, sensações, sentimentos.

Francisco mesmo já afirmou: “O uso da social web é complementar ao encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da respiração do outro. Se a rede for usada como prolongamento ou expectativa de tal encontro, então ela não trai a si mesma e permanece como um recurso para a comunhão”.

Exemplo disso foi o histórico momento de oração protagonizado pelo Papa Francisco nessa sexta-feira, 27 de março, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Uma experiência que também nos leva a repensar o que entendemos por presença e participação.

Quando havia convidado para esse momento de oração, no Ângelus do dia 22 de março, Francisco relembrou que o rito seria celebrado com a praça vazia, devido à pandemia. E disse: “Convido todos a participarem espiritualmente através dos meios de comunicação”. E essa participação envolvia até a possibilidade de receber uma indulgência plenária junto com a bênção Urbi et Orbi. Ou seja, não era uma mera “assistência” dos gestos e ou “audiência” das palavras do papa, mas algo mais profundamente ativo por parte de quem acompanhasse o rito pelas mídias.

Portanto, embora as pessoas não estivessem “lá” fisicamente, certamente estavam presentes em oração a partir dos mais variados pontos cardeais do globo e participaram com todo o seu corpo dessa experiência de fé, “tocadas” fisicamente por aquilo que estavam vendo, ouvindo e sentindo pelos meios de comunicação.

Apenas para dar uma dimensão disso, calcula-se que a área da Praça São Pedro pode reunir “fisicamente” cerca de 300.000 pessoas. Na sexta-feira, durante a homilia do papa, estavam reunidas pela transmissão do Vatican News no YouTube mais de 84.000 pessoas na conta em italiano, 170.000 na conta em português, 270.000 na conta em inglês, 520.000 na conta em espanhol. Mais de 1 milhão de pessoas. Isso sem falar das contas em outros idiomas e de todos os outros milhões de pessoas que acompanhavam por outros sites, pelas redes sociais digitais e por canais de TV e de rádio espalhados em todo o planeta (os jornais italianos noticiaram que só o canal RaiUno reuniu mais de 8 milhões de espectadores, apenas na Itália, durante o rito).

Portanto, mesmo em nossas conexões em rede, mediados por tecnologias digitais, estamos todos fisicamente presentes – embora em pontos geográficos diferentes. Ou seja, o ambiente digital subverte a noção de “espaço” e de “lugar”. O papel dos próprios “templos de pedra” passa por uma transformação.

Historicamente, em diversas tradições religiosas, o templo era considerado como um axis mundi – eixo, pilar, centro do mundo –, um ponto específico no espaço geográfico que dava acesso a uma “abertura” aos céus, ao “mundo dos deuses”. Ou seja, um espaço sagrado. Daí a importância do Templo de Jerusalém, da Basílica de São Pedro, da Grande Mesquita de Meca, dentre outros.

Na internet e nas redes digitais, porém, o templo se torna ubíquo, seu acesso é público e se dá por toda parte. Em um mundo conectado, em que todo e qualquer ponto dá acesso à rede, o “centro do mundo”, espaço sagrado por excelência, não está mais localizado em um ponto geográfico, mas se encontra em qualquer lugar onde se tenha acesso à internet e às redes digitais. Agora , o “centro” é aqui – onde quer que seja, onde quer que se esteja. 

Entendemos que a afirmação da “ausência” se refere ao fato de os fiéis não estarem no mesmo lugar geográfico que o padre ou bispo que preside a celebração. O risco, porém, é que a linguagem utilizada leve a pensar que a referência central da celebração da missa ou até da vida da própria Igreja é o padre ou os clérigos em geral. Entretanto, em toda a liturgia, Cristo é o “único Mediador” (IGMR 5), que congrega a assembleia ao seu redor. A celebração da missa é sempre uma “ação de Cristo e do povo de Deus” (ibid., n. 16), por meio do “sacerdócio ministerial próprio do presbítero” e também do “sacerdócio real dos fiéis” (ibid., nn. 4-5). 

Nestes dias de isolamento, o povo de Deus continua podendo se reunir em torno do altar, “centro de toda a liturgia eucarística” (IGMR 73) e “centro de convergência, para o qual espontaneamente se dirijam as atenções de toda a assembleia” (ibid., n. 299), onde quer que ele esteja. A diferença agora é que isso ocorre graças a novas formas de presença física e de participação ativa, mesmo que a distância, possibilitadas pelos meios digitais. 

Portanto, se convidamos o povo para participar a distância de missas anunciadas como “sem povo” ou “sem presença (física) de fiéis”, há toda uma teologia e uma eclesiologia a serem repensadas, especialmente em relação a quem verdadeiramente celebra a liturgia e a quem compõe a assembleia celebrante e celebrativa. Isso nos leva a repensar o que entendemos por comunidade, em tempos de redes digitais.

 

Comunidades em rede, não mera conexão de indivíduos

 

Neste período de “isolamento social”, a relação que temos com nossos irmãos e irmãs de caminhada de fé ganha uma nova importância. É um tempo para reconhecer ainda mais fortemente que – de perto ou a distância – “para ser eu mesmo, preciso do outro”, como afirma Francisco.

Por isso, este é um bom momento para perceber que uma comunidade é mais do que uma mera congregação de indivíduos. A missão cristã não é fomentar um “individualismo conectado”. Ao contrário, uma comunidade é, principalmente, uma “rede solidária”, como afirma o papa, que “requer a escuta recíproca e o diálogo, baseado no uso responsável da linguagem”.

Assim, para promover uma boa “pastoral digital” nestes dias, semanas ou meses em que muitas “igrejas de pedra” ficarão fechadas e em que os encontros só serão possíveis em rede, é importante levar em conta três premissas fundamentais:

1) Embora mediados por máquinas, há sempre um “outro” do outro lado da tela, uma pessoa, um ser humano. Tudo o que fizermos em rede, como Igreja, deve considerar o “rosto” dessa pessoa com quem nos comunicamos, as suas alegrias e esperanças, as suas tristezas e angústias.

2) O objetivo principal de uma pastoral no ambiente digital – mais do que “bombardear mensagens religiosas”, como diz o Papa Francisco – é justamente fortalecer as relações com pessoas de carne e osso que nos acompanham em rede e, com elas, formar comunidade, a partir do “comum” que nos une, colaborando na construção da Igreja.

3) Essa comunidade em rede, por sua vez, por melhores e mais aperfeiçoadas que sejam as técnicas e tecnologias utilizadas, não é convocada e congregada pelo comunicador cristão, por maiores que sejam os seus esforços e por melhores que sejam as suas qualidades, mas sim pelo próprio Deus, que toma a iniciativa desse encontro e de cuja comunicação somos meros “prolongadores” (cf. São Paulo VI, Ecclesiam suam).

A Igreja da América Latina do século passado ofereceu ao mundo um dos principais frutos do Concílio Ecumênico Vaticano II, as comunidades eclesiais de base (CEBs), um novo modo de ser Igreja e de experimentar a comunidade. Hoje, poderíamos dizer que estamos diante do surgimento de verdadeiras “comunidades eclesiais digitais” (ou CEDs), que atualizariam, com outros “meios” e em outros “ambientes”, a mesma busca e necessidade de experiência religiosa, de vínculo interpessoal e também de cidadania eclesial, especialmente para leigos e leigas que agora encontram na rede um espaço de autonomia (infelizmente, com suas inúmeras distorções e extremismos também).

As CEDs, assim como as CEBs históricas, apontam para uma eclesialidade “nova-ainda-não-experimentada” em meio às variações históricas das formas comunitárias da Igreja. O ambiente digital, assim, diante do ineditismo deste momento histórico para a Igreja, possibilita novas formações eclesiais e comunitárias em rede, muitas vezes, ultrapassando as configurações espaço-temporais da estrutura eclesiástica local (paróquia, diocese etc.). Isso aponta para uma busca de relações outras em ambientes outros, criando e até inventando, positivamente, experiências de vivência e comunicação da fé.

 

Em conclusão: redes de encontro, escuta e diálogo

 

Para superar a mera assistência/audiência, a mera transmissão e o mero individualismo em rede, é preciso buscar formas que permitam um verdadeiro encontro, uma verdadeira escuta e um verdadeiro diálogo com as pessoas que se conectam com as redes digitais da Igreja.

Em primeiro lugar, encontrar, escutar e dialogar com as pessoas que estão do outro lado da tela e com quem nos comunicamos: quem são? O que desejam, o que buscam, de que precisam? Como fomentar que elas também possam ser ouvidas, especialmente neste tempo de tantas dúvidas e angústias? Como possibilitar que elas também possam comunicar algo sobre a ? De que modo podemos potencializar a sua voz com nossos meios (serviços, aplicativos, plataformas etc.)?

Depois, encontrar, escutar e dialogar também os outros cristãos e cristãs que atuam pastoralmente no ambiente digital: o que estão fazendo? Como estão fazendo o que estão fazendo? Que potencialidades e dificuldades estão encontrando? O que estão deixando de fazer? Como podemos responder criativamente às necessidades humanas que não estão sendo contempladas pelas ações já existentes?

Por fim, encontrar, escutar e dialogar ainda com a sociedade mais ampla: como podemos ampliar e ir além das nossas “conexões” para pôr em prática a solidariedade cristã diante da pandemia, mesmo em um contexto de isolamento social? Isso também significa pensar saídas digitais para o “medo do contágio”, que nos fecha não apenas dentro de nossas casas, mas também dentro dos nossos egoísmos.

São muitas as pessoas fragilizadas pela pandemia, em seus próprios corpos, de muitas maneiras: pela vulnerabilidade física, pela miséria, pelo preconceito, pela solidão, pelo medo e a insegurança. Como a Igreja, em suas várias redes, digitais ou não, pode responder a esses clamores, mesmo que esteja com suas “portas de madeira” fechadas? Como é possível escancarar as “portas digitais” para acolher esses clamores e para sair em auxílio a essas pessoas?

Em suma, é preciso ter sempre em mente “por que” e “com quem” a Igreja faz todos os seus esforços comunicacionais. O “lugar” de encontro muda de acordo com as pessoas e os tempos e hoje ganha novos sentidos e desdobramentos no ambiente digital. “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estou aí no meio deles” (Mateus 18,20). O importante não é o “onde”, mas sim reunir-se em comunidade em nome de Jesus – seja em rede ou fora dela.

“Encarnar digitalmente” a ação evangelizadora significa reconhecer que, também em rede, “o amor de Cristo nos uniu” como irmãos e irmãs, e que “Ele está no meio de nós” mesmo quando estamos a distância e mediados por aparelhos eletrônicos.

 

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