“Por que um Papa deve tratar de ecologia”: a nota inédita de Ratzinger

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08 Outubro 2019

Em exclusiva o HuffPost publica a nota que o pontífice emérito Bento XVI escreveu 10 anos atrás em preparação para a encíclica Caritas in Veritate sobre os temas que depois ocuparam o centro da Laudato Si’ de Francisco.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabró, publicada por Huffington Post, 04-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Com uma nota até agora inédita para a preparação de sua Encíclica Caritas in Veritate, sobre a justiça social e a ecologia (7 de julho de 2009), Bento XVI respondeu de forma decidida àqueles que objetavam que um papa não deveria tratar disso.

Alguns expoentes da Congregação para a Doutrina da Fé chegaram a preparar um texto alternativo a aquele então próximo da publicação, adiando sua promulgação, levantando a dúvida de que era necessário elevar o nível teológico da Encíclica (cujo capítulo IV é inteiramente dedicado à responsabilidade da Igreja em relação à Criação), ancorando-a ainda mais às verdades da fé, apesar do próprio Ratzinger ter sido o prefeito da Congregação por muitos anos e, portanto, não um pastor com pouca preparação teológica, como se recrimina ao Papa Francisco. A mesma objeção (pouca ancoragem à fé) foi de fato contestada por muitos tradicionalistas também à Encíclica Laudato Si’ de Francisco (2016) e à Convocação do Sínodo sobre a Amazônia, que se abre domingo 6 de outubro pela manhã.

Na nota (que o HuffPost publica em exclusiva), Bento XVI escreveu: “Neste momento, gostaria de anotar muito brevemente apenas as questões que se apresentam e uma palavra sobre a linha a ser seguida. A questão fundamental é: em que nível e em que fundamento a Igreja (o Magistério, o Papa) fala nesse tipo de ensinamento: no nível estritamente teológico, assumindo assim a fé como fundamento? Ou no nível da filosofia? - neste caso: qual filosofia? Com que certeza? E então - com que autoridade? Ou talvez fale substancialmente em um nível empírico, o nível da economia, da sociologia, etc.? "

"É óbvio - continua a nota de Bento para a redação da Encíclica - que a doutrina social se refere às realidades empíricas, da ordem econômica, social, política, mas se refere a essas realidades não de maneira descritiva, mas normativa - para indicar como se deve agir nesses setores para criar justiça, que por sua vez supõe a correspondência com a verdade sobre o homem e sobre o bem comum. Consequentemente, o ensinamento do Magistério nessas matérias pressupõe: a) uma informação precisa sobre as realidades empíricas a que o ensinamento se refere; b) como o objetivo do ensinamento é ético (normativo), o verdadeiro nível do discurso é o filosófico, referente à verdade sobre o homem e sobre a justiça".

Nesta passagem, o cerne da posição do papa Ratzinger é que o ensinamento do papa e da Igreja em matéria de justiça social "é ético (normativo)", ou seja, é um magistério preciso para os crentes para indicar como se deve agir nesses setores para criar justiça, que por sua vez supõe a correspondência com a verdade sobre o homem e sobre o bem comum.

"Tendo dito isso – escrevia ainda o papa Ratzinger - retorna imediatamente a pergunta: um ensinamento da Igreja (do Papa) pode ser estritamente filosófico, prescindindo da fé - puramente racional? Não estamos mais nos tempos de São Tomás. Tomás podia considerar Aristóteles como ‘o filósofo’ e, portanto, pensar que existe a ‘filosofia’ com sua certeza racional. Em nossa situação, é óbvio que a 'filosofia' não existe - apenas existem filosofias, e que as certezas filosóficas são todas relativas”.

Mas isso - de acordo com Bento XVI - não significa absolutamente se fechar no âmbito da fé, pregando apenas os sacramentos e a oração.

"Portanto, resta apenas recuar para o espaço da fé e de sua certeza?" - pergunta-se, de fato, Bento XVI. Sua resposta é: "É óbvio que a tradição da Doutrina Social da Igreja, inaugurada por Leão XI (mas baseada na tradição ética e social desenvolvida ao longo dos séculos) supõe a possibilidade de uma ‘recta ratio’ e suas certezas, por si só acessíveis a todos. Acredita na evidência dos argumentos da ‘recta ratio’, acredita no bom senso, que percebe a retidão desta ‘ratio’, a sua ‘verdade’".

"A história da recepção da doutrina social - continua - deu razão a essa esperança, pelo menos em parte (e apenas em parte). Convencidos da realidade do pecado original, devemos aceitar que as evidências da ‘recta ratio’ não são simplesmente acessíveis a todos e que a ratio pura não é suficiente por si só para criar consenso sobre a verdade - sobre a justiça".

E aqui Bento XVI explica por que é precisamente pela fé que o Papa "deve" falar de tudo com o homem.

"O que fazer, o que dizer nessa situação? Eu diria duas coisas: a) a Igreja não pode se retirar para o fideísmo. A Igreja do Logos encarnado deve apelar para a ‘ratio’, deve se fazer presente no debate racional, comum sobre verdade e justiça. Deve ousar o discurso racional; b) A Igreja não deve esconder de onde extrai a sua luz, a sua certeza, a sua racionalidade. Talvez alguns pronunciamentos magisteriais possam levar a pensar que seja possível construir o mundo justo no consentimento de homens de boa vontade e de razão reta, mesmo prescindindo de Deus (‘etsi Deus non daretur’) e ainda mais da auto revelação de Deus em Jesus Cristo. A fé aparece assim como um belo ornamento e talvez como um plano superior - belo, mas não necessário. Mas o consenso da razão e da boa vontade é sempre obscurecido e dificultado pelo pecado original - e isso não é expresso apenas pela fé, mas pela evidência empírica (embora não fale de ‘pecado original’). É claro - é verdade que devemos buscar o consenso de todos os homens de boa vontade e de razão reta. Mas, apelando a essa vontade e ao consenso da razão, devemos também dizer que a fonte de nossa certeza sobre a ‘justiça’ (como soma de todo o conteúdo da doutrina social) é a nossa fé no Logos encarnado, e que essa fé – mesmo indo muito além do campo da racionalidade - de acordo com sua essência, não apenas se opõe à razão comum humana, mas libera a razão de ser ela mesma e, portanto, permite-nos entrar, guiados por essa luz, no debate comum da humanidade, certos de contribuir assim para o bem comum de todos".

Para os redatores materiais da encíclica, o Papa Ratzinger dita as linhas:

"Evitar, portanto: a) curtos-circuitos entre sobrenatural e natural, com uma mistura inadequada dos níveis; b) por outro lado, a fração de uma autossuficiência da ratio in statu naturae lapsae, de uma filosofia funcional ‘etsi Deus non daretur’, princípio tão caro aos intelectuais do grupo dos chamados ‘ateus devotos’, vinculados à direita estadunidense.

Segundo o Papa Ratzinger, "este tipo de concatenação dos três níveis inicialmente indicados (teologia - filosofia - empiria) deveria guiar as argumentações da encíclica, sem ser explicitamente apresentada pelo documento".

As indicações do Papa Bento XVI eram claras: "1) ter presente o tipo específico da doutrina social da Igreja, em que estão entrelaçados princípios éticos sempre válidos com problemas empíricos e, portanto, existe a possibilidade de mudança e também de correção, porque o contexto histórico necessariamente entra nos juízos e condiciona uma certa variabilidade, excluindo juízos demasiado apodíticos; 2) introduzir a justiça como conceito central; 3) temperar a linguagem".

Assim nasceu a Encíclica "Caritas in Veritate", em que se afirma que a Igreja "deve defender não apenas a terra, a água e o ar como dádivas de criação pertencentes a todos. Acima de tudo, deve proteger o homem contra a destruição de si mesmo”.

De fato, a degradação da natureza está intimamente ligada, de acordo com a visão da Igreja, à cultura que deve moldar a convivência humana, isto é, a uma verdadeira e própria "ecologia humana".

Com especial atenção para os pobres, que se tornaram o pivô da pregação de seu sucessor papa Francisco.

"O ambiente natural foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus".

E com o chamamento às "problemáticas energéticas" relacionados." De fato, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos países pobres", diz a "Caritas in Veritate". "Estes não têm os meios econômicos para chegar às fontes energéticas não renováveis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitos entre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos são travados precisamente no território de tais países, com um pesado balanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro".

São palavras que Bento XVI escreveu há dez anos, mas parece ler aquelas atuais de seu sucessor.

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