Reimaginar a Eucaristia em tempos de isolamento

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28 Março 2020

As missas foram suspensas em toda a Grã-Bretanha e na Irlanda. Além de ser um tempo de perda, este também pode ser um momento para ampliar a nossa compreensão da Eucaristia e aprofundar a nossa espiritualidade para além dos muros do nosso local habitual de culto.

A opinião é do teólogo inglês Thomas O’Loughlin, professor de Teologia Histórica da Universidade de Nottingham e ex-presidente da Associação Teológica Católica da Grã-Bretanha.

O artigo foi publicado em The Tablet, 25-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Todas as missas foram canceladas.” Esse cartaz foi colocado hoje do lado de fora da minha igreja local. Quem poderia imaginar isso há apenas algumas semanas? Muitos católicos reconhecem que é uma decisão sensata: grandes reuniões são exatamente o que não queremos neste momento. O gesto amoroso agora é manter distância, a fim de que não transmitamos o vírus.

Há quem não goste da ideia de “faltar a missa”. Eles perguntam ansiosamente se poderiam “ter missa” mesmo que não possam estar fisicamente presentes em um rito? Eu ouvi padres dizendo que não permitirão que “o Estado” – imaginado como o inimigo da Igreja, de algum modo – ordene que eles fechem as portas e falando de “defender a liberdade religiosa” ao “oferecer missa”, mesmo pondo em risco as próprias pessoas às quais eles alegam servir.

Mas o fato de muitos fiéis regulares não estarem em uma igreja neste fim de semana – e provavelmente nem mesmo na Páscoa – pode realmente nos ajudar a ampliar a nossa compreensão da Eucaristia e aprofundar a nossa espiritualidade.

Por muito tempo – alguns historiadores diriam desde o século VII – os cristãos latinos tenderam a pensar na Eucaristia como um objeto (algo que ocorre devido à atividade do padre, que os fiéis leigos observam, praticamente como o público de um teatro ou de um concerto) ou como uma mercadoria (em que os presentes se comportam como consumidores religiosos).

A linguagem que usamos é reveladora. Falamos sobre “ter missa” e “assistir à missa”, “receber a Comunhão” e “tomar a Comunhão”. A imagem em nossas mentes é que a Eucaristia é algo “lá fora”, a que assistimos ou de alguma forma obtemos e da qual nos apossamos, como se fôssemos frequentadores de teatro ou consumidores.

Mas a palavra “Eucaristia” se refere a um verbo: é algo que nós, todo o povo de Deus, fazemos. É a atividade de agradecer a Deus Pai como uma comunidade reunida – e oferecemos esse louvor e agradecimento por meio de Cristo, nosso Senhor. O foco é agradecer ao Pai. O acesso ao Pai nos é fornecido no Espírito por meio de Jesus Cristo – e as orações são conduzidas pelo padre. É a nossa atividade básica como cristãos, não uma “coisa” que o padre faz por nós ou realiza por nós.

Então, se não podemos nos reunir por causa do coronavírus, ainda podemos dar graças ao Pai por meio de Cristo? Reaprendamos algumas noções básicas.

Primeiro, Jesus está presente conosco. Muitos católicos tratam os edifícios da igreja como se fossem templos pagãos: como se Deus estivesse apenas “lá”. Mas a presença de Deus está em toda parte, e o Cristo ressuscitado não está limitado pelo espaço. Essa presença de Jesus ressuscitado no meio da comunidade é capturada neste ditado preservado no Evangelho de Mateus: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (18,20).

Até mesmo a menor reunião – apenas duas pessoas reunidas a dois metros de distância para não espalhar o vírus – conta com o Senhor ressuscitado no meio delas. Podem ser duas pessoas em uma casa juntas; podem ser até duas pessoas conversando juntas em seus celulares ou no Skype.

Isso está expressado em outro ditado cristão antigo – preservado na Didaquê (um guia para novos discípulos do primeiro século): “Onde quer que se fale das coisas do Senhor, ali está o Senhor” (4,1).

Segundo, seu quarto é um lugar básico de oração. Às vezes, pensamos que temos um mandato de rezar apenas em um edifício da igreja – crescemos com a ideia da participação na missa dominical como um regulamento –, mas é sensato recordar esta instrução de Jesus: “Quando vocês rezarem, não sejam como os hipócritas, que gostam de rezar em pé nas sinagogas e nas esquinas, para serem vistos pelos homens. Eu garanto a vocês: eles já receberam a recompensa. Ao contrário, quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você” (Mateus 6,5-6).

Agora, estamos sendo aconselhados a não ir ao trabalho, ou usar o transporte público, a não comparecer aos ritos eclesiais e a manter distância das pessoas. É um momento para redescobrir a arte de fechar a porta e rezar sozinhos – sabendo que o Pai ouvirá as nossas orações.

Terceiro, descrevemos a Eucaristia como “o centro e o cume das nossas vidas cristãs”, o que é verdade, mas muitas vezes cometemos o erro de considerá-la como o todo da nossa vida religiosa. Esta crise exige que reforcemos os fundamentos, cuidando uns dos outros e agradecendo a Deus em casa e em nosso local de estudo ou trabalho, assim como na igreja. Se não somos gratos pelas refeições e pela amizade que compartilhamos em casa, dificilmente estamos prontos para sermos gratos na Grande Ação de Graças que chamamos de “Eucaristia”.

E, finalmente, toda mesa é um lugar sagrado. Jesus encontrava-se com as pessoas e ensinava em suas mesas: toda mesa é um lugar onde podemos encontrar o Senhor naqueles que estão conosco. Nós não comeremos juntos como irmãs e irmãos em uma igreja pelos próximos meses, então comecemos a lembrar que, sempre que comermos, devemos ser gratos: “Quando você comer e ficar satisfeito, bendiga ao Senhor, seu Deus, pela boa terra que lhe deu” (Deuteronômio 8,10).

Sempre devemos ser gratos pela comida que comemos (agradecendo antes das refeições) e pelo prazer de comer e de estar juntos (agradecendo após as refeições).

Hoje, muitos católicos mal conseguem se lembrar da época em que poucas pessoas presentes na missa realmente haviam comido ou bebido. Isso ocorria em parte devido ao medo da condenação por uma “recepção indigna” – baseada em uma leitura enviesada de 1Coríntios 11,27 – ou por uma violação imaginária dos regulamentos do jejum. Também estava arraigada uma ideia de que era possível obter graças ao participar de mais missas (ou, pelo menos, de mais consagrações) – uma obra de “supererrogação” na qual nunca se podia “receber” – que levou ao desenvolvimento da noção de que se poderia obter bênçãos espirituais através de um ato mental de volição intencional sem qualquer contato físico.

Essas ideias podem ser rastreadas, sem qualquer surpresa, no mundo cartesiano da França do século XVII e na espiritualidade rarefeita e cerebral que floresceu na comunidade jansenista de Port Royal, perto de Paris. Eles pertencem a um mundo que via a fé como uma ação do intelecto e que dava um valor mínimo à liturgia como um encontro holístico do corpo real da Igreja (como todos nós vamos ficar dentro de casa pelos próximos meses, você pode ler os dois capítulos brilhantes e surpreendentemente divertidos sobre o jansenismo no livro “Enthusiasm”, de Ronald Knox).

Alguns foram tentados a buscar a ideia de “comunhão espiritual” como uma espécie de “conserto” nesta emergência. É melhor simplesmente reconhecer que este é um momento estranho: não podemos nos encontrar, não podemos dar as mãos e estamos temporariamente – por muito boas razões – impossibilitados de nos comportar de uma forma humanamente normal.

Portanto, não podemos nos comportar de uma maneira liturgicamente normal, reunidos como povo, como irmãs e irmãos, estar juntos, cantar juntos, ouvir juntos enquanto estamos sentados em grupo, dar as mãos a nossos vizinhos como amigos (João 15,15) e depois compartilhar um pedaço pão e uma mesma taça.

Enquanto não pudermos voltar ao normal, observemos apenas a sua perda, concentremo-nos no que podemos fazer enquanto estamos vivendo isolados uns dos outros e, então, quando as restrições forem levantadas, regozijemo-nos com o fato de nossa irmandade ter sido restaurada.

Pelos próximos meses, não nos reuniremos em grandes grupos – usemos essa experiência para redescobrir que nós somos a Igreja (ela não é um edifício ou um recinto do clero), que devemos ser eucarísticos todos os dias (é uma atitude de gratidão por todas as coisas boas da criação, principalmente as refeições, não uma performance a que “assistimos” ou um objeto que “temos”, “pegamos” ou “recebemos”), e que o Ressuscitado está conosco, intercedendo por nós junto do Pai, nestes tempos preocupantes.

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